segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O seu melhor. O meu melhor.

“Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.” (Hermann Hesse)

Se existe em mim, alguma obstinação, é justamente buscar, cada vez mais, coerência entre o que penso e as minhas atitudes, que inclui o que Hermann Hesse deixou registrada em “O Lobo da Estepe”. Posso até não conquistar esse meu objetivo, mas continuarei exercitando. Esse é o meu alvo: o seu melhor, seja você quem for – o meu melhor, seja eu quem for. Pode ser até que nem cheguemos a nos conhecer, mas, certamente, continuarei desejando que você seja o seu melhor, e seguirei tentando ser o meu melhor.
Sei que tem um monte de psicopatas, sem a menor empatia, por todo lugar, querendo só o melhor dos outros, para usufruir-lhes prazer, status e poder. Mas existe algo melhor – acredito nisso -, em cada um de nós, que vai muito além do que alguém possa querer ‘vampirizar’. Penso mesmo que o melhor de cada criatura pode, num momento da vida, apresentar-se visível e inquestionável, e ser tão surpreendente, que nem ela mesma acredita. Mas o melhor jamais se torna ‘moeda de troca’ – o melhor permanece dentro, tendo como vizinho, o pior, até que a gente faça a escolha que considera mais acertada.
Obstinadamente, também eu busco o meu melhor. Quanto me faz bem, quando encontro alguém que também quer que eu seja o meu melhor. O outro pode ser até psicopata. Mesmo que eu o identifique (são tantos), ainda assim, continuarei tentando fazer e ser o meu melhor. Afinal, não posso tornar-me líquida, de repente, diluir-me à forma do recipiente mais próximo, para satisfazer essa ou aquela exigência externa. Se continuo tentando ser o melhor que reconheço em mim, não é por causa de alguém, ou de alguma circunstância. É por mim mesma, e pelo que acredito, neste mundinho que me fascina tanto.
Mas nem todo mundo quer o melhor da gente – a maioria nem quer saber dessas coisas. Independente do que as criaturas desejam (o melhor ou o pior de mim), minhas expectativas em relação aos outros têm sido reduzidas – menos frustrações, mais surpresas boas (simples equação). Honestamente, já me sinto satisfeita, quando o outro, seja quem for, me sinaliza respeito – com gentileza, melhor ainda. Pode ser que o outro não me compreenda, às vezes sempre, nem queira me compreender. Mas, havendo respeito e um pingo de gentileza, já demonstra que está sendo o melhor que pode, ou se acha capaz de ser.
Eu costumo dizer que pouco adianta eu me preocupar somente com as luzes da minha casa, se a rua precisa de mais luz, da luminosidade das outras casas. A gente pode observar isso, em época natalina, quando quilômetros de fios com pisca-pisca enfeitam as ruas, as praças, as cidades. Volta e meia, a revolta dos pisca-pisca (sempre existem os revoltados mesmo, em qualquer situação) causa apagão, até apagões, pelo trajeto, o que acaba chamando mais a atenção dos transeuntes. Talvez, por isso, tem tanta gente manifestando o pior de si mesma, como se tivesse lido “O Lobo da Estepe” pelo avesso. Pode até chamar a atenção, mas causa muito mal, fermento instantâneo para o pior do mundo.
Podemos comprovar, no cotidiano, que a violência tem se exacerbado, por falta de coisa melhor. As relações têm ficado cada vez piores – as melhores estão nas redes sociais, onde cada qual desfila com a máscara e a fantasia que escolhe, sem envelhecer, diante dos outros. Na realidade, o que chamamos relações amorosas estão carregadas de desrespeito, desconfiança, más interpretações, indiferenças, e tudo mais que é reclamado, nas sessões de divórcio. Afinal, não é todo mundo que se acha capaz de administrar cenas como essa, sempre tão comum:
- Você atrasou dezenove minutos, hoje. Onde você estava, com quem, fazendo o quê?
Tem alguém que até responde:
- Eu sei que tem gente que vende muita coisa, no sinal, mas eu dei, enquanto o semáforo estava fechado, e desobstruíam a área de mais um acidente.
- Deu pra quem? Eu conheço? Nem responda. Vou ver os detalhes do acidente, na televisão...
... E já não escuta:
- Dei toda a minha paciência, no meio do congestionamento...
Todo mundo quer só o melhor da vida, e, quase sempre, exige isso, da pior maneira. Se existe mesmo algo que me faz mal indescritível é justamente quando eu contribuo para que o pior de alguém ocupe tempo/espaço. Isso me causa mais dor, se comparado ao fato de alguém provocar o meu pior, para que escape da jaula vigiada pelo meu desnutrido equilíbrio. Enquanto há provocação, eu posso defender o que acredito ser meu amadurecimento, minha consciência. Mas, se o meu pior contra-ataca, o meu pobre equilíbrio, minguado de vergonha de si mesmo, sai de cena, e retorna à lição que já pensava ter aprendido.
O pior e o melhor – sempre fazem parte do que denominamos caráter, personalidade. E tudo isso descamba, mais uma vez e sempre, nas escolhas que fazemos, a cada instante da vida inteira. A maior ironia, nisso tudo, está justamente nas consequências das nossas escolhas, nem sempre imaginadas: “Eu não sabia”.
Viver também pode ser transbordar, ir além – de si mesmo. Num dia qualquer, todos morreremos (a fila é longa) – sem sabermos se a vida teria sido melhor, se tivéssemos feito outras escolhas.

P.S.: Só não diga que o que você leu aqui ajudou em alguma coisa, na sua vida. Autoajuda - só aos autores dos livros de autoajuda (livros cada vez mais caros, autores cada vez mais ricos). O que escrevo não é para ajudar. Ao contrário. O que escrevo é para atrapalhar, incomodar mesmo, desarrumar, tirar o sono, inquietar, e (quem sabe até) fazer pensar. A intenção é só essa – realmente. Aí, do outro lado, a escolha é só sua – você lê o que quer ler. E escolhe viver como quer viver. Eu também.

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