sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Faíscas de liberdade

Definitivamente, liberdade não é para todos, desde os tempos da escravatura, no Brasil. Naquela época, os escravos, na ânsia natural pela sobrevivência, criaram pratos culinários, valorizados, até hoje: feijoada, farofa, angu, etc. Quando foram libertados, além de não terem emprego, nem auxílio-desemprego, os pobres negros africanos tiveram de enfrentar a fome e a falta de comida, sem teto que os abrigasse. Isso não foi dar-lhes liberdade – foi o preço que os escravos pagaram, para sentirem o gosto do que poderia ser liberdade. Quem sabe até, tenham se sentido, por algum tempo, livres, distantes do trabalho escravo, das chibatadas, das humilhações. Mas, logo depois, devem ter percebido que ficaram longe da senzala e da comida que preparavam, com os restos da cozinha dos senhores.
Por todos os lados, falam em liberdade – liberdade de expressão, liberdade nas relações em família, na escola, no trabalho, nas vias públicas, etc e tal. Por todos os lugares, há liberdade – tão, ou até mais, cerceada do que a exercida nas prisões. Quando os outros não nos cerceiam, nos limitam, nos aprisionam em estereótipos, somos nós mesmos que fazemos isso. E ainda tem gente que infla o peito, para dizer que “não obedeço, por que sou livre”. Outros, em nome da 'liberdade', desrespeitam, violam, invadem, até violentam. Definitivamente, liberdade sequer passeia por esses caminhos.
Hoje em dia, prevalecem tantas faíscas de liberdade, em completo desuso: liberdade de pensar, liberdade de vestir, liberdade de se alimentar, liberdade de fazer moda, liberdade de viajar, liberdade de aprender, liberdade de navegar na internet e no controle remoto, liberdade de viver, etc etc etc. (Ainda) podemos nos libertar, mas a poltrona da zona de conforto nos protege – tão aconchegante.
Numa completa demonstração de imaturidade, tem gente que implora o que considera liberdade, feito adolescente (“Eu quero! Eu quero!”), enquanto espera a mesada. Liberdade paradoxal de existir. O que a maioria usa e abusa mesmo é o que enxerga como liberdade, quando deseja ter o que o outro tem, fazer o que o outro faz, comer o que o outro come, ir aonde o outro vai, vestir-se como o outro se veste, viver a vida do outro. Quantas vezes (sempre), o outro segue essa mesma linha de desejo, doido para trocar de vida com outro. Definitivamente, desejo não é caminho à liberdade. Desejo (realizado, ou não) pode causar mal à saúde: frustração, decepção, corte de pulsos, e até assassinato. Desejo é escolha. Liberdade é outra coisa – vai além. 
Até hoje, liberdade é sempre tema de longos e inócuos discursos – sempre políticos, nem sempre partidários, nem sempre em palanques. Enquanto isso, eu fico pensando que a liberdade não é para todos. Definitivamente.
Viver a liberdade pressupõe romper laços e nós com o que está colocado, socialmente – explícita ou implicitamente imposto. Nem todos resistem aos apelos sociais – vida em grupo (família, escola, trabalho, amigos, etc). Contrário a isso, a maioria quer mesmo participar. Para ser participante, necessário se faz, de antemão, que a liberdade seja afastada, para dar lugar ao comum, ponto de convergência nos convívios sociais. Somente os que se assemelham é que se aproximam – eis o “óbvio ululante”. Para sermos aceitos, abandonamos a liberdade de manifestar quem somos. Deixamos de lado o que consideramos nossa personalidade, nossos princípios, nosso caráter até. Quantas vezes, nos distanciamos, ainda mais, do caminho da própria liberdade, para seguirmos a boiada, que também não é livre – sem saber. E a boiada se contenta com (tão) pouco, sempre.
Enquanto tudo isso acontece, o que seria a nossa liberdade cambaleia pelas redes sociais, na superficialidade de todas as relações que mantemos, diariamente, até ser desenganada, por falência múltipla de sonhos e pelas nossas escolhas, numa vida que não é nossa, nem de ninguém. Assim, penso eu, nos aproximamos dos outros, e nos afastamos de nós mesmos, esquecendo a liberdade que nunca ousamos sonhar.
Liberdade é, essencialmente, solidão. E quem deseja solidão?… A maioria confunde tanto, que, no máximo, pensa que liberdade é fazer o que quer, no momento que bem entender, com quem quiser – caprichos, caprichos. Longe disso, a liberdade (mesmo!) caminha, solitária, sem qualquer tristeza, ou desânimo, ou frustração. Melancolia? Talvez. A liberdade é – simplesmente. Não necessita de traduções, explicações, ou justificativas – sem legenda. A liberdade (em si mesma) não se permite fazer companhia a medos atávicos, ou servir de muleta emocional. Até por que a liberdade voa (alto, muito alto) – tem asas (enormes) invisíveis, para que não sejam cortadas.
Ao contrário da vida social, que nos torna objetos de espelhos desconhecidos, a liberdade nos faz sujeitos de uma vida única, história escrita de maneira solitária e consciente. Não há perda, ou ganho, nisso – se existe, o resultado é sempre empate. Fazemos escolhas – vivemos as consequências das nossas escolhas, temos de assinar embaixo. E isso é (quase) tudo.
… E, no meio do caminho, por onde segue a boiada, ainda escolhemos ficar presos ao passado – enquanto o presente e o futuro nos acenam liberdade… liberdade!...

terça-feira, 17 de novembro de 2015

“O rei está nu!”

“A roupa nova do rei”, de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen, nunca foi tão contemporâneo como nos dias atuais. Saindo da classificação de conto de fadas, a obra, escrita para crianças, encaixa em atitudes que deveriam ser consideradas adultas, principalmente, aquela cena reveladora(inesquecível): “Um menino, que estava na multidão, achou aquilo tudo muito estranho, e gritou: - O rei está nu!”
Recentemente, o jornalista Sidney Rezende foi demitido pela direção da rede globo, que afirmou, em nota, que só tem “elogios à conduta profissional de Sidney, um jornalista completo''. Foi justamente isso que fez com que alguns colegas de Sidney Rezende, que também pensam, questionassem o fato: Se é tão bom, por que demitir?... Admitir e demitir até rimam, mas são verbos contraditórios.
O jornalista demitido mantém blog e página em rede social, onde se acha no direito de escrever e publicar o que pensa – direito real, obviamente. Mas, entre as aparições de Sidney, na televisão, e a liberdade expressa nos textos que assina, houve um distanciamento imensurável(abismal) e insustentável(como tinha de ser). Desde janeiro, o jornalista, nos intervalos das apresentações na tevê, escrevia(demais) sobre o que pensava, para qualquer um ler. Até que, no dia 12 de novembro, Sidney Rezende resolveu “pegar pesado”, e publicou, no blog dele e em rede social, (quase)tudo o que pensava sobre o que já sabemos: “Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo. (...) É hora de mudar. O povo já percebeu que esta ‘nossa vibe’ é só nossa e das forças que ganham dinheiro e querem mais poder no Brasil”. Foi a última gota, para romper a barragem globista, que mandou ver o clássico “pé na bunda”, mais uma vez, como tem feito com todos os ‘globais’ que resolvem manifestar o que pensam(“o rei está nu!”).
O fato, que podia ser mais um, na areia movediça televisiva, me fez pensar(mais). Como nunca trabalhei na globo(nem pretendo, esconjuro!), meu direito de manifestar o que penso não foi amordaçado, nem entorpecido. Caro Sidney Rezende, lembro que, quando foquei meus sonhos e ideais na profissão, o jornalismo me recebeu com alguns profissionais exemplares e inesquecíveis, hoje, cada vez mais raros. O meu primeiro estranhamento foi justamente a importância que esses jornalistas especiais davam aos processos judiciais em que eram os protagonistas. Quando levei meu primeiro processo judicial, compreendi o valor do meu trabalho, e a recompensa que vinha, por eu não me omitir, não aceitar o passaporte de viajar na primeira classe, com o conforto e a proteção da boiada, que segue obedecendo o que nem sabe. A partir dali, sempre que nos reuníamos, em algum momento, surgia a pergunta inevitável: Quantos?... Cada um sabia que se tratava do número de processos ajuizados, a partir do trabalho sério e compromissado com a realidade, já que a verdade se dobra e se desdobra, a cada depoimento sobre o mesmo fato.
Por conhecer alguns porões abarrotados de ratazanas, Sidney, reconheço a dimensão da sua atitude, ao manifestar que pensa, e o que pensa. A escolha é dolorida(e solitária) – o adversário se acha um globo(‘não é pouca bosta’). Mas o salto – você já deve saber – não é impossível. Impossível mesmo é acreditar que todos os funcionários globais não pensam. Oxalá, em algum momento, como tem sido, mais um profissional, aparentemente inofensivo, servil(e mudo), escolhe gritar: “O rei está nu!”

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O seu melhor. O meu melhor.

“Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.” (Hermann Hesse)

Se existe em mim, alguma obstinação, é justamente buscar, cada vez mais, coerência entre o que penso e as minhas atitudes, que inclui o que Hermann Hesse deixou registrada em “O Lobo da Estepe”. Posso até não conquistar esse meu objetivo, mas continuarei exercitando. Esse é o meu alvo: o seu melhor, seja você quem for – o meu melhor, seja eu quem for. Pode ser até que nem cheguemos a nos conhecer, mas, certamente, continuarei desejando que você seja o seu melhor, e seguirei tentando ser o meu melhor.
Sei que tem um monte de psicopatas, sem a menor empatia, por todo lugar, querendo só o melhor dos outros, para usufruir-lhes prazer, status e poder. Mas existe algo melhor – acredito nisso -, em cada um de nós, que vai muito além do que alguém possa querer ‘vampirizar’. Penso mesmo que o melhor de cada criatura pode, num momento da vida, apresentar-se visível e inquestionável, e ser tão surpreendente, que nem ela mesma acredita. Mas o melhor jamais se torna ‘moeda de troca’ – o melhor permanece dentro, tendo como vizinho, o pior, até que a gente faça a escolha que considera mais acertada.
Obstinadamente, também eu busco o meu melhor. Quanto me faz bem, quando encontro alguém que também quer que eu seja o meu melhor. O outro pode ser até psicopata. Mesmo que eu o identifique (são tantos), ainda assim, continuarei tentando fazer e ser o meu melhor. Afinal, não posso tornar-me líquida, de repente, diluir-me à forma do recipiente mais próximo, para satisfazer essa ou aquela exigência externa. Se continuo tentando ser o melhor que reconheço em mim, não é por causa de alguém, ou de alguma circunstância. É por mim mesma, e pelo que acredito, neste mundinho que me fascina tanto.
Mas nem todo mundo quer o melhor da gente – a maioria nem quer saber dessas coisas. Independente do que as criaturas desejam (o melhor ou o pior de mim), minhas expectativas em relação aos outros têm sido reduzidas – menos frustrações, mais surpresas boas (simples equação). Honestamente, já me sinto satisfeita, quando o outro, seja quem for, me sinaliza respeito – com gentileza, melhor ainda. Pode ser que o outro não me compreenda, às vezes sempre, nem queira me compreender. Mas, havendo respeito e um pingo de gentileza, já demonstra que está sendo o melhor que pode, ou se acha capaz de ser.
Eu costumo dizer que pouco adianta eu me preocupar somente com as luzes da minha casa, se a rua precisa de mais luz, da luminosidade das outras casas. A gente pode observar isso, em época natalina, quando quilômetros de fios com pisca-pisca enfeitam as ruas, as praças, as cidades. Volta e meia, a revolta dos pisca-pisca (sempre existem os revoltados mesmo, em qualquer situação) causa apagão, até apagões, pelo trajeto, o que acaba chamando mais a atenção dos transeuntes. Talvez, por isso, tem tanta gente manifestando o pior de si mesma, como se tivesse lido “O Lobo da Estepe” pelo avesso. Pode até chamar a atenção, mas causa muito mal, fermento instantâneo para o pior do mundo.
Podemos comprovar, no cotidiano, que a violência tem se exacerbado, por falta de coisa melhor. As relações têm ficado cada vez piores – as melhores estão nas redes sociais, onde cada qual desfila com a máscara e a fantasia que escolhe, sem envelhecer, diante dos outros. Na realidade, o que chamamos relações amorosas estão carregadas de desrespeito, desconfiança, más interpretações, indiferenças, e tudo mais que é reclamado, nas sessões de divórcio. Afinal, não é todo mundo que se acha capaz de administrar cenas como essa, sempre tão comum:
- Você atrasou dezenove minutos, hoje. Onde você estava, com quem, fazendo o quê?
Tem alguém que até responde:
- Eu sei que tem gente que vende muita coisa, no sinal, mas eu dei, enquanto o semáforo estava fechado, e desobstruíam a área de mais um acidente.
- Deu pra quem? Eu conheço? Nem responda. Vou ver os detalhes do acidente, na televisão...
... E já não escuta:
- Dei toda a minha paciência, no meio do congestionamento...
Todo mundo quer só o melhor da vida, e, quase sempre, exige isso, da pior maneira. Se existe mesmo algo que me faz mal indescritível é justamente quando eu contribuo para que o pior de alguém ocupe tempo/espaço. Isso me causa mais dor, se comparado ao fato de alguém provocar o meu pior, para que escape da jaula vigiada pelo meu desnutrido equilíbrio. Enquanto há provocação, eu posso defender o que acredito ser meu amadurecimento, minha consciência. Mas, se o meu pior contra-ataca, o meu pobre equilíbrio, minguado de vergonha de si mesmo, sai de cena, e retorna à lição que já pensava ter aprendido.
O pior e o melhor – sempre fazem parte do que denominamos caráter, personalidade. E tudo isso descamba, mais uma vez e sempre, nas escolhas que fazemos, a cada instante da vida inteira. A maior ironia, nisso tudo, está justamente nas consequências das nossas escolhas, nem sempre imaginadas: “Eu não sabia”.
Viver também pode ser transbordar, ir além – de si mesmo. Num dia qualquer, todos morreremos (a fila é longa) – sem sabermos se a vida teria sido melhor, se tivéssemos feito outras escolhas.

P.S.: Só não diga que o que você leu aqui ajudou em alguma coisa, na sua vida. Autoajuda - só aos autores dos livros de autoajuda (livros cada vez mais caros, autores cada vez mais ricos). O que escrevo não é para ajudar. Ao contrário. O que escrevo é para atrapalhar, incomodar mesmo, desarrumar, tirar o sono, inquietar, e (quem sabe até) fazer pensar. A intenção é só essa – realmente. Aí, do outro lado, a escolha é só sua – você lê o que quer ler. E escolhe viver como quer viver. Eu também.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A morte não anunciada

Hoje é dia de chorar a morte – a morte dos nossos entes queridos, e a nossa própria morte. No próximo velório que chamarem você, observe que as pessoas choram, diante do caixão, se entreolham, e choram mais ainda – ninguém sabe quem será o próximo. O que se sabe mesmo é que nem sempre o terminal vai na frente do fulminante, enquanto o inesperado continua sendo o primeiro da fila.
Durante todo o tempo em que estamos nessa condição que chamamos vida, sofremos diversas mortes. Penso que a morte não anunciada vai além da morte por acidente, homicídio, ou suicídio (anunciado sempre, por sinais). Talvez, essa morte que me refiro seja a mais profunda, e menos dolorida, de todas as mortes. Está tão incrustada no fundo mais fundo do ser humano, que nem chega doer, coberta que fica por tudo o que ‘parece’ vida, em total abandono, na vala do desperdício esquecido.
Na minha insignificante opinião, tantas vezes, morremos para os outros (nem todos), mas permanecemos aconchegados (vivos) nos braços de quem nos quer bem, a troco de nada mesmo. No contraponto, quantos permanecem (tão) vivos, por tantas vidas inteiras que seguem, ignorando qualquer lógica do tempo, que (quase) tudo faz esquecer. Mas morrer para os outros não é a pior morte (ainda).
A pior morte, na minha visão estrábica, não é a anunciada. É aquela que causamos em nós mesmos – um só alguém, ou ninguém, fica sabendo. A criatura vai morrendo aos poucos – longe da lógica do tempo das rugas e senilidade. Tem gente que vai abandonando sonhos e projetos, pelo caminho. No início, até percebe o que está fazendo com a própria vida, escolhendo. Não demora muito, essa rendição - em vida, à morte - é transformada em hábito, vício até. E não há morte mais vazia e triste. Morte anestesiada pela ausência de sonhos (vida).
Penso que especialmente hoje não deveria ser dia de refletirmos sobre a morte. A morte já nos chega com tudo pensado – sem direito (mesmo!) de qualquer escolha. Hoje – e sempre – é dia de refletirmos sobre a vida, a nossa vida, de ninguém mais. Até por que temos a vida que temos, por que fazemos escolhas, mesmo quando justificamos que não temos outra escolha (existe, sim). Mais justo seria reconhecermos que não conseguimos enxergar mais escolhas, por que escolhemos – sempre -, independente de.
De repente, a morte (implacável!), quase nunca esperada, nos chega – que haja muita vida, dentro de nós, quando o inevitável acontecer. Que a nossa vida seja tanta, que transborde à vida que fica, e segue...
...E continuemos orando pelos nossos mortos, e pelos sonhos e projetos que morrem, em completo desamparo íntimo, a cada instante...

De olho