terça-feira, 8 de março de 2011

A falta da falta

Lembro que, quando criança, eu ficava de olho em tudo e em todos: observava os adultos, sem pensar se um dia eu me tornaria adulta. Eu olhava tudo e todos com assombro – lembro até hoje de tantas pessoas que (hoje sei) ficavam sem jeito, diante do meu olhar. Eu queria compreender o que o meu olhar infantil não compreendia. Foi nessa epoca, inclusive, que passei notar que havia gente que se alimentava nas latas de lixo, pelas ruas, enquanto outras pessoas (vizinhas da casa de minha familia) não podiam alimentar-se, por problemas de saúde. E eu-menina questionava meu pai sobre isso, entre tantas outras coisas, com quem eu podia pensar alto, quando eu nem sabia que rabiscava pensamentos. Em vez de me dar respostas (prontas e definitivas), meu pai me questionava, fazendo-me pensar – eu, que nem pensar sabia.
Aos poucos – lentamente mesmo -, fui tentando passar a limpo alguns pensamentos meus, elaborando-os, talhando-os com alguma logica, não para convencer, mas na (sempre) tentativa de me fazer compreendida – por mim mesma, primeiramente. Acho que não saí dos rabiscos, até hoje. Talvez, não haja tempo. Não importa. Continuo olhando tudo e todos com assombro e deslumbramento, como os primeiros olhares que recordo que tive, quando me enxerguei projeto de ser humano.
Ainda hoje também, continuo vendo gente com falta de, enquanto outra gente tem de sobra, mas falta. E essa falta da falta é que – acho – faz falta mesmo. Complicado?... Que nada!... Pode ser simples – fica por sua conta e risco, se seguir viagem comigo...
Por todos os cantos, encontramos criaturas que sempre têm o que não querem, e querem ter o que não têm. Nós todos somos assim – em algum momento da vida, ou a vida inteirinha. Se não são os pais, os filhos, os sogros, os primos, os cunhados, os espiritos (nem tão santos), nós queremos sempre o que brilha nas vitrines da vida. Ah, aquela familia do comercial de margarina, sim, seria a nossa familia ideal... E sofremos a falta do que não temos - às vezes, não podemos ter. É tamanha força empreendida, que chegamos esquecer o que temos, por que não nos faz falta. Pode ser até que não nos faça falta, por que temos – não pensamos nisso...
Na minha profissão de ‘operaria das letras’, mantenho contato com “tanta diferente gente”, e não deixo de observar a falta da falta. O que alguém daria tudo pra ter, o outro joga fora – antes, faz até questão de quebrar, pra depois jogar no lixo. Fazemos isso, o tempo todo, mesmo quando (quase sempre) não nos apercebemos. É fato. É certo que tem muita gente, também, que, numa necessidade, lembra o que jogou fora, e lamenta ter de gastar, na compra de um outro objeto novo.
Não pense você que gosto de guardar entulhos. Não tive uma avó que me dissesse: “Quem guarda o que não presta, sempre tem o que precisa” (ou algo assim). Acho que tudo o que é utilizável é pra ser utilizado – senão por mim, por alguém que sinta falta. Se eu não utilizo mais – por qualquer motivo -, alguém, com certeza, vai utilizar, por que a minha intenção é passar adiante. É tamanha vontade – acredite você -, que eu não me apego nem aos livros que gosto. Já repassei tantos, que até esqueci – prefiro presentear que emprestar (a quem, como eu, gosta de ler), na maioria das vezes.
Muita gente fala em “consumismo desenfreado” – disso, realmente não sei. Se tem freio, ou nunca teve, o consumismo, acho, sempre existiu – agora, em maior proporção, por causa do aumento das ofertas. Nada além. Mas o que acontece é que, no meio disso tudo, existe a falta da falta. Quando não temos, sentimos falta. Quando temos, sentimos a falta da falta de ter. E como isso tudo faz falta...

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