domingo, 6 de novembro de 2016

Nós X eles

Vivemos tempos estranhos, apesar de a maioria nem refletir sobre isso. Dia desses, num encontro com uma professora de língua portuguesa, perguntei a ela se estava mais fácil ensinar conjugação verbal aos estudantes. Ela respondeu, rapidamente, que não via diferença, e me perguntou o porquê da pergunta. Eu disse a ela que, na realidade atual, só temos conjugado, nas nossas relações, a primeira e a terceira pessoas do plural – eu, tu, ele, vós já não cabem mais nas conversas, principalmente, nas redes sociais.
Hoje, nessa realidade tão banal e descartável, nos tornamos 'nós' e 'eles'. Se não somos nós – somos eles. Nós fazemos vultosas doações, abatidas no imposto de renda – eles querem consumir o que não foi feito para eles. Nós somos os bons, os mocinhos – eles são os maus, os bandidos. Nós, as vítimas – eles, os carrascos. Nós, os éticos – eles, os corruptos. Nós moramos no alto dos prédios da zona sul – eles ocupam áreas de preservação ambiental, no alto dos morros da favela. Nós, os certos – eles, os errados. Nós protegemos os animais e o meio ambiente – eles humilham e até matam aqueles que desfrutam a liberdade de serem quem são, entre quatro paredes. Nós pagamos muito bem as escolas particulares dos nossos filhos – eles reclamam da escola gratuita dos filhos. Nós, os verdadeiros – eles, os hipócritas. Nós defendemos o armamento da sociedade – eles roubam armas e matam. Nós somos contra o aborto – eles maltratam e violentam as crianças, os adolescentes. Nós gastamos muito dinheiro, em shoppings – eles apavoram, nos shoppings, quando fazem “rolezinho”. Nós somos cautelosos – eles são covardes. Nós somos brancos – eles são morenos, quase pretos. Nós queremos pena de morte, enquanto eles superlotam as prisões brasileiras. Nós refletimos, para, depois, fazermos comentários nas redes sociais – eles criam boatos e intrigas, ofendem, nas (mesmas) redes sociais. Nós fazemos dietas – eles jogam comida no lixo. Nós bebemos, dirigimos, mas nos cuidamos – eles bebem e atropelam, matam. Nós não queremos saber de política – eles continuam votando nos que fazem a pior política. Nós somos todos heterossexuais performáticos – eles são todos pedófilos, estupradores, “viados” e “sapatonas” sem vergonha. Nós pagamos mal pessoas incapacitadas para cuidarem dos nossos filhos – eles abandonam os filhos, em latas de lixo. Nós mandamos matar desafetos – eles matam quem não conhecem, a troco de 50 reais. Nós vamos à missa, todos os domingos – eles pecam, a semana inteira. Nós somos enganados, quando compramos produtos de receptadores – eles assaltam e roubam. Nós, seres humanos que somos, matamos, em nome do nosso 'deus' – eles matam, sem fé alguma, os seres humanos. Nós exercitamos o senso criativo – eles mentem. Nós pensamos, primeiro, em nós mesmos – eles só pensam neles mesmos. Nós perdoamos, mas não esquecemos, e até nos vingamos – eles não perdoam. Nós participamos de campanhas contra a violência contra a mulher – eles espancam, e ameaçam as mulheres. Nós não temos preconceito – eles são contra os diferentes (deles). Nós enxergamos, sempre, o bem – eles só praticam o mal. Nós 'furamos' filas, por que estamos com pressa – eles não respeitam filas. Nós reclamamos dos impostos sobre produtos importados – eles exportam mão de obra barata. Nós compramos todos os tipos de drogas dos traficantes – eles, os criminosos, vendem as drogas. Nós somos imparciais, e só noticiamos a verdade absoluta – eles são tendenciosos e cheios de más interpretações e intenções. Nós oferecemos desconto, nos produtos superfaturados – eles superfaturam os preços dos produtos.
De repente, o caldo entorna, e nós nos tornamos eles – para eles, obviamente. Às vezes, somos maioria – não demora, somos minoria. Equação duvidosa. E eu continuo sem entender esses muros (invisíveis e sólidos) erguidos a qualquer momento, em qualquer lugar...

domingo, 18 de setembro de 2016

Quanto maior, melhor.

Eu gosto mesmo de uma fila – quanto maior, melhor. Fila é um dos raros momentos em que todo mundo se iguala, mesmo não querendo se igualar, mesmo permanecendo tão diferente: patrão, empregado, desempregado, dona de casa alugada, “office boy” estressado, monge estagiário, homofóbico, ateu, aquele mundaréu de gente sem identificação, desinteressada e desinteressante. Ninguém se importa com ninguém. Todos, sem exceção, se importam mesmo, quando acontece de a atendente informar: O sistema saiu do ar. Aí, não tem jeito mesmo: a fila dos burburinhos se transforma, imediatamente, na fila dos gritos e palavrões. É afrodescendentezinho (pra não ferir com 'neguinho' mesmo) esbravejando pra todo lado. De repente, aparece um segurança – e a fila segue, silenciosa, forçosamente parada em minutos que levam uma eternidade.
Eu gosto de filas – mais ainda, eu gosto de ficar, e aprender a esperar, em filas. Há filas intermináveis, e filas que acabam de surpresa. Filas que não andam, e filas que parecem maratona.
Nas filas, a maioria está sempre com pressa. Eu escolho entrar em filas, quando tenho todo o tempo do mundo. E ainda me divirto. Observo – é curso humano intensivo, sempre, sem reprise. Nas filas, não faltam aqueles que reclamam da quilometragem. E nunca se vê gente elogiando fila, manifestando prazer, por estar em pé, aguardando atendimento. Até quando há bancos e cadeiras, ninguém esquece que está mesmo numa fila: o enfileirado se ajeita de um lado, de outro, olha para o relógio, cronometrando até os segundos. Não adianta: é fila. Nunca vi essa gente toda conectada fazendo “selfie” em fila de agência bancária, ou lotérica. Alguns ainda se fotografam, sorridentes, em filas de aeroporto – antes de saberem do atraso, ou cancelamento, do avião, claro.
Nos mais variados locais públicos, que aglomeram filas quilométricas, o que não falta mesmo é cartaz: “estamos trabalhando por você, cliente, reduzindo as filas”. Mas, na realidade, o que reduz mesmo é o número de caixas atendentes. Por isso, nem sempre aumenta a população em fila – o atendimento acaba cada vez mais concentrado. O que sempre foi um conjunto de seis filas acaba se tornando uma fila, seis vezes maior, enfurecendo a maioria dos clientes.
Nessa realidade intolerante em que vivemos, sem olharmos para os lados, sem tempo para pensar, as filas prevalecem no sistema: filas, unidas, jamais serão vencidas. E, assim, seguimos – clientes disciplinados -, de fila em fila, de reclamação em reclamação, de pressa em pressa, de raiva em raiva, de stress em stress, de egoísmo em egoísmo. O mais estranho é que a fila – sempre coletiva – é um dos locais mais individualizados da sociedade. Nem ferida exposta passa na frente. O enfileirado pode estar atrasado para o enterro do tataravô – sem discussão: se é o 58º colocado no ranking, só será atendido depois dos 57 ansiosos, à frente dele. Mas sempre tem pior. Há aqueles que, sem qualquer vergonha, com mania de “office boy”, resolve carregar uma 'pastinha', fila afora. Quando chega na frente do caixa bancário, o milagre acontece: faturas e mais faturas se multiplicam, num passe de mágica, semelhantes, não a pombos, a penas que esvoaçam no balcão. Nos demorados minutos seguintes, a fila entorta, os enfileirados reclamam – alguns lembram até palavras deixadas de lado, em tantas filas: solidariedade, empatia, compaixão.
Mas, apesar de, e com tudo isso, eu gosto de uma fila, onde a gente encontra mais diversidade do que na feira. Em todas as filas – a da padaria do Seu Manoel, ou a do Banco dos maiores investidores -, sempre há os que reclamam do tempo de espera, do que ainda têm por fazer. E não faltam aqueles que dão aulas de economia, culpam os governos. Têm os que fazem da fila, divã – tantas histórias de vida contadas para enfileirados que não prestam a mínima atenção.
Tem gente que resolve lanchar, em plena fila estática e estressada. Comem de tudo, por ali, um atrás do outro: balas, pastel de feira, chicletes, chocolates, salgadinhos, e até marmita. E engolem medicamentos, a seco. Atendem e fazem ligações, nos mais variados modelos de celulares. Fazem crochê, tricô, e raramente alguém lê um livro. As filas de banheiros públicos são sempre as mais movimentadas. Alguns circulam, ensimesmados, em passos curtos e leves. Outros chegam bater à porta: “Vai demorar muito?”
Nas filas, você escuta de tudo: “Justamente hoje, que tenho tanto por fazer, essa fila não anda”. “Vou reclamar no Procon”. “Tem espaço vago, ali na frente. Vamos apertar, pessoal”. “Tomara que a fila do jogo da mega sena esteja menor”. “Pode segurar o meu lugar? Preciso ir ao banheiro, com urgência”. “Que bicha que não se mexe”! “Não tem quem aguente tantas filas. Por isso, faço tratamento para o sistema nervoso”. “Dois, quatro, seis… são 38, na minha frente”. “Tenho cabelos brancos, mas não sou idoso”. “Tem gente tentando furar a fila”. “Pode reparar, a fila do lado anda depressa”. “Desisto. Volto amanhã. Fui”.
Mas bolo sem a única cereja em cima não é bolo. O auge de uma fila (de liquidação, principalmente) chega, quando a funcionária (até então, invisível, no meio da multidão afoita) avisa, timidamente: “Encerramos nosso atendimento, por hoje, mas, amanhã cedo, esperamos todos vocês”. É o fim.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Nosso cometa da liberdade partiu

Realmente, Elke maravilhava, por onde passava. Nosso cometa da liberdade partiu, nessa madrugada. Alguns não tiveram “olhos para ver”, e riram, sem pensar, do jeito que Elke falava, se vestia, se maquiava. Mas Elke Maravilha era mais, muito mais – a pisciana Elke Georgievna Grunupp (“brasileiríssima”, nascida na Rússia) era intensa, profunda, inteligente (dominava nove idiomas: alemão, russo, italiano, espanhol, francês, inglês, grego, latim e português), livre, apaixonada e apaixonante. Por onde passava – na televisão, nas calçadas, nas praças – causava alegria e antipatia imediatas.
Em mim, Elke sempre foi Maravilha. Quando menina, eu me encantava com a imagem irreverente de Elke – e eu ainda nem sabia o que era liberdade. Em entrevista, Elke contou como tornou-se quem ela era: “Um dia (por volta dos 18 anos), eu acordei de manhã, fui no meu armário, e vi que só usava preto. Eu pensei: Nada disso. Peguei uma calça e rasguei toda, botei uma meia roxa, enchi a cara de batom, desgrenhei o cabelo e fui para a rua. Levei porrada. É difícil ser a primeira, a ousar, a usar esse visual”. Provavelmente, Elke soubesse que não era o visual que aterrorizava, mas a liberdade que continha, nas atitudes dela. Até hoje, a maioria, que segue a boiada, teme o desconhecido, justamente por que aponta o caminho da liberdade.
Nosso cometa da liberdade partiu, e deixou o que muitos (maioria) não querem pensar: “O mundo não tá careta, o mundo tá muito ignorante. E a ignorância é mãe e irmã do preconceito. (…) Sou contra bandeiras, sou a favor de boas maneiras. (…) Solidão é invenção de gente que quer chamar atenção. Tenho muitos momentos de solitude, solidão, não. Cada um dos mais de sete bilhões de habitantes desse mundo é parte de mim. Sou impregnada de mundo. (…) Amo gente e gosto sempre de estar cercada por amigos. (…) Eu não sou de direita, nem de esquerda, talvez eu seja de banda. Porque eu não acredito, nunca acreditei em ideal fora do coração. Eu só acredito em ideal no coração. (…) O poder não corrompe, revela. (…) Sou movida pela paixão. (…) A mentira é o que mais me revolta. (…) Atualmente, não assusto mais, mas tem gente que acha que sou travesti. (…) Sempre fui assim. Não sei ser de outro jeito. Tudo na minha vida, na minha carreira, foi acontecendo. Não escolhi nada, fui escolhida. Não programei nada, e até hoje ainda não sei o que quero ser quando crescer. (…) Não tenho problemas em ficar velha, mas, ultrapassada, nunca. (…) Ser livre é um trabalho de muitas gerações, não incomoda absolutamente. Mas nós não estamos prontos para isso. A gente tem liberdade de escolher a prisão que a gente quer ficar. Tem gente que é até escravo da liberdade: procura tanto a liberdade, que fica escravo dela. (…) Fiz três abortos. Sempre soube que não tinha talento para isso, que não saberia educar uma criança. Parir é fácil, mas educar é difícil. Setenta por cento das mulheres que têm filhos não deviam. Sou completamente consciente do passo que posso dar. Eu nunca quis segurar homem. Sempre disse: 'Quer ter filhos? Vai ter com outra'. Não estou aqui para interferir no carma de ninguém. (…) Eu sou uma vira-lata. Minha mãe era alemã, meu pai era russo, minha avó mongol, meu avô era mestiço de viking com azerbaijano. (…) Nós todos não temos definição. Somos tudo, somos santos e demônios, somos bonitos, somos feios, somos grandes, somos minhocas. (…) Querem que eu faça uma biografia. Biografia é pra gente que modificou o mundo. (…) A morte está mais próxima (risos). Já fui jovem, de meia-idade e sou velha. Vivi cada coisa no tempo da mãe natureza. Meu pai me dizia: 'Minha filha, aprende com a mãe natureza'. E ela nos ensina tudo mesmo. (...) Estou pronta para morrer. Me preparo todos os dias para isso. A morte é amiga, gente.(…) O melhor da vida não é viver, é conviver. (…) A vida tem que ter magia. (...) Olhar para trás, nunca. Cruz credo. Sinto saudades do futuro. (…) Crianças, conviver é o grande barato da vida. Aproveitem e convivam.”

Nosso cometa da liberdade partiu – como Elke dizia: foi “brincar de outra coisa”...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

- e ainda acaba.

Não esqueça que correntes e cadeados – de metal barato, ou de ouro, cravado com diamantes – serão sempre correntes e cadeados que aprisionam. Surpresas são sempre surpresas – boas, ou ruins. Existe vida, além do umbigo. Ninguém cursa Ciências Contábeis, com a expectativa de, no final do curso, formar-se em Robótica. Remédio e veneno – amargo, ou doce – são sempre remédio e veneno. Sem julgamento, não há criminoso. O outro, seja quem for, também carrega desejos e medos. Você pode até se descabelar, mas farmácia não vende bife – mesmo. Alguns são a favor; outros, contrários – e ainda há os que se agarram em cima do muro. Amor dá trabalho – e, às vezes, até filhos. Não adianta plantar uma muda de laranjeira, e querer colher tamarindo. Não espere errar, para aprender. Você pode xingar, espernear, não adianta: as escolhas da sua vida são suas, só suas – as consequências, também. Jiló é mesmo com 'J' – com 'G', a palavra fica amarga, indigesta. Não deposite os seus sonhos em relicário de promessas alheias. Se foi “Deus” quem salvou a sua vida, quem permitiu que o outro morresse? Você tem de aprender – “antes tarde que mais tarde” – que até o passado muda, conforme o desejo das nossas lembranças. A vida não é completamente má, nem boa – a vida é sua. Às vezes, o outro pode ser espelho que reflete o que você se recusa refletir. Toda “selfie” é uma tampa. Silêncios podem existir, para não falarem mais nada - mesmo. Não existem pessoas insensíveis – martelada no dedo, todo mundo sente. Não reze, pedindo o que você nem sabe. Expectativas sempre caminham de mãos dadas com frustrações e decepções. A chave de casa não abre todas as portas. Quem renuncia à vida – já não vive mais. Relação entre duas pessoas se constrói em duas vias – se não for isso, é qualquer outra coisa mesmo. Até quem envelhece tem outra opção (morte). Você pode continuar falando, falando – poucos vão querer ouvir, e todos só saberão interpretar a sua fala. Nem o cachorro é responsável pelo seu mau humor. Papai Noel não existe – nem renas voam. Não são só os outros que morrem – não são só os outros que matam. Para dar opinião – necessário ter opinião. Por mais que a ciência continue nos vendendo produtos que esticam a pele, clareiam olheiras, levantam pele e músculos cansados pelo tempo, a natureza – impassível – continuará impondo o 'veredicto'. Só a boiada dócil se curva, diante da cangalha. A vida – real e dolorida – não é rede social, e a dor persiste, à revelia de todas as fugas humanas. Se você diz 'sim', quando deseja dizer 'não' – você deixa de existir, só ocupa espaço mesmo. Você precisa saber, de uma vez por todas, que, quando alguém pergunta – Tudo bem? -, não quer ter outra resposta, senão um ligeiro: Tudo bem. Estar do lado de alguém que te faz bem não tem hora, nem preço. Nem sempre, remédio é o remédio. A atendente da loja não se apaixona por você – não é amor à primeira vista -, quando ela exibe todas as roupas da loja ao seu consumismo desenfreado. Tem gente que vive feito porcos e frangos: a caminho do abate, sem pensar. O pão com manteiga vai sempre cair com a manteiga colada no chão – não tem jeito. Quando projetamos a vida, ou persistimos reviver o passado – está faltando um presente que nos surpreenda, nos extasie. Você pode até insistir que a clara do ovo é escura – continuará sendo branca, até mais clara. O que o outro, também, mais quer é que você mude, para que vocês sejam (in)felizes para sempre. Não troque ideias – alguém sai sempre perdendo. Você pode até se achar o melhor de todos – e se perder nessa vaidade -, mas haverá sempre alguém, entre todos, que mostrará que não. A vida acontece, aqui e agora – sem ensaio, sem sono fora de hora. Não se compare a ninguém – nem a Jesus -, e trate de pensar e agir por si mesmo. Coisas são coisas; seres humanos são seres humanos – principalmente, quando não parecem ser. Às vezes, o gramado do vizinho é sintético. Quem procura alguém para lhe preencher os vazios, acaba encontrando quem lhe encha o saco. De repente, pessoas assustam mais que baratas. 

Agora, levanta logo daí. Se papai e mamãe não advertiram, agora, você já não pode mais justificar que não sabe. A vida é (só) isso – e ainda acaba.

Filósofa Viviane Mosé:
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domingo, 15 de maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A democracia brasileira agoniza

Justamente na véspera dos 128 anos da abolição da escravatura, a democracia brasileira, depois de levar chibatadas, presa ao tronco, agoniza. Lá fora, milhões de brasileiros sofrem, ao ouvir o inesquecível tropel da ditadura, que retorna, não mais em cima de equinos, mas com seres bípedes fascistas e psicopatas. O passado volta, com mais força e ódio. Mesmo assim, muitos tapam os ouvidos, e ligam a televisão aberta, cheia de novelas e programas policialescos.
Se a esquerda errou, erramos todos nós – na esquerda, na direita, em cima do muro, no “muito antes, pelo contrário”. Errou, quem ficou só apontando as tentativas de acerto, do governo Dilma, que resultaram em erros. Errou, quem preferiu fechar portas e janelas, e só assistir as novelas globais, o programa policialesco de uma televisão evangélica. Errou, o governo Dilma, que se distanciou do povo (maioria que o elegeu) e dos grupos de esquerda, imaginando (quem sabe?) fazer todas as mudanças – políticas, econômicas, sociais -, sem se estressar em debates, para não causar atraso nas metas.
Meu pai sempre me fez acreditar que, em tudo, existe o lado bom da história: “é preciso ter olhos, para enxergar”. Por isso, penso – eu, que penso tão inutilmente – que o ódio do cunha, que sentiu-se traído pelo governo, colocou, mais uma vez, a roda da indignação em movimento (o que meu pai chamaria “o mal a serviço do bem”). Antes de cunha abraçar e fazer conluio com o jurista ex-petista, as águas da superfície estavam calmas.
Depois que 42 milhões de brasileiros desembarcaram dos índices de miséria, o povo foi aos shoppings, concessionárias de veículos, aeroportos, teatros, restaurantes, supermercados, cinemas, estádios de futebol, até ao exterior. Os gastos, com débito e crédito, ascenderam. O povo, consumido pelo consumismo, cada vez mais esfomeado, embriagou-se – e só acordou, com ressaca, no dia que o cunha resolveu ser taxativo com o governo: “ou faz o que eu quero, ou não brinco mais de coalizão”. Foi o estopim de uma guerra partidária velada, antiga. Brasília tornou-se, então, legitimamente, a “cidade luz” (nada a ver com Paris) - tudo clareado.
De lá pra cá, não há quem não saiba o que está acontecendo – mesmo quando finge não saber, e até afirma não ter a ver com isso. Os smarphones “de ponta”, comprados no crediário de 24 prestações mensais, transbordam notícias sobre o atual momento político brasileiro. Em todas as redes sociais, os brasileiros discutem (finalmente!) questões políticas. Já era esperado que, quando isso acontecesse, viria com imaturidade – mais embate que debate, concurso de adjetivos chulos. Mas a história, dizia meu pai, sempre tem um lado bom: hoje, a maioria já mostra a cara, e conhece a cara do outro. Fascistas e psicopatas são os mais afoitos – se retroalimentam, em manifestações (públicas) de ódio e ressentimento. Penso que será difícil – nada é impossível – essa gente toda voltar para o armário, depois do efeito do veneno ódio.
Na realidade, a democracia brasileira é (ainda) adolescente – cheia de vontades e contradições. Por isso, testemunhamos, em todo o processo de impeachment, tantas aberrações, por parte de deputados e senadores, todos eleitos, democraticamente, pelo povo, que pouco (ainda) sabe de democracia. A princípio, o processo de impeachment de Dilma Rousseff era para permanecer jurídico, o que inverteu, durante as tramitações no congresso nacional. No final, o processo histórico resultou em questão e decisão políticas. Obedecendo o rito constitucional, as vossas excelências do supremo tribunal federal não manifestaram-se a respeito, apenas restringiram-se a indeferir pedidos de finalização do impeachment. Na minha desimportante opinião - pequena que sou (maioria), diante do olimpo -, obedecer o rito é respeitável. Ainda assim, penso que houve omissão, por parte dos ministros do stf, que, em momento algum, mesmo quando tomaram conhecimento oficial do teor do processo escrito pelo jurista ex-petista, apontaram a fragilidade e a inconstitucionalidade do documento acusatório. Não fossem vossas excelências, eu até imaginaria a cena: no camarote, acima do picadeiro, todo mundo de braços cruzados, postando em redes sociais, rindo baixinho, fazendo apostas.
Logo no começo de tudo isso, o povo despertou no berço esplêndido, desligou a televisão, parou de assistir jornal nacional e novelas, e começou ir às ruas, em defesa da democracia, da manutenção do governo Dilma, como nunca havia feito, até então. Era tarde. Os senhores deputados já tinham fechado acordo e ensaiado o grand finale, nas bancadas do boi, da bíblia e da bala (bbb). Por isso, durante a votação do impeachment, na Câmara dos Deputados, fomos condenados a assistir, em rede pública nacional, as vergonhas: “pelos pais, pelos filhos e pelos netos, os que já existem e os que estão chegando”, “pelos maçons do Brasil”, “pelo meu país, por deus, por minha família, pelas pessoas de bem”, “que deus tenha misericórdia desta nação”, “por Sérgio Moro, pelo Paraná”, “pelos evangélicos de toda a nação”, “pelo povo de São Paulo nas ruas com o espírito dos revolucionários de 32, pelo respeito aos 59 milhões de votos contra o estatuto do desarmamento em 2005, pelos militares de 64, hoje e sempre, pelas polícias, em nome de deus e da família brasileira”, “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi o pavor de Dilma Rousseff”, #*@%#*&*¨”.
Mas a sangria não parou por aí. Ainda restava ao Senado Federal clicar: game over. E assim foi feito – na calada da noite passada, madrugada adentro. Sabendo, de antemão, o resultado (guilhotina), o senhor presidente do senado permitiu a entrada de jornalistas e cinegrafistas da direita, da esquerda, de cima do muro. Quanto mais público para testemunhar a guilhotinada, melhor – e não faltaram os deputados federais para acompanharem o veredictum. De casa cheia, o senhor presidente anunciou o final do primeiro tempo do jogo: 55 X 22. Primeiro tempo, por que Dilma Rousseff garantiu que retornará à presidência, para cumprir o mandato, para o qual foi eleita por 54,5 milhões de cidadãos, que encerra em 31 de dezembro de 2018 – repetiu isso, quando falou ao povo, que a aguardava, na saída do Palácio do Planalto. Dilma Rousseff abraçou e foi abraçada pelo povo, “como nunca antes, na história desse país” - abraço tardio, lamentavelmente. (Tem gente que ainda lembra de Fernando Collor descendo a rampa do Planalto, acompanhado da esposa e da empáfia que não o deixava baixar a cabeça, nem murchar o peito. Mais ninguém.)
A adolescente democracia brasileira (Oxalá!) parece ter aprendido algumas lições, nas últimas semanas. Assim, também acontece com estudantes adolescentes, que cabulam aulas, e depois passam madrugadas insones, para estudarem à prova do dia seguinte. O importante mesmo é que aprendam, aprendamos: não existe liberdade, sem responsabilidade, sem compromisso. Votamos, elegemos – nada de lavarmos as mãos, depois, e/ou só apontarmos os erros, e reclamarmos. Foi votada, eleita – não pode se afastar do povo que a elegeu. Os envolvidos no processo – seja eleitoral, ou de impeachment – continuam envolvidos, antes, durante e depois da tempestade.
O momento, certamente, é de exaustão – luta cansativa, sonhos desanimados (não mortos). Com certeza, tudo isso vai passar. O governo interino chegará com a simpatia conhecida – tema quem temer. Pelo visto, a mobilização continuará nas ruas de todo o Brasil. O povo promete continuar gritando “é golpe”, até que os surdos também gritem: “já entendemos o que vocês gritam”.
Quanto a mim, pequena mortal, sem qualquer direito a voto – a favor, contra, nulo, ou de abstenção -, releio o sensacionalista:
http://www.sensacionalista.com.br/2016/05/12/brasil-acorda-e-se-assusta-ao-ver-temer-ao-lado/

Brasil acorda e se assusta ao ver Temer ao lado

O Brasil abriu os olhos, mas não quis levantar. Ficou deitado, viu que horas eram. Depois olhou pro lado e viu Michel Temer. O susto foi grande. Numa fração de segundos, o Brasil tentou se lembrar de como chegara ali. Mas não conseguiu. Talvez tenha bebido. Talvez estivesse tão mal, que criou uma defesa contra a memória.
Só depois soube que, por 55 a 22, os senadores da República levaram Temer para sua cama. Como não tinha outro jeito, o Brasil levantou e foi trabalhar.

Elogio da Dialética - Bertolt Brecht

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas
continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
Isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? De nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.
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Dizem que sou uma pessoa dura. Não sou dura, sou honesta. É diferente. Vou continuar lutando, porque o povo brasileiro merece respeito, consideração e, sobretudo, merece a democracia que nós conquistamos com tanto esforço. (Presidenta Dilma Rousseff)
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Golpe da direita é assim: tiram a primeira mulher presidenta do Brasil, honesta, para colocar governo só de homens, brancos, corruptos, bandidos, sem voto, machistas. (Emir Sader - sociólogo. cientista político)
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Parece que não pretendem só o impedimento da presidente. Querem que ela aceite calada e abra mão da garantia constitucional do acesso à justiça. Tenho muita dificuldade de entender e respeitar aqueles que se ofendem com o direito dos outros. (Andréa Maciel Pachá – juíza de Direito)
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O que espanta é a profusão de bandeiras desfraldadas, a enfeitarem fachadas e carros, ou envolverem cidadãos ignaros. Celebra-se, igual à conquista de uma Taça do Mundo, o enterro do Estado de Direito. O espetáculo é assustador sem deixar de ser patético, reação parva, para não dizer demente, à fatal prepotência cometida contra qualquer propósito democrático. (Mino Carta - jornalista, pintor, romancista)
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Temer, tema-me. Não vou te deixar governar. E você vai ficar para a história sim, como um usurpador, coberto de vergonha. Nem a tua poesia consegue ser tão ruim quanto isso. (Alice Ruiz – poeta e tradutora)
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Todos já sabem que o Brasil é um país onde putas gozam, cafetões têm ciúmes, traficantes cheiram, e, segundo Tim Maia, pobres são de direita. Agora, o “New York Times” incorporou: “Onde uma pessoa que não rouba é julgada por ladrões.” (Nelson Motta -  jornalista, compositor, escritor)
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O que sobrou não se chama mais democracia... (Márcia Tiburi – filósofa)

quinta-feira, 31 de março de 2016

De Onde Moro

Meu amigo, estou escrevendo, de onde moro, por saber que você sabe o que todos nós sabemos. Que ninguém mais me leia, para interpretar que sou isso, sou aquilo. Não sou – nem isso, nem aquilo. Sou contra. Sou a favor. Sou pelo contrário. Só quero viver o nosso tempo de paz, sem retrocesso. Se tem gente que perdeu a memória, muitos livros e museus (e até vítimas) continuam vivos, e muitos outros surgirão, contando, à posteridade, a história que construímos e destruímos hoje. Rebobina! - não funciona (definitivamente). Dizem que as ruas estão abarrotadas de cães raivosos e cegos, de raça ariana - por isso, não posso visitá-lo, meu amigo. Escolho escrever esse email singelo – mais sensato, que correr o risco de telefonar para sua casa, e algum grampeador incauto interceptar nossa amizade. Tenho alimentado traumas - tantos, que deixei até de usar grampos nos cabelos, e estremeço, quando ouço a batida de um martelo. Há alguns dias, tenho procurado, onde moro, as minhas garantias individuais, e não as encontro no lugar seguro e inviolável, onde as guardei. E tudo isso tem, em incerta medida, alterado minha rotina. Nem posso mais sair às ruas, com as cores de roupas que sempre vesti, sob pena de, em poucos minutos, ser julgada, condenada e linchada pelos cães raivosos. Qual será o programa policialesco que eles assistem? São tantos que instigam e aplaudem a violência. De onde moro, escuto vociferarem fascismo e psicopatia, que aprisionam a liberdade de todos os direitos. A tortura psicológica é monstruosa, meu amigo – e eu, semelhante a tantos (maioria), sou cidadã menor. Não sei por que, mas já não me apetece mais coxinhas, nos cardápios desses dias surpreendentes. Na sala de leitura, me alegra a presença da Constituição Federal, que persiste: “por uma sociedade livre, justa e solidária”. Eu, que sou (quase) à toa, tenho me assustado com as notícias de um outro 'deus' – mais poderoso que Têmis, ou Atena, Zeus, Hera, Ares, Artêmis e até Apolo. Lá fora, meu amigo, esgotos borbulham, cada vez mais fétidos, vazando, à revelia e a qualquer hora, o que ninguém sabe, mas, pior, acha saber - por isso, não pensa, nem questiona -, enquanto destila mais ódio. Onde moro, querem domesticar minha subjetividade, enquanto me enxergo impedida de ser objetiva. E eu que aprendi, na escola, que ser juiz é diferente de ser justiceiro (alguém se importa com isso?). Nem sei por que escrevo isso a você, meu amigo, mas pode ser por que sou impopular, e temo destituição (sei lá de onde e do quê). Dia desses, ouvi contarem, pela conservadora janela de vidro poluído, que, ali, na esquina, à esquerda de onde moro, um homem, vítima dos cães raivosos, foi salvo por policiais (tempos estranhos, esses), justamente por que verbalizou a palavra proibida: “discordo”. E ainda dizem que tem tilintar de panelas brilhosas – isso é demais para eu ouvir. Perco o sono, e, quando o encontro, sempre vem acompanhado do mesmo pesadelo: 1964, mutismo desesperador. Quando acordo, onde moro, imploro confirmação do calendário (o susto passou!), e rezo, com urgência urgentíssima, para que nem uma medida coercitiva venha tomar café comigo, sem aviso prévio. Meu amigo, de onde moro, pela janela cada vez mais imunda, posso ver algumas matilhas que perambulam pelas ruas, enroladas em bandeiras suadas de ódio e ressentimento. E tudo isso me faz lembrar o pesadelo que teima em bater, bater, enquanto eu, animal histórico que sou, escolho continuar sonhando (acordada), e acreditar que 1964 já era, os tempos são outros, vivemos o Estado Democrático de Direito. O gol perdeu a bola; o tiro nem saiu pela culatra, que ficou à espera. Nas ruas, “os cães ladram, a caravana passa”. Que o pesadelo sirva de alimento aos cães raivosos, de raça ariana, e me deixe dormir sossegada – e sonhar. Enquanto tudo ameaça, sem direito a defesa, tão perto da minha casa nova e democrática, ainda em construção, fico eu, com a minha única companhia: cálice. Já não bebo nem um gole – a realidade das ruas tem me embriagado tanto, de longe. Que eu acorde logo – na maior ressaca. Que o pesadelo acabe cedo, antes que a palavra justiça seja destroçada pelos cães raivosos, de raça ariana, e vire um palavrão. Que não destruam, meu amigo, sei lá a que pretexto, o que já conseguimos construir juntos, a duras penas, que só manifestavam escarlate. Podem dizer que esqueceram, mas todos lembrarão, sempre, das batidas cadenciadas dos cascos dos cavalos, dos coices e pisoteadas das ferraduras – depois, o toque de recolher (a indignação e a revolta). Que a dita dura realidade, meu amigo, não sobreponha o senso, o bom senso, e a consciência daqueles que pareciam exemplos de tudo isso, antes de começarem inverter os valores, mudarem as leis, com prejulgamentos e atitudes impetuosas, obedecendo a matilha, em troca de aplausos. Amém.

(Aos desinformados: hoje é 31 de março – não (mais) 1964. Basta.)
… e os cães (ainda) vociferam...

sábado, 12 de março de 2016

O que você tem a ver com isso?

O planeta está em crise. As pessoas estão em crise. Os setores estão em crise. A mídia está em crise. O trabalho está em crise. Os países estão em crise. A infância está em crise. A economia está em crise. O ser humano está em crise. A política está em crise. O caráter está em crise. A educação está em crise. A natureza está em crise. As redes sociais estão em crise. Os acordos internacionais estão em crise. A saúde está em crise. A ética está em crise. A família está em crise. A sensatez está em crise. O conceito de beleza está em crise. A segurança está em crise. A psicanálise está em crise. As relações estão em crise. Os jornais estão em crise. As artes estão em crise. Os animais (quadrúpedes) estão em crise. A bolsa está em crise. A velhice está em crise. A inteligência está em crise. Os valores estão em crise. A religião está em crise. A polícia está em crise. A sociedade está em crise. O papel higiênico está em crise.
É tanta crise, que falta espaço à reflexão. Por isso, poucos (ainda) insistem em pensar. A maioria reproduz o que a maioria faz – e ainda acha (achismo mesmo) que está sendo original. Crise de pensar, criar.
Ninguém mais se entende – nem quer compreender o que acontece. A crise predomina, em todos os lugares, em todas as decisões, em todos os gestos, em todos os olhares. É crise para todos os lados – nem precisa haver água parada, para se reproduzir, e causar mais e mais danos, sem qualquer expectativa de vacina, muito menos de cura.
Diante da realidade inteira em crise, eis que surge a pergunta: O que você tem a ver com isso?… Afinal, você, tão inocente, não é responsável pelas guerras, pela corrupção, pela fome, pelos linchamentos, pelas atrocidades religiosas, pela violência, pela crise da humanidade. Muito cá entre nós, sabemos que nem você, nem ninguém, é violento, fascista, psicopata, racista, ardiloso, homofóbico, corrupto, hostil, anormal, egoísta, pedófilo, desonesto, mau, sectário, egocêntrico, ladrão, xenofóbico, descumpridor dos seus deveres, arrogante, presunçoso, traidor, agressivo, bajulador, ciumento, linchador, negligente, grosseiro, vingativo, machista, cínico, torturador, mentiroso, ditador, oportunista, cruel, desequilibrado, estuprador, preguiçoso, intolerante, sádico, invejoso, dissimulado, rancoroso, bêbado atropelador, desleal, falso, orgulhoso, injusto, falsificador, maledicente, preconceituoso, possessivo, assassino, narcisista, colérico, inconsequente, burlador, avarento, o pior dos piores (ufa!). Todo mundo é bonzinho, cheio das melhores intenções e atitudes, e só quer ter o direito de adquirir armas, para se defender – ninguém deseja atacar, matar, dizimar. Os presídios e penitenciárias estão abarrotados, por todo o planeta, por aqueles que se dizem maiores vítimas, injustiçados, os mais inocentes. E ainda há os que estão do lado de fora, fazendo justiça – com as próprias patas -, para impor o mesmo discurso...
É o que penso a respeito – até agora. Pois é. E eu ainda questiono: O que você tem a ver com isso que escrevi?…

quinta-feira, 3 de março de 2016

Há vida, além da zona sul, da avenida paulista, das redes sociais, das novelas e dos programas policialescos

Somadas as minorias, a maioria da população brasileira resolveu levar a sério a enxurrada de reportagens da mídia nacional, que só mostra imagens de violência, em todas as regiões do País. Todo mundo, acreditando na insuperável violência brasileira, decidiu matar, invadir, violentar, linchar, saquear, quebrar tudo. Em vez de bater panelas, o povo está batendo no povo. Todo mundo bate, apanha, e se debate, cheio de manha. Destros e canhotos exalam ódio, provocando pancadaria, nas calçadas, esquinas e residências. Para cobrir, ao vivo, tantas tragédias, a globo importou equipamentos dos estados unidos; o sbt, do méxico; e os demais canais, do paraguai mesmo.
Finalmente, os ditos profissionais da televisão sensacionalista conseguiram: o Brasil está em guerra. Os telespectadores nem quiseram esperar a aprovação da liberação das armas, defendida pela “bancada da bala”, no congresso - se armaram de paus, pedras e ferramentas de trabalho, e ocuparam as ruas de todas as cidades brasileiras. Com a força de todos os canais de televisão, a população brasileira não quer mais esperar “tragédias naturais” - enchentes, terremotos, maremotos, tsunamis, queimadas… demoram para chegar, e vão embora logo.
Os apresentadores dos programas policialescos estão em êxtase, chegam babar, diante dos noticiários que anunciam a tamanha barbárie, por todo o País. Os livros de todas as bibliotecas foram queimados. Todas as bandeiras do Brasil tiveram as cinzas pisoteadas. Bombas foram arremessadas, em todas as escolas e universidades, e em todos os cemitérios e hospitais. Apresentadores de programas policialescos deliraram, ao informar a notícia de que nazistas haviam levado todos os presidiários brasileiros a câmaras de gás, a pleno vapor, pelo País. Com a consultoria da empresa samarco, todos os rios brasileiros foram contaminados, e os peixes não deixaram descendentes escondidos. Os locais de trabalho fecharam, antes dos prédios desabarem. Depois de tantos cursos intensivos de violência, nos programas policialescos, telespectadores foram às ruas, e partiram à prática de fuzilamento ao alvo – animais e transeuntes mortos. Todas as agências bancárias, bovespa e lotéricas, a exemplo dos supermercados, foram saqueadas. Museus, galerias de artes, monumentos, teatros e cinemas foram destruídos por incêndio fantástico. Cansados do stress e dos acidentes causados pelo trânsito caótico, em todo o País – contados em 'prosa e verso', nos programas sensacionalistas diários -, motoristas e usuários de transportes coletivos bombardearam todos os túneis, viadutos, vias públicas, pontes, e até as estações de trens e metrô, aeroportos, portos e rodoviárias, para garantirem a solução imediata de todos os problemas do setor. Grupos piromaníacos organizados dizimaram toda a floresta amazônica e a mata atlântica inteira. As praças, antes públicas, estão cercadas. Dos três poderes constituídos, não restou meio. Fascistas e psicopatas comemoram, em tiroteios espetaculares, a explosão de todas as obras de Oscar Niemeyer, principalmente, as de Brasília. As forças armadas divulgam nota, manifestam obediência, à espera da retomada da ditadura. Enquanto divulgam o terror brasileiro, apresentadores dos programas policialescos surtam, histéricos, em orgasmos múltiplos, ao vivo.

Como o sonho, o pesadelo (ainda) não acabou. Felizmente, acordei. Preciso levantar. Do pesadelo à realidade: (ainda) há vida, além da zona sul, da avenida paulista, das redes sociais, das novelas e dos programas policialescos… Por precaução e sobrevivência, não vou ligar a televisão. Agora, tranquila, lembro que nunca morei na zona (sul), nem tampouco sou mais uma presa das redes (sociais) – vivo nadando contra a maré, nem sempre nos trilhos, mas respeitando a faixa (de segurança).

domingo, 31 de janeiro de 2016

Vida fácil?

   Quem pensa que vida fácil é uma das profissões mais antigas da humanidade, engana-se profunda e injustamente. Não argumento a respeito, nem ouso me deter em detalhes que desconheço, da vista do ponto das trabalhadoras do sexo, que sabem que a vida delas também não é nada fácil.
   Resta, então, pensar na infância, como vida fácil. Que nada! A infância – a primeira, mais ainda – deve ser comparada a um dos piores filmes trash que se tem notícia. Ainda bem que esquecemos da nossa primeira infância. Só imagine um mundaréu de gentes em cima de você, na maior catarse humana. Cegueira demais. Expectativas demais. Fantasia demais. Esperança demais. Enquanto cada qual pensa no próprio umbigo, o bebê, se pudesse pensar, pensaria só no cordão umbilical que perdeu. Ele chora a falta, chora por não saber, e choraria mais ainda, se soubesse. Nem pensar. Nos primeiros meses, surgem cólicas, mal-estar no corpo todo. A coisa só piora, quando o infante começa a caminhar (correr), falar, enxergar o mundo e as pessoas, raciocinar. De lá para cá, a coisa só desanda. Não podia ser diferente. E ainda crianças são esquecidas dentro de carros trancados, em estacionamento.
   Depois de ser expulso do paraíso (útero), o bebê sofre o primeiro e mais dolorido impacto: viver. O pior é que quase tudo da própria sobrevivência não depende dele – só mesmo o respirar, sem saber que respira. Por isso, a primeira linguagem é chorar – só mesmo na primeira infância, os adultos, ao redor, fazem tudo para acabar com o choro infantil. O tempo passa, até que chega a nova ordem, sem exceção: proibido chorar. A criança tem de aprender a caminhar, falar, comer, beber, fazer gracinhas para os adultos – em tudo isso, vai aprendendo a raciocinar, mas poucos adultos percebem esse detalhe. Vale lembrar: nos países sempre em guerra, crianças também nascem – e vivem, e são mortas. Nos países onde a guerra é camuflada, atrás dos muros da hipocrisia, recém-nascidos são embalados em sacos plásticos, e abandonados em lixeiras. Vida fácil – quando, aonde?…
   Após, vem ainda a adolescência – fase triste, melancólica, período das maiores incertezas (pelo menos, assumidas). Talvez, seja uma das épocas da vida em que a gente mais questiona – tudo e todos. Com a lentidão do tempo (demora a passar), a maioria se acomoda, torna-se subserviente do adulto, e aluga uma quitinete, na zona de conforto mais próxima, e rende-se ao consumismo. Tanta coisa acontece, nesta fase: o adolescente é grande para os pequenos, e pequeno para os grandes. Como se houvesse necessidade de 'uma mãozinha', os adultos ainda dizem ao adolescente “não faça isso, você não é mais criança”, para, numa outra situação, falarem “você é apenas uma criança”. Por isso, o adolescente se desespera tanto: sofre com os menores, e não compreende os maiores. Sabe, sem saber, que não é igual aos irmãos, nem aos pais, nem a ninguém. Busca ser diferente – acaba descobrindo que somos iguais e diferentes, o tempo todo. E ainda precisa ser o primeiro da classe, o primeiro no futebol, a primeira a usar maquiagem e salto alto, o primeiro a beijar na boca, a primeira no balé, o primeiro no videogame, o primeiro a perder a virgindade, o primeiro a receber diploma, o primeiro da família, o primeiro da escola, o primeiro da turma. Tem de escolher uma carreira profissional promissora, correspondendo ao que os adultos esperam dele. Se for pobre e negro, o adolescente sofre ainda mais, nem sempre escapando das balas perdidas, as quais, coincidentemente, acham sempre o mesmo alvo. Tudo – nada fácil.
   A fase adulta chega, fazendo escândalos revolucionários – só no começo -; em seguida, o fogo de palha não deixa sequer lembrança. A criança que sonhava tornar-se super herói, o adolescente que queria mudar o mundo simplesmente são deixados de lado pelo adulto, que só quer saber de alimentar-se de imagens, poder($) e fama. Se o adulto é pobre e negro (conseguiu sobreviver às balas perdidas da adolescência), certamente, é o primeiro suspeito de cometer todos os crimes. Por isso, é linchado pela sociedade moralista, e/ou permanece preso, sem julgamento. Se for ator global, pode ser liberado da cadeia, sem pedido de desculpas.
   Mas o que o adulto mais deseja mesmo é ser bem-sucedido – no peso e na medida ditados pela sociedade. Nas redes sociais, todo mundo exibe felicidade desconhecida de todo mundo. O adulto quer pertencer aos grupos, e, por isso, tenta imitá-los, para, depois participante, mostrar-se melhor que os demais. Os adultos convivem com outros adultos, que reproduzem vidas aparentes de outros adultos. Por isso, adulto perde o sono, trabalha e consome demais, querendo compensar o que não teve e o que não fez, deixando de fazer e abandonando tantas coisas da essência humana. E ainda quer ser melhor que os outros (adultos), sem saber quem ele mesmo (adulto) é. Não sabe que o que vê, não enxerga, e quer convencer os outros (adultos) para olharem o que ele (adulto) aparenta ser. Nesse processo exaustivo, quase impensado, o adulto está sendo exemplo, às crianças e aos adolescentes. Até poderia ser vida fácil, se fosse outra vida: adulta.
   Tem mais. O tempo (algoz) não deixa por menos: logo no início da velhice, entrega o veredito da vida: fim da linha. Enquanto alguns escolhem seguir vivendo, aprendendo com a nova etapa, outros tentam fazer o que sempre quiseram, tanto, que, às vezes, acabam exagerando no botox, nas cirurgias plásticas, no excesso de bebidas e/ou comidas. Tem aqueles que seguem, se arrastando, numa vida concentrada nas dores que o tempo faz latejar no corpo. Junto com a velhice, podem chegar, também, o abandono, o desamparo. Quem quer saber de um velho caquético, fora de moda, que esquece tudo, e só lembra do próprio passado, cada vez mais distante?… Ainda assim, os velhos persistem – vida nada fácil.
   Apesar de desejarem estar numa outra fase da vida, fazer parte de uma outra época dessa história mal contada, todos vivem – e morrem.
   Nem sempre a grama do vizinho é a mais verde. A vida não é fácil, para ninguém, mas pode tornar-se insuportável, para todos, quando o adolescente escolhe ser adulto, antes do tempo; o adulto resolve ser bebê, bem depois do tempo; e quando todos exigem que o bebê se comporte como adolescente, muito antes do tempo, sem que o pequeno saiba disso. Não dá. O velho, quase sempre, quer voltar a ser criança, enquanto o adulto deseja ser jovem, e o adolescente quer tornar-se adulto. Somente o bebê (ainda) não sabe que pode querer, desejar. Na realidade, todos sonham: liberdade e segurança. Mas são tantas as exigências – internas, externas.
   E ainda tem gente que imagina que estamos neste planeta, de férias, ou a passeio…
   Vida fácil? Que eu conheça e saiba, só mesmo a da samambaia que eu rego e trato – existe, sem saber que existe, e sequer ocupa espaço de exibição, para julgamentos públicos.
   Num ínterim qualquer dessa vida sempre tão frágil: game over.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Carta aos jovens de espírito

Você pode até se orgulhar, ao dizer que faz parte do grupo dos jovens de espírito, fingir nos ignorar – a cada dia, tornamo-nos maioria. Não tem escapatória, mesmo quando você nos encobre de todos os olhares. Bem no fundo, permanecemos na sua cabeça – você sabe disso. E nos multiplicamos – em silêncio.
Tem muita gente que até faz poesia, inspirada na nossa existência – fala que somos símbolo de experiência e maturidade. Balela! Somos o que somos, por que, tanto quanto você, vocês todos, nós fazemos parte da natureza (real, realista).
Um dia, fatalmente, surgimos, e não abandonamos você. No início, nos multiplicamos, mas, aos poucos, só os mais fortes permanecem. Você pode até tentar nos eliminar – um ou outro se deixa morrer, mas, logo, a maioria resiste. Nossa revolução é silenciosa, para, só mais tarde, você perceber que não tem jeito – pode enfeitar, pintar o sete, nós prevalecemos na sua cabeça.
Você pode até continuar se autointitulando jovem de espírito – que seja mesmo, e mantenha a saúde renovada, sem hipocondria, ou qualquer outro desequilíbrio, até o último minuto marcado pelo seu relógio do tempo. Independente das suas escolhas, seremos sua companhia mais constante.
Alguns choram, desesperados que ficam, com a nossa procriação deliberada. Crescemos e nos multiplicamos, à revelia do que você deseja, pensa, ou sente. Vocês são muitos – nós somos, infinitamente, muito mais.
Tanto quanto impossível, não brigue, nem se revolte, com a nossa existência tão presente, e inesquecível. Com toda certeza, você não escolheria a única outra opção, para não nos ter na cabeça. Se quiser, compreenda que o tempo segue os passos da natureza, ignorando se você nos esconde, ou nos revela – existimos simplesmente.
Quanto a nós, não questione além do que você enxerga. Somos predestinados a cumprir a sina – talvez, simbolicamente, representamos a prova de que você (ainda) está vivo, e pode fazer (outras, ou as mesmas,) escolhas.
Somos filhos obedientes do tempo – até mantemos a nossa beleza, o nosso charme. Tenha olhos para enxergar isso – ou se descabele. A escolha é – sempre – sua: ou aceita envelhecer, ou não aceita, e envelhece do mesmo jeito. O que todo mundo quer é longevidade, não é mesmo?...
Assinado: seus cabelos brancos.

P.S.: Que você (ainda) tenha vida, para, um dia, diante do espelho, nos tocando à raiz, com suas mãos distraídas, longe dos olhares alheios, sinta compaixão – quem sabe, até uma mecha de amor.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A vida segue, mais pobre – sem Marília...

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Neste cinco de dezembro de 2015, o Brasil amanheceu mais pobre – pobreza dolorida, que arde e sangra na cultura e na arte nacionais. Marília Pêra - atriz, bailarina, cantora, coreografa, diretora e produtora de teatro – dormiu, não mais acordou. Por isso, o Brasil amanheceu mais pobre: perdeu tantas criaturas, numa só. A ausência de Marília será sentida, a partir de agora, em todos os palcos e estúdios em que ela pisou, e por onde não fez arte, também. Morre a delicadeza da criatura empática, sempre preocupada com o outro, os outros – qualidade destacada pelos amigos e colegas dela. O que permanece (vivo) é o que ficou na memória, nas lembranças.
Marília viveu e morreu pela arte, se entregou – inteira e plena – à arte. E que sentido tem a vida, sem arte? Como viver, sem arte?… Marília partiu, com o mesmo sentimento que nasceu e viveu: amor à arte. Por isso, o sol amanheceu carente de brilho. “O céu ganhou uma estrela”, disse a atriz Eva Wilma. Mas nós perdemos a existência de uma artista completa, honesta com o ofício que escolheu viver (morrer) - respondo eu, que não convivi com Marília Pêra, sequer me deslumbrei com um de seus belíssimos espetáculos, ao vivo. Saber da existência de criaturas do bem e talentosas, a exemplo de Marília, já me transborda de esperança de que nem tudo está perdido.
Em mim, resta a dor da perda de um País inteiro, onde muita gente confunde música com som, ou ruído, barulho, arte com forma de expressão. Hoje, cinco de dezembro de 2015, perde o Brasil – muito mais que uma Copa do Mundo, ou cinco. Perdem os que têm sensibilidade, e os psicopatas (insensíveis, sem empatia alguma). Todos sofrem a perda da arte – conscientes, ou não. Marília já faz falta, a quem soube da existência dela, e a quem ignorava.
Talvez, hoje - primeiro dia sem Marília -, as pessoas mais próximas considerem a morte dela, uma injustiça. Tratando-se de Marília, a morte seria injusta, na mesma proporção, se a obrigasse partir, depois de quatrocentos anos de arte da maior e melhor qualidade. A própria Marília sentiria isso, por que transbordava vida, e sonhava mais vidas para o palco – novos e inimagináveis projetos brotariam, o que causaria aplausos de todas as emoções (pura doação).
Marília Pêra partiu, deixando um legado artístico equilibrado entre sensibilidade e fragilidade. Mesmo se houvesse intenção, não se teria como apagar os rastros de luz de tamanha doação (visceral e plena!) de toda a generosidade que fica. Exemplo de entrega desmedida, Marília soube ser tão profunda, até mesmo nas personagens mais superficiais que assumiu, no teatro, no cinema e na televisão. Nos textos mais densos, ela foi mestra em falar e silenciar, com os olhos, os gestos, a respiração, de corpo inteiro – por todos os sentidos e poros. Marília viveu imersa e diluída na arte de viver – por isso, tanta vida bondosamente escorrendo e transbordando por todos os cantos dela. Quando cantava Carmem, Elis, Dalva, Clara, Callas, e tantas outras – levitava, e fazia levitar. E não houve espetáculos, peças, filmes, novelas, protagonizados e encenados por ela, que tenham passado desapercebidos pela sensibilidade pública desperta.
Marília Pêra entra e sai de cena - eterna que é -, de mãos dadas com a arte. Quanto a nós, pobres mortais, permanecemos no mesmo caminho, na mesma fila de espera, sem sabermos o que Marília não sabia.

Letra do Samba – Carnaval 2015 – Mocidade Alegre

“Nos Palcos da Vida, Uma Vida no Palco... Marília!”

Intérprete Oficial: Igor Sorriso

Compositores: Ana Martins, Douglas Sabião, Imperial, Marcio Bueno, Rodriguinho e Victor Alves

Divina inspiração, um ato de amor
A arte concebeu Marília
Tão menina, a flor bailarina
Carrega no sangue o dom de encenar
Vai brilhar na ribalta infinita
Liberta, a poesia não vai se calar
Nos palcos de corpo e alma
Desponta no alvorecer
Destino traçado, talento e magia
Estrela a resplandecer

Ê mulher... Lições pra ensinar
São elas por ela, mil vidas contar                                   refrão
Tem Carmem Miranda, ganzá e pandeiro
De saia rodada, ginga no terreiro

Dama do cinema e televisão
Em qualquer cenário transmite emoção
Graciosidade e carisma
Um anjo da noite embala criança
A lua cheia de amor reflete esperança
Meu samba chamou você pra sambar
E te consagrar rainha do nosso carnaval
Pois o teu nome já é imortal...Bravo, Marília!
Orgulho do nosso país... És musa, brilhante atriz
O mundo a reverenciar...
Nossa “Morada” a homenagear!

Vem aplaudir a diva nos palcos da vida
Faz delirar, meu povo alegre a cantar                            refrão
Mulher guerreira, bem brasileira
A Mocidade é Marília Pêra

(Exatamente há um mês atrás, li a notícia de que Marília Pêra havia partido – com aviso prévio. Escrevi - no papel mais à mão - o que você acaba de ler, e guardei no silêncio da minha alma. Só mesmo o tempo para nos mostrar o que persiste vivo – em cada um de nós.)

A vida segue, mais pobre – sem Marília...
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De olho