quinta-feira, 18 de maio de 2017

Mandado de despejo aos mandarins do mundo


Alvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) - 1917

Fora tu, reles esnobe, plebeu, fora tu, imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade, banalidade em caracteres gregos, sopa salgada fria, fora com tudo isso, fora! Que fazes tu na celebridade? Quem és tu? Tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro, todos os outros, lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual, incompetentes, barris de lixo virados para baixo. Tirem isso tudo da minha frente, tudo daqui para fora. Ultimatum a todos eles e a todos os outros que sejam como eles. Todos!
Falência geral de tudo por causa de todos. Falência dos povos e dos destinos, desfile das nações para o meu desprezo. Passai gigantes de formigueiro. Passai mistos que só cantai a debilidade. Passai bolor do novo, passai à esquerda do meu desdém. Passai e não volteis, párias na ambição de parecer grande.
Passai finas sensibilidades, montes de tijolos com pretensões a casa. Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomania triunfante, voz que confundis o humano com o popular, que confundis tudo, chocalhos incompletos, maravalhas, passai! 
Passai tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Vem tu finalmente ao meu asco, roça-te finalmente contra a sola do meu desdém. 'Grand finale' dos parvos, impotência a fazer barulho. Quem acredita neles?
Descasquetem o rebanho inteiro, mandem isso tudo para casa, descascar batatas simbólicas. O mundo tem sede de que se crie, tem fome de futuro.
Tu, Estados Unidos da América, síntese bastardia da Baixa Europa, alho da sorda transatlântica pronúncia nasal do modernismo inistético. E tu, Portugal, centavos, resto da monarquia a apodrecer república. E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir. Ponham-me um pano por cima de tudo isso, fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
A política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência. Sufoco de ter só isso à minha volta. Deixem-me respirar! Abram todas as janelas, abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo. 
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão. Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações a reis lacaios.
Sim, todos vós que representais o mundo, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, passai vozes ambiciosas do luxo cotidiano, aristocrata de tanga de ouro. Passai vós que sois autores de correntes sociais, de correntes literárias, de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar. 
Passai, frouxos! Passai, radicais do pouco! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer o poeta que busque a imortalidade ardentemente e não se importe com a fama. Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que é apenas a derrota dos outros.
O mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar. Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um mundo novo. Ergo-me ante o sol que desce e, à sombra do meu desprezo, anoitece em vós, e proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito.

domingo, 14 de maio de 2017

És mãe

És mãe – o mundo já não te enxerga mais, por que te tornaste invisível, diante de tamanha luz que rompe a estrada da maternidade. Todo mundo vê teu filho – lindo, gracioso, com saúde. E tu te tornas coadjuvante feliz, numa peça que existe, por que tu escolheste construí-la.
És mãe – te desdobras e te multiplicas em tantas quantas necessárias, para atenderes teu rebento. Estás feliz – teus olhos brilham. Não há dor e prazer maiores que este que sentes agora, e continuarás sentindo, sempre, sempre…
És mãe – te alimentas, no momento que consegues, cuida de ti, quando o pequeno adormece. E não haverá – jamais – sentido maior à tua vida, que já não pulsa só em teu corpo que se desnutre e emagrece.
És mãe – amamentas a vida que, enquanto se desenvolve, de mãos dadas com o tempo e a natureza, te envolve na essência do amor. Teus olhos, teus ouvidos, teus sentidos todos aguçam, a cada novo dia – primeiro sorriso, primeira palavra, primeiros passos, primeiro abraço. E não há alegria que te faça mais emocionada e feliz, ao ouvir a voz infantil: “Mamãe”.
És mãe – animal que pensa com o coração, age com a intuição, e sabe sem saber. Já não há espaço vazio, todo ocupado pelas pequenas e grandes emoções, que se multiplicam com os momentos de puro êxtase.
És mãe – ninguém mais enxerga o que só tu vês, e compreendes. Ninguém mais se preocupa tanto em cuidar, proteger, acarinhar e acolher o teu pequeno. Ninguém mais sabe, ou saberá, tanto sobre teu rebento.
És mãe – carregas todas as lágrimas de emoção, com o filho junto ao peito. Sem tradução, segues o destino de todas as mães que sofrem – dor e prazer -, muito além de uma vida inteira.
És mãe – tudo faz sentido, ou até deixa de ter sentido. Não importa. A vida vive, espalha alegria e luz, por onde corre o teu pequeno, com olhinhos curiosos e sorriso largo, diante de tudo tão novo.
És mãe – ninguém sabe o quanto. Só o pequenino, aconchegado ao teu colo, reconhece, no teu olhar de puro amor, o sentido da própria vida que cresce.
És mãe – depois da tua barriga predestinada a crescer, fazes esforços, sacrifícios até, abres concessões. Nada disso é, ou será, reconhecido. Por toda a vida, haverá sempre alguém (único) a te chamar, até em silêncio: Mamãe.
És mãe – e isso é tudo. Não precisas pensar, conjecturar, a respeito. Pelo menos hoje, dia que te homenageiam, descansa...

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Dia dos Trabalhadores: Parabéns pelo presente (grego)!

Primeiro de maio é dia daqueles que bateram mais de um prato de arroz, feijão e bife por dia, por mais de uma década, e também daqueles que bateram panelas, há mais de um ano – todos, trabalhadores brasileiros.
E ainda teve gente que quis acreditar que os trabalhadores não receberiam presente, neste primeiro de maio. Quem dera! O presente chegou bem a tempo, e veio a galope, enviado por aquele descendente libanês (nada a ver com o povo libanês), que resolveu dar, aos trabalhadores brasileiros, um presente grego, bem à moda de Troia mesmo, com direito a coices e relinchos.

O descendente libanês enviou o cavalo grego (puro sangue), à moda brasileira, e a boiada toda do congresso resolveu despachar logo o presente aos trabalhadores, para chegar a tempo desse primeiro de maio. Segurem mais isso, trabalhadores brasileiros:

Negociação
Negociação entre empresas e trabalhadores vai prevalecer sobre a lei para pontos como: parcelamento das férias em até três vezes; jornada de trabalho, com limitação de 12 horas diárias e 220 horas mensais; participação nos lucros e resultados; jornada em deslocamento; intervalo entre jornadas (limite mínimo de 30 minutos); extensão de acordo coletivo após a expiração; entrada no Programa de Seguro Emprego; plano de cargos e salários; banco de horas, garantido o acréscimo de 50% na hora extra; remuneração por produtividade; trabalho remoto; registro de ponto. No entanto, pontos como fundo de garanta, salário-mínimo, 13º salário e férias proporcionais não podem ser objeto de negociação.

Fora da negociação
As negociações entre patrões e empregados não podem tratar de FGTS, 13º salário, seguro-desemprego e salário-família (benefícios previdenciários), remuneração da hora de 50% acima da hora normal, licença-maternidade de 120 dias, aviso prévio proporcional ao tempo de serviço e normas relativas à segurança e saúde do trabalhador.

Trabalho intermitente
Modalidade pela qual os trabalhadores são pagos por período trabalhado. É diferente do trabalho contínuo, que é pago levando em conta 30 dias trabalhados, em forma de salário. O projeto prevê que o trabalhador receba pela jornada ou diária, e, proporcionalmente, com férias, FGTS, previdência e 13º salário.

Fora do trabalho intermitente
Marinho acatou emendas que proíbem a contratação por meio de contrato de trabalho intermitente de aeronautas, que continuarão regidos por lei específica.

Rescisão contratual
O projeto de lei retira a exigência de a homologação da rescisão contratual ser feita em sindicatos. Ela passa a ser feita na própria empresa, na presença dos advogados do empregador e do funcionário – que pode ter assistência do sindicato. Segundo o relator, a medida agiliza o acesso do empregado a benefícios como o saque do FGTS.

Trabalho em casa
Regulamentação de modalidades de trabalho por home office (trabalho em casa), que será acordado previamente com o patrão – inclusive o uso de equipamentos e gastos com energia e internet.

Representação
Representantes dos trabalhadores dentro das empresas não precisam mais ser sindicalizados. Sindicatos continuarão atuando nos acordos e nas convenções coletivas.

Jornada de 12 x 36 horas
O projeto estabelece a possibilidade de jornada de 12 de trabalho com 36 horas de descanso. Segundo o relator, a jornada 12x36 favorece o trabalhador, já que soma 176 horas de trabalho por mês, enquanto a jornada de 44 horas soma 196 horas.

Ações trabalhistas
O trabalhador será obrigado a comparecer às audiências na Justiça do Trabalho e arcar com as custas do processo, caso perca a ação. Hoje, o empregado pode faltar a até três audiências judiciais.

Terceirização
O projeto propõe salvaguardas para o trabalhador terceirizado, como uma quarentena de 18 meses, para impedir que a empresa demita o trabalhador efetivo para recontratá-lo como terceirizado.

Contribuição sindical
A proposta torna a contribuição sindical optativa. Atualmente, o pagamento é obrigatório para empregados sindicalizados ou não. O pagamento é feito uma vez ao ano, por meio do desconto equivalente a um dia de salário do trabalhador.

Sucessão empresarial
O projeto prevê que, no caso em que uma empresa adquire outra, as obrigações trabalhistas passam a ser de responsabilidade da empresa sucessora.

Ambiente insalubre
Marinho acatou emenda sugerida pela deputada Laura Carneiro (PMDB-RJ), que determina o afastamento de mulheres grávidas de ambientes considerados insalubres em grau máximo. Nas atividades insalubres, em graus médio e leve, o afastamento depende de atestado de médico de confiança da trabalhadora que recomende o afastamento durante a gestação.

Justiça do Trabalho
O projeto torna mais rigorosos os pressupostos para uma ação trabalhista, limita o poder de tribunais de interpretarem a lei, e onera o empregado que ingressar com ação por má fé. Em caso de criação e alteração de súmulas nos tribunais, por exemplo, passa a ser exigida a aprovação de ao menos dois terços dos ministros do Tribunal Superior do Trabalho. Além disso, a matéria tem que ter sido decidida de forma idêntica por unanimidade em pelo menos dois terços das turmas, em pelo menos dez sessões diferentes.

Regime parcial
O parecer do relator estabelece que trabalho em regime de tempo parcial é de até 30 horas semanais, sem a possibilidade de horas suplementares por semana, ou de 26 horas por semana – neste caso com a possibilidade de 6 horas extras semanais. As horas extras serão pagas com o acréscimo de 50% sobre o salário-hora normal. Atualmente, trabalho em regime de tempo parcial é aquele que tem duração máxima de 25 horas semanais e a hora extra é vedada.

Multa
Na proposta original, apresentada pelo governo, a multa para empregador que mantém empregado não registrado era de R$ 6 mil por empregado, valor que caía para R$ 1 mil para microempresas ou empresa de pequeno porte. Em seu parecer, porém, Rogério Marinho reduziu o valor da multa, respectivamente, para R$ 3 mil e R$ 800. Atualmente, a empresa está sujeita a multa de um salário-mínimo regional, por empregado não registrado, acrescido de igual valor em cada reincidência.

Recontratação
O texto modifica o substitutivo anterior para proibir uma empresa de recontratar, como terceirizado, o serviço de empregado demitido por essa mesma empresa. Modifica a Lei 6.019/74.

Tempo de deslocamento
O tempo despendido pelo empregado até o local de trabalho e para o seu retorno, por qualquer meio de transporte, não será computado na jornada de trabalho. A CLT, hoje, contabiliza como jornada de trabalho deslocamento fornecido pelo empregador para locais de difícil acesso ou não servido por transporte público. Segundo Rogério Marinho, o dispositivo atual desestimula o empregador a fornecer transporte para seus funcionários.

Acordos individuais
Os trabalhadores poderão fazer acordos individuais sobre parcelamento de férias, banco de horas, jornada de trabalho e jornada em escala (12x36).

Banco de horas
A lei atual permite o banco de horas: a compensação do excesso de horas em um dia de trabalho possa ser compensado em outro dia, desde que não exceda, no período máximo de um ano, à soma das jornadas semanais de trabalho previstas, nem seja ultrapassado o limite máximo de dez horas diárias. O substitutivo permite que o banco de horas seja pactuado por acordo individual escrito, desde que a compensação se realize no mesmo mês.

Trabalhador que ganha mais
Relações contratuais firmadas entre empregador e empregado portador de diploma de nível superior, e que receba salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social, prevalecem sobre o que está escrito na CLT.

Demissão
O substitutivo considera justa causa, para rescisão do contrato de trabalho pelo empregador, a perda da habilitação, ou dos requisitos estabelecidos em lei, para o exercício da profissão, pelo empregado. Rogério Marinho acatou emenda que condiciona essa demissão “caso haja dolo na conduta do empregado”.

Custas processuais
Nos dissídios individuais e nos dissídios coletivos do trabalho, nas ações e procedimentos de competência da Justiça do Trabalho, bem como nas demandas propostas perante à Justiça Estadual, no exercício da jurisdição trabalhista, as custas relativas ao processo terão valor máximo de quatro vezes o teto dos benefícios do Regime Geral da Previdência Social, que em valores atuais corresponde a R$ 22.125,24.

Justiça gratuita
O projeto permite, aos juízes, órgãos julgadores e presidentes dos tribunais do trabalho de qualquer instância, conceder o benefício da justiça gratuita a todos os trabalhadores que perceberem salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social. A proposta anterior estabelecia limite de 30%.

Tempo de trabalho
O substitutivo altera o artigo 4º da CLT, para desconsiderar como extra da jornada de trabalho, atividades particulares que o trabalhador realiza no âmbito da empresa, como: descanso, estudo, alimentação, atividade social de interação entre colegas, higiene pessoal e troca de uniforme.

Jornada excedente
Hoje, a CLT permite que a jornada de trabalho exceda o limite legal (8 horas diárias e 44 semanais), ou convencionado, se ocorrer necessidade imperiosa. A duração excedente pode ser feita, se o empregador comunicar a necessidade à autoridade competente, dez dias antes. O projeto acaba com essa obrigação.

(Se você, trabalhador, leu tudo isso, não entendeu p#&%@ nenhuma, nem sequer imaginou os prejuízos que sofrerá, a partir de agora, sorria, pois você alcançou o objetivo do descendente libanês, que ainda tem 4% de aprovação, pelo Brasil – certamente, outro malabarismo presidencial.)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O que resta fazer?

“Ser ajustado a uma sociedade profundamente doente não é sinal de saúde”. - Jiddu Krishnamurti

Tem muita gente que demonstra realmente não saber o que fazer. Às vezes, assusta o que muita gente decide fazer. Escolha é algo complicado: a gente faz, a vida inteira, e sempre respinga nos outros – perto, ou longe. Sempre repito que onde há dúvida, há esperança. As certezas são, sempre, tão pesadas, que acabam mesmo sufocando qualquer outra escolha.
Houve um tempo em que muita gente sinalizava referências – de humanidade, vida, ética, saúde, estudo, solidariedade, e tantos outros valores. O tempo passou – implacável. Penso que estamos vivendo um tempo de derrubadas de conceitos. Até aí – se tivesse parado por aí -, tudo certo. Pena que os preconceitos estejam sendo fortalecidos, e ocupando todos os espaços vagos. Ainda não estamos - a maioria de nós - adaptados aos novos tipos de vida. Avançamos na tecnologia, na ciência, mas agimos com mais violência do que os nossos antepassados, quando a vida nos apresenta formas diferentes de viver. Tanto é real, que vemos muita gente, com tablet, smartphone, repudiando uniões homoafetivas, e/ou o fato de que crianças, com alguma deficiência, frequentem salas de aula, onde os demais alunos são considerados “normais”(?) – afinal, são maioria.
Nas ruas, motoristas embriagados atropelam e matam números de vítimas de uma crescente estatística de acidentes. Pelas vias públicas, também, pessoas da zona sul e da favela lincham pessoas da favela e da zona sul. E ainda tem os ‘milicianos’, os ‘justiceiros’, os (de)formadores de opinião, na tv. O motorista bêbado atropela a criança, na calçada. Os transeuntes lincham o motorista bêbado. A polícia bate nos linchadores. Os moradores da área, em protesto à ação policial, ateiam fogo nos ônibus. Enquanto tudo isso acontece, no programa policialesco da televisão, o apresentador defende a pena de morte. 
Vivemos numa sociedade, onde a maioria das pessoas não quer saber de desafios, ou qualquer coisa que remeta a isso. O que todo mundo quer é parecer super herói. Por isso, penso eu, se proliferam tantos jovens que arriscam a própria vida, 'brincando' de jogo da asfixia, roleta russa, ou fazendo piruetas, nas alturas, sem qualquer equipamento de proteção. Na minha visão estrábica, os que fazem isso não são mais que suicidas exibicionistas - prova é que acabam postando vídeos e fotos, nas redes sociais, com essas baboseiras. Enquanto isso, os reais desafios continuam sendo negados, deixados de lado. Às vezes, um grande desafio é feito tão interna, intimamente, que acaba nem sendo divulgado, e até reconhecido. Na minha desimportante opinião, desafio mesmo não é você colocar a vida em risco. Pelo contrário, desafio é você lutar pela preservação da sua vida, com compromisso, por uma vida melhor, mais responsável. Mas, em tempo de aparências, quem quer saber de estar em paz consigo mesmo?... O que vale, numa sociedade sem valores, é o status: “comprar coisas que você não quer, com o dinheiro que você não tem, a fim de mostrar, para gente que você não gosta, uma pessoa que você não é”.
De repente, prender o ar por mais tempo, em rede social, e/ou pendurar-se em cabo de aço, no mais alto edifício, é considerado mais desafiador, neste mundo de imagens, do que, por exemplo, reconhecer os próprios erros e acertos, diante do outro, ou de si mesmo. Quem arrisca nas alturas pode, no máximo, morrer; quem reconhece os próprios erros, arrisca tantas coisas - não ser bem interpretado, compreendido, perdoado, aceito, etc. Cometemos o que achamos ser grandes atos, para que grandes holofotes nos tornem os grandes seres que desejamos ser para os outros, no momento. Mudarmos nossas atitudes, para o amadurecimento, pressupõe muito trabalho, muito mais que nos pendurarmos, por alguns segundos, lá no alto, seja como for. Até por que amadurecimento de personalidade não vira vídeo, ou foto, na internet. E o que a maioria quer mesmo é ser vista, e passar, dias e noites, comemorando o número de visualizações, enquanto está no pronto socorro, engessando uma perna, um braço, ocupando lugar na fila dos desesperados. Na pior das hipóteses, alguns alcançam a fama esperada, mas não podem comemorar – morreram no que consideravam desafio.

… E ainda tem gente que acredita que, nesse ano de 2017, tudo isso vai mudar, de uma hora pra outra, sem toque de mágica, simplesmente por ser ano novo… O que resta fazer?… nem arrisco perguntar isso

domingo, 6 de novembro de 2016

Nós X eles

Vivemos tempos estranhos, apesar de a maioria nem refletir sobre isso. Dia desses, num encontro com uma professora de língua portuguesa, perguntei a ela se estava mais fácil ensinar conjugação verbal aos estudantes. Ela respondeu, rapidamente, que não via diferença, e me perguntou o porquê da pergunta. Eu disse a ela que, na realidade atual, só temos conjugado, nas nossas relações, a primeira e a terceira pessoas do plural – eu, tu, ele, vós já não cabem mais nas conversas, principalmente, nas redes sociais.
Hoje, nessa realidade tão banal e descartável, nos tornamos 'nós' e 'eles'. Se não somos nós – somos eles. Nós fazemos vultosas doações, abatidas no imposto de renda – eles querem consumir o que não foi feito para eles. Nós somos os bons, os mocinhos – eles são os maus, os bandidos. Nós, as vítimas – eles, os carrascos. Nós, os éticos – eles, os corruptos. Nós moramos no alto dos prédios da zona sul – eles ocupam áreas de preservação ambiental, no alto dos morros da favela. Nós, os certos – eles, os errados. Nós protegemos os animais e o meio ambiente – eles humilham e até matam aqueles que desfrutam a liberdade de serem quem são, entre quatro paredes. Nós pagamos muito bem as escolas particulares dos nossos filhos – eles reclamam da escola gratuita dos filhos. Nós, os verdadeiros – eles, os hipócritas. Nós defendemos o armamento da sociedade – eles roubam armas e matam. Nós somos contra o aborto – eles maltratam e violentam as crianças, os adolescentes. Nós gastamos muito dinheiro, em shoppings – eles apavoram, nos shoppings, quando fazem “rolezinho”. Nós somos cautelosos – eles são covardes. Nós somos brancos – eles são morenos, quase pretos. Nós queremos pena de morte, enquanto eles superlotam as prisões brasileiras. Nós refletimos, para, depois, fazermos comentários nas redes sociais – eles criam boatos e intrigas, ofendem, nas (mesmas) redes sociais. Nós fazemos dietas – eles jogam comida no lixo. Nós bebemos, dirigimos, mas nos cuidamos – eles bebem e atropelam, matam. Nós não queremos saber de política – eles continuam votando nos que fazem a pior política. Nós somos todos heterossexuais performáticos – eles são todos pedófilos, estupradores, “viados” e “sapatonas” sem vergonha. Nós pagamos mal pessoas incapacitadas para cuidarem dos nossos filhos – eles abandonam os filhos, em latas de lixo. Nós mandamos matar desafetos – eles matam quem não conhecem, a troco de 50 reais. Nós vamos à missa, todos os domingos – eles pecam, a semana inteira. Nós somos enganados, quando compramos produtos de receptadores – eles assaltam e roubam. Nós, seres humanos que somos, matamos, em nome do nosso 'deus' – eles matam, sem fé alguma, os seres humanos. Nós exercitamos o senso criativo – eles mentem. Nós pensamos, primeiro, em nós mesmos – eles só pensam neles mesmos. Nós perdoamos, mas não esquecemos, e até nos vingamos – eles não perdoam. Nós participamos de campanhas contra a violência contra a mulher – eles espancam, e ameaçam as mulheres. Nós não temos preconceito – eles são contra os diferentes (deles). Nós enxergamos, sempre, o bem – eles só praticam o mal. Nós 'furamos' filas, por que estamos com pressa – eles não respeitam filas. Nós reclamamos dos impostos sobre produtos importados – eles exportam mão de obra barata. Nós compramos todos os tipos de drogas dos traficantes – eles, os criminosos, vendem as drogas. Nós somos imparciais, e só noticiamos a verdade absoluta – eles são tendenciosos e cheios de más interpretações e intenções. Nós oferecemos desconto, nos produtos superfaturados – eles superfaturam os preços dos produtos.
De repente, o caldo entorna, e nós nos tornamos eles – para eles, obviamente. Às vezes, somos maioria – não demora, somos minoria. Equação duvidosa. E eu continuo sem entender esses muros (invisíveis e sólidos) erguidos a qualquer momento, em qualquer lugar...

domingo, 18 de setembro de 2016

Quanto maior, melhor.

Eu gosto mesmo de uma fila – quanto maior, melhor. Fila é um dos raros momentos em que todo mundo se iguala, mesmo não querendo se igualar, mesmo permanecendo tão diferente: patrão, empregado, desempregado, dona de casa alugada, “office boy” estressado, monge estagiário, homofóbico, ateu, aquele mundaréu de gente sem identificação, desinteressada e desinteressante. Ninguém se importa com ninguém. Todos, sem exceção, se importam mesmo, quando acontece de a atendente informar: O sistema saiu do ar. Aí, não tem jeito mesmo: a fila dos burburinhos se transforma, imediatamente, na fila dos gritos e palavrões. É afrodescendentezinho (pra não ferir com 'neguinho' mesmo) esbravejando pra todo lado. De repente, aparece um segurança – e a fila segue, silenciosa, forçosamente parada em minutos que levam uma eternidade.
Eu gosto de filas – mais ainda, eu gosto de ficar, e aprender a esperar, em filas. Há filas intermináveis, e filas que acabam de surpresa. Filas que não andam, e filas que parecem maratona.
Nas filas, a maioria está sempre com pressa. Eu escolho entrar em filas, quando tenho todo o tempo do mundo. E ainda me divirto. Observo – é curso humano intensivo, sempre, sem reprise. Nas filas, não faltam aqueles que reclamam da quilometragem. E nunca se vê gente elogiando fila, manifestando prazer, por estar em pé, aguardando atendimento. Até quando há bancos e cadeiras, ninguém esquece que está mesmo numa fila: o enfileirado se ajeita de um lado, de outro, olha para o relógio, cronometrando até os segundos. Não adianta: é fila. Nunca vi essa gente toda conectada fazendo “selfie” em fila de agência bancária, ou lotérica. Alguns ainda se fotografam, sorridentes, em filas de aeroporto – antes de saberem do atraso, ou cancelamento, do avião, claro.
Nos mais variados locais públicos, que aglomeram filas quilométricas, o que não falta mesmo é cartaz: “estamos trabalhando por você, cliente, reduzindo as filas”. Mas, na realidade, o que reduz mesmo é o número de caixas atendentes. Por isso, nem sempre aumenta a população em fila – o atendimento acaba cada vez mais concentrado. O que sempre foi um conjunto de seis filas acaba se tornando uma fila, seis vezes maior, enfurecendo a maioria dos clientes.
Nessa realidade intolerante em que vivemos, sem olharmos para os lados, sem tempo para pensar, as filas prevalecem no sistema: filas, unidas, jamais serão vencidas. E, assim, seguimos – clientes disciplinados -, de fila em fila, de reclamação em reclamação, de pressa em pressa, de raiva em raiva, de stress em stress, de egoísmo em egoísmo. O mais estranho é que a fila – sempre coletiva – é um dos locais mais individualizados da sociedade. Nem ferida exposta passa na frente. O enfileirado pode estar atrasado para o enterro do tataravô – sem discussão: se é o 58º colocado no ranking, só será atendido depois dos 57 ansiosos, à frente dele. Mas sempre tem pior. Há aqueles que, sem qualquer vergonha, com mania de “office boy”, resolve carregar uma 'pastinha', fila afora. Quando chega na frente do caixa bancário, o milagre acontece: faturas e mais faturas se multiplicam, num passe de mágica, semelhantes, não a pombos, a penas que esvoaçam no balcão. Nos demorados minutos seguintes, a fila entorta, os enfileirados reclamam – alguns lembram até palavras deixadas de lado, em tantas filas: solidariedade, empatia, compaixão.
Mas, apesar de, e com tudo isso, eu gosto de uma fila, onde a gente encontra mais diversidade do que na feira. Em todas as filas – a da padaria do Seu Manoel, ou a do Banco dos maiores investidores -, sempre há os que reclamam do tempo de espera, do que ainda têm por fazer. E não faltam aqueles que dão aulas de economia, culpam os governos. Têm os que fazem da fila, divã – tantas histórias de vida contadas para enfileirados que não prestam a mínima atenção.
Tem gente que resolve lanchar, em plena fila estática e estressada. Comem de tudo, por ali, um atrás do outro: balas, pastel de feira, chicletes, chocolates, salgadinhos, e até marmita. E engolem medicamentos, a seco. Atendem e fazem ligações, nos mais variados modelos de celulares. Fazem crochê, tricô, e raramente alguém lê um livro. As filas de banheiros públicos são sempre as mais movimentadas. Alguns circulam, ensimesmados, em passos curtos e leves. Outros chegam bater à porta: “Vai demorar muito?”
Nas filas, você escuta de tudo: “Justamente hoje, que tenho tanto por fazer, essa fila não anda”. “Vou reclamar no Procon”. “Tem espaço vago, ali na frente. Vamos apertar, pessoal”. “Tomara que a fila do jogo da mega sena esteja menor”. “Pode segurar o meu lugar? Preciso ir ao banheiro, com urgência”. “Que bicha que não se mexe”! “Não tem quem aguente tantas filas. Por isso, faço tratamento para o sistema nervoso”. “Dois, quatro, seis… são 38, na minha frente”. “Tenho cabelos brancos, mas não sou idoso”. “Tem gente tentando furar a fila”. “Pode reparar, a fila do lado anda depressa”. “Desisto. Volto amanhã. Fui”.
Mas bolo sem a única cereja em cima não é bolo. O auge de uma fila (de liquidação, principalmente) chega, quando a funcionária (até então, invisível, no meio da multidão afoita) avisa, timidamente: “Encerramos nosso atendimento, por hoje, mas, amanhã cedo, esperamos todos vocês”. É o fim.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Nosso cometa da liberdade partiu

Realmente, Elke maravilhava, por onde passava. Nosso cometa da liberdade partiu, nessa madrugada. Alguns não tiveram “olhos para ver”, e riram, sem pensar, do jeito que Elke falava, se vestia, se maquiava. Mas Elke Maravilha era mais, muito mais – a pisciana Elke Georgievna Grunupp (“brasileiríssima”, nascida na Rússia) era intensa, profunda, inteligente (dominava nove idiomas: alemão, russo, italiano, espanhol, francês, inglês, grego, latim e português), livre, apaixonada e apaixonante. Por onde passava – na televisão, nas calçadas, nas praças – causava alegria e antipatia imediatas.
Em mim, Elke sempre foi Maravilha. Quando menina, eu me encantava com a imagem irreverente de Elke – e eu ainda nem sabia o que era liberdade. Em entrevista, Elke contou como tornou-se quem ela era: “Um dia (por volta dos 18 anos), eu acordei de manhã, fui no meu armário, e vi que só usava preto. Eu pensei: Nada disso. Peguei uma calça e rasguei toda, botei uma meia roxa, enchi a cara de batom, desgrenhei o cabelo e fui para a rua. Levei porrada. É difícil ser a primeira, a ousar, a usar esse visual”. Provavelmente, Elke soubesse que não era o visual que aterrorizava, mas a liberdade que continha, nas atitudes dela. Até hoje, a maioria, que segue a boiada, teme o desconhecido, justamente por que aponta o caminho da liberdade.
Nosso cometa da liberdade partiu, e deixou o que muitos (maioria) não querem pensar: “O mundo não tá careta, o mundo tá muito ignorante. E a ignorância é mãe e irmã do preconceito. (…) Sou contra bandeiras, sou a favor de boas maneiras. (…) Solidão é invenção de gente que quer chamar atenção. Tenho muitos momentos de solitude, solidão, não. Cada um dos mais de sete bilhões de habitantes desse mundo é parte de mim. Sou impregnada de mundo. (…) Amo gente e gosto sempre de estar cercada por amigos. (…) Eu não sou de direita, nem de esquerda, talvez eu seja de banda. Porque eu não acredito, nunca acreditei em ideal fora do coração. Eu só acredito em ideal no coração. (…) O poder não corrompe, revela. (…) Sou movida pela paixão. (…) A mentira é o que mais me revolta. (…) Atualmente, não assusto mais, mas tem gente que acha que sou travesti. (…) Sempre fui assim. Não sei ser de outro jeito. Tudo na minha vida, na minha carreira, foi acontecendo. Não escolhi nada, fui escolhida. Não programei nada, e até hoje ainda não sei o que quero ser quando crescer. (…) Não tenho problemas em ficar velha, mas, ultrapassada, nunca. (…) Ser livre é um trabalho de muitas gerações, não incomoda absolutamente. Mas nós não estamos prontos para isso. A gente tem liberdade de escolher a prisão que a gente quer ficar. Tem gente que é até escravo da liberdade: procura tanto a liberdade, que fica escravo dela. (…) Fiz três abortos. Sempre soube que não tinha talento para isso, que não saberia educar uma criança. Parir é fácil, mas educar é difícil. Setenta por cento das mulheres que têm filhos não deviam. Sou completamente consciente do passo que posso dar. Eu nunca quis segurar homem. Sempre disse: 'Quer ter filhos? Vai ter com outra'. Não estou aqui para interferir no carma de ninguém. (…) Eu sou uma vira-lata. Minha mãe era alemã, meu pai era russo, minha avó mongol, meu avô era mestiço de viking com azerbaijano. (…) Nós todos não temos definição. Somos tudo, somos santos e demônios, somos bonitos, somos feios, somos grandes, somos minhocas. (…) Querem que eu faça uma biografia. Biografia é pra gente que modificou o mundo. (…) A morte está mais próxima (risos). Já fui jovem, de meia-idade e sou velha. Vivi cada coisa no tempo da mãe natureza. Meu pai me dizia: 'Minha filha, aprende com a mãe natureza'. E ela nos ensina tudo mesmo. (...) Estou pronta para morrer. Me preparo todos os dias para isso. A morte é amiga, gente.(…) O melhor da vida não é viver, é conviver. (…) A vida tem que ter magia. (...) Olhar para trás, nunca. Cruz credo. Sinto saudades do futuro. (…) Crianças, conviver é o grande barato da vida. Aproveitem e convivam.”

Nosso cometa da liberdade partiu – como Elke dizia: foi “brincar de outra coisa”...

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