quinta-feira, 12 de maio de 2016

A democracia brasileira agoniza

Justamente na véspera dos 128 anos da abolição da escravatura, a democracia brasileira, depois de levar chibatadas, presa ao tronco, agoniza. Lá fora, milhões de brasileiros sofrem, ao ouvir o inesquecível tropel da ditadura, que retorna, não mais em cima de equinos, mas com seres bípedes fascistas e psicopatas. O passado volta, com mais força e ódio. Mesmo assim, muitos tapam os ouvidos, e ligam a televisão aberta, cheia de novelas e programas policialescos.
Se a esquerda errou, erramos todos nós – na esquerda, na direita, em cima do muro, no “muito antes, pelo contrário”. Errou, quem ficou só apontando as tentativas de acerto, do governo Dilma, que resultaram em erros. Errou, quem preferiu fechar portas e janelas, e só assistir as novelas globais, o programa policialesco de uma televisão evangélica. Errou, o governo Dilma, que se distanciou do povo (maioria que o elegeu) e dos grupos de esquerda, imaginando (quem sabe?) fazer todas as mudanças – políticas, econômicas, sociais -, sem se estressar em debates, para não causar atraso nas metas.
Meu pai sempre me fez acreditar que, em tudo, existe o lado bom da história: “é preciso ter olhos, para enxergar”. Por isso, penso – eu, que penso tão inutilmente – que o ódio do cunha, que sentiu-se traído pelo governo, colocou, mais uma vez, a roda da indignação em movimento (o que meu pai chamaria “o mal a serviço do bem”). Antes de cunha abraçar e fazer conluio com o jurista ex-petista, as águas da superfície estavam calmas.
Depois que 42 milhões de brasileiros desembarcaram dos índices de miséria, o povo foi aos shoppings, concessionárias de veículos, aeroportos, teatros, restaurantes, supermercados, cinemas, estádios de futebol, até ao exterior. Os gastos, com débito e crédito, ascenderam. O povo, consumido pelo consumismo, cada vez mais esfomeado, embriagou-se – e só acordou, com ressaca, no dia que o cunha resolveu ser taxativo com o governo: “ou faz o que eu quero, ou não brinco mais de coalizão”. Foi o estopim de uma guerra partidária velada, antiga. Brasília tornou-se, então, legitimamente, a “cidade luz” (nada a ver com Paris) - tudo clareado.
De lá pra cá, não há quem não saiba o que está acontecendo – mesmo quando finge não saber, e até afirma não ter a ver com isso. Os smarphones “de ponta”, comprados no crediário de 24 prestações mensais, transbordam notícias sobre o atual momento político brasileiro. Em todas as redes sociais, os brasileiros discutem (finalmente!) questões políticas. Já era esperado que, quando isso acontecesse, viria com imaturidade – mais embate que debate, concurso de adjetivos chulos. Mas a história, dizia meu pai, sempre tem um lado bom: hoje, a maioria já mostra a cara, e conhece a cara do outro. Fascistas e psicopatas são os mais afoitos – se retroalimentam, em manifestações (públicas) de ódio e ressentimento. Penso que será difícil – nada é impossível – essa gente toda voltar para o armário, depois do efeito do veneno ódio.
Na realidade, a democracia brasileira é (ainda) adolescente – cheia de vontades e contradições. Por isso, testemunhamos, em todo o processo de impeachment, tantas aberrações, por parte de deputados e senadores, todos eleitos, democraticamente, pelo povo, que pouco (ainda) sabe de democracia. A princípio, o processo de impeachment de Dilma Rousseff era para permanecer jurídico, o que inverteu, durante as tramitações no congresso nacional. No final, o processo histórico resultou em questão e decisão políticas. Obedecendo o rito constitucional, as vossas excelências do supremo tribunal federal não manifestaram-se a respeito, apenas restringiram-se a indeferir pedidos de finalização do impeachment. Na minha desimportante opinião - pequena que sou (maioria), diante do olimpo -, obedecer o rito é respeitável. Ainda assim, penso que houve omissão, por parte dos ministros do stf, que, em momento algum, mesmo quando tomaram conhecimento oficial do teor do processo escrito pelo jurista ex-petista, apontaram a fragilidade e a inconstitucionalidade do documento acusatório. Não fossem vossas excelências, eu até imaginaria a cena: no camarote, acima do picadeiro, todo mundo de braços cruzados, postando em redes sociais, rindo baixinho, fazendo apostas.
Logo no começo de tudo isso, o povo despertou no berço esplêndido, desligou a televisão, parou de assistir jornal nacional e novelas, e começou ir às ruas, em defesa da democracia, da manutenção do governo Dilma, como nunca havia feito, até então. Era tarde. Os senhores deputados já tinham fechado acordo e ensaiado o grand finale, nas bancadas do boi, da bíblia e da bala (bbb). Por isso, durante a votação do impeachment, na Câmara dos Deputados, fomos condenados a assistir, em rede pública nacional, as vergonhas: “pelos pais, pelos filhos e pelos netos, os que já existem e os que estão chegando”, “pelos maçons do Brasil”, “pelo meu país, por deus, por minha família, pelas pessoas de bem”, “que deus tenha misericórdia desta nação”, “por Sérgio Moro, pelo Paraná”, “pelos evangélicos de toda a nação”, “pelo povo de São Paulo nas ruas com o espírito dos revolucionários de 32, pelo respeito aos 59 milhões de votos contra o estatuto do desarmamento em 2005, pelos militares de 64, hoje e sempre, pelas polícias, em nome de deus e da família brasileira”, “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi o pavor de Dilma Rousseff”, #*@%#*&*¨”.
Mas a sangria não parou por aí. Ainda restava ao Senado Federal clicar: game over. E assim foi feito – na calada da noite passada, madrugada adentro. Sabendo, de antemão, o resultado (guilhotina), o senhor presidente do senado permitiu a entrada de jornalistas e cinegrafistas da direita, da esquerda, de cima do muro. Quanto mais público para testemunhar a guilhotinada, melhor – e não faltaram os deputados federais para acompanharem o veredictum. De casa cheia, o senhor presidente anunciou o final do primeiro tempo do jogo: 55 X 22. Primeiro tempo, por que Dilma Rousseff garantiu que retornará à presidência, para cumprir o mandato, para o qual foi eleita por 54,5 milhões de cidadãos, que encerra em 31 de dezembro de 2018 – repetiu isso, quando falou ao povo, que a aguardava, na saída do Palácio do Planalto. Dilma Rousseff abraçou e foi abraçada pelo povo, “como nunca antes, na história desse país” - abraço tardio, lamentavelmente. (Tem gente que ainda lembra de Fernando Collor descendo a rampa do Planalto, acompanhado da esposa e da empáfia que não o deixava baixar a cabeça, nem murchar o peito. Mais ninguém.)
A adolescente democracia brasileira (Oxalá!) parece ter aprendido algumas lições, nas últimas semanas. Assim, também acontece com estudantes adolescentes, que cabulam aulas, e depois passam madrugadas insones, para estudarem à prova do dia seguinte. O importante mesmo é que aprendam, aprendamos: não existe liberdade, sem responsabilidade, sem compromisso. Votamos, elegemos – nada de lavarmos as mãos, depois, e/ou só apontarmos os erros, e reclamarmos. Foi votada, eleita – não pode se afastar do povo que a elegeu. Os envolvidos no processo – seja eleitoral, ou de impeachment – continuam envolvidos, antes, durante e depois da tempestade.
O momento, certamente, é de exaustão – luta cansativa, sonhos desanimados (não mortos). Com certeza, tudo isso vai passar. O governo interino chegará com a simpatia conhecida – tema quem temer. Pelo visto, a mobilização continuará nas ruas de todo o Brasil. O povo promete continuar gritando “é golpe”, até que os surdos também gritem: “já entendemos o que vocês gritam”.
Quanto a mim, pequena mortal, sem qualquer direito a voto – a favor, contra, nulo, ou de abstenção -, releio o sensacionalista:
http://www.sensacionalista.com.br/2016/05/12/brasil-acorda-e-se-assusta-ao-ver-temer-ao-lado/

Brasil acorda e se assusta ao ver Temer ao lado

O Brasil abriu os olhos, mas não quis levantar. Ficou deitado, viu que horas eram. Depois olhou pro lado e viu Michel Temer. O susto foi grande. Numa fração de segundos, o Brasil tentou se lembrar de como chegara ali. Mas não conseguiu. Talvez tenha bebido. Talvez estivesse tão mal, que criou uma defesa contra a memória.
Só depois soube que, por 55 a 22, os senadores da República levaram Temer para sua cama. Como não tinha outro jeito, o Brasil levantou e foi trabalhar.

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