quinta-feira, 3 de março de 2016

Há vida, além da zona sul, da avenida paulista, das redes sociais, das novelas e dos programas policialescos

Somadas as minorias, a maioria da população brasileira resolveu levar a sério a enxurrada de reportagens da mídia nacional, que só mostra imagens de violência, em todas as regiões do País. Todo mundo, acreditando na insuperável violência brasileira, decidiu matar, invadir, violentar, linchar, saquear, quebrar tudo. Em vez de bater panelas, o povo está batendo no povo. Todo mundo bate, apanha, e se debate, cheio de manha. Destros e canhotos exalam ódio, provocando pancadaria, nas calçadas, esquinas e residências. Para cobrir, ao vivo, tantas tragédias, a globo importou equipamentos dos estados unidos; o sbt, do méxico; e os demais canais, do paraguai mesmo.
Finalmente, os ditos profissionais da televisão sensacionalista conseguiram: o Brasil está em guerra. Os telespectadores nem quiseram esperar a aprovação da liberação das armas, defendida pela “bancada da bala”, no congresso - se armaram de paus, pedras e ferramentas de trabalho, e ocuparam as ruas de todas as cidades brasileiras. Com a força de todos os canais de televisão, a população brasileira não quer mais esperar “tragédias naturais” - enchentes, terremotos, maremotos, tsunamis, queimadas… demoram para chegar, e vão embora logo.
Os apresentadores dos programas policialescos estão em êxtase, chegam babar, diante dos noticiários que anunciam a tamanha barbárie, por todo o País. Os livros de todas as bibliotecas foram queimados. Todas as bandeiras do Brasil tiveram as cinzas pisoteadas. Bombas foram arremessadas, em todas as escolas e universidades, e em todos os cemitérios e hospitais. Apresentadores de programas policialescos deliraram, ao informar a notícia de que nazistas haviam levado todos os presidiários brasileiros a câmaras de gás, a pleno vapor, pelo País. Com a consultoria da empresa samarco, todos os rios brasileiros foram contaminados, e os peixes não deixaram descendentes escondidos. Os locais de trabalho fecharam, antes dos prédios desabarem. Depois de tantos cursos intensivos de violência, nos programas policialescos, telespectadores foram às ruas, e partiram à prática de fuzilamento ao alvo – animais e transeuntes mortos. Todas as agências bancárias, bovespa e lotéricas, a exemplo dos supermercados, foram saqueadas. Museus, galerias de artes, monumentos, teatros e cinemas foram destruídos por incêndio fantástico. Cansados do stress e dos acidentes causados pelo trânsito caótico, em todo o País – contados em 'prosa e verso', nos programas sensacionalistas diários -, motoristas e usuários de transportes coletivos bombardearam todos os túneis, viadutos, vias públicas, pontes, e até as estações de trens e metrô, aeroportos, portos e rodoviárias, para garantirem a solução imediata de todos os problemas do setor. Grupos piromaníacos organizados dizimaram toda a floresta amazônica e a mata atlântica inteira. As praças, antes públicas, estão cercadas. Dos três poderes constituídos, não restou meio. Fascistas e psicopatas comemoram, em tiroteios espetaculares, a explosão de todas as obras de Oscar Niemeyer, principalmente, as de Brasília. As forças armadas divulgam nota, manifestam obediência, à espera da retomada da ditadura. Enquanto divulgam o terror brasileiro, apresentadores dos programas policialescos surtam, histéricos, em orgasmos múltiplos, ao vivo.

Como o sonho, o pesadelo (ainda) não acabou. Felizmente, acordei. Preciso levantar. Do pesadelo à realidade: (ainda) há vida, além da zona sul, da avenida paulista, das redes sociais, das novelas e dos programas policialescos… Por precaução e sobrevivência, não vou ligar a televisão. Agora, tranquila, lembro que nunca morei na zona (sul), nem tampouco sou mais uma presa das redes (sociais) – vivo nadando contra a maré, nem sempre nos trilhos, mas respeitando a faixa (de segurança).

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