domingo, 8 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Você tem?


Você tem alguém, um só alguém, com quem você pode ser você, sem ser o que os outros querem que você seja?
Você tem alguém com quem caminhar na chuva, sem proteção?
Você tem alguém com quem pode falar tudo e mais um pouco, e com quem silenciar horas a fio?
Você tem alguém que sempre destaca o melhor que enxerga em você?
Você tem alguém com quem você volta a ser criança, e quer envelhecer junto?
Você tem alguém que te espera, sempre, de braços abertos?
Você tem alguém a quem você não sente necessidade de mentir, nem de dizer verdade absoluta alguma?
Você tem alguém que te estenda a mão, sem falar coisa alguma?
Você tem alguém com quem ri e chora, e, no meio da madrugada, pode acordar esse alguém, por sentir-se só?
Você tem alguém com quem dividir a barra de chocolate, a coca-cola, o arroz com jiló?
Você tem alguém a quem não vive pedindo perdão por ter nascido?
Você tem alguém que, quando você chega, quer saber mesmo como você está se sentindo?
Você tem alguém que diz lembrar de você, nas situações mais simples da vida?
Você tem alguém que te ouve, te questiona, sem te interpretar?
Você tem alguém que você convida para sair, vai contigo, sem perguntar aonde?
Você tem alguém com quem você pode até não ser?
Você tem alguém que entra no consultório médico contigo, para saber da sua saúde?
Você tem alguém que te olha nos olhos, e diz o que pensa e sente, sem medo de interpretação?
Você tem alguém que ri das tuas piadas sem graça?
Você tem alguém com quem conversar sobre tudo, sobre nada, a qualquer momento, sem data especial?
Você tem alguém?...
Se você tem esse alguém ao seu lado, e também é esse alguém para esse alguém, só posso desejar uma coisa: Que você não acorde.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O melhor da vida

Às vezes, chego pensar que o melhor da vida ainda não foi vivido, por que acontecia, enquanto a gente se distraía em olhar para os lados, para baixo, para cima, procurando o melhor da vida. Mas tem gente que espera o melhor da vida, quando não mais usar fraldas, aprender caminhar, ler e escrever. Depois, espera crescer mais, e experimentar a vida. Enquanto isso, a vida vai vivendo... No final da vida, essa mesma gente (ainda) espera o melhor da vida, quando não usar mais fraldas, já que aprendeu caminhar, ler e escrever.
Mas também há gente que deseja o melhor da vida, quando conseguir diploma, quando tirar as merecidas férias, quando terminar o tratamento de saúde, quando saldar as dívidas, quando chegar a aposentadoria, quando acertar na mega sena. Quando não há mais nada a esperar da vida, ainda assim, espera o melhor da vida, depois que os filhos nascerem, crescerem, estudarem, se formarem, tiverem filhos.
No meio disso tudo, tem gente que não espera o melhor, nem o pior, da vida – por que não acredita, ou por que não quer pensar. Vai vivendo. Às vezes, até se dá bem com a vida, com quem passeia de braços dados, por algum tempo. Mas tudo, na vida, é passageiro. E o que parecia ser o melhor da vida simplesmente deixa de ser. Mas ainda existe vida a ser vivida – de um jeito, ou de outro, acreditando, ou não.
Pensando nisso tudo, e em mais que isso, acho que, diante de tanta vida, estamos perdendo vida – talvez até o melhor da vida. Obviamente, a cada instante, perdemos vida, mas, aí, trata-se de vida cronometrada, medida, pesada, avaliada pelo somatório circunstancial do nosso “modus vivendi”. A vida que estamos perdendo, acho, tem a ver com nossas escolhas – tão nossas, de cada um, por isso, tão especiais e únicas.
Há tanta vida fora, que acabamos “exilados de nós mesmos” (acho que a expressão é de Nietzsche). Tudo, lá fora, acontece cada vez mais rápido – o mundo virou on line, e “ficar off line” é deixar de viver (o melhor da vida?). Realmente, eu não compreendo, apesar de pensar tanto a respeito. Mas não penso, buscando respostas, por que seriam meras justificativas da minha própria imaginação, criada pela minha visão estrábica.
E ainda existe o que é o melhor da vida. Não há conceito permanente – a vida não é; a vida está. Não há melhor da vida igualzinho para duas pessoas – uma quer mais, outra se contenta com pouco menos do melhor. Isso, por um instante. Em outro momento, os desejos e as esperanças podem inverter, desabar. Enquanto tudo isso acontece, ou deixa de acontecer, a vida continua vivendo, tornando-se realidade. Nem sempre melhor. Nem tão pior. Vida – simplesmente -, essa amante infiel do tempo.