quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Novo Ano Novo

Desse ano, restarão alguns sonhos, algumas promessas não cumpridas, algumas contas a pagar, alguns projetos concretizados, algumas decepções, alguns quilos a mais (ou a menos), alguns amores despedaçados, alguns livros esquecidos nas gavetas, alguma saudade, algumas frustrações, algum recado antigo na porta da geladeira, algum silêncio, algumas sobras e algumas tantas faltas, algumas paisagens, algumas receitas novas de culinária, algumas coisas pra compreender (ou não), algum cansaço antigo, algumas cartas escritas pela metade, alguns testes de paciência, algumas fotografias da infância, alguns novos filmes e canções, alguns banhos de chuva, algum dicionário entreaberto, algumas ternas lembranças, algumas lágrimas que ficaram na sala de cinema, algumas agendas em branco (ou cheias de coisas para fazer), algum marcador de livro à espera, alguns parafusos em desuso, alguns pratos sujos na pia, alguns conflitos, algumas roupas no varal, alguns afetos e alguns outros desafetos, algum rádio sem pilhas, algumas noites insones, algumas palavras, alguns tantos medos, algum resto de sorvete de chocolate no freezer, algumas mágoas, algum pássaro na soleira da janela, algumas tantas partidas e algumas poucas chegadas, algum relógio parado, algumas dores, algum texto sem título, alguns farelos de pão na mesa, alguns telefonemas inesperados, algumas ideias e alguns tantos ideais, algumas dietas malucas recortadas de revistas antigas, algum dinheiro esquecido no bolso do casaco, alguns pesadelos, algum manual de instrução da televisão que não existe mais, algumas despedidas, algumas alegrias, alguns acertos e alguns tantos erros, alguma torneira que pinga sem parar, algum medicamento com validade vencida, alguns números de telefone sem identificação, algumas tantas chaves perdidas, algum papel de presente sem cartão, algumas histórias de tantas vidas, algumas garrafas vazias na lixeira, algum envelope fechado sem remetente, algum pedaço de bolo de aniversário, algumas ausências, algum cartão promocional de uma academia desconhecida de ginástica, algumas palmas e algumas outras vaias, alguma música que não sai da cabeça, alguma proposta de novo trabalho, alguma gaveta há muito esquecida, alguma roupa fora de moda, algumas companhias, alguns papéis em branco, alguns olhares, alguns tantos pontos de interrogação, algumas nuvens, algum esquecimento, alguns desafios, alguma xícara sem asa, alguns emails que não foram lidos, algumas folhas secas entre folhas de livros, alguma maçaneta sem porta, algumas loucuras, algum cartão postal sem destinatário, algum pinguim de geladeira quebrado...
Um novo ano está chegando - com dúvidas, e dívidas. A escolha é sua: Que viagem você deseja fazer?... Com bússola, ou à deriva?... Que bagagem você pretende continuar carregando?... Que óculos você vai usar?... Vai acordado, ou dormindo?... Quer conduzir, ou vai na carona?... Por onde você deseja seguir?... A escolha - a vida, individual e solitária - é sua, de mais ninguém... e boa viagem!...

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

(Des)encontro

- Você por aq...
- Olá, querida!... Há quanto tempo!... Vamos entrar nesse restaurante, aqui, pra colocarmos as fofocas em dia... Arrume uma mesa pra gente, enquanto eu me despeço de um amigo, no whatsapp...
...
- Pronto!... Mas, antes de sentar, vamos fazer uma selfie...
- Sou tímida, e além do ma...
- Que nada! É rapidinho... Feito!
- Por onde você tem andado, que não te vej...
- Só um pouco... Quero postar nossa selfie...
...
- Você tinha perguntado alguma coisa?...
- Nem lembro ma...
- Mais um instante, por que tenho de responder um comentário da selfie...
- O garçom está vind...
- O que você pedir, eu aceito... Tem mais gente comentando a foto...
- Eu só quero um copo d'ág...
- Vamos fazer assim, então: pedimos água de griffe, e fazemos outra selfie...
- Desde que seja água líquid...
- Você é muito engraçada, nem assim sorri...
- Não conheço griffes de ág...
- Deixa que eu peço... Garçom, traga água importada pra nós... Quantos comentários sobre o meu cabelo... Preciso ir ao cabeleireiro, ainda hoje...
- Chegou a nossa ág...
- Vamos fazer uma selfie, mas sorria, pra não ficar feia... Aproxima a sua garrafa, e mostra o rótulo, pra todo mundo morrer de inveja...
- Foi o melhor que pude faz...
- Não ficou das piores... Você, sempre desajeitada... Só vou atender uma ligação... Não demoro... Olá, querido!...
- Cuidado para não tocar no...
- Garçom, caiu o copo... Limpe essa sujeira...
...
- Mais um pouco, tenho de falar com a prima de uma vizinha da encarregada do buffet que contratei... Só mesmo o face, para salvar a minha vida...
- Eu ainda tenho alguns minutos, antes de voltar ao traba...
- Você, sempre tão calada... Deixou o seu smart no carro?...
- Não tenho carro, nem smartpho...
- Nossa!... Li no whatsapp que você não estava bem, financeiramente, mas não pensei que tivesse chegado a tanto... Se eu soubesse, teria trazido um smartphone antigo, do ano passado, que as crianças brincam, lá em casa...
- Não é preciso, obrig...
- Não seja orgulhosa... Olha a foto que a cunhada de uma amiga postou... A nordestina é babá dos filhos dela... hahahahahaha
- Isso é assédio mor...
- Sei lá o que você está falando, mas a foto ficou ridícula... Essa não arruma mais emprego... hahahahaha
...
- Pelo menos, você tem facebook, né?...
- Não, por que...
- Eu não acredito... Você não muda, continua esquisita... Preciso responder agora um convite, no email...
...
- Os comentários das fotos não param... Estão perguntando se você existe...
- Responda que...
- Pronto!... Tenho mesmo de dar um jeito no meu cabelo...
- Eu preciso ir...
- Nem tomou sua água... Fica quieta aí, que eu vou pedir a conta, pra fazer uma selfie, por que tem gente perguntando quanto custa...
- Tenho mesmo de ir...
- Então, tá!... Amei ver você, minha amiga, amei nosso papo, amei tudo... Beijo e me liga!...
...

domingo, 16 de novembro de 2014

De mão com a contramão

Sempre repito que a primeira lição que aprendi foi não ser. Foram e continuam sendo tantas lições pra eu não ser, que, às vezes, me restam ínfimas escolhas. Confesso que, de quando em vez, tilinta, bem no fundo de mim, um prazer intraduzível: não sou. De mão com a contramão, continuo não sendo, e aprendendo ser quem (acho que) sou. E não há solidão maior - pra mim, pelo menos -, enquanto a maioria segue quem segue a maioria.
Acredito mesmo que o maior desafio, nos tempos atuais, é não ser. Até parece que a maioria ignora mesmo os assaltos constantes do consumismo, com campanhas devoradoras de qualquer vontade: carro, cerveja, comida, roupa, produto de alta tecnologia, adereço, joia para animal de estimação, oferta de medicamento, calçado, acessório, maquiagem, vitamina, roteiro de viagem, curso que ensina trocar fraldas, batatinha com sabor de churrasco, emagrecedor milagroso, livro de autoajuda, etc etc etc. Somos assaltados, diariamente, mas ninguém quer saber - o que todo mundo deseja mesmo é consumir, estar na moda, pra se ver sendo parte do que, na maioria das vezes, nem sabe. Eufórica, a maioria segue, obediente.
Que todo mundo quer ser diferente, todo mundo sabe - todo mundo quer. Mas, na mesma proporção, todo mundo quer pertencer, fazer parte, ser igual. Os modelos de heróis que temos hoje são frágeis, efêmeros, não duram mais que uma manchete on line. Por isso, me parece, a mesma via, que ainda mantém a placa antiga de mão dupla, acaba se tornando mão única, onde a boiada passa, sem pensar, na mesma direção, oscilando entre a euforia e a tristeza causada por falta de euforia.
Seres humanos que somos, queremos ser aceitos, mas, na maior parte do tempo, pra sermos aceitos, não podemos ser quem somos. Por isso, talvez, a maioria, pra não ficar sozinha, não ser descartada, deixa de ser quem é, ou até se distancia de si mesma, sem saber quem é, ou quem pode ser. Ignorando a sinalização de mão dupla, a maioria segue a mão única, feito espectro, massa que se modela ao exemplo da maioria que segue.
Eu ainda não sei qual a maior solidão: quando não somos quem os outros são, ou quando somos quem os outros não são. Talvez, eu ainda descubra que a solidão, em ambos os casos, seja a mesma - única, fatal. No fundo, penso eu, independente de quem realmente somos, ou até mesmo quando escolhemos seguir a boiada de olhos fechados, a solidão continua fazendo parte de cada ser humano.
Parece que o ato de seguir pressupõe segurança - se alguém foi por aquele caminho, e se deu bem, os demais terão o mesmo resultado. Quem dera, mas nem sempre é assim. De repente, no meio do caminho e da boiada, alguém resolve pensar: dana tudo, por que não há como voltar, nem sair do meio da maioria, que não olha para baixo, para ver em quem pisa. O que a boiada sabe fazer é passar - passar por cima de tudo que a remeta à individualidade(solidão), ao pensar(mais solidão), para continuar devorando o cardápio principal, que tem tempo de validade cada vez mais reduzido. Não há tempo a ser perdido - a ordem é seguir a mão única do consumismo que consome a maioria. Antes, lentamente. Agora, com fome cega e voraz. E a boiada segue.
Por isso, se você ousa equilibrar-se na contramão, aja com precauções. Não se desespere com a solidão(companheira inseparável), nem pense, por um momento sequer, que a via é mesmo de mão única, como grita a boiada. A placa antiga continua sinalizando via dupla - atitude depende de escolhas. Não se deixe levar pela boiada. Procure enxergar você - a boiada não quer ser identificada individualmente, o que mais deseja é parecer igual. Jamais feche os olhos, diante da boiada que passa. Deixa passar. Feito no trânsito, cada vez mais caótico, você não vai querer perder a vida, que é só sua, seguindo na contramão, indo para o meio de uma boiada que nem sabe pra onde vai, né?... A placa continua à beira dos trilhos: Pare Olhe Escute (ainda não sei se esse é um conselho, mas eu continuo tentando aprender).

sábado, 1 de novembro de 2014

O incrível “livro de caras”

Na minha insignificante opinião, a atualidade dos tempos é marcada pelo incrível “livro de caras”, tradução literal de facebook. Tudo mais é crível - acredite -, além, ou aquém, desse "livro de caras", motivo de rebuliço na vida de zilhões de pessoas, pelo planeta inteiro. Além de cuidar da própria vida, cada 'facebookiano' (o termo saiu agorinha do forno dessa cabecinha medíocre aqui) se sente na obrigação de cuidar da vida dos incontáveis “amigos” (palavrinha que já teve, sim - acredite, não faz tanto tempo -, significado especial).
Confesso que tenho resistido bravamente, para não criar meu perfil no facebook. Nem sei relatar como eu vivo, sem ficar “curtindo” frases sem sentido, o dia inteiro, e fuçando fotos de gente que nem conheço. Reconheço, a minha maior tentação tem sido eu criar meu perfil, para postar fotos minhas comendo, bebendo, nem ligando. Isso tudo é irrestível, pra mim também, que sou humana mortal.
Sem perfil no “livro de caras”, fui obrigada mesmo a recorrer ao 'mestre google', pra bisbilhotar as postagens mais curtidas e compartilhadas. São tantas - emoções. Percebi, nesse trabalho sério e investigativo, que o que o povo gosta mesmo de curtir é luto - o que têm de curtidas e compartilhamentos, nos avisos fúnebres de familiares, colegas de trabalho e aula, e alguns amigos (amigos sem aspas)... Os 'facebookeanos' curtem bastante, também, tragédias, desastres e miséria de vida, ou morte - as curtidas e os compartilhamentos aumentam, quando a vítima é dona do perfil. Lendo tudo isso, enquanto vadiava nas ondas do meu tempo, que é só meu, cheguei pensar que eu não faria esse sucesso todo, no “livro de caras”. Afinal, minha vidinha é tão comum, sem grandes tragédias (gregas, ou venezuelanas), nada, nada mesmo, comparado ao que pude ver, pelo binóculo do google. Ainda assim, não perco a esperança de ter vítimas (sei lá de quê) ao meu redor, para, pelo menos, ter a sensação de quem posta no facebook: “meu pai acabou de falecer”, “fui assaltado, na rua, há pouco”, “meu noivo se suicidou hoje”, “levei tiro dentro de casa”, “fiquei preso na DP”, etc etc etc. Quanta emoção os 'facebookeanos' demonstram, quando, no “olho do furacão”, lembram justamente de conectar o perfil, para registrarem as maiores mazelas do mundo. A disputa parece acirrada. E - o mais incrível: - todo mundo curte, e até compartilha. Todo mundo mesmo, um montão de gentes - e eu (ainda) me incluo fora dessa lista.
Preciso admitir que meus dedos coçam, toda vez que me imagino sem precisar sequer escrever “bjs”, “tks”, ou 't+”. Eu poderia viver, até morrer, no facebook, só curtindo e compartilhando, compartilhando e curtindo, e até curtindo e compartilhando a mesma coisa, sem me preocupar com o que é, ou possa vir a ser. Depois de tudo isso, ainda ficar “famosa”, com zilhões de “amigos”, em todo esse trabalho de clicar curtir e compartilhar, sem precisar assistir qualquer viral, ou perder tempo com mensagens de autoajuda, no meio de incontáveis figuras brilhantes. Isso tudo realmente é irresistível, incrível.
Acabo me emocionando tanto, toda vez que tento imaginar o que estou perdendo de curtir no facebook, que esqueço o dobro da metade. Mas o que todo mundo lembra mesmo foi a incrível comoção nacional (e até internacional) da inveja, depois da postagem de uma selfie, senão histórica, pelo menos única - não tem como ser repetida. A fama, geradora de diversas piadas, ficou por conta da mulher que encarou a fila interminável, no velório de Eduardo Campos, para fazer selfie, com o caixão como pano de fundo. Não há limites - eu que continuo limitada, sem facebook.
Gente, o “livro de caras” é mesmo incrível, e eu continuo sem participar, por que meu celular é tão antigo, que só funciona com fita isolante, sem qualquer furo de câmera. Pra ter perfil no “face” (para os íntimos), eu queria mesmo um iPhone 5 Black Diamond Edition, da Apple, que custa a bagatela de um pouco mais de R$ 36 milhões. Aí, sim, eu iria até para o facebook, e colecionaria autógrafos dos funkeiros da ostentação, que criariam filas, pra fazerem selfie comigo...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Feliz Dia da Criança Feliz!

Sinceramente? Penso que a gente adulta vem, ou vai, perdendo a memória. Esquecemos que ninguém nasce racista, homofóbico, criminoso, assassino. Por esquecimento, continuamos permitindo (sempre escolha) que mais crianças cresçam nas ruas, em completo desamparo. Isso não é culpa de governo, ou qualquer outro poder instituído, seja no Brasil, ou até mesmo na ilha de Tristan da Cunha, o lugar mais longe do mundo. Na realidade, a culpa nem existe - o que deveria haver seria uma outra coisa: responsabilidade humana. Para acabar com qualquer esperança de conscientização, ainda confundimos conceitos e práticas: família educa; escola ensina.
Conseguimos ser piores, quando separamos nossos filhos dos filhos de ninguém, dizendo que não existe a menor comparação. Acredite, nenhuma criança nasce de um pé de repolho, ou pimenta. Esquecemos (o que deveríamos saber, antes mesmo das vogais do alfabeto) que crianças são crianças, em qualquer condição, em qualquer lugar do mundo - têm sonhos, desejos e medos -, e crescem, tornam-se adultas. Continuamos todos assim - sonhadores e medrosos.
Por isso, pra mim, Dia da Criança só é feliz, quando a criança se sente feliz, tem alegria de viver. O resto é marketing, engodo, para não nos sentirmos culpados, responsáveis pelas crianças que vemos nas praças, debaixo de pontes e viadutos, nas ruas, nos semáforos. Eu venho lembrar isso: São crianças, sim. Nem sempre as carinhas estão lavadas, os cabelos penteados e cortados, as roupas limpas e com etiquetas. Mas continuam sendo crianças. A maioria desses menores, filhos de ninguém, nem sabe que é infeliz, por que desconhece esse tipo de parâmetro, ou exemplo. A maioria até tenta parecer feliz, criando brincadeiras, no meio da rua. Mas nem um olhar adulto se interessa por isso. A maioria dos maiores, quando se depara com essas crianças “mulambentas”, o mínimo que faz é proteger a carteira, o bolso, a bolsa, o celular última geração, proteger o que tem e o que aquele ser quase invisível provavelmente nunca terá.
Tem gente (boazinha) que ainda mantém o hábito (caridoso) de preparar pacotes com doces e brinquedos, e distribuí-los em instituições que abrigam e atendem crianças. Já tentei fazer isso, também. Não deu certo, quando ouvi uma senhora, que atendia num orfanato, dizer que, tanto quanto podia, guardava alguns pacotes de balas e pirulitos, para entregar às crianças, pelo menos uma vez por mês, mesmo quando a validade já havia sido vencida pelo tempo. Compreendi que aquela senhora queria manter viva a chama de esperança, naquelas dezenas de crianças. Foi quando desisti da caridade com hora marcada.
Somos tão inteligentes e hábeis, que sabemos lidar com toda essa altíssima tecnologia que nos assalta, diariamente. Também, sabemos que, lá fora, até as ruas, ou o mais simples banco de praça, quando não recebem atenção e cuidado, acabam deteriorando. Um parque que não é limpo é invadido, em pouco tempo, por ervas daninhas. Por isso, cuidamos dos parques, das ruas, dos bancos de praça. Se você leu até aqui, pode estar perguntando: E as crianças em condição de rua?... Eu respondo: continuam invisíveis, ao nosso olhar cego de quem não tem a ver com isso, nem quer pensar a respeito.
Ah, claro (quase esqueci): Daqui a pouco, será 12 de outubro: Feliz Dia da Criança Feliz! Por que as crianças infelizes continuarão sendo infelizes, até que a gente escolha fazer alguma coisa, para mostrar que a felicidade pode realmente existir (pra nós, e para os outros), quando a gente exercita sobrepor o próprio umbigo.

domingo, 5 de outubro de 2014

a e i o u


domingo, 21 de setembro de 2014

E depois?... Como termina?... No final, todos morrem.

Não sei se é por conta da globalização, do capitalismo, ou por causa disso e outras cositas mais, a realidade é que vivemos a nossa insaciável ansiedade, o tempo inteirinho. Se estamos trabalhando, ansiamos voltar pra casa. Se estamos em casa, queremos que o tempo passe, para sairmos. Quando estamos na rua, desejamos férias - de tudo, de todos -, o quanto antes. Se chove, queremos sol. Se tem sol, o que mais desejamos é chuva. Enquanto isso, o tempo passa (bem ou mal passado), de mãos dadas com a vida (bem ou mal vivida).
Sempre me vejo observadora do mundo, dos mundos - cada criatura, um mundo particular. E também me observo - tanto, tanto, que, às vezes, me questiono: Pra que a pressa?... De que me adianta estar onde não estou?... Posso não estar, mas este é, continua sendo, o meu tempo, a minha vida... Por isso (quem sabe?), a insatisfação humana. De nada me adianta comer angu, com frango desfiado, imaginando estar diante de um prato de quiche lorraine.
A realidade é que nós, humanos, tão desumanos, vivemos e personificamos uma ansiedade inimaginável. Já não queremos tempo para degustar os detalhes, momentos de contemplação, entre uma atividade e outra. Aceleramos, cada vez mais, de maneira impensada, certamente, os acontecimentos da vida, feito quando estamos diante da televisão, apertando os botões do controle remoto, numa atitude desesperada e desesperadora. O que queremos? - talvez, nem sequer imaginamos. Quem sabe, também, nem pensamos no que poderíamos desejar, além ou aquém do que estamos vivendo (?). E, assim, insatisfeitos e ansiosos, continuamos trocando canais, modos de vida. Alguns desistentes radicais escolhem tornar-se parasitas, desumanamente inertes, abandonando até mesmo o controle remoto, numa condição sem qualquer réstia de vida.
Nada sacia nossa ansiedade, e acabamos derrotados e desolados, buscando, como último recurso, livrinhos de autoajuda e medicamentos psicotrópicos. Até tentamos mesmo nos convencer de que sofremos depressão, ou tantos transtornos, síndromes e fobias. Enquanto isso tudo acontece, a ansiedade continua lá, dentro de cada um de nós, crescendo, consumindo, nos consumindo.
E depois?... Como termina?... No final, todos morrem.

domingo, 14 de setembro de 2014

"Eles estão surdos"

Na minha insignificante opinião, eles estão cada vez mais surdos - e vocês continuam atuais, Erasmo Carlos e Roberto Carlos, autores da música com esse título aí de cima. Mas o que a maioria não quer saber mesmo é escutar o outro, os outros. Por isso, tem tanta gente que se sente falando sozinha - não é uma questão de sentir-se, mais que isso, está falando sozinha mesmo, por que ninguém quer escutar. Aliás, o que todo mundo deseja é falar e ser ouvido - sem contar todo o tipo de interpretações que pode sofrer, depois que fala. Mas poucos, cada vez mais raros (valiosos), querem escutar. A realidade é que os surdos (grande maioria) estão cada vez mais falantes, e ainda dizem: “você não me falou”, o que poderia ser traduzido para “eu não escutei você”. Pelo menos, seria real.
Tenho um amigo que, há alguns meses atrás, quis fechar o escritório que tinha, para viajar, estudar. Planejou tudo, durante meses. O que ele não previu foi o incidente com a secretária. Como meu amigo tinha de entregar o imóvel, naquela semana, chamou a secretária, para comunicar-lhe que, como já havia dito a ela, informalmente, estava fechando o escritório.
A secretária entrou na sala do patrão, com papeis, a serem assinados por ele, e a agenda dos telefonemas que atendera. Ela falava tanto, repetindo as tarefas, que meu amigo simplesmente perdeu a batalha: não conseguiu frear aquela cantilena, mesmo depois de ter quase gritado. “Ela não me ouvia”, reclamou meu amigo, enquanto contava que foram três dias assim: a secretária cumprimentava-o, quando ele chegava ao escritório, e depois adentrava à sala dele, falando, falando sem parar.
Derrotado, meu amigo não teve opção: entregou a sala, no início de uma noite, e encaminhou a papelada toda de demissão da secretária, com o devido pagamento, ao advogado contratado por ele. Depois do relato, perguntei, irônica: Você a viu, depois disso?... E ele, gargalhando, contou que, algum tempo depois, escutou um “rosário de reclamações”, no balcão de uma empresa aérea. Era a ex-secretária do meu amigo, que não deixava mais ninguém falar - nem ouvia que o voo dela já havia partido, enquanto ela gritava e gesticulava para um pobre atendente, que assentia com a cabeça, mudo, depois de desistir de ser escutado.

terça-feira, 22 de julho de 2014

A quem desinteressar possa

Pronto. Resolvi falar. Vou logo dizendo que o que me fez falar foi meu olhar sobre o mundo, observando gente. Percebo, a cada instante, que também eu, de algum jeito, mesmo de um jeito desajeitado, também sou gente.
Então, resolvi falar. Pode até ser que você nunca mais venha a escutar isso de ninguém. Por isso, mais ainda, sinto urgência em comunicar, a quem desinteressar possa.
Você já pode ter desconfiado, ou, distraidamente, imaginado. Eu confirmo: o outro existe. Não é só dentro de você que existe o outro. Também, fora, em lugares que você nem imagina que existam, o outro continua a existir, à revelia de sabermos, ou não, a existência dele. Lamento muito mesmo, se você nunca quis escutar, nem desejou saber, ou pensar, a respeito. Pois é. Até cada um de nós é o outro, para o outro.
O outro aparece, de qualquer forma - velho, criança, mulher, adolescente. Tem o outro que passa pela gente, cansado, ou em plena forma de motivação. Não importa. Sempre há o outro - que chora, que canta debaixo do chuveiro, que vaga pelo shopping, que ensina a ler e escrever, que ri, que dorme embriagado na calçada, que fala, que solta bombas de efeito moral pelas ruas, que prepara chá de camomila, que grita, que tropeça, que vai ao teatro, que faz malabarismos no sinal, que retoca a imagem, que assalta, que gagueja, que toma banho de chuva, que reza, que remexe as lixeiras, que nem olha para o outro, que pode ser eu, pode ser você - qualquer um (outro).
Por todo lugar, sempre tem outro - outro na rua, outro na casa, outro na academia, outro no balcão, outro no elevador, outro na escola, outro no bar, outro no trabalho, outro na praça, outro na feira, outro na sala de espera. Às vezes, o outro acaba por silenciar, uma vida inteira, aprisionado numa moldura de fotografia amarelada. De todo jeito, o outro se faz presente desejado, passado descartado, ou futuro ignorado. Não importa. O outro vive, e respira pontos de interrogação, mesmo quando não quer pensar. O outro perambula, entre medos e desejos. O outro perde o sono, depois de abandonar os sonhos, e outro fecha os olhos, enquanto salta de bungee jumping.
O outro é aquele com quem a gente cruza na esquina, se esbarra na fila interminável - outro que nos ignora, outro que ignoramos. O outro dirige o carro com funk no volume máximo, e o outro ensaia no palco escuro. Enquanto o outro pratica Tai Chi Chuan, outro planeja assalto, numa saída de banco. Tem outro que chora, quando nasce, e outro que seca as lágrimas, na saída do cemitério. Tem outro que segura a mão da gente, quando todos os outros vão embora.
Ainda que a maioria continue negando, o outro existe. Pode ser eu. Pode ser você. Pode ser outro. O outro é sempre mais visto, quando está na nossa frente, em qualquer fila. Mas tem outro, ainda, que nos pergunta que horas são, e logo se mistura na multidão, sem tempo à gentileza.
Pronto. Falei. Querendo ou não, longe ou perto, a realidade mostra que o outro continua existindo - quem sabe, ignorando, de um jeito, ou de outro, a minha, ou a tua, existência. Ainda tem mais: num dia, numa noite qualquer, o outro, feito eu, feito você, também vai deixar de existir, neste mundinho. E chegarão outros, que continuarão existindo, e deixando de existir, nesta vidinha de tantos outros.

domingo, 13 de julho de 2014

(De segunda a sexta) Feira da felicidade artificial

Enquanto muitos teimam em reinventar a roda, estou lançando um negócio realmente inovador, no mercado das concorrências cada vez mais desleais e apelativas. Resolvi criar (de segunda a sexta) feira da felicidade artificial. Vou logo adiantando que não se trata de venda de produtos de segunda mão. Absolutamente. Tenho caixas, grandes e pequenas, todas lacradas, formatos variados, as quais recebo, sem eu ter feito pedido - às vezes, até desconheço o remetente. Todo mundo quer parecer feliz, e acaba repassando pra gente essas imagens, sempre novinhas em folha, tinindo, com tanto brilho.
E ainda tem gente que alimenta - se engasga - com a doce ilusão de que “todo mundo parece feliz, no universo virtual, na internet”. Que nada! Todo mundo quer parecer feliz, o tempo todo, no universo mais real, físico, humano mesmo. Dizem que os que ostentam felicidade, dia e noite, noite e dia, estão sempre nas rodas sociais, animando casamentos, batizados, e até velórios. Por isso, muita gente se preocupa tanto - não em querer ser, mas - em parecer feliz.
Devido ao grande estoque que tenho dessa felicidade artificial, que me chega, em bombardeios constantes, de todos os lados, resolvi fazer o maior negócio da minha vida: uma feira, para atender à maior demanda atual do mercado consumidor. Não aceito troca, nem devolução, sem direito a “test drive”. O estoque que tenho é diversificadíssimo - para todos os gostos e desgostos. Os produtos dessa feira não têm qualquer garantia, ou bula, manual de instrução, ou de destruição, pois depende do modo de usar de cada consumidor. Sabendo dosar a felicidade artificial, o tempo de validade pode ser bem maior do que se imagina - às vezes, pode funcionar por uma vida inteira.
Sem viajar na carona da imaginação, penso que a feira que estou lançando será o maior sucesso, em tempo mínimo, recorde absoluto. E, ainda, penso mais: as vendas dos 'produtos' que entorpecem o pensamento serão as maiores. Logo depois, outro sucesso previsto é a venda de caras e bocas, sorrisos e gargalhadas gratuitos e descontrolados, para serem usados nos hospitais e velórios.
Hoje, a ciência e a religião vendem a cura de todos os males. Mas só a felicidade artificial vende a imagem sem dor, sem sofrimento. Não são necessários tratamentos intermináveis - médicos e/ou religiosos. A felicidade artificial oferece efeito imediato, indolor, a qualquer olhar desinteressado (afinal, quem quer saber realmente do outro?). Em pouco tempo, a criatura se torna (aparentemente) feliz - às vezes, o efeito é tamanho, que ela mesma acaba se convencendo que a dor é pura invenção de gente melancólica.
Não posso esquecer do amontoado de futilidades, para escamotear qualquer sofrimento, angústia, dor, tristeza. A feira da felicidade artificial é tão variada, e cuidadosamente completa, que nem consigo lembrar do estoque todo, que continuo recebendo, a todo momento, em qualquer lugar - tudo encaixotado, no aguardo de uso desesperado. Se todo mundo quer parecer feliz, o tempo inteiro, não há melhor presente: comprar o produto dessa feira inédita, longe da televisão brasileira.
Aos chorões de plantão, àqueles que resistem bravamente, e continuam demonstrando tristeza, sofrimento, aviso: não adianta chorar, sem direito a descontos. Se ainda existem os que manifestam essas emoções (“bobagens!”) em público, acho que já estão tão isolados, pela boiada eternamente feliz, que vão querer pagar qualquer preço por uma caixinha de felicidade artificial. Comprem, na feira, e se esforcem para aprender o uso mais adequado - tem gente Phd nisso, numa vida cheia de fogos de artifício.
De brinde, um livro de autoajuda acompanha cada caixa de felicidade artificial. Afinal, nem todo dia, mesmo para quem está habituado a usar sempre, o artificial encaixa, não incomoda. Para continuar usando essa felicidade sem sentido, quando o que não é artificial desaba, nada melhor que um livrinho de autoajuda.
Observando os índices de mercado, percebo que tem um monte de gente investindo em produtos de imagem - botox, lipoaspiração, maquiagem definitiva, cremes milagrosos, etc e tal. Disso, o mercado consumidor está cheio. O fato é que a maioria não quer pensar, muito menos falar o que realmente pensa (se pensasse), não quer viver a própria vida. Se aparentar estar bem, o tempo inteiro, já é desgastante, imagine, então, parecer, ou, melhor ainda, convencer os outros que tem outra vida, que é feliz o tempo todo, plenamente - é o sonho de consumo da maioria. Nem estou pensando, neste instante, nas vitrines das redes sociais.
Se a maioria não quer parecer que sente dor - a dor que sente, sem querer -, só mesmo recorrendo à artificialidade. Ser humano é sofrer - prazer e dor.
Ninguém quer saber de gente que pensa, gente que sofre, gente que se entristece, gente melancólica. Por isso, tanta gente não quer saber nem de si mesma. Está cada vez mais difícil competir com tantas felicidades aparentes e constantes. Daí, o melhor mesmo é apelar, aprender a investir, vestir e trocar máscaras efusivas. Viva a felicidade artificial!...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Clarice Lispector: Une Pensée en Écriture Pour Notre Temps

Recentemente, fui presenteada com um exemplar da obra “Clarice Lispector: Une Pensée en Écriture Pour Notre Temps”, sob a direção de Maria Graciete Besse e Nadia Setti, da Université Paris-Sorbonne. A obra é resultado do “Colloque Clarice Lispector: Gênero não me pega mais”, realizado em Paris.
O Colóquio sobre Clarice Lispector reuniu palestrantes de diversos países: Maria Graciete Besse (França), Nadia Setti (França), Claire Varin (Canadá), Lúcia Cherem (Brasil), Benjamin Moser (Estados Unidos), Rosi Braidotti (Holanda), Evando Nascimento (Brasil), Joana Masó (Espanha), Arnaldo Franco Jr. (Brasil), Gabriela Garcia Hubard (México), Carlos Mendes Sousa (Portugal), Nadia Battella Gotlib (Brasil), Mara Negrón (Puerto Rico), João Camillo Penna (Brasil), Elena Losada (Espanha), Silvia Ostuzzi (França), Luisa Muraro (Itália), Michéle Ramond (França), Fernanda Coutinho e Vera Moraes (Brasil).

Para quem quer conhecer os estudos sobre Clarice Lispector, pelo mundo, vale a pena adquirir “Clarice Lispector: Une Pensée en Écriture Pour Notre Temps”, através do link:
http://www.editions-harmattan.fr/index.asp?navig=catalogue&obj=livre&no=43114

terça-feira, 13 de maio de 2014

Falência múltipla dos sonhos

Quando a gente menos espera, tem outra gente promovendo a falência múltipla dos nossos sonhos, pelo mundo. Querem decidir por nós, humanidade, quando vão às ruas, quebram tudo, ou realizam linchamento, execução mesmo, maquiando isso como “justiça pelas próprias mãos”. Estamos sendo assaltados, com nossos sonhos mais secretos usurpados, na maioria do tempo, sem nos apercebermos disso, ou nem queremos mesmo saber, pensar a respeito.
O patrão nos paga pouco, retirando, de nós, o direito de sonharmos, organizarmos projetos. A cada final de mês, recebemos o pagamento, em forma de pesadelo, que nos trará insônia, nos impedirá de sonharmos, até dormindo. Sem o patrão, temos o sonho desempregado, quando sonhos e projetos são levados pela enxurrada de desesperos e desesperanças.
Os (ir)responsáveis pelos canais de televisão querem nos roubar os sonhos, quando jorram sangue, pela nossa sala, diante do nosso olhar cansado e passivo, para, no final da carnificina, nos desejarem “boa noite”. Mas sempre tem mais - é quando chega o horário das novelas, com protagonistas jovens, sarados, marombados, sem cravos e espinhas, com muito botox e maquiagem, a grande maioria branca, no máximo, bronzeada. Neste assalto diário, consentido silenciosamente, as novelas nos fazem abandonar nossos próprios sonhos, para embarcarmos numa viagem que oscila sempre entre o surrealismo e o terrorismo, durante meses de catatonia dos telespectadores. Definitivamente, não há espaço para sonhar, diante da televisão. E ainda falam que as novelas estão próximas da realidade - pode até ser alguma realidade causada por elementos estranhos à vida humana, que luta para sobreviver, muito mais que por um pedaço de pão dormido, ou por uma fantasia de carnaval.
O tempo inteiro, estão querendo roubar nossos sonhos, sem que eu ouse tratar, aqui, dos problemas e traumas particulares de cada um. Somos bombardeados, em massa, por comerciais que querem nos impor o que comermos, bebermos, vestirmos, calçarmos, chegando ao cúmulo de nos disputarem, nas inimagináveis ofertas de medicamentos, livros de autoajuda, revistas de fofocas, e até produtos milagrosos de emagrecimento. Distraídos que vivemos (?), ou reprimindo o que sonhamos, acabamos nos rendendo: sonhos e projetos ao lixo, lixo na mesa, lixo nas ruas e praças, lixo na cama, lixo nas escolas e universidades, lixo nos relacionamentos, lixo no trabalho, lixo na vida, lixo por todo lugar onde passamos, ficamos, fingimos viver.
Diante de tudo isso, ainda fico imaginando que, logo, logo, antes mesmo de percebermos, fazermos pesquisas, estudos e relatórios, haverá novo diagnóstico, nos atestados médicos ininteligíveis - causa mortis: falência múltipla dos sonhos. Oxalá, hajam lápides: Aqui jazem sonhos que não foram domados, nem controlados. Voem em paz.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Debaixo do tapete


Se houve alguma época em que dava para acumular sujeiras, debaixo do tapete, já foi, já era - hoje, já não dá mais. Sujeiras continuam procriando, mas não existe tanto tapete, para cobri-las. Apesar do esforço, ninguém mais consegue colocar problemas sociais, debaixo de tapete, simplesmente. Pior é que a sujeira mesmo está nas mãos de quem ainda tenta varrer para debaixo do tapete.
A humanidade inteira descamba para o capitalismo, e não quer assumir as conquências disso. Por exemplo, assistimos, diariamente, pelo Brasil, índigenas exigindo direito à terra. Eles - os índios - justificam a reivindicação, recontando a história do Brasil, que aprendemos nos primeiros anos de escola. Os quilombolas, também, estão sempre exigindo direito à terra. Lá atrás, muita gente cometeu erros, os quais, até hoje, regurgitam consequências, que deveriam ter sido previstas. Não foram. Varreram tudo para debaixo do tapete, deixando, às gerações futuras, o sofrimento das conquências. E ainda há os agricultores sem terra, que querem terra para plantar, produzir. O desastre maior é que, enquanto não houver solução para isso tudo, mais consequências serão geradas - isso é óbvio demais. Lastimável.
Existe uma frase - “toda ação gera uma reação” -, que, apesar de ser antiguinha, e tão repetida, ou justamente por causa disso, não é levada a sério. Se, há séculos atrás, ainda dava para ingrupir incautos, presenteando-lhes com espelhos, ou qualquer outro badulaque, hoje, não temos mais condições de varrer mais sujeiras para debaixo do tapete. O tapete rasgou - as sujeiras aumentaram.
Citei o capitalismo, por considerá-lo o deus-motor da sociedade atual. Hoje, sem dinheiro, você não come, não mora, não vive, sem contar que, sem dinheiro, você não recebe o que chamam “respeito” (o que restou da palavrinha). Isso tudo acontece, com a nossa anuência, a permissão e a escolha de cada um de nós. No Brasil, especificamente, onde nasci, onde vivo, onde posso pensar a respeito, até o coronelismo faz qualquer coisa, para se manter. Por isso, enxergamos tanta gente, ainda, escravizando outras gentes, que se permitem a isso. A chibata, o tronco, a palmatória ainda existem, além dos museus - tudo maquiado, modernizado, mas com idênticas funções. Consequentemente, o dito poder fica nas mãos de quem tem dinheiro, e paga para ter prestígio, fama, amedrontando os morros de favelas e as mansões, os apartamentos de cobertura, e até os nossos três poderes soberanos. Como tudo isso aconteceria, sem consequências?... Estamos recebendo o troco, pelo que pagamos, quando permitimos que tudo isso continuasse acontecendo. Pior que isso: continuamos permitindo.
Não há efeito sem causa. Indígenas, quilombolas e sem terras querem o direito à propriedade. Empresários querem o direito de pagar menos impostos. Famílias sem teto querem o direito à moradia. Trabalhadores querem o direito à participação nos lucros das empresas. Cidadãos do mundo querem o direito de ir e vir, em todos os países. Desempregados querem o direito ao trabalho digno e justo. Mães querem o direito a creches e escolas, para os filhos. Todo mundo quer ter o direito de - até mesmo aqueles que têm o dever de. Direito e dever caminham sempre juntos - onde existe desequilíbrio, pode ser que aquele que tem o dever de esteja priorizando o próprio direito de, que também tem.
Diante de tudo isso, ainda tem gente que consegue enxergar apenas as consequências, o que sobrou, e se multiplica, acima do tapete, sem poder ser varrido para baixo. Tem gente que ainda estuda a história do Brasil (a registrada em livros, obviamente, por que a oculta continua bem ocultada), sem fazer qualquer associação com a atualidade. A essa gente, só posso dizer: é isso mesmo, houve massacre de etnias e classes sociais, neste grande País, mas, pelo visto, nós não temos nada a ver com isso. Que cada um continue cuidando do seu - o que não é meu, nem teu, que seja meu, ou teu. E viva o capitalismo!
O problema é que não podemos fazer como os antepassados: varrer a sujeira para debaixo do tapete. A sujeira atual resolveu se manifestar, impelida pelo capitalismo, coisa que não fazia, antigamente, e começou a cometer barbaridades, atacando a sociedade, que, atingida, sem ter como varrer para debaixo do tapete, se vê obrigada a viver cercada por homens fortes e armados, câmeras, veículos blindados, clamando e reclamando por segurança pública (para quem?).
E a história do Brasil continua (claro, com mais consequências)...

sábado, 15 de março de 2014

Os outros



Não há vida humana, sem os outros. Alguns poucos (ermitões) podem até querer negar - não adianta. Pensando nos outros, agimos, ou deixamos de agir. Nossa vida está sempre fadada ao crivo dos outros, que podem manifestar-se, ou não, mas, com toda certeza, estão nos observando, diretamente, ou de soslaio. Sempre, “no meio do caminho”, há outros caminhos, outros meios.
O que fazemos, ou deixamos de fazer, tem sempre mesmo a ver com os outros. Pensamos nos outros, mesmo quando afirmamos estar pensando somente em nós mesmos. Isso não é verdade absoluta - apenas realidade constatada.
É em função dos outros, que mudamos de vida, ou permanecemos na mesma condição, enquanto não nos impelem à mudança. Por causa dos outros, estamos sempre buscando dar sentido à vida, até quando não ousamos pensar em alguém, especificamente. Também, no ato suicida, pensamos nos outros. Sempre, os outros - reflexos de nós, espalhados pelo nosso universo de convívio.
Não estamos fazendo, o que fazemos, tão-somente pelos outros, quando manifestamos concordar com opiniões/avaliações alheias. Absolutamente. Por toda a vida, nos deixamos ser capturados pelos outros, que nos influenciam, até quando nos negamos a seguir o caminho apontado por mãos que não são as nossas. Com os outros, aprendemos a pensar, ou não pensar. Os outros - vivos, ou mortos (que importa?).
Quando seguimos conselhos e exemplos, claro, estamos fazendo, abertamente, pelos outros, com os outros. Mas há, também, situações em que mudamos nosso jeito de ser, agir, viver, para satisfazermos os outros, com quem desejamos conviver. Os outros tornam-se, assim, nossos alvos, nossos reflexos, nossos desejos, nossos estímulos, para sermos quem desejamos ser, ou simplesmente deixarmos de ser quem pensamos que somos.
Dependendo da circunstância, queremos corresponder ao que os outros esperam de nós. Em outras ocasiões, tudo o que desejamos é alardear que somos diferentes dos outros. Sempre, os outros - os outros, sempre.
E não há vida humana, sem os outros. Outros que nos refletem - às vezes, tal qual lago límpido; outras, espelho embaçado, mofado. Não importa. Os outros, sejam quem forem, estão sempre a nos espiar, observar, ou até ignorar - continuam existindo, na nossa existência.
Ainda há quem diga que não está “nem aí”, para os outros. Talvez, justamente esses, os que, aparentemente, não se importam com os outros, é que estão mais concentrados nos outros, na vã preocupação de não depararem-se com eles - os outros -, que permanecem, também, como nós, de olho nos outros.

De olho