sábado, 25 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa(s) – Unicidade multipla


O guardador de rebanhos
- Fernando Pessoa -
Voz: Helena Antoun

Há quem diga que Fernando Pessoa(s) despersonalizou-se, quando embrenhou-se na compreensão da humanidade – deixa de ser um só: é todos, é ninguém. E não havia tamanha vida (fora) que pudesse abrigar as multiplas e facetadas vidas (dentro) de Pessoa(s). Na minha mais vulgar opinião, Pessoa(s) representa, ainda hoje, a unicidade multipla do ser humano.
O que ainda não compreendo é como uma criatura, que esfacelou-se em tantos cacos de espelho unico, Pessoa(s) ainda continua sendo razão de despedaçadas criticas – as mais variadas, e inimaginaveis. Talvez, por falta de mais elementos (será?), alguns criticos questionam até a opção sexual de Fernando Pessoa(s). A propria sobrinha-neta de Pessoa(s) Manuela Nogueira, em entrevista publicada, opinou que, nos escritos de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa apresentou “a homossexualidade de maneira explicita”. A sobrinha-neta (Maria da Graça Queiroz) de Ophélia Queiroz, conhecida, até hoje, como a “unica namorada” de Pessoa(s), afirmou, em entrevista divulgada, não acreditar que Fernando Pessoa(s) tenha morrido virgem. Ela vai além nas conjecturas: “Naquela epoca, o escritor era considerado homossexual. Só depois da morte dele, em 1937, meu pai – Carlos Queiroz – lançou o livro com as cartas apaixonadas de Fernando Pessoa para minha tia-avó Ophélia”. O filho do barbeiro que aparava o bigode de Pessoa(s), diariamente, saiu em defesa publica da heterossexualidade do escritor de unicidade multipla. Conforme Antônio Seixas, que era criança, nos tempos de Pessoa(s), “havia uma moradora do primeiro andar, onde morava o escritor, que dizia ser namorada dele”.
Se Fernando Pessoa(s) morreu virgem, se era homossexual, se, de fato, teve envolvimento amoroso com Ophélia Queiroz – isso tudo eu não sei. O que sei já me basta, para lamentar o que as pessoas continuam fazendo com Pessoa(s). Na falta do que mais dizer, comentar, escrever, conjecturam imaginações cada vez mais férteis, que em nada assemelham-se aos delirios de Pessoa(s), homem lucido, que, para suportar “um tanto mais” a vida, bebia e fumava, todos os dias e noites, sem conseguir atenuar a dor do existir.
Vou adiante, na contramão dessa gente que ainda busca saber “quem surgiu primeiro: o ovo ou a galinha”. E se Pessoa(s) fosse homossexual, ou tivesse morrido virgem?... E se Pessoa(s) nem tivesse existido, humanamente, e fosse criatura de um criador louco, desvairado, com personalidades multiplas de Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Maria José, Charles Robert Anon, ou qualquer outro nome de identificação que o valha?... E se?... O que mudaria os escritos dessa alma inquieta e febril, que, na ansia de abraçar todas as almas, multiplicou-se e refletiu-se em tantos cacos, até hoje ignorados?...
Por outro lado, o escritor português José Blanco reconhece que, no Brasil, há maior interesse por Fernando Pessoa(s) que em Portugal. A propria “directora” da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, Inês Pedrosa, reconheceu, em visita ao Brasil, que os brasileiros valorizam muito mais a obra de Pessoa(s), se comparado aos portugueses. Isso, sim, para mim, é fator relevante, pois trata dos meus contemporaneos – da alma brasileira.
Socialmente, Pessoa(s) teve vida bastante comum. Traduzia cartas, trabalhando em casas do comercio português. Sofria privações, pois o que ganhava pelas traduções não garantia-lhe sequer refeição diaria. Por isso, tinha sempre de “comprar fiado” seus cigarros, fosforos e a cotidiana aguardente que carregava na pasta, depois de tomar um copo no bar. Inclusive, numa dessas ocasiões, um amigo dele fotografou-o “em flagrante delitro”, como escreveu Pessoa(s) à Ophélia, enviando-lhe copia da fotografia tomando mais um copo. Todas as noites, como deixou registrado em seus diarios, Pessoa(s) reunia-se, em bares e restaurantes, com amigos da literatura e da boemia, a quem também pedia dinheiro emprestado.
José Blanco, escritor português também revelou que Fernando Pessoa(s) tinha muitas outras qualidades, desconhecidas da maioria. Foi Pessoa(s), segundo Blanco, quem criou a carta subscrita – “o aerograma do Brasil” -, tendo, inclusive, registrado a patente. Alma inquieta, por diversas vezes, Fernando Pessoa(s) escreveu ter urgencia de ajudar a humanidade, reconhecendo: “Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade”.
Em 1912, Fernando Pessoa(s) começa trabalhar com o poeta e prosador português Mário de Sá-Carneiro, a partir do lançamento da Revista “Orpheu”, onde ambos escreviam. A amizade tornou-se solida e importante, como pode-se ler, na troca de cartas entre Pessoa(s) e Sá-Carneiro, que mudou-se para Paris.
Eis uma das tantas cartas de Pessoa(s) ao grande amigo:
“Carta a Mário de Sá-Carneiro
em 14 de Março de 1916
Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do “Marinheiro” ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no “Livro do Desassossego”. Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,
Fernando Pessoa
P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características…
Você acha-me razão, não é verdade?”

Em 26 de abril de 1916, Mário de Sá-Carneiro, com 26 anos, suicida-se, ingerindo cinco frascos de arseniato de estricnina. Fernando Pessoa(s) – alma dolorida e sozinha – escreve, então:

“Sá Carneiro

Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.

Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.

É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]

Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».

Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.

[...]

Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.”

Entre tantos, Fernando Pessoa(s) – em tudo, em todos:

“Passei entre eles estrangeiro porém nenhum viu que eu o era. Vivi entre eles espião, e ninguém, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham por parente: nenhum sabia que me haviam trocado à nascença. Assim fui igual aos outros sem semelhança, irmão de todos sem ser da família.
Vinha de prodigiosas terras, de paisagens melhores que a vida, mas das terras nunca falei, senão comigo, e das paisagens, vistas se sonhava, nunca lhes dei notícia. Meus passos eram como os deles nos soalhos e nas lajes, mas o meu coração estava longe, ainda que batesse perto, senhor falso de um corpo desterrado e estranho.
Ninguém me conheceu sob a máscara da igualha, nem soube nunca que era máscara, porque ninguém sabia que neste mundo há mascarados. Ninguém supôs que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaram-me sempre idêntico a mim.
Abrigaram-me as suas casas, as suas mãos apertaram a minha, viram-me passar na rua como se eu lá estivesse; mas quem sou não esteve nunca naquelas salas, quem vivo não tem mãos que outros apertem, quem me conheço não tem ruas por onde passe, a não ser que sejam todas as ruas, nem que nelas o veja, a não ser que ele mesmo seja todos os outros.
Vivemos todos longínquos e anónimos; disfarçados, sofremos desconhecidos. A uns, porém, esta distância entre um ser e ele mesmo nunca se revela; para outros é de vez em quando iluminada, de horror ou de mágoa, por um relâmpago sem limites; mas para outros ainda é essa a dolorosa constância e quotidianidade da vida.
Saber bem quem somos não é connosco, que o que pensamos ou sentimos é sempre uma tradução, que o que queremos o não quisemos, nem porventura alguém o quis - saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada sentimento, não será isto ser estrangeiro na própria alma, exilado nas próprias sensações?
Mas a máscara, que estive fitando inerte, que falava à esquina com um homem sem máscara nesta noite de fim de Carnaval, por fim estendeu a mão e se despediu rindo. O homem natural seguiu à esquerda, pela travessa a cuja esquina estava. A máscara - dominó sem graça - caminhou em frente, afastando-se entre sombras e acasos de luzes, numa despedida definitiva e alheia ao que eu estava pensando. Só então reparei que havia mais na rua que os candeeiros acesos, e, a turvar onde eles não estavam, um lugar vago, oculto, mudo, cheio de nada como a vida...”

“Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho de ferro onde gastei duas horas à espera do comboio - sim, mas as coisas boas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de Deus roça-me pela face lívida.
O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.”

“Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.”

No amontoado de papéis escritos, rabiscados e guardados, Fernando Pessoa(s) deixou definitivamente desenhado o mapa astral dele, predestinando a propria morte para o mês de maio de 1935. A morte chegou-lhe com atraso, em final de novembro de 1935. Talvez, precisou (a morte) de mais tempo, para fazer calar Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, e tantos outros cacos de um só espelho humano, que ainda corta e tem cortada a alma - sempre em pedaços.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa(s) – Dizem por aí

O Sono

- Fernando Pessoa -

Voz: Helena Antoun

Fumava quatro maços de cigarro por dia. Frequentava o bar do Trindade, onde, além de comprar cigarros e fosforos, diariamente, tomava seu costumeiro copo de aguardente, a qual também era reposta, na garrafa vazia que sempre carregava na surrada pasta que utilizava ao sair. Na maioria das vezes, ficava devendo, pois não tinha dinheiro regularmente. Por isso, estava sempre pedindo dinheiro emprestado aos amigos, ou “fiado”, principalmente nos bares. Esse era Fernando Pessoa(s), homem de vida pacata, poucos amigos, grande estudioso da literatura universal e das ciencias ocultas. Exercicia a função de tradutor, em alguns escritorios comerciais de Lisboa. Era ele quem traduzia cartas, ganhando algum dinheiro – sempre insuficiente à propria sobrevivencia. Um ano antes de morrer, Fernando Pessoa(s) recebeu, como premio, a publicação do unico livro – “Mensagem” (de exaltação nacionalista) -, classificado em segundo lugar, no “Concurso Antero de Quental”.
Lendo e relendo a vida de Pessoa(s), penso que ele, com todo cabedal de cultura e inteligencia, poderia ter sido renomado homem de negocios, em Portugal. Se quisesse, Pessoa(s) poderia ter feito coleções de fortunas. Não o fez – talvez, por que as ambições dele fossem maiores, ou menores, ou simplesmente outras (não importa). Pelo que li sobre a vida de Pessoa(s), ele não parecia querer assumir compromissos e responsabilidades humanos, que – talvez – o atrelassem à mediocridade do existir. Parecia ter compromisso e responsabilidade somente com os proprios escritos – quando deixava-se levar pela madrugada, banhando-se nas entranhas dos seus heteronimos.
Indo adiante, lamento saber que, até hoje, muitos familiares de Fernando Pessoa(s), incluindo até parentes da ‘namoradinha Ophélia’, continuem ganhando dinheiro (traduzindo: “faturando em cima”), com a publicação dos escritos dessa alma indecifravel, como o é toda alma humana. Se Pessoa(s) viveu sempre à beira da miseria, descendentes dele parecem ter descoberto a “mina de ouro”: recebem direitos autorais, por todas as obras publicadas e traduzidas, depois da morte dele, obviamente.
Na minha insignificante opinião, a obra de todo artista – das mais diversas e de todas as artes – deveria ser “patrimonio universal” – assim como tratam a cidade historica de Ouro Preto (MG), o Centro Histórico de Salvador (BA), ou o Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), todos respeitados como “patrimonios da humanidade”. Também, as obras artisticas deveriam ser patrimonio – nada de serem consideradas herança, espolio, ou causa de briga de familia. E ponto final.
Muito se escreve e se fala sobre Fernando Pessoa(s). Há, inclusive, documentarios (muito bem vendidos, aliás, em dvds) que vão além dos escritos de Pessoa(s). Já assisti entrevistas com familiares de Fernando Pessoa(s), e até com o filho do barbeiro que aparava o reconhecido bigode do escritor português. Nem pretendo deter-me em relatar essas entrevistas. As lembranças – de todos eles, que, na tenra infancia, conviveram (?) com Pessoa(s) – são riquissimas em detalhes, fato que eu admiro, pois jamais pensei que se pudesse reter tanto na memoria. Sabendo disso agora, eu ouso imaginar que, quando gravida de mim, minha mãe tenha sonhado visita a Lisboa, nos tempos de Pessoa(s), e até conhecido aquele homem comum, sentado no bar, silencioso, olhando o fundo de um copo vazio, com um cigarro aceso entre dedos amarelados – minha memoria mais antiga (e saudosa) do que não vivi. Como Fernando Pessoa(s) está morto – quem poderia contestar, senão ele?...
Em outubro deste ano, o diretor João Botelho lançou, com extremo sucesso, “O Filme do Desassossego”, baseado na obra “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa(s), com a ‘mascara’ de Bernardo Soares. Ainda não tive a oportunidade de assisti-lo, o que (torço) não deve demorar acontecer. Em uma hora e meia, Botelho apresenta fragmentos de Pessoa(s) – sonhos, inquietações e desatinos. Bernardo Soares parece ser o mais proximo daquele que escreveu: “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me”.
Um dos tantos livros que li é “Fernando Pessoa – Escritos Autobiograficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal” (edição e posfácio de Richard Zenith, com a colaboração de Manuela Parreira da Silva e traduções de Manuela Rocha). Nos diarios mantidos por Pessoa(s), muitas vezes escreve em inglês e francês, sendo a maior parte dos escritos em português. Por mais de dez anos (infância à adolescencia), Fernando Pessoa(s) viveu em Durban (África do Sul), onde aprendeu inglês e francês. Aos 17 anos, retornou – sem a mãe, o padrasto e os irmãos – a Portugal.
Nos diarios de Pessoa(s), o leitor encontra uma alma lucida – não só das ‘coisas humanas’, mas da propria existencia do nada. Ficam, aqui, alguns desses registros feitos por ele, fragmentos compilados em “Fernando Pessoa – Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal”:

“Um plano geral de vida deve implicar, em primeiro lugar, a conquista de uma certa estabilidade financeira. Estabeleci como limite mínimo necessário para a coisa humilde a que chamo estabilidade financeira cerca de sessenta dólares, quarenta para as coisas necessárias e vinte para as coisas supérfluas da vida. A forma de o alcançar é adicionar aos trinta e um dólares pagos pelos dois escritórios, outros vinte e nove dólares, cuja origem tem ainda de ser determinada. Em rigor, só para viver, cinquenta dólares chegariam, pois tomando trinta e cinco como base necessária, quinze cobririam o resto.
A coisa essencial que vem a seguir é arranjar uma casa onde haja bastante espaço, uma boa área e bem distribuída, para arrumar todos os meus papéis e livros na devida ordem; e tudo isto não tendo eu grande possibilidade de me mudar dentro em breve. O mais fácil, aparentemente, seria alugar eu próprio uma casa – por uns oito ou, no máximo, nove dólares – e aí viver à vontade, mandando que lá me levassem o jantar (e o pequeno-almoço) todos os dias, ou algo do género. – Mas seria isto inteiramente conveniente?”

“Sou a sombra de mim mesmo, à procura daquilo de que é sombra.
Paro às vezes à beira de mim próprio e pergunto-me se sou um doido ou um mistério muito misterioso.”

“25 de julho de 1907:
Na minha família não há compreensão do meu estado mental – não, nenhuma. Riem-se de mim, zombam de mim, não me acreditam; dizem que desejo ser alguém extraordinário. Nada fazem para analisar o desejo de ser extraordinário. Não podem compreender que entre ser-se e desejar-se ser extraordinário apenas há a diferença de se acrescentar consciência a esse desejo. É o mesmo que me acontecia brincando com soldadinhos de chumbo aos sete e aos catorze anos de idade; no primeiro caso eles eram coisas, no segundo, coisas e brinquedos ao mesmo tempo; todavia, o impulso para brincar com eles persistia, e esse era o estado psíquico real, fundamental.”

“31/3/1913 (2ª feira):
Para a Baixa não muito tarde. A meio do dia encontrei o Coelho. Andei de automóvel até às 6 horas com ele; não fui aos escritórios dos Lavados. O Coelho emprestou 2.000 réis. Para casa.”
“Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem.
Sinto frio na alma; não sei com que me agasalhar. Para o frio da alma não há manta nem capa. Quem o sente não se esquece.
Quer isto dizer que não tenho verdadeiros amigos? Não; eu tenho-os; mas não são meus amigos verdadeiros.
Ai daqueles que foram tocados do transcendental e a quem tudo dói por frio, inexpressivo e distante.”

“Se eu pudesse dedicar-me a qualquer coisa – a um ideal, a um canário, a um cão, a uma mulher, a uma investigação histórica, à solução impossível dum problema gramatical inútil... Então, sim, talvez fosse feliz. Esses nadas seriam coisas para mim. Mas nada é coisa para mim, senão as ficções dos meus sonhos, e essas são nadas por direito próprio. Ainda quando tenho o prazer de os sonhar, tenho a amargura de conhecer que os sonho.”

“12/11/1915:
Dia incaracterístico, mais desagradável que outra coisa. Fiz uma coisa impulsiva e tola comprando um livro, quando pouco dinheiro me resta. Fui ao escritório do Franco para fazer apenas uma carta...”

“14/11/1915:
(...) Fui para casa com o Pacheco, muito aprazivelmente; em casa sem jantar, porque não tinha dinheiro; mas quase não me ralei com isso, porque tinha bebido algum vinho na exposição de Pedro de Lima.”

“15/11/1915:
(...) Entre as 2 e as 4 da tarde recebi inesperadamente 1 dólar e meio do Lomelino por lhe ter passado à máquina as traduções.”

“26/11/1915:
(...) Tive por três vezes, durante o dia e a noite, acessos de uma forma curiosa de tonturas – de género físico abstracto; mas estive todo o dia lúcido. Fumei muito e bebi muito café. O Mário deu-me algum dinheiro, que foi de utilidade passageira, mas isto é mau. O dia foi intensamente agradável, excepto ter sido perdido. À noite, conversa longa e muito agradável com o Lenardo Coimbra.”

“13-6-1916:
Cheguei, assim, ao meu 28º aniversário sem nada ter feito na vida – nada na vida, nas letras ou na minha própria individualidade. Até agora conheci o insucesso absoluto. Durante quanto tempo, ai de mim!, terei de conhecê-lo ainda?
Quanto mais examino a minha consciência, menos me absolvo do nada que é a minha vida.
Que coisa horrível é esta que tanto me atrasou?
A minha leitura deficiente, a minha falta de espírito prático.”

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa(s) - Tantos

Tabacaria

- Fernando Pessoa -

Voz: Helena Antoun

Mais uma vez, começo pelo fim. Durante exaustivo tempo, com dedicação de alma desarmada, reli e estudei tudo o que pude de Fernando Pessoa(s) – escritos dele e sobre ele. Publicarei aqui, em três postagens, o resultado desse trabalho – pouco intelectual, mais emocional.
Se, quando escrevi sobre Clarice Lispector, foi com intenção de desmitificá-la, com Fernando Pessoa(s), o objetivo primeiro foi mesmo aprofundar-me, deixar-me levar por essa alma despedaçada, e, ao mesmo tempo, de uma inteireza profunda e intensamente humana. Se, na volta desse ‘mergulho’, escrevo a respeito, o faço, com ingenuo proposito de ‘ciceronar turistas’, nessa imprevisivel ‘viagem’.
Conheci Pessoa(s), lá pelos meus 10-12 anos, quando, aluna timida, refugiava-me na pequena e inesquecivel biblioteca da escola. Os livros sempre me foram companhia segura e constante – até hoje. Lembro que minha primeira leitura de Pessoa(s) foi um fragmento de Tabacaria, em um livro de língua portuguesa (com exercicios de interpretação):
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Ao ler, minha alma estremeceu no corpo infantil. Entristeci, quando percebi que eu não conseguia responder à “interpretação do texto”. E ainda não sei – mas não entristeço mais por isso. Menina, eu não tinha acesso a muitos livros, até por que a biblioteca da escola priorizava literatura nacional, disponibilizando autores mais conhecidos: Veríssimo, Alencar, Cecília, e, no maximo, um pouco de Clarice, junto com alguns outros. Senão todos, li a maioria, naquela época, já que esquivava-me do convívio com os colegas. Assim, continuei agindo, nas escolas da minha vida. Por diversas vezes, tive emprestadas obras com textos de Fernando Pessoa(s) – devorei-as (inclusive, o poema completo Tabacaria). Como sempre tive dificuldade de decorar leituras, incansavel, copiava Pessoa(s) em folhas retiradas de cadernos, escondidas nos meus maiores segredos.
Muito tempo depois, reencontrei o escritor português, pela janela de uma alma perplexa e inquieta. Nunca antes, aprofundei-me tanto em Pessoa(s). Até hoje, tudo o que leio dele e sobre ele – inclusive, para este trabalho – tem a companhia desta alma.
Sempre digo que não gosto das respostas – prefiro as perguntas, que me dão sensação de infinitude. Por isso, não apresento, aqui, quaisquer respostas, nem uma vaga verdade absoluta. Também, não encerro meu ‘mergulho’ em Pessoa(s), por pressentir (verbo que ele parecia gostar) que, daqui a pouco, Fernando António Nogueira Pessoa me arremessará ao mais desconhecido e inimaginável universo humano.
Não quero copiar biografia, por que Pessoa(s) vai muito além de qualquer vida cronologica. Para justificar, registro o que o proprio Fernando Pessoa(s) deixou escrito: “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença, e a da minha morte. Entre uma e outra, todos os dias são meus”. Atendendo ao pedido, Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em 13 de Junho de 1888, e morreu em 30 de novembro de 1935, vitima de “cirrose hepática”. Eis toda a verdade absoluta de uma vida inteira.
Não ouso tentar defini-lo. Decifrá-lo. Reduzi-lo. Todo ser humano é indefinível. Indecifrável. Inimaginável.
O que iniciar dizendo de Pessoa(s)?... Mais um ser humano – cheio de vidas contraditorias, intensas, tantas vidas que não poderiam ser vividas numa vida só, senão pela literatura. Como qualquer um de nós, Fernando Pessoa(s) carregava todos os sentimentos do mundo humano, na alma que “não é pequena”. Viveu tão intensa e profundamente a vida humana, que encontrou-se e perdeu-se nos proprios textos que escrevia, desaguando a abundancia de uma vida tão fertil, pouco compartilhada entre os seus “patricios” da epoca.
Homem inteligentissimo, Pessoa(s) foi além do conhecimento propriamente dito. Desenvolveu seus proprios mecanismos para ‘misturar’ culturas, de onde garimpava o ‘material’ de textos inacabados, poemas intensos. Mas tudo isso não cabia em Pessoa(s), que, como qualquer ser humano, tinha apenas uma identidade verossimil – a fresta por onde se podia (e ainda se pode) conhecer Pessoa(s).
Foi assim que, desde sempre, Pessoa(s) criou outras identidades – com os minimos detalhes que cabem a todo ser humano. Era o criador, diante de cada criatura, dosando inteligencia, emoção, indole, carater, personalidade, cultura, educação, humanidade, cada qual com seu mapa astral particularizado, e vida social meticulosamente traçada. Aos seis anos de idade, depois de perder o pai e o irmão, Pessoa(s) criou um amigo de sua solidão: Chevallier de Pas. Quantas cartas escritas por ele a ele mesmo. Até o final das tantas vidas numa vida só.
Fernando Pessoa(s), espelho da humanidade que pensa e sente, fez-se cacos, tantos cacos a refletirem o mesmo espelho de 1,73 metro, com fisionomia reconhecida até hoje, pelo sempre bem aparado bigode e o inseparável chapéu, o terno escuro, sombrio até, na companhia de um par de lentes de 12 graus, para atenuar a fatal miopia. E, assim, o universo de Pessoa(s) foi povoado por tantos e incontáveis seres humanizados, dentre eles: Íbis, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher, Alexander Search, Dr. Pancracio, Maria José, Luís António Congo, Eduardo Lança, A. Francisco de Paula Angard, Pedro da Silva Salles (Pad Zé), José Rodrigues do Valle (Scicio), Pip, Dr. Caloiro, Morris & Theodor, Diabo Azul, Parry, Gallião Pequeno, Accursio Urbano, Cecília, Marvell Kisch, Gabriel Keene, Sableton-Kay, António Gomes, Vicente Guedes, José Rasteiro, Tagus, Adolph Moscow, Dr. Gaudêncio Nabos, Frederico Reis, Nympha Negra, Professor Trochee, Diniz da Silvam, Coelho Pacheco, David Merrick, Lucas Merrick, Willyam Links Esk, Charles Robert Anon, Horace James Faber, Navas, Alexander Search, Charles James Search, Herr Prosit, Rev. Walter Wyatt, Jean Seul de Méluret, Gomes Pipa, Frederick Wyatt, Joaquim Moura Costa, Faustino Antunes (A. Moreira), Gervásio Guedes, Carlos Otto, Miguel Otto, Pero Botelho, Efbeedee Pasha, Thomas Crosse, I.I. Crosse, A.A. Crosse, António de Seabra, Raphael Baldaya, Alfred Wyatt, António Mora, Sher Henay, Barão de Teive, Abílio Quaresma, Claude Pasteur, João Craveiro Pantaleão, Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey, junto com Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, que acompanharam-no à morte.
Alberto Caeiro era o “mestre” dos “discipulos” Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mas quem mais aproximou-se da alma de Fernando Pessoa(s) foi Bernardo Soares, que, segundo o proprio criador, chegava em madrugadas insones, quando Pessoa(s), em estado letargico, permitia que sua alma comandasse a caneta, rascunhando folhas e folhas, as quais seriam “passadas a limpo”, numa das maquinas de escrever que utilizava, como tradutor, nas lojas de comercio, em Lisboa.

Foi Fernando Pessoa(s) quem escreveu:
“Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes – penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...
Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma idéia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma...
Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis par seu filho adoptivo, nem nehuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia...” (Bernardo Soares)

“Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.” (Ricardo Reis)

“Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.” (Álvaro de Campos)

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...” (Alberto Caeiro)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O silencio de Chaya bat Pinkhas

Clarice Lispector nasceu Haia Pinkhasovna Lispector, em 10 de dezembro de 1920, em Chechelnyk - lugarejo sumido no mapa da Ucrânia -, e morreu no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1977 (talvez, fechando o ciclo da propria vida). Em sua lapide, escrita em hebraico, o nome oculto: Chaya bat Pinkhas (Chaya filha de Pinkhas).
Trinta e três anos depois da morte dela, muito, e cada vez mais, se fala, se escreve sobre Clarice Lispector. Até eu já ousei postar, neste blog, minha tentativa de desmitificá-la – ela, que reclamava do mito que fizeram dela, o que a afastava das pessoas.
Depois de tanto ler e reler Clarice, e ler e reler sobre Clarice, chego pensar que não existe alma que (ainda) se revele tanto, feito ela. Em cada frase, a propria Chaya bat Pinkhas se manifesta. Foi Haia Pinkhasovna Lispector quem escreveu: “Me deram um nome e me alienaram de mim” (em Um Sopro de Vida). "Há um silencio dentro de mim. E esse silencio tem sido a fonte de minhas palavras." – escrito por ela, também. Em cada frase, uma revelação. Os leitores (na maioria), até hoje, parecem deter-se justamente nas palavras intrinsecas de Clarice, e esquecem de "olhar ao redor” (como ela mesma escreveu), onde paira a alma de Chaya bat Pinkhas – simplicidade ingenua, desamparada.
Se estivesse viva, Clarice Lispector estaria completando, neste 10 de dezembro, noventa anos. Quem sabe, até hoje, ela não entendesse o mito criado, a partir da sua escrita considerada “hermetica”. “Sou tão simples como Bach” – disse ela. Talvez, com noventa anos, Clarice continuasse sentindo medos desconhecidos, e ainda estremecesse, diante de grandes plateias. Quem sabe, ainda não tivesse compreendido o que ela mesma escreveu, há tanto tempo: “O Ovo e a Galinha” (lido pela propria autora convidada, num Congresso sobre Bruxaria).
Noventa anos depois, Chaya filha de Pinkhas ainda vive e revive o assombro humano – extase!... Há noventa anos, Haia Pinkhasovna Lispector continua – incognita – inquietando almas, em tantos idiomas, em países que Clarice sequer conheceu. A alma escritora desnuda-se – entrega-se – sempre, diante de mais uma alma leitora. A inquietação permanece viva – pulsando e fazendo pulsar o desconhecido que tanto tememos...

Reproduzo, a seguir, o depoimento de Ferreira Gullar, sobre Clarice, no livro “Clarice na Cabeceira”, organizado por Teresa Montero:

“Meu primeiro encontro com Clarice Lispector foi numa tarde de domingo, na casa da escultora Zélia Salgado, em Ipanema, creio que em 1956. Eu havia lido, quando ainda vivia em São Luís, o seu romance ‘O Lustre’, que me deixara impressionado, pela atmosfera estranha e envolvente. Mas a impressão que me causou sua figura de mulher foi outra: achei-a linda e perturbadora. Nos dias que se seguiram, não conseguia esquecer seus olhos oblíquos, seu rosto de loba com pômulos salientes.
Voltei a encontrá-la, pouco tempo depois, no ‘Jornal do Brasil’, durante uma visita que fez à redação do ‘Suplemento Dominical’. Conversamos e rimos, mas não voltamos a nos ver, no intervalo de uns dez anos. De fato, só voltei a encontrá-la, logo após voltar do exílio, em 1977. Ela ligou para minha casa: queria entrevistar-me para a revista ‘Fatos e Fotos’, para a qual colaborava naquela época.
Clarice já era então uma mulher de quase 60 anos, marcada por acidente, que resultara em sérias queimaduras que lhe deixaram marcas na mão direita. Já quase nada tinha da jovialidade de antes, embora continuasse perturbadora, em sua natural dramaticidade. Depois de ouvir dela algumas palavras carinhosas, decidi revelar-lhe como me fascinara em nosso primeiro encontro. ‘Você era linda, tão linda que saí dali apaixonado’. ‘Quer dizer que eu 'era' linda?’ ‘E ainda é’, apressei-me em afirmar.
Terminada a entrevista , despedimo-nos carinhosamente, mas, no dia seguinte, ela ligou de novo. Queria encontrar-me para conversar. Fui até sua casa, no Leme, e de lá fomos caminhando até a Fiorentina, que ficava perto.
Lembro-me que Glauber Rocha , vendo-nos ali, veio sentar-se em nossa mesa, e começou a elogiar o governo militar. Clarice me olhava com espanto, sem entender. Ele, depois daquele discurso fora de propósito, mudou de mesa.
‘Ele veio provocar você’, disse Clarice. ‘Com que intenção falou essas coisas? Glauber agora cismou de defender os milicos. É piração’.
Depois dessa noite, voltei a vê-la num encontro que ela promoveu em sua casa com alguns amigos, entre os quais Fauzi Arap, José Rubem...
Foi a última vez que a vi. A roda viva daqueles tempos me arrastou para longe dela, em meio a problemas de toda ordem, crises na família, filhos drogados, clínicas psiquiátricas. De repente, soube que ela havia sido internada num hospital, em estado grave. Localizei o hospital, telefonei para o seu quarto, e acertei com a pessoa que me atendeu ir visitá-la no dia seguinte. Mas, ao chegar à redação do jornal, antes de sair para a visita, a telefonista me passou um recado: ‘Clarice pede ao senhor que não vá vê-la no hospital. Deixe para visitá-la quando ela voltar para casa’. E se ela não voltasse mais para casa? Dobrei o papel com o recado, e guardei-o no bolso, desapontado.
Àquela noite, quando contei o ocorrido a minha mulher, ela explicou: ‘Clarice, vaidosa como era, não queria que você a visse no estado em que estava’. Pode ser, mas, de qualquer forma, até hoje lamento não ter podido vê-la uma última vez.
Dois ou três dias depois do recado, ela morria. Ao sair do banho, pela manhã, alguém me informou: ‘Clarice Lispector morreu’. De viagem marcada para São Paulo, entrei num táxi que me levou pela Lagoa Rodrigo de Freitas. Não poderia ir a seu sepultamento. O táxi corria dentro de uma manhã luminosa, enquanto a brisa balançava alegremente os ramos das árvores. Clarice morrera’ e a natureza a ignorava. No avião, escrevi um poema falando nisso (Que mais poderia fazer?):

Morte de Clarice Lispector
Ferreira Gullar

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
De S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós.

Alguns meses atrás, quando aceitei fazer a curadoria da exposição sobre ela, no Museu da Língua Portuguesa, todas essas lembranças me acudiram. Ia ser bom voltar a pensar nela, reler seus livros, pois é neles e só neles que é possível reencontrá-la agora’ e nunca naquele saárico túmulo do Cemitério Israelita do Caju, aonde’ certo dia, sob sol escaldante, fui, com Cláudia Ahimsa, visitá-la. Não havia Clarice nenhuma’ sob aquela laje de pedra, sem flores. E não havia, porque, de fato, o que Clarice efetivamente foi, o que fazia dela uma pessoa única e exasperada, era sua patética entrega ao insondável da existência - e a necessidade de escrever, de tentar incansavelmente dizer o indizível, mas certa de que, ao torná-lo dizível, o dissiparia.
Não obstante, isso era tudo o que valia a pena fazer na vida, conforme afirmou: ‘Quando não escrevo, estou morta’.
Em compensação, quando a lemos, ressuscita.”

A atriz Beth Goulart é responsavel pelos trabalhos de adaptação, interpretação e direção da peça “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”. É de Beth Goulart o seguinte depoimento:
“O que me levou a fazer Clarice Lispector no teatro foi o mistério do espelho, a identificação que sinto por ela. A vontade de trazer mais luz sobre esta mulher que revolucionou a literatura brasileira, redimensionou a linguagem, falando do indizível, com a delicadeza da música, usando a escrita como uma revelação, buscando o som do silencio, ou fotografar o perfume. ‘A arte é o vazio que a gente entendeu’, diz Clarice.
Quero partir de mim mesma, para refletir a profundidade dessa mulher que conhece o segredo das palavras e suas dimensões. O questionamento é a busca constante do artista, diante de sua escolha. Como ela, eu gosto de intensidades.
Há dois anoss mergulhei num processo de pesquisas para escrever este roteiros lendo tudo o que podia de sua obra e livros biográficos. Fiz dois workshops com Daisy Justus, uma psicanalista especializada em Clarice Lispector, que analisa sua obra, sob a ótica da psicanálise. Vi e ouvi tudo o que podia sobre ela, suas entrevistas, fotos, o depoimento no MIS, a entrevista póstuma na TV Cultura, enfim, me tornei uma esponja de tudo o que se referia a ela.
Neste olhar apaixonado, escolhi sua obra para recontá-la. Construí um corpo narrativo, com trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências que preparam os personagens que irão se apresentar ao público, como desdobramentos dela mesma. Os temas abordados são reflexões sobre criação, vida e morte, Deus, cotidiano, palavra, silencio, solidão, arte, loucura, amor, inspiração, aceitação e entendimento.
Clarice é muito pessoal em seus escritos, e todos os seus personagens têm algo de si mesma. Acho que Joana, de ‘Perto do Coração Selvagem’, talvez seja a mais parecida com sua essência criativa e indomável. Ana, do conto ‘Amor’, é a dona de casa e mãe dedicada que Clarice certamente foi. Lóri, de ‘Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres’, vive em cena as descobertas do amor, e a mulher do conto ‘Perdoando Deus’ é uma bem humorada auto-critica”.

Para terminar mais uma homenagem à alma de Chaya bat Pinkhas, que não silencia, recorro a Drummond, que escreveu simplesmente:

"Visão de Clarice Lispector
Carlos Drummond de Andrade

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice."

Minha mãe africana – Paula -, de Angola, presenteou-me com mais uma arte dela:

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Pratica magica

Na minha visão estrabica, percebo que, na proximidade de cada final de ano, a humanidade se contrai entristecida – quem sabe, somando e multiplicando frustrações, decepções, e um monte de ‘ões’ monstruosamente negativos, desanimadores. Também eu, por força do habito (tão humano), me condiciono a fazer isso. Independente da intensidade, o que queremos – todos – é sermos aceitos, senão pela maioria com quem convivemos, ao menos, por alguns proximos. Aí, a decepção conosco mesmo pode ser maior ainda, por que não correspondemos ao que o outro espera, os outros esperam, da gente. Pior ainda, se introjetamos o que esperam da gente, e passamos a desejar o mesmo de nós. Jamais correspondemos ao que os outros e nós mesmos esperamos da gente – por isso, tantas surpresas na vida.
(Não quero escrever sobre “perdas e ganhos” – até por que Lya Luft publicou um livro a respeito. Não vou entregar o ‘peixe’ dela, de graça. Que Lya Lyft continue vendendo muito, e publicando vaaaaaaaarias edições. O que sei é que tem muita gente comprando o livro, na imaginação fértil de que a obra trata sobre economia, como aumentar os ganhos financeiros. Em tempo de crise, até justifica-se o desespero.)
Já li, em algum lugar, que, nos países europeus, esta epoca de final de ano é sempre marcada pelo aumento no indice de suicidios, (pasme!) principalmente, entre os jovens. Por lá, o inverno chega com tudo – frio, gelo, tudo cinza. Realmente, a situação fica dificil, por muito tempo – mais tempo até, para alguns, que o humanamente suportável. Ser humano precisa de luz, calor, alegria das cores – vida, vida...
Mas eu ‘tava’ escrevendo que, todo final de ano, é ‘batata’: a gente pára pra pensar na vida – o que fez, deixou de fazer, o que deu certo, o que deu errado. Incrivelmente previsível, ou previsivelmente incrível, a gente acaba se tornando o proprio algoz da gente mesmo – com dedo em riste, diante do espelho particular, condenamos nossos fracassos, sem qualquer direito de recurso, ou atenuação da ‘pena’. Nesta auto critica, nos distanciamos, cada vez mais, do que fizemos de bom, das nossas infimas conquistas. Sem contemporizar, damo-nos o veredicto: mais um ano de erros, frustrações, decepções, desilusões, enganos e desenganos. E não há um só alguém que nos convença do contrario. É assim - na condição de “réu confesso” - que entramos no novo ano que se aproxima. Pensando nessas coisas todas, acho mesmo que não dá animo, nem se tem motivação para o novo que desponta, independente da nossa vontade.
Claro que cometemos deslizes, cotidianamente, e até erros imperdoáveis. Mas qual a intenção que nos moveu a deslizar, ou errar amargamente?... Será que não podemos lembrar que tentamos acertar, mesmo quando o resultado é um erro catastrofico?... Sei lá. Acho que, se a gente selecionasse todo mal que causamos, pela intenção (primeira e unica) de verdadeiramente causarmos tal mal (ou até pior), talvez, a gente conseguisse se perdoar um cadinho mais, já que não se recebe gratuitamente perdão alheio – o olhar do outro nos acusa, quase sempre, e, quando não o faz, nos abandona. Fazemos isso sempre – todos, todos seres humanos.
O ultimo mês do ano chegou, e o que a gente fez, deixou de fazer?... Independente da vida que a gente leva, com certeza, a maioria (por que sempre há exceções em tudo) tentou acertar. Se é complicado o outro compreender nossas (miseráveis) intenções, por ter visão propria, e, com isso, interpretação unica, que, pelo menos, nós compreendamos nós mesmos, e até (quem sabe?) nos perdoemos. Depois de aprendermos isso, quem sabe até vamos adiante, e perdoamos os outros. Não é a palavrinha que é magica – é a pratica: resignificar. É dificil?... Eu também acho que é – e quanto!... Mas não é impossivel, poxa!... Sem truques.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Carta a um jovem “foca”

Para os que ignoram a expressão “foca”, em redação de jornal, vou logo esclarecendo que trata-se do jornalista iniciante, que chega, na maioria das vezes, achando até que vai ensinar os colegas ‘dinossauricos’. Também fui “foca” – por isso mesmo, reconheço a arrogância e a presunção, misturadas ao idealismo, desses jovens. Achamos sempre, no inicio da carreira profissional, que podemos mudar o mundo.
O “foca” chega, quase sempre, com vocabulario proprio (“avançado”), decorado na semana que passou ensaiando a entrada triunfal na redação. Aos poucos, “cai na real”, e não há meio termo de sobrevivencia, na redação do jornal: ou assume o trabalho, ou desiste e procura outra função.
Em razão de estar sempre respondendo perguntas de jovens profissionais da area do jornalismo, resolvi esboçar, aqui, uma carta a um jovem “foca”, sem qualquer pretensão de ser levada a sério por isso. Talvez, eu consiga reunir o que já falei sobre, nesses contatos que mantive e mantenho com os jornalistas iniciantes.
Lembro agora que, numa dessas vezes, inclusive, um professor amigo reuniu diversas turmas do ultimo ano do ensino medio, e me chamou para falar-lhes sobre jornalismo, junto com um colega fotografo que trabalhou em jornal comigo. A experiencia foi uma das mais engraçadas que já tive, pois meu colega falou coisas, no microfone, que nunca havia me dito. Feitas as apresentações, meu colega começou logo dizendo que “por diversas vezes, a Nara me colocou em situações extremas, que nunca imaginei, e, literalmente, caguei de medo, enquanto ela cochichava: mantenha o equilibrio, vai acabar tudo certo”. Como se não bastasse o riso geral do publico, meu colega ainda me instigava, fazendo eu lembrar as ‘aventuras’ a que eu o levara, já que ele estava sempre ‘a tiracolo’ comigo. Sem poder mais me calar, eu perguntei: Você ficava com medo mesmo?... E ele: “Claro, até os indios, os sem terra, os grevistas e os policiais ficavam; só você que não. Pra trabalhar com a Narinha, você precisa ter seguro de vida”.
Claro, passamos a maior parte do nosso tempo com os estudantes, lembrando fatos e materias que fizemos juntos. Pelo visto, o papo com os adolescentes foi legal, mais ainda para mim e o meu amigo, que me agradeceu, no final (ainda no microfone), por ensinar-lhe a “valorizar mais a vida”. Entre aplausos e risos, o encontro foi encerrado, fugindo completamente do protocolo.

Deixando a prolixidade de lado, eis minha carta a um jovem “foca”:
Em primeiro e unico lugar, paixão – sinta paixão pelo jornalismo. Sem paixão, você acabará na mesa da mediocridade, selecionando releases sem criatividade alguma, ou selecionando textos e clicando “Ctrl C” – “Ctrl V” -, pela internet. Se você não tem paixão, desista – faça, seja o que for, com paixão, por paixão, pra apaixonar-se mais ainda.
Tenha como definitivo: não existe imparcialidade, em jornalismo. Por isso, mantenha-se atento, pois você precisa saber sempre o que faz, por que faz, por quem faz. Se você se predispõe ficar alerta, logo saberá a posição do dono do jornal, ou do chefe de redação, e até do chefe da grafica do jornal. Sabendo disso, você precisa ter consciente até onde a posição do jornal e a tua posição pessoal se coadunam. Tendo sintonia, trabalha muito, se esforça, pra trabalhar ainda mais. Não havendo aspectos consideráveis em comum, nem assuma o trabalho na redação; ou, então, faça como alguns profissionais da area, que deixam de lado, principios proprios, para seguirem a ‘boiada’.
O ato de escrever é tão – ou mais – particular que a alma de cada ser humano. Por isso, não tente imitar quem escreve e publica. Leia muito, leia tudo – lista telefonica, classificados, bulas de medicamentos, gibis, e até dicionarios. Leia literatura que você gosta, e literatura que você não gosta também (aos poucos, você aprende aguçar a visão critica).
Um aspecto valioso: expectativas. Não tenha expectativa alguma – nem quando for ‘a campo’, nas reportagens, muito menos quando apresentar o resultado do seu trabalho ao chefe da redação. Se alguém está, e se mantém, no cargo de chefia, é por que tem visão critica exacerbada, dentro de uma inquietação permanentemente insatisfeita. Afinal, alguém precisa te instigar ir adiante, não é mesmo?...
Pense que desafio não é só o “furo de reportagem”. Há mais – e maiores – desafios internos e externos do que se possa imaginar. Talvez, um dos maiores desafios internos seja justamente o orgulho, que trava muitas possibilidades de realização profissional. Despoja-te, ao maximo, de todo orgulho. Isso não quer dizer que tenha de reduzir sua auto-estima. Pelo contrario. Reconheça-te profissional ‘aberto ao novo’, sem conceitos e pré-conceitos de toda ordem. Em jornalismo, não existe a conhecida frase: “Essa materia eu não faço”. Por isso, a importancia de, antes mesmo de você “abraçar a profissão”, considerar o que faz, por que faz, por quem faz.
Na primeira pagina de toda ‘cartilha’ jornalistica, constam aquelas perguntinhas basicas:
A - O que?
E - Quem?
I - Quando?
O - Onde?
U - Por quê?

O diferencial da materia fica por sua conta (e risco). Numa reportagem, considere e reconsidere o que todo mundo conceitua “aspecto irrelevante”. Às vezes, o que está em torno do fato, que não seja mero boato, tem mais a dizer que o proprio (fato), o qual torna-se consequencia, efeito. Toda reportagem envolve pessoas, obviamente. Por isso, ouça o maximo possível - e impossível - de pessoas: as testemunhas, e também as envolvidas no fato (direta, ou indiretamente). Fazer pensar – uma das minhas preocupações primeiras, enquanto profissional do jornalismo.
Ainda resta redigir a materia – a maior responsabilidade do jornalista, que, além da informação, contribui na formação dos leitores. Reúna todas as informações que conseguiu, dentro de uma ordem que interesse mais – normalmente, o fato em si, depois, os ‘arredores’. Aquela antiga dica de ter sempre gravador ‘a tiracolo’, para provar a veracidade da materia, continua valendo, há decadas. Importante não deixar o texto ‘capenga’ (inconcluso), ou inconcludente. Eu costumo criar uma ‘linha’ de texto – sigo por ela, até o final, e ‘funciona’, por que torna-se compreensível à leitura, por mais diversificada que seja.
Recorra ao maximo da tua imparcialidade, na narrativa dos fatos e dos envolvidos. Tanto quanto você enxergar necessario, ‘enxugue’ o texto, faça uma redação ‘economica’, objetiva, e, ao mesmo tempo, dinamica, para que, de algum jeito, torne-se atemporal, fazendo parte da historia humana. Não há tempo (relogio), nem espaço (pagina), para divagações. Na duvida sobre como escrever determinada palavra, ou o significado dela, apela ao “amansa burro”, que toda redação “que se preze” deve ter. Outro recurso é perguntar ao chefe da redação, e/ou aos colegas, sobre algum fato que diga respeito à materia que você está redigindo, para ‘nutrir’ as informações.
Do inicio ao final do texto, paixão, muita paixão pelo profissionalismo, pela etica e por tudo de melhor que você possa acreditar em você mesmo. Não imagine receber premios, pelo teu trabalho. Faça o melhor do teu melhor, o impossível do teu possível. Reconheça – você mesmo – o teu valor. E, na proxima edição, faça melhor ainda.
Num dia qualquer, você descobre que já não é mais “foquinha de redação”. Mas guardará lembranças que te farão rir muito, a vida inteira...

De olho