domingo, 18 de setembro de 2016

Quanto maior, melhor.

Eu gosto mesmo de uma fila – quanto maior, melhor. Fila é um dos raros momentos em que todo mundo se iguala, mesmo não querendo se igualar, mesmo permanecendo tão diferente: patrão, empregado, desempregado, dona de casa alugada, “office boy” estressado, monge estagiário, homofóbico, ateu, aquele mundaréu de gente sem identificação, desinteressada e desinteressante. Ninguém se importa com ninguém. Todos, sem exceção, se importam mesmo, quando acontece de a atendente informar: O sistema saiu do ar. Aí, não tem jeito mesmo: a fila dos burburinhos se transforma, imediatamente, na fila dos gritos e palavrões. É afrodescendentezinho (pra não ferir com 'neguinho' mesmo) esbravejando pra todo lado. De repente, aparece um segurança – e a fila segue, silenciosa, forçosamente parada em minutos que levam uma eternidade.
Eu gosto de filas – mais ainda, eu gosto de ficar, e aprender a esperar, em filas. Há filas intermináveis, e filas que acabam de surpresa. Filas que não andam, e filas que parecem maratona.
Nas filas, a maioria está sempre com pressa. Eu escolho entrar em filas, quando tenho todo o tempo do mundo. E ainda me divirto. Observo – é curso humano intensivo, sempre, sem reprise. Nas filas, não faltam aqueles que reclamam da quilometragem. E nunca se vê gente elogiando fila, manifestando prazer, por estar em pé, aguardando atendimento. Até quando há bancos e cadeiras, ninguém esquece que está mesmo numa fila: o enfileirado se ajeita de um lado, de outro, olha para o relógio, cronometrando até os segundos. Não adianta: é fila. Nunca vi essa gente toda conectada fazendo “selfie” em fila de agência bancária, ou lotérica. Alguns ainda se fotografam, sorridentes, em filas de aeroporto – antes de saberem do atraso, ou cancelamento, do avião, claro.
Nos mais variados locais públicos, que aglomeram filas quilométricas, o que não falta mesmo é cartaz: “estamos trabalhando por você, cliente, reduzindo as filas”. Mas, na realidade, o que reduz mesmo é o número de caixas atendentes. Por isso, nem sempre aumenta a população em fila – o atendimento acaba cada vez mais concentrado. O que sempre foi um conjunto de seis filas acaba se tornando uma fila, seis vezes maior, enfurecendo a maioria dos clientes.
Nessa realidade intolerante em que vivemos, sem olharmos para os lados, sem tempo para pensar, as filas prevalecem no sistema: filas, unidas, jamais serão vencidas. E, assim, seguimos – clientes disciplinados -, de fila em fila, de reclamação em reclamação, de pressa em pressa, de raiva em raiva, de stress em stress, de egoísmo em egoísmo. O mais estranho é que a fila – sempre coletiva – é um dos locais mais individualizados da sociedade. Nem ferida exposta passa na frente. O enfileirado pode estar atrasado para o enterro do tataravô – sem discussão: se é o 58º colocado no ranking, só será atendido depois dos 57 ansiosos, à frente dele. Mas sempre tem pior. Há aqueles que, sem qualquer vergonha, com mania de “office boy”, resolve carregar uma 'pastinha', fila afora. Quando chega na frente do caixa bancário, o milagre acontece: faturas e mais faturas se multiplicam, num passe de mágica, semelhantes, não a pombos, a penas que esvoaçam no balcão. Nos demorados minutos seguintes, a fila entorta, os enfileirados reclamam – alguns lembram até palavras deixadas de lado, em tantas filas: solidariedade, empatia, compaixão.
Mas, apesar de, e com tudo isso, eu gosto de uma fila, onde a gente encontra mais diversidade do que na feira. Em todas as filas – a da padaria do Seu Manoel, ou a do Banco dos maiores investidores -, sempre há os que reclamam do tempo de espera, do que ainda têm por fazer. E não faltam aqueles que dão aulas de economia, culpam os governos. Têm os que fazem da fila, divã – tantas histórias de vida contadas para enfileirados que não prestam a mínima atenção.
Tem gente que resolve lanchar, em plena fila estática e estressada. Comem de tudo, por ali, um atrás do outro: balas, pastel de feira, chicletes, chocolates, salgadinhos, e até marmita. E engolem medicamentos, a seco. Atendem e fazem ligações, nos mais variados modelos de celulares. Fazem crochê, tricô, e raramente alguém lê um livro. As filas de banheiros públicos são sempre as mais movimentadas. Alguns circulam, ensimesmados, em passos curtos e leves. Outros chegam bater à porta: “Vai demorar muito?”
Nas filas, você escuta de tudo: “Justamente hoje, que tenho tanto por fazer, essa fila não anda”. “Vou reclamar no Procon”. “Tem espaço vago, ali na frente. Vamos apertar, pessoal”. “Tomara que a fila do jogo da mega sena esteja menor”. “Pode segurar o meu lugar? Preciso ir ao banheiro, com urgência”. “Que bicha que não se mexe”! “Não tem quem aguente tantas filas. Por isso, faço tratamento para o sistema nervoso”. “Dois, quatro, seis… são 38, na minha frente”. “Tenho cabelos brancos, mas não sou idoso”. “Tem gente tentando furar a fila”. “Pode reparar, a fila do lado anda depressa”. “Desisto. Volto amanhã. Fui”.
Mas bolo sem a única cereja em cima não é bolo. O auge de uma fila (de liquidação, principalmente) chega, quando a funcionária (até então, invisível, no meio da multidão afoita) avisa, timidamente: “Encerramos nosso atendimento, por hoje, mas, amanhã cedo, esperamos todos vocês”. É o fim.

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