quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ouvir


Eu não sei se eu sei ouvir. O que sei é que gosto de ouvir. Das minhas mais remotas memórias da infância, me chega a voz do meu pai soletrando pra mim as primeiras palavras, depois os versos, as prosas, enquanto me apresentava a alquimia da leitura e da escrita. Depois, outras vozes leram pra mim, e cantaram canções lindas, inesquecíveis.
Algumas pessoas com quem convivo dizem, generosamente, que tenho “voz suave, delicada”, que minha “voz acalma tanto, que chega causar sono”. Se for isso mesmo, preciso patentear ‘o produto sonífero natural’, antes que alguém o faça. hehehehehehehehehehe
Ouvir me faz bem, principalmente se for leitura de livros, ou canções. Durmo na companhia da música – sempre preparo uma listinha musical para fazer companhia ao meu sono, aos meus parcos sonhos (sonho mais acordada). Ah, sempre que leio, sou eu, mas a voz que ouço (no silêncio) não é minha – não é alucinação, nem delírio, por que a voz não me fala coisas ininteligíveis, mas só o que leio, o que lemos... Será isso loucura?... No meu caso, se for, é piada!... hehehehehehehe
Ouvir me acalma a alma sem calma... Falar já não me faz esse bem todo. Aliás, falar é sempre um dos meus maiores desafios, por que sei, de antemão, que vou dizer alguma coisa pra alguém, ou ‘alguéns’, que ouvirá, ou ouvirão, de forma diferente da que eu tentei dizer, por causa daquela historinha de que “cada qual carrega a própria vivência única de tudo”. Se isso não bastasse, ainda tenho dificuldades de expressão verbal – às vezes, falo demais, e digo nada. Só faço as pazes com a fala, quando o meu falar nada tem de pessoal.
Ah, mas ouvir me faz esquecer até as dificuldades que tenho em falar, e o quanto me esforço pra dizer alguma coisa, quando escrevo – agora, por exemplo...
Já me disseram que a minha memória auditiva é aguçada. Pode até ser. Mas, se for isso mesmo, quem a aguçou fui eu mesma, por tanto que gosto de ouvir. Não é um gostar de ouvir qualquer coisa, por não suportar o silêncio. Pelo contrário. Gosto também de ouvir o silêncio – silêncio mesmo, nenhum ruído, nada de televisão ligada, nem música, nenhuma palavra, e sequer um pensamento teimando em agarrar-se ao pobre “tico” (nessa hora, “teco” já vai longe no passeio). É assim que escuto o silêncio da minha alma...
O que tô tentando escrever aqui é que gosto mesmo de ouvir o que gosto de ouvir, e quem gosto de ouvir. Convivi e convivo com seres humanos especiais (por que minha alma os guarda assim: tão especiais) – poetas, loucos, sonhadores -, que cantam, lêem, interpretam como ninguém canções e leituras inimagináveis, únicas. Minha alma, que descansa, vadia, na rede da minha vida, continua ouvir essas vozes, mesmo no silêncio delas... E são tantas leituras, tantas canções, tanta vida que (ainda e sempre) pulsa, que o que posso falar é que gosto mesmo é de ouvir... Por isso, não insistam que eu fale – a minha fala só quer ouvir... até o silêncio... ouvir... e silenciar...
Em tempo: Não só gosto de ouvir, como também gosto de quem gosta de ouvir... Acho que saber ouvir é uma arte. Quando se gosta de ouvir, pode até não se saber ouvir, mas é caminho e meio ao aprendizado... Agora, chega de tentar falar alguma coisa... Dá licença, quero só ouvir... ouvir...

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