domingo, 31 de janeiro de 2016

Vida fácil?

   Quem pensa que vida fácil é uma das profissões mais antigas da humanidade, engana-se profunda e injustamente. Não argumento a respeito, nem ouso me deter em detalhes que desconheço, da vista do ponto das trabalhadoras do sexo, que sabem que a vida delas também não é nada fácil.
   Resta, então, pensar na infância, como vida fácil. Que nada! A infância – a primeira, mais ainda – deve ser comparada a um dos piores filmes trash que se tem notícia. Ainda bem que esquecemos da nossa primeira infância. Só imagine um mundaréu de gentes em cima de você, na maior catarse humana. Cegueira demais. Expectativas demais. Fantasia demais. Esperança demais. Enquanto cada qual pensa no próprio umbigo, o bebê, se pudesse pensar, pensaria só no cordão umbilical que perdeu. Ele chora a falta, chora por não saber, e choraria mais ainda, se soubesse. Nem pensar. Nos primeiros meses, surgem cólicas, mal-estar no corpo todo. A coisa só piora, quando o infante começa a caminhar (correr), falar, enxergar o mundo e as pessoas, raciocinar. De lá para cá, a coisa só desanda. Não podia ser diferente. E ainda crianças são esquecidas dentro de carros trancados, em estacionamento.
   Depois de ser expulso do paraíso (útero), o bebê sofre o primeiro e mais dolorido impacto: viver. O pior é que quase tudo da própria sobrevivência não depende dele – só mesmo o respirar, sem saber que respira. Por isso, a primeira linguagem é chorar – só mesmo na primeira infância, os adultos, ao redor, fazem tudo para acabar com o choro infantil. O tempo passa, até que chega a nova ordem, sem exceção: proibido chorar. A criança tem de aprender a caminhar, falar, comer, beber, fazer gracinhas para os adultos – em tudo isso, vai aprendendo a raciocinar, mas poucos adultos percebem esse detalhe. Vale lembrar: nos países sempre em guerra, crianças também nascem – e vivem, e são mortas. Nos países onde a guerra é camuflada, atrás dos muros da hipocrisia, recém-nascidos são embalados em sacos plásticos, e abandonados em lixeiras. Vida fácil – quando, aonde?…
   Após, vem ainda a adolescência – fase triste, melancólica, período das maiores incertezas (pelo menos, assumidas). Talvez, seja uma das épocas da vida em que a gente mais questiona – tudo e todos. Com a lentidão do tempo (demora a passar), a maioria se acomoda, torna-se subserviente do adulto, e aluga uma quitinete, na zona de conforto mais próxima, e rende-se ao consumismo. Tanta coisa acontece, nesta fase: o adolescente é grande para os pequenos, e pequeno para os grandes. Como se houvesse necessidade de 'uma mãozinha', os adultos ainda dizem ao adolescente “não faça isso, você não é mais criança”, para, numa outra situação, falarem “você é apenas uma criança”. Por isso, o adolescente se desespera tanto: sofre com os menores, e não compreende os maiores. Sabe, sem saber, que não é igual aos irmãos, nem aos pais, nem a ninguém. Busca ser diferente – acaba descobrindo que somos iguais e diferentes, o tempo todo. E ainda precisa ser o primeiro da classe, o primeiro no futebol, a primeira a usar maquiagem e salto alto, o primeiro a beijar na boca, a primeira no balé, o primeiro no videogame, o primeiro a perder a virgindade, o primeiro a receber diploma, o primeiro da família, o primeiro da escola, o primeiro da turma. Tem de escolher uma carreira profissional promissora, correspondendo ao que os adultos esperam dele. Se for pobre e negro, o adolescente sofre ainda mais, nem sempre escapando das balas perdidas, as quais, coincidentemente, acham sempre o mesmo alvo. Tudo – nada fácil.
   A fase adulta chega, fazendo escândalos revolucionários – só no começo -; em seguida, o fogo de palha não deixa sequer lembrança. A criança que sonhava tornar-se super herói, o adolescente que queria mudar o mundo simplesmente são deixados de lado pelo adulto, que só quer saber de alimentar-se de imagens, poder($) e fama. Se o adulto é pobre e negro (conseguiu sobreviver às balas perdidas da adolescência), certamente, é o primeiro suspeito de cometer todos os crimes. Por isso, é linchado pela sociedade moralista, e/ou permanece preso, sem julgamento. Se for ator global, pode ser liberado da cadeia, sem pedido de desculpas.
   Mas o que o adulto mais deseja mesmo é ser bem-sucedido – no peso e na medida ditados pela sociedade. Nas redes sociais, todo mundo exibe felicidade desconhecida de todo mundo. O adulto quer pertencer aos grupos, e, por isso, tenta imitá-los, para, depois participante, mostrar-se melhor que os demais. Os adultos convivem com outros adultos, que reproduzem vidas aparentes de outros adultos. Por isso, adulto perde o sono, trabalha e consome demais, querendo compensar o que não teve e o que não fez, deixando de fazer e abandonando tantas coisas da essência humana. E ainda quer ser melhor que os outros (adultos), sem saber quem ele mesmo (adulto) é. Não sabe que o que vê, não enxerga, e quer convencer os outros (adultos) para olharem o que ele (adulto) aparenta ser. Nesse processo exaustivo, quase impensado, o adulto está sendo exemplo, às crianças e aos adolescentes. Até poderia ser vida fácil, se fosse outra vida: adulta.
   Tem mais. O tempo (algoz) não deixa por menos: logo no início da velhice, entrega o veredito da vida: fim da linha. Enquanto alguns escolhem seguir vivendo, aprendendo com a nova etapa, outros tentam fazer o que sempre quiseram, tanto, que, às vezes, acabam exagerando no botox, nas cirurgias plásticas, no excesso de bebidas e/ou comidas. Tem aqueles que seguem, se arrastando, numa vida concentrada nas dores que o tempo faz latejar no corpo. Junto com a velhice, podem chegar, também, o abandono, o desamparo. Quem quer saber de um velho caquético, fora de moda, que esquece tudo, e só lembra do próprio passado, cada vez mais distante?… Ainda assim, os velhos persistem – vida nada fácil.
   Apesar de desejarem estar numa outra fase da vida, fazer parte de uma outra época dessa história mal contada, todos vivem – e morrem.
   Nem sempre a grama do vizinho é a mais verde. A vida não é fácil, para ninguém, mas pode tornar-se insuportável, para todos, quando o adolescente escolhe ser adulto, antes do tempo; o adulto resolve ser bebê, bem depois do tempo; e quando todos exigem que o bebê se comporte como adolescente, muito antes do tempo, sem que o pequeno saiba disso. Não dá. O velho, quase sempre, quer voltar a ser criança, enquanto o adulto deseja ser jovem, e o adolescente quer tornar-se adulto. Somente o bebê (ainda) não sabe que pode querer, desejar. Na realidade, todos sonham: liberdade e segurança. Mas são tantas as exigências – internas, externas.
   E ainda tem gente que imagina que estamos neste planeta, de férias, ou a passeio…
   Vida fácil? Que eu conheça e saiba, só mesmo a da samambaia que eu rego e trato – existe, sem saber que existe, e sequer ocupa espaço de exibição, para julgamentos públicos.
   Num ínterim qualquer dessa vida sempre tão frágil: game over.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Carta aos jovens de espírito

Você pode até se orgulhar, ao dizer que faz parte do grupo dos jovens de espírito, fingir nos ignorar – a cada dia, tornamo-nos maioria. Não tem escapatória, mesmo quando você nos encobre de todos os olhares. Bem no fundo, permanecemos na sua cabeça – você sabe disso. E nos multiplicamos – em silêncio.
Tem muita gente que até faz poesia, inspirada na nossa existência – fala que somos símbolo de experiência e maturidade. Balela! Somos o que somos, por que, tanto quanto você, vocês todos, nós fazemos parte da natureza (real, realista).
Um dia, fatalmente, surgimos, e não abandonamos você. No início, nos multiplicamos, mas, aos poucos, só os mais fortes permanecem. Você pode até tentar nos eliminar – um ou outro se deixa morrer, mas, logo, a maioria resiste. Nossa revolução é silenciosa, para, só mais tarde, você perceber que não tem jeito – pode enfeitar, pintar o sete, nós prevalecemos na sua cabeça.
Você pode até continuar se autointitulando jovem de espírito – que seja mesmo, e mantenha a saúde renovada, sem hipocondria, ou qualquer outro desequilíbrio, até o último minuto marcado pelo seu relógio do tempo. Independente das suas escolhas, seremos sua companhia mais constante.
Alguns choram, desesperados que ficam, com a nossa procriação deliberada. Crescemos e nos multiplicamos, à revelia do que você deseja, pensa, ou sente. Vocês são muitos – nós somos, infinitamente, muito mais.
Tanto quanto impossível, não brigue, nem se revolte, com a nossa existência tão presente, e inesquecível. Com toda certeza, você não escolheria a única outra opção, para não nos ter na cabeça. Se quiser, compreenda que o tempo segue os passos da natureza, ignorando se você nos esconde, ou nos revela – existimos simplesmente.
Quanto a nós, não questione além do que você enxerga. Somos predestinados a cumprir a sina – talvez, simbolicamente, representamos a prova de que você (ainda) está vivo, e pode fazer (outras, ou as mesmas,) escolhas.
Somos filhos obedientes do tempo – até mantemos a nossa beleza, o nosso charme. Tenha olhos para enxergar isso – ou se descabele. A escolha é – sempre – sua: ou aceita envelhecer, ou não aceita, e envelhece do mesmo jeito. O que todo mundo quer é longevidade, não é mesmo?...
Assinado: seus cabelos brancos.

P.S.: Que você (ainda) tenha vida, para, um dia, diante do espelho, nos tocando à raiz, com suas mãos distraídas, longe dos olhares alheios, sinta compaixão – quem sabe, até uma mecha de amor.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A vida segue, mais pobre – sem Marília...

Neste cinco de dezembro de 2015, o Brasil amanheceu mais pobre – pobreza dolorida, que arde e sangra na cultura e na arte nacionais. Marília Pêra - atriz, bailarina, cantora, coreografa, diretora e produtora de teatro – dormiu, não mais acordou. Por isso, o Brasil amanheceu mais pobre: perdeu tantas criaturas, numa só. A ausência de Marília será sentida, a partir de agora, em todos os palcos e estúdios em que ela pisou, e por onde não fez arte, também. Morre a delicadeza da criatura empática, sempre preocupada com o outro, os outros – qualidade destacada pelos amigos e colegas dela. O que permanece (vivo) é o que ficou na memória, nas lembranças.
Marília viveu e morreu pela arte, se entregou – inteira e plena – à arte. E que sentido tem a vida, sem arte? Como viver, sem arte?… Marília partiu, com o mesmo sentimento que nasceu e viveu: amor à arte. Por isso, o sol amanheceu carente de brilho. “O céu ganhou uma estrela”, disse a atriz Eva Wilma. Mas nós perdemos a existência de uma artista completa, honesta com o ofício que escolheu viver (morrer) - respondo eu, que não convivi com Marília Pêra, sequer me deslumbrei com um de seus belíssimos espetáculos, ao vivo. Saber da existência de criaturas do bem e talentosas, a exemplo de Marília, já me transborda de esperança de que nem tudo está perdido.
Em mim, resta a dor da perda de um País inteiro, onde muita gente confunde música com som, ou ruído, barulho, arte com forma de expressão. Hoje, cinco de dezembro de 2015, perde o Brasil – muito mais que uma Copa do Mundo, ou cinco. Perdem os que têm sensibilidade, e os psicopatas (insensíveis, sem empatia alguma). Todos sofrem a perda da arte – conscientes, ou não. Marília já faz falta, a quem soube da existência dela, e a quem ignorava.
Talvez, hoje - primeiro dia sem Marília -, as pessoas mais próximas considerem a morte dela, uma injustiça. Tratando-se de Marília, a morte seria injusta, na mesma proporção, se a obrigasse partir, depois de quatrocentos anos de arte da maior e melhor qualidade. A própria Marília sentiria isso, por que transbordava vida, e sonhava mais vidas para o palco – novos e inimagináveis projetos brotariam, o que causaria aplausos de todas as emoções (pura doação).
Marília Pêra partiu, deixando um legado artístico equilibrado entre sensibilidade e fragilidade. Mesmo se houvesse intenção, não se teria como apagar os rastros de luz de tamanha doação (visceral e plena!) de toda a generosidade que fica. Exemplo de entrega desmedida, Marília soube ser tão profunda, até mesmo nas personagens mais superficiais que assumiu, no teatro, no cinema e na televisão. Nos textos mais densos, ela foi mestra em falar e silenciar, com os olhos, os gestos, a respiração, de corpo inteiro – por todos os sentidos e poros. Marília viveu imersa e diluída na arte de viver – por isso, tanta vida bondosamente escorrendo e transbordando por todos os cantos dela. Quando cantava Carmem, Elis, Dalva, Clara, Callas, e tantas outras – levitava, e fazia levitar. E não houve espetáculos, peças, filmes, novelas, protagonizados e encenados por ela, que tenham passado desapercebidos pela sensibilidade pública desperta.
Marília Pêra entra e sai de cena - eterna que é -, de mãos dadas com a arte. Quanto a nós, pobres mortais, permanecemos no mesmo caminho, na mesma fila de espera, sem sabermos o que Marília não sabia.

Letra do Samba – Carnaval 2015 – Mocidade Alegre

“Nos Palcos da Vida, Uma Vida no Palco... Marília!”

Intérprete Oficial: Igor Sorriso

Compositores: Ana Martins, Douglas Sabião, Imperial, Marcio Bueno, Rodriguinho e Victor Alves

Divina inspiração, um ato de amor
A arte concebeu Marília
Tão menina, a flor bailarina
Carrega no sangue o dom de encenar
Vai brilhar na ribalta infinita
Liberta, a poesia não vai se calar
Nos palcos de corpo e alma
Desponta no alvorecer
Destino traçado, talento e magia
Estrela a resplandecer

Ê mulher... Lições pra ensinar
São elas por ela, mil vidas contar                                   refrão
Tem Carmem Miranda, ganzá e pandeiro
De saia rodada, ginga no terreiro

Dama do cinema e televisão
Em qualquer cenário transmite emoção
Graciosidade e carisma
Um anjo da noite embala criança
A lua cheia de amor reflete esperança
Meu samba chamou você pra sambar
E te consagrar rainha do nosso carnaval
Pois o teu nome já é imortal...Bravo, Marília!
Orgulho do nosso país... És musa, brilhante atriz
O mundo a reverenciar...
Nossa “Morada” a homenagear!

Vem aplaudir a diva nos palcos da vida
Faz delirar, meu povo alegre a cantar                            refrão
Mulher guerreira, bem brasileira
A Mocidade é Marília Pêra

(Exatamente há um mês atrás, li a notícia de que Marília Pêra havia partido – com aviso prévio. Escrevi - no papel mais à mão - o que você acaba de ler, e guardei no silêncio da minha alma. Só mesmo o tempo para nos mostrar o que persiste vivo – em cada um de nós.)

A vida segue, mais pobre – sem Marília...

De olho