quinta-feira, 18 de maio de 2017

Mandado de despejo aos mandarins do mundo


Alvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) - 1917

Fora tu, reles esnobe, plebeu, fora tu, imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade, banalidade em caracteres gregos, sopa salgada fria, fora com tudo isso, fora! Que fazes tu na celebridade? Quem és tu? Tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro, todos os outros, lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual, incompetentes, barris de lixo virados para baixo. Tirem isso tudo da minha frente, tudo daqui para fora. Ultimatum a todos eles e a todos os outros que sejam como eles. Todos!
Falência geral de tudo por causa de todos. Falência dos povos e dos destinos, desfile das nações para o meu desprezo. Passai gigantes de formigueiro. Passai mistos que só cantai a debilidade. Passai bolor do novo, passai à esquerda do meu desdém. Passai e não volteis, párias na ambição de parecer grande.
Passai finas sensibilidades, montes de tijolos com pretensões a casa. Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomania triunfante, voz que confundis o humano com o popular, que confundis tudo, chocalhos incompletos, maravalhas, passai! 
Passai tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Vem tu finalmente ao meu asco, roça-te finalmente contra a sola do meu desdém. 'Grand finale' dos parvos, impotência a fazer barulho. Quem acredita neles?
Descasquetem o rebanho inteiro, mandem isso tudo para casa, descascar batatas simbólicas. O mundo tem sede de que se crie, tem fome de futuro.
Tu, Estados Unidos da América, síntese bastardia da Baixa Europa, alho da sorda transatlântica pronúncia nasal do modernismo inistético. E tu, Portugal, centavos, resto da monarquia a apodrecer república. E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir. Ponham-me um pano por cima de tudo isso, fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
A política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência. Sufoco de ter só isso à minha volta. Deixem-me respirar! Abram todas as janelas, abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo. 
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão. Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações a reis lacaios.
Sim, todos vós que representais o mundo, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, passai vozes ambiciosas do luxo cotidiano, aristocrata de tanga de ouro. Passai vós que sois autores de correntes sociais, de correntes literárias, de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar. 
Passai, frouxos! Passai, radicais do pouco! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer o poeta que busque a imortalidade ardentemente e não se importe com a fama. Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que é apenas a derrota dos outros.
O mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar. Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um mundo novo. Ergo-me ante o sol que desce e, à sombra do meu desprezo, anoitece em vós, e proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito.

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