terça-feira, 23 de março de 2010

Chega de trabalho que dá trabalho!


As pessoas estão sempre questionando (as outras pessoas e elas mesmas) se o que fazem lhes satisfaz. Pra mim, toda pergunta é complicadinha, e não leva uma só resposta, como acontece nas provas escolares.
Pra não ‘esticar’ demais o papo, vou falar de trabalho (profissional), que é, talvez, o que a maioria entenda, sem pensar, que seja atividade (ação). Foi Confúcio que falou: "Escolha um trabalho que você ame, e você nunca terá que trabalhar um dia em sua vida". Aposto que você já recebeu algum email – bem informado – dizendo que a autoria dessa máxima é de Chico Xavier. Não é, te asseguro. Nem é do pobre coitado do Luiz Fernando Veríssimo, que tem sido ‘eleito’ pra substituir quase todos os textos do dito “autor desconhecido”. É de Confúcio mesmo.
Não creio que o que eu faço, ou já fiz - qualquer coisa -, tenha mudado, ou ainda cause mudança em alguma coisa. Por isso, acho legal, imprescindível até, que haja uma gotinha pelo menos de prazer, senão em tudo, na maioria das coisas cotidianas que a gente faz.
Sou do tempo em que se fazia jornalismo “à unha”, como diziam meus contemporâneos. Tente imaginar jornalismo sem internet (sem Ctrl C – Ctrl V). Pois é. Eu trabalhei muito tempo neste universo ‘à manivela’, e nunca vi uma página em branco, ou negrito, por falta de matéria, numa edição. Ainda sinto falta do ruído macio e cadenciado da máquina de escrever, do cheiro dos químicos do laboratório fotográfico. Ah, mas nada se compara ter nas mãos o primeiro exemplar do dia, com aquele cheiro de tinta morna, que manchava até os braços da gente.
Determinada e obstinadamente (nunca soube por que), desde sempre, só trabalhei em jornal – mídia impressa mesmo. Não sei fazer outra coisa – se tivesse de “vender o peixe”, eu já teria morrido de fome, ou então comeria o peixe não vendido. Houve um tempo, no início de tudo, em que cheguei acreditar que eu pudesse ajudar a mudar alguma ‘coisa’ social. Esse tempo passou rápido demais, e logo vi que teria de forjar outro ‘motivo’ pra permanecer na atividade. Foi aí que me convenci que eu teria de trabalhar por satisfação, com satisfação.
Até no trabalho, sempre fui chata: preciso acreditar no que estou escrevendo, muito mais do que me preocupar se alguém acredita. Por essas e por tantas outras chatices minhas, já recusei o que, no meio jornalístico, chamamos “filés profissionais” (salário alto, poucas horas de trabalho, puxando saco de gente que não vale uma casca cebola, mas tem grana pra caramba). Não acho nada demais alguém se negar à conivência do que não acredita. Eu sou mais uma (burra e idiota, na opinião da maioria que tá sempre de olho no “filé”).
Chega de trabalho que dá trabalho, que mutila (mais ainda) a gente! Se, como creio, crescemos em torno do que chamo essência, nada mais justo que mantermos equilíbrio e coerência, tanto quanto possível, no único eixo real existente: a nossa alma. Isso não pressupõe que tenhamos de arrastar andrajos de visões ultrapassadas, negar nosso crescimento no campo do conhecimento, da experiência, do que muitos chamam amadurecimento (maduro me faz pensar que vai apodrecer um dia). Absolutamente. Acho mesmo que o que guardamos em nós – conhecimentos, experiências – já faz parte da nossa essência, se encaixa, feito quebra-cabeça (vamos catando as peças, “ao longo da vida” breve). Por isso, o mesmo fato é vivenciado particular e diferentemente por cada (cacófato terrível!) indivíduo envolvido na história.
Conheço gente que sente prazer em trabalhar com sacrifício, por sacrifício – você também deve conhecer. Pior que isso é que justamente essa gente ‘sacrificada’ é que se aposenta no primeiro emprego que teve na vida. Nem vou questionar os motivos dessa vida sem amor próprio.
Ah, lembrei de uma ótima, agora. Quando meus filhos eram pequenos, tinha sempre uma ‘assistente’ em casa. E uma delas, me vendo “bater à máquina”, perguntou: “O que a senhora tanto faz aí, sentada, enquanto eu limpo toda a casa?”... Na visão dela (e de tantas pessoas), até hoje, trabalho mesmo é só o braçal, aquele que faz emagrecer... Te digo alguma coisa, se te contar que nunca cheguei pesar cinquenta quilos?... hehehehehehehehehe

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