quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Uma formiga



Saí da sala fechada, em busca de ar fresco. Sentada no meio-fio, enxerguei-a, pela primeira vez. A formiga estava sozinha, e parecia sem direção. Será que formigas sentem calor, transpiram? Não. Não podem suar, mas devem sentir calor e frio intensos. Lembrei que, quando criança, eu ficava observando as formigas – quase sempre em filas indianas, numa disciplina, que eu ficava procurando de onde vinha o comando. Não havia comandante, mas as filas não se dissipavam. Às vezes, uma ou outra formiga parava no meio do caminho, e, em pouco tempo, reuniam-se, para cumprir o destino das formigas, o qual eu-menina nunca soube. Menos ainda agora, depois de tanto tempo sem pensar nas formigas.
Mas a formiga que enxerguei, rente ao meio-fio, estava sozinha – acho que foi isso que me chamou a atenção (a mim, que não queria mais pensar no debate que havia na sala de onde saí). O que faz uma formiga sozinha, quando a natureza das formigas, parece, é seguir em grandes caravanas?...
Ignorando a minha presença cabisbaixa e cada vez mais concentrada, a formiga parecia estar tentando arrancar uma raiz. Não era. Rodopiando em volta de uma metade de folha seca com um fiapo de linha suja enroscado, o inseto parecia fazer calculos matematicos, precisando extensão, peso, e força necessaria para transporte. O exame parecia mesmo minucioso – a formiga parava (atenta?) diante de cada milionesimo milimetro do ‘objeto desejado’, bem maior e mais pesado que ela, com toda certeza. Uma formiga comum – minuscula, sem “pedigree”. Não sou mirmecologa, nem levo jeito, mas reconheço a imponencia - até de um inseto. Naquela formiga, não havia empafia – talvez, eu tenha até identificado, no ser minimo, um cadinho de natureza simploria.
O que fazia uma formiga sozinha, naquele asfalto quente?... Eu não fazia a menor ideia, nem fiquei sabendo. A verdade é que havia, ali, naquele espaço livre, uma formiga tonta, às voltas com um pedaço de folha e um fiapo de linha. Formiga persistente, mesmo sozinha. Minuscula - como o é toda e qualquer formiga -, mas grande na vontade de dar jeito de carregar a ‘carga’ enorme.
Há muito tempo atrás, ouvi dizer que as formigas não têm mais que dois meses de vida. Diante de um tempo tão curto (pra nós, humanos), eu fiquei observando o que o inseto fazia, naqueles minutos, pra mim, e, talvez, meses, pra ele. A formiguinha continuava indo e vindo, sempre em direção do fiapo de linha no pedaço de folha seca esquecida pelo vento.
Foi ali, olhando a formiga, que, pela primeira vez, pensei na minha vida: Nunca quis fazer estudo sobre as milhares de especies de formigas existentes. Sei o que todo mundo sabe sobre o mundinho delas. Nada além, nem aquém. Mas, de repente, me deu uma vontade de saber, de me comunicar com o inseto – até ajudar a formiga, carregando a ‘carga’ por ela. Não havia jeito, nem tempo para estudos aprofundados. Provavelmente, eu precisasse de meses, para saber sobre a especie daquela formiga, que nem existiria mais, quando eu me tornasse mais uma mirmecologa mediana. Sentada no meio-fio, eu só podia mesmo olhar a formiga, admirá-la na pequenez e na grandeza da existencia dela. Também as formigas contribuem com o nosso ecossistema, né?... Também é um ser vivente.
O tempo passou sem eu perceber, as pessoas saíram do debate, se despediram, foram embora. E eu ainda olhei mais uma vez à formiga, que permanecia lá, dando jeito de carregar a sua ‘carga’. Eu sabia que ela conseguiria. Ela não saberia jamais, mesmo carregando todas as ‘cargas’. A formiga não é isso, nem aquilo – ela mesma não se sabe. A formiga é. Simplesmente. E nós nem sabemos a existencia de cada uma delas.

3 comentários:

  1. Olá!
    Suas postagens são excelentes, uma escrita digna de leitura.
    Continue assim.
    Também amo escrever.
    Estou seguindo teu blogger.
    Grande abraço!

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  2. Seu estilo de escrita de fato é único. Valeu a pena ler cada palavra desse texto.

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  3. Olá! Comecei a ler o texto e não parava de continuar lendo, muito gosto o seu texto. Parabéns!!! legal a historia da formiguinha, me lembrou uma cronica que imaginei para minha filha escrever para o colégio. O tema foi a sociedade de um formigueiro, foi interessante também. xero!

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