quinta-feira, 15 de março de 2018

Marielle: O seu silêncio é a nossa voz!

Marielle Francisco da Silva nasceu mulher, negra, favelada, e depois foi ser mãe solteira. Feminista, muito cedo, já começou a participar das lutas em defesa dos direitos humanos, por justiça social, contra as ações violentas nas favelas. Com a garra que só as mulheres, as negras, as faveladas conhecem tão bem, formou-se socióloga, e fez mestrado em Administração Pública. Nas eleições municipais do Rio de Janeiro, em 2016, foi eleita vereadora, com 46.502 votos, quinta mais votada no município.
Marielle era extremamente crítica da intervenção federal, na segurança pública do Rio de Janeiro. Há duas semanas, ela assumiu a função de relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio, criada para acompanhar a atuação das tropas na intervenção.
No sábado, dia 10 de março, Marielle usou rede social para denunciar, mais uma vez: "Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando os moradores. Nessa semana, dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje, a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior".
Marielle morreu na luta! Foi brutalmente assassinada, ontem à noite, após ter participado do evento chamado "Jovens Negras Movendo Estruturas", na Lapa (RJ).

Depois de mais essa tragédia, que tanto envergonha os seres que persistem humanos, ainda temos de aguentar “notas de lamento” dos conhecidos vampiro brasileiro, cri-crivela e pezão de mãos grandes. O que será que eles lamentam primeiro: terem nascido, ou terem se candidatado? O dito “santo do pau oco” só não pode se chatear, senão, repete a viagem à europa, e gasta mais R$ 150 mil, em cinco dias – tudo, por conta da rapa dos cofres públicos cariocas.

Urgente
Neste momento de dor e revolta, nem penso que seja urgente todo mundo repensar. É mais que urgente: pensar – isso sim. Pensar uma vez na vida.
Que os deuses da justiça e da política brasileira pensem.
Que os (ir)responsáveis por programas policialescos pensem.
Que a bancada da bala pense.
Que cada trabalhador militarizado pense.
Que os retrógrados milicianos pensem.
Que os defensores da volta da ditadura pensem.
Que os cérebros mais ocos pensem.
Pensemos todos – uma vez na vida.

Novela – tem todo dia, gente. A vida acaba – sem final feliz.

Hoje, todas as mulheres, as negras, as faveladas, choram sua morte, Marielle! Hoje, todos os homens que amam as mulheres, as negras, as faveladas, choram a sua morte, Marielle! E todo esse choro, que se derrama pelo Brasil e em tantos outros países, grita: O seu silêncio é a nossa voz, Marielle!

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Continuamos quites

(No início de 2015, postei o que republico aqui. Como na vida de toda gente, na minha vida, também, muitas coisas aconteceram, mudaram – de lá para cá, de cá para lá. Mas nada mudou tanto quanto o meu olhar o mundo, a vida, o tempo. Mudar sempre me faz tão bem – me surpreende, me dá brilho no olhar. O mundo muda. A vida muda. O tempo muda. Mudo eu. Se amadureci? Não sei, nem me preocupo em saber, por que, pra mim, isso não importa mesmo. O que me tem valor é que eu mudei, e continuo mudando – sempre, quites com o tempo, com a vida, com o mundo. Menos expectativas – mais surpresas boas. Continuamos quites: eu, a vida, o tempo, o mundo.)

Nesta virada de ano, fiquei pensando tantas coisas. O que mais pensei é que eu estou quite com o mundo, com a vida, com o tempo. Eu e o tempo estamos quites, por que sempre me dei bem com o tempo - não adianta querer brigar com quem tem o “coringa” na manga. Eu e o mundo estamos quites, por que fazemos o melhor que podemos fazer - “tudo a seu tempo”. Eu e a vida estamos quites, por que não há nada, nada mesmo, que eu tenha me arrependido de viver - foi assim que cheguei até aqui.
Se a vida continua, depois da morte, não sei - há muitas controvérsias, sobre “ninguém ter voltado pra contar”. O que sei é que essa vida (presente) é única, por que não volta mais - mesmo. Jamais estaremos onde estamos, com quem estamos, fazendo o que fazemos, deixando de fazer o que deixamos, fazendo as escolhas que fazemos. As outras vidas que teremos - se teremos - serão realmente outras, e também únicas. Tem muita gente desavisada, de mal com a vida, com o mundo, com o tempo, à espera, sempre, do passaporte à ilha da fantasia. Pior ainda, quando escolhe esperar que a vida boa venha, prontinha, embrulhada em papel de presente, pelas mãos dos outros. Enquanto isso, fica sem saber que cada instante desta vida é realmente especial, por que sempre único – não volta. Por isso tudo, Lenine ainda canta: “A vida é tão rara”...
Feito toda gente, também eu faço as minhas escolhas. A cada ano que passa, tenho reduzido, cada vez mais, as minhas expectativas em relação ao mundo, à vida, ao tempo. Nada desesperador. Percebo que, assim, tenho sabido mais de quem (acho que) sou. Cabe colocar aqui que nem consigo me imaginar correspondendo a expectativas alheias - seria muito pra minha cabecinha, por que cada pessoa espera algo (diferente) da gente. Quanto menos expectativas eu tenho, mais surpresas boas recebo (vivo o que acredito, cada vez mais). Gosto do imprevisto, da porta que se abre no meio do nada, das nuvens que aplacam a tempestade. Essa é a minha (única) expectativa para 2015 (para 2018, mais ainda): o imprevisto.
Sempre gostei de desafios - dos bons desafios. Nem considero desafio o que é feito para ser exposto nas redes sociais. Não. Desafio, pra mim, é o que desafia (só) eu mesma. Também, não gosto do que chega prontinho, embalado em pacote de presente. Gosto das peças de Lego (conhece?), do que me instiga a desfazer, fazer, desmontar, montar, desconstruir, construir (refazer, remontar e reconstruir dá muito trabalho, e o resultado é sempre o mesmo).
Nada acontece de um momento para o outro - tudo flui aos poucos, seguindo o que existe de ritmo harmonioso no mundo, no tempo, na vida. Depois disso, só dá pra pensar, mais uma vez, em Benjamin Disraeli: "A vida é muito curta para ser pequena”.
E lá vou eu aprender um pouquinho mais...

domingo, 22 de outubro de 2017

No mundo da tetravó da minha avó

Sem quaisquer ‘achismos’, eu só penso – e muito. Pensando na realidade em que estou vivente, começo a me enxergar no mundo da tetravó da minha avó. Penso mesmo que a minha avó enxergaria esta realidade atual, mundo ultrapassado, retrógrado, até perigoso de se viver. Por isso, penso, quem se sentiria à vontade mesmo seria a tetravó da minha avó.
Penso que o Brasil não (sobre)vive hoje a retirada da sujeira debaixo do tapete. Quem dera fosse essa coisa digna. Não é, ainda que todos os deuses que surgem queiram nos convencer disso. Observe: o tapete deteriorou, com tantas décadas de corrupção. Não há jeito de remendar. Não há mais tapete (bingo!). Todos contribuímos pra isso – grandes e pequenas corrupções, ou simples conivência, ignorando a realidade. (Não ria: o tapete da história da sua vida também está desgastando)
Afinal, que mundo é esse que faria a tetravó da minha avó se sentir à vontade e confortável? Não tenho resposta(s). Mas não deixo de observar e questionar tudo, todos – primeiramente, eu mesma, que estou mais perto.
Exemplo próximo (a maioria dos brasileiros trabalha): Em novembro de 2017 (logo, logo), a reforma trabalhista será implantada, em todo o Brasil. Não sei por que, mas, sabendo disso, conhecendo a íntegra da Lei nº 13.467 (que trata sobre a dita dura reforma), penso que estamos a um passo de um passado que a maioria prefere ignorar até hoje - bem antes de 1888, ano em que a princesa assinou a lei áurea. Traduzindo o que penso: com a reforma, os patrões terão autoridade absoluta, mascarada de negociação. Resumindo: ou o empregado (escravo mascarado) acata a decisão patronal, ou a fila (dos interessados na vaga) anda (para admissão na empresa). Neste mesmo pacote (saco dos tempos mais antigos e vazio de direitos), ainda tem a famigerada aposentadoria: a partir de novembro deste ano, muitos trabalhadores velhos e cansados estarão (obrigatoriamente) na ativa (sem o merecido descanso da aposentadoria), até a morte, literalmente.
Como se não bastasse, no nosso Brasil, alguém que age como se sentisse deus do trabalho, com o apoio de outro que se acha deus da agricultura, resolveu alterar a definição conceitual de trabalho escravo, para aliviar as penas de quem não tem pena dos trabalhadores em condição de escravidão. Dizem que a alteração da lei atende à dita bancada ruralista, que está por bancar a permanência de (mais) um pau de galinheiro, no coliseu. Daqui a pouco, os deuses do olimpo devem julgar (verbo que tem sido mais força de expressão) se o Brasil vai mesmo retroceder no tempo, lá pelo século XVI. Se isso, de fato, acontecer, vamos reviver os tempos que antecederam as leis do ventre livre e dos sexagenários, até chegarmos, mais uma vez, à abolição, em meio a todo aquele cenário de violência e desrespeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, previstos na Constituição (ignorada por tantos): “Art. 5º. Todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Se quiser saber mais a respeito disso tudo, se informe (ou não), leia e reflita além do que escrevem nas redes sociais – antes tarde que mais tarde.
Tem mais – muito mais. A tetravó da minha avó se sentiria cada vez mais em casa, se vivesse o que estamos vivendo. Todo mundo sabe que, por arrastados e silenciosos séculos, a humanidade (ou parte dela) caminhou, sob o jugo do dedo em riste da igreja católica apostólica romana. Isso até não faz tanto tempo assim – os conservadores da igreja continuam crendo numa ressurreição cada vez mais próxima. Hoje, apodrecidas as viseiras, depois de tanto tempo, se sabe que a inquisição – que de santa não tinha p%*&@ alguma – era apenas a ponta do monstruoso iceberg religioso. A pedofilia continua sendo praticada, sob o manto da fé católica e de seus pregadores (in)fiéis, que teimam em pregar, com o martelo da moral e da ética, que sexo, fora do casamento, é pecado (talvez, por isso, tem tanta gente casando, e praticando sexo casual). Não faz tanto tempo assim, um dos deuses da igreja católica apostólica romana foi ao continente africano, no auge da disseminação da aids, e orientou que ninguém utilizasse preservativo (camisinha). Até esse capítulo da história, sexo era pecado (mortal). “Fé demais não cheira bem”.
Mas tem pior que isso. Sempre tem. “Não há mal que não possa piorar” – não é mesmo?… Pois bem, há algumas décadas, testemunhamos o surgimento e o poder de domínio de uma outra igreja universal: Mãos ao alto (aleluia!), entregue todo dinheiro que tem, fale que eu te escuto, e você enriquece neste paraíso (fiscal), bem longe do céu. Neste quesito religioso, prefiro abster-me, vossa excelência (e os deuses do olimpo empatando jogos).
Aos poucos, o que parecia ser (somente) mais uma igreja tornou-se um monstro feito de ouro, garimpado na mais pura miséria humana. Já no primeiro tempo, um dos deuses chutou uma imagem santificada pela humildade que ainda deseja crer. Era apenas o começo – novamente, eis que surgia outra ponta de iceberg (dessa vez, desconhecido). E a igreja, que nasceu dizendo-se universal, foi dominando o mundo – não o universo -, se instalando em comunidades ignoradas, esquecidas pela humanidade. E esse universo foi se sentindo poderoso, como nunca havia se sentido. A igreja, sempre oportunista, aproveitou para universalizar a tese do crime do sexo. Hoje, parte da humanidade retrocede, seguindo a boiada, e, mais que pecado,  considera crime, sexo até nas manifestações artísticas. Não é à toa que, só no Brasil, a “bancada evangélica” tem eleito pastores e fiéis a tantos cargos político-partidários. Por isso, no Congresso, as pautas voltam sempre a girar em torno de “crime do aborto, em quaisquer circunstâncias”, “redução da maioridade penal”, “estatuto do armamento”, e até pena de morte, proposta que, quando menos se espera, volta à baila, num discurso inflamado, “em defesa dos homens de bem”. Tudo isso acontecendo em Brasília, no coliseu em ruínas, e o povo, distraído, consumindo por impulso, fofocando no whatsapp, ateando fogo e disparando armas em escolas, curtindo fotos de bichos engraçadinhos e participando de masturbações pseudointelectuais coletivas, no facebook, ejaculando em ônibus, no metrô, etc e tal. Ainda há os fiéis dos dramas policialescos e novelescos – não saem da frente da televisão, nem por Ato Institucional (6, 7, ou outro número qualquer). O que se percebe é que todo mundo está se organizando – crime organizado, organização de quadrilha, etc etc etc. Não consigo mais sequer imaginar como estaria a tetravó da minha avó, neste mundo, o qual já não sei se seria o dela, ou de algum homo habilis, ou erectus…
São tantos deuses, que o da saúde viu que não podia ficar de fora do retrocesso todo, imposto no Brasil. A concorrência é grande – a cada instante, mais um atraso de vida para os brasileiros. Até quem, no início, aplaudiu com panelas já não tem mais as mãos desocupadas – tenta agarrar o que ainda lhe resta. Pois bem, vamos ao fato: o deus da saúde assinou uma portaria, que entrou em vigor em outubro do ano passado, estabelecendo “inaptidão, por 12 meses, para a doação de sangue, para homens que tenham tido relação sexual com outro homem”. Traduzindo: homossexuais masculinos estão impedidos, há um ano, de doarem sangue, no Brasil. A coisa feia começou a ser julgada no olimpo – daqui a pouco, sai o veredicto. Precisou o deus relator da matéria, no olimpo, esclarecer (que seja definitivamente!) que “orientação sexual não contamina ninguém; preconceito, sim”. Como eu queria ter visto algum deus da anvisa ouvindo isso, coçando a cabeça, para murmurar: “Ah, então tá”…
E ainda tem mais e mais – o teste brasileiro de resistência não acaba. Um gestor paulistinha – que diz não ser político, mas continua em cargo político -, depois do extermínio da cracolândia, sem política pública para atender os dependentes químicos invisíveis, tratou logo de lançar uma tal “farinata”, ração feita a partir de alimentos perto de perder a validade. A intenção do gestor paulistinha é distribuir, goela abaixo, a dita ração aos cidadãos em condição de rua e na merenda escolar da rede municipal de São Paulo. Não deu outra: os moradores de rua não têm defesa, mas famílias dos estudantes já começaram a protestar. No “Primeiro Ato Contra Ração Humana na Merenda de Nossos Filhos”, organizado no vão livre do Masp, havia o manifesto: “O ‘gestor’ chama essa ração humana de farinata. Nós, mães, pais e familiares, chamamos aberração”. O dito paulistinha, que diz não ser político, e não é burro, percebendo a indignação de nutricionistas e autoridades do setor de nutrição (inclusive, internacionais), tratou de desdizer o discurso, informando, agora, que “a farinata será complemento alimentar”. Pasmem: a direção da empresa contratada para o servicinho informou que “já existem 50 toneladas do alimento em estoque”. Uma perguntinha não me sai da cabeça: se seres humanos receberão ração, o que comerão os animais do gestor paulistinha?… Alguém explica (desenha) pra ele que “o Direito Humano à Alimentação Adequada tem duas dimensões: o direito de estar livre da fome e o direito à alimentação adequada”?…
Por todo o país, há deuses (enrustidos) destilando ressentimento e ira, fechando exposições, cerceando liberdade de expressão, em nome “da moral e dos bons costumes”. E ainda temos de saber da existência de um general do exército, que defende a volta dos que nunca foram: os ditadores. A possibilidade de outra intervenção militar, no nosso pobre Brasil, foi citada, três vezes, pelo general saudosista, que proferiu palestra numa loja maçônica, em Brasília.
No meio disso tudo, lembro que, há pouco tempo, Ruth Escobar, a revolucionária das artes cênicas, faleceu. Justamente nesses tempos em que tentam eliminar a memória revolucionária de Ruth Escobar e de tantos outros artistas – como se fosse possível, diante dos fatos históricos que superam decretos. Felizmente, tem muita gente viva, para recontar histórias revolucionárias, onde o nome de Ruth Escobar é guardado sem segredo. Alda Marcantonio, uma das companheiras de luta de Ruth, conta que, no auge da ditadura militar no Brasil, um policial bateu na porta do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, onde estava acontecendo uma reunião de um dos grupos que enfrentava a ditadura. A própria (Ruth Escobar) o atendeu. O policial repetia que tinha ordem judicial para terminar a reunião. Ruth Escobar – sempre revolucionária – não hesitou, e exigiu mandato judicial, documento que, prontamente, o policial apresentou. Era Ruth Escobar – não podia se dar por vencida. De imediato, a artista revolucionária chamou seu gerente do Teatro, entregou-lhe o mandato. O gerente sumiu da porta, levando o documento, enquanto Ruth Escobar continuava interrogando o policial: O senhor tem mandato judicial? O policial repetia: Entreguei à senhora. Era Ruth Escobar que não desistia de enlouquecer o policial, que só queria continuar cumprindo ordens: O senhor tem mandato judicial? Sem papel, o senhor não entra… e fechou a porta, na cara estarrecida do policial.
Diante do silêncio imposto pela ditadura militar (tempo em que seres humanos foram torturados e mortos, quando não havia bala perdida), no olho do vulcão do medo brasileiro, Ruth Escobar – tinha de ser ela – trouxe diretores, atores e produtores do mundo inteiro, para participarem do Festival Internacional de Artes Cênicas. Nem todos enxergaram: Ruth Escobar – a eterna revolucionária - denunciou, ao universo das artes, a mordaça, a violência e o medo no Brasil. Tudo isso aconteceu nos anos 60 e 70 – e hoje as mulheres travam guerra para garantirem o direito de amamentar em local público… A ordem dos deuses da vez é mesmo uníssona: “Meia volta, volver!”

Com tudo isso acontecendo, no Brasil e no mundo (ninguém está incólume), não acredito que a tetravó da minha avó continue descansando em paz – nem as gerações depois dela.

sábado, 29 de julho de 2017

à deriva

Nossa pátria amada Brasil está parecendo barco à deriva. Tem gente que torce para que o casco fure, e o barco afunde logo. Outros jogam água dentro do barco, para que afunde, bem antes de corroer o casco. Os enjoados só reclamam do marulho, das tempestades, da falta de caviar, dos ventos, do sol escaldante, da chuva fria, dos dias, das noites, da vida. Alguns se precipitam para fora do barco, até de olhos fechados. Alguém sonha acordado com anzol, enquanto aves não fazem outra coisa, senão arriscarem voos rasantes, atrás de alimento vivo, que salta nas águas. Há aqueles que só discursam aos ventos, lembrando fatos históricos acontecidos no mesmo barco. Na proa, alguém grita, ninguém entende: “Veja a época. Isto é globo”. Outros nem sabem que velejam sem destino, ou meta traçada, e fazem poesia da paisagem. Alguns ocupantes se identificam como náufragos, e só o que fazem é chorar e sentir pena de si mesmos. Na despensa quase vazia, alguém rouba a cabeça de um bagre desnutrido, e a engole inteira. Os pessimistas fazem qualquer um desistir de uma tentativa sensata para salvar o barco. Há aqueles que agarram lata vazia, colocam-na na cabeça, e se denominam reis, e chegam brigar entre eles. Aos poucos, um pequeno grupo se reúne, próximo da popa, debate sobre a realidade em que vive, e fica deprimido. Perto dali, meia dúzia batuca e canta marchinhas de carnaval, para alegrar a população, por pouco tempo. Logo, um líder evangélico corta as asas da alegria, e o barco escurece em depressão. Hipocondríacos encontram e distribuem antidepressivos – conformismo geral. Outros procuram óleo de peroba, para fazerem brilhar a embarcação. Poucos ainda perscrutam bússola, sinalizadores, salva-vidas, até leme de vento, e tentam se equilibrar, entre proa e popa, bombordo e estibordo. Alguns permanecem escorados, nas anteparas, sem se importarem com solavancos. O que todo mundo quer mesmo é ser o timoneiro do barco, que segue sem rumo – às vezes, sacode tanto, que parece virar, antes mesmo da próxima onda. Tem quem passe mal. Tem quem passe bem. Tem quem queira passe livre. De repente, um dos incautos, com uma caixa de fósforos na mão e um punhado de fé, pergunta: alguém viu a vela desse barco?...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Mandado de despejo aos mandarins do mundo


Alvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) - 1917

Fora tu, reles esnobe, plebeu, fora tu, imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade, banalidade em caracteres gregos, sopa salgada fria, fora com tudo isso, fora! Que fazes tu na celebridade? Quem és tu? Tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro, todos os outros, lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual, incompetentes, barris de lixo virados para baixo. Tirem isso tudo da minha frente, tudo daqui para fora. Ultimatum a todos eles e a todos os outros que sejam como eles. Todos!
Falência geral de tudo por causa de todos. Falência dos povos e dos destinos, desfile das nações para o meu desprezo. Passai gigantes de formigueiro. Passai mistos que só cantai a debilidade. Passai bolor do novo, passai à esquerda do meu desdém. Passai e não volteis, párias na ambição de parecer grande.
Passai finas sensibilidades, montes de tijolos com pretensões a casa. Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomania triunfante, voz que confundis o humano com o popular, que confundis tudo, chocalhos incompletos, maravalhas, passai! 
Passai tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Vem tu finalmente ao meu asco, roça-te finalmente contra a sola do meu desdém. 'Grand finale' dos parvos, impotência a fazer barulho. Quem acredita neles?
Descasquetem o rebanho inteiro, mandem isso tudo para casa, descascar batatas simbólicas. O mundo tem sede de que se crie, tem fome de futuro.
Tu, Estados Unidos da América, síntese bastardia da Baixa Europa, alho da sorda transatlântica pronúncia nasal do modernismo inistético. E tu, Portugal, centavos, resto da monarquia a apodrecer república. E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir. Ponham-me um pano por cima de tudo isso, fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
A política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência. Sufoco de ter só isso à minha volta. Deixem-me respirar! Abram todas as janelas, abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo. 
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão. Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações a reis lacaios.
Sim, todos vós que representais o mundo, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, passai vozes ambiciosas do luxo cotidiano, aristocrata de tanga de ouro. Passai vós que sois autores de correntes sociais, de correntes literárias, de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar. 
Passai, frouxos! Passai, radicais do pouco! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer o poeta que busque a imortalidade ardentemente e não se importe com a fama. Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que é apenas a derrota dos outros.
O mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar. Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um mundo novo. Ergo-me ante o sol que desce e, à sombra do meu desprezo, anoitece em vós, e proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito.

domingo, 14 de maio de 2017

És mãe

És mãe – o mundo já não te enxerga mais, por que te tornaste invisível, diante de tamanha luz que rompe a estrada da maternidade. Todo mundo vê teu filho – lindo, gracioso, com saúde. E tu te tornas coadjuvante feliz, numa peça que existe, por que tu escolheste construí-la.
És mãe – te desdobras e te multiplicas em tantas quantas necessárias, para atenderes teu rebento. Estás feliz – teus olhos brilham. Não há dor e prazer maiores que este que sentes agora, e continuarás sentindo, sempre, sempre…
És mãe – te alimentas, no momento que consegues, cuida de ti, quando o pequeno adormece. E não haverá – jamais – sentido maior à tua vida, que já não pulsa só em teu corpo que se desnutre e emagrece.
És mãe – amamentas a vida que, enquanto se desenvolve, de mãos dadas com o tempo e a natureza, te envolve na essência do amor. Teus olhos, teus ouvidos, teus sentidos todos aguçam, a cada novo dia – primeiro sorriso, primeira palavra, primeiros passos, primeiro abraço. E não há alegria que te faça mais emocionada e feliz, ao ouvir a voz infantil: “Mamãe”.
És mãe – animal que pensa com o coração, age com a intuição, e sabe sem saber. Já não há espaço vazio, todo ocupado pelas pequenas e grandes emoções, que se multiplicam com os momentos de puro êxtase.
És mãe – ninguém mais enxerga o que só tu vês, e compreendes. Ninguém mais se preocupa tanto em cuidar, proteger, acarinhar e acolher o teu pequeno. Ninguém mais sabe, ou saberá, tanto sobre teu rebento.
És mãe – carregas todas as lágrimas de emoção, com o filho junto ao peito. Sem tradução, segues o destino de todas as mães que sofrem – dor e prazer -, muito além de uma vida inteira.
És mãe – tudo faz sentido, ou até deixa de ter sentido. Não importa. A vida vive, espalha alegria e luz, por onde corre o teu pequeno, com olhinhos curiosos e sorriso largo, diante de tudo tão novo.
És mãe – ninguém sabe o quanto. Só o pequenino, aconchegado ao teu colo, reconhece, no teu olhar de puro amor, o sentido da própria vida que cresce.
És mãe – depois da tua barriga predestinada a crescer, fazes esforços, sacrifícios até, abres concessões. Nada disso é, ou será, reconhecido. Por toda a vida, haverá sempre alguém (único) a te chamar, até em silêncio: Mamãe.
És mãe – e isso é tudo. Não precisas pensar, conjecturar, a respeito. Pelo menos hoje, dia que te homenageiam, descansa...

De olho