sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Escolha canina

Em casa, recebia ordens – e, sem pensar, obedecia cegamente – do pai, da mãe, dos avós, dos irmãos, até do cachorro...
Casou, e foi receber ordens – e obedecer – do marido, da família do marido, até do cachorro (que era outro)...
Casal separado, recebia ordens – e obedecia – dos filhos, dos amigos, e também do cachorro (que era outro)...
Decidiu trabalhar, e foi receber ordens – sem questionar – do patrão, dos colegas de trabalho, além do cão de guarda (que era outro)...
Velha, cansada, quis conhecer o mundo, e passou obedecer ordens de funcionários de agências de turismo, aeroportos e estações, hotéis e shoppings, e dos cachorros (que eram outros)...
Quando parou para pensar na própria vida, não havia mais ninguém para lhe dar ordens, nem sequer um cachorro (que poderia ser outro)...
Não sabia o que fazer, senão, seguir vivendo a escolha canina – e não havia um mísero cachorro para lhe ordenar... Numa esquina qualquer, um (outro) cão desconhecido a atacou. Morreu – ninguém ordenou-lhe. Mas, um dia, morreria - todo mundo morre. E só.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pão & circo


Pelo visto, nos últimos dias, muitos brasileiros perderam os horários dos ônibus, dos trens, para o trabalho – tudo por conta de acompanharem o julgamento do jovem que assassinou a ex-namorada, há três anos, no estado de São Paulo. Não vou falar sobre o crime, nem citarei nomes – a mídia nacional já se apropriou do estardalhaço todo. Incrível, o fato foi transmitido, ao vivo, em 2008, com desfecho trágico (a morte de uma adolescente de 15 anos), o criminoso preso, e nunca mais se falou sobre isso. Esta semana, a mídia retomou o caso, com a divulgação do julgamento, que iniciou segunda-feira, e só teve o veredicto, no final da tarde de hoje.
Não quero me deter no que a mídia mostrou, no que era (somente) para ser visto – nem nos fatos, nem na repercussão deles. O que lamentei foi ter enxergado tanta gente (que também deve trabalhar, estudar, viver a própria vida) arrumando tempo e disposição, para ficar 'acampada', por horas, na frente de um fórum de justiça, acompanhando o julgamento de mais um criminoso (desconhecido pela maioria).
Evidentemente, até o público que não costuma pensar observou o sensacionalismo coletivo dos profissionais(?) da imprensa brasileira, em relação ao julgamento. Toda mídia foi unânime, ao citar, nos noticiários, “comoção nacional”, sobre o fato. Não foi isso que acho que vi – eu, mais uma cidadã do mundo, profissional do jornalismo “fora de moda”, dos tempos em que havia preocupação, sim, com a informação, mas, mais ainda, com a formação de opinião.
As imagens que assisti, pela televisão, me fizeram lembrar a política “panis et circenses”, adotada pelo império romano. Os políticos espertinhos já se revelavam, séculos antes do nascimento de Jesus Cristo – a historinha é contada e recontada até hoje. O povo recebia pães, na entrada das apresentações de lutas entre gladiadores, com a participação de alguns animais (mais) ferozes (tigres, leões), durante o show sanguinolento. Assim, a plebe comia pães e se distraía, no circo armado, aplaudindo os promotores dos espetáculos. Pão e circo – os tempos romanos voltaram, e poucos querem pensar sobre isso.

Daqui a 98 anos e dez meses (condenação do réu), a mídia não vai desenterrar o caso. Os pães serão feitos de outra massa. O circo apresentará outros espetáculos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Ah, o amor


Ah, o amor – essa palavrinha ordinária, mundana, usada e abusada, a todo momento, e em qualquer circunstância, ou liquidação... Apesar de a realidade nos mostrar, cotidianamente, que, cada vez mais, nos afastamos do amor, mais ainda (por teimosia?), buscamos o amor, atabalhoadamente. Às vezes, no sexo sem compromisso, podemos até dizer ao parceiro: eu te amo (será?). Por outro lado, podemos interpretar uma manifestação do amor (o cuidado, por exemplo), como intromissão, ou falta de confiança. Embaralhamos tudo, pelas decepções e frustrações que vivenciamos, e por que também absorvemos o que lamentam os desiludidos da vida.
A ansiedade é tanta, que enxergamos amor, em momentos abarrotados de prazeres fugidios, que impossibilitam até o aparecimento do amor. Por esses descaminhos, confundimos amor com paixão, amor com amor próprio, amor com atração física, amor com sexo, amor com posse, amor com romance, amor com comercial de margarina. Obviamente, 'quebramos a cara', e ainda nos sentimos injustiçados, enganados, e todos os 'ados'.
Como se não bastasse toda essa confusão mental de cada um de nós, ainda existem os estereótipos de amor, nos impingindo conceitos, pré-conceitos e preconceitos. Nesse 'barquinho', velejam as crenças religiosas, o livrinhos de auto-ajuda, conduzindo multidões, que pagam (caro) para segui-los. Resultado: “samba do crioulo doido” (claro!).
Sempre escuto suspiros e definições de amor. Chega ser engraçado, o que escuto, por que os olhares, tão diferentes, às vezes, são idênticos, por que a maioria não quer saber (conhecer, vivenciar) o amor. Amar dá trabalho, e dói. A maioria quer mesmo experimentar o que aprendeu, ou pensa que seja amor (mágico, ideal, prontinho e perfeito) – sem esforço, nem dor. Por isso, tem tanta gente falando que amor é aquele sentimento que causa “friozinho na barriga” (efeito contrário de uma azia?). Mas tem muito mais definições espalhando-se, por todo lugar, ganhando adeptos.
Já ouvi pessoas falarem, também, que amor é sobressalto, pura adrenalina, o tempo todo – ignoram que isso é paixão, não amor. Tem gente que diz que o amor é morno, e a paixão, sim, é quente, ferve, atrai. A gente não pode esquecer que o que ferve pode queimar, e o morno pode acolher – feito colo.
Mas o pior mesmo é o fato de a maioria exigir, sempre, sexo com amor, amor com sexo, por que assim aprenderam os bisavós dos nossos tataravós, e, na herança, recebemos os delírios literários do romantismo. De repente, pode até ser assim mesmo: amor e sexo de mãos dadas – mas isso não é regra. Nem sempre o prazer sexual tem a companhia do amor. Nem sempre o amor tem atração sexual. Amor é amor. Sexo é sexo. Outra coisa é (mesmo) outra coisa. E ainda há pessoas que associam amor à dor, dizendo amar os tiranos – não me refiro a sadomasoquismo. São tantas imagens do amor, que ele – o amor mesmo – acaba saindo de cena, diluindo-se, sem sequer ter recebido alguma atenção.
Depois de tudo isso, se um dia, quem sabe, talvez, o amor surgir, pode ser que nem seja identificado, reconhecido. Já estamos tão convencidos de uma (outra) imagem do que deva ser o amor, que ele simplesmente passa pela nossa vida – incólume. Enquanto isso, permanecemos distraídos, buscando o que nos dá prazer, cada vez mais imediato, e efêmero...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Haja justificativa!

Também você pode escutar muita gente justificando qualquer atitude, e também pode ser você a justificar. Não importa. Em algum canto, tem alguém justificando alguma “merda”: eu tu ele nós vós eles. Haja justificativa! Além do que eu mesma justifico (me 'borro' toda, quando me justifico), ouço sempre tantos depoimentos, feito esses:

“Já estava escurecendo, e a rua deserta. O desconhecido mexeu no bolso da calça. Eu imaginei que ele fosse sacar uma arma. Por isso, resolvi sacar e atirar antes. Matei o suspeito.”

“Eu estava no auge do stress, chutei o cachorro que abanava o rabo pra mim, na calçada, mas não tinha noção que o meu chute causaria o atropelamento do animal.”

“O homem negro estava em atitude suspeita, na agência bancária. Eu era o segurança de plantão, e cabe ao segurança (somos treinados para isso), assegurar a proteção dos clientes. Não interpelei o suspeito, por que pensei que ele reagiria, e, por isso, acabei tirando-lhe a vida, à queima roupa.”

“O meu colega sabia que eu havia passado a noite estudando, e eu, feito todo mundo, estava precisando de um dinheirinho a mais. Por isso, aceitei a proposta de vender a 'cola' da prova toda. Todo mundo faz isso. Não entendo esse 'auê' todo.”

“Eu matei o desgraçado do meu marido, por que a justiça demora demais, quando é feita. Se todo mundo fizesse isso, o mal seria banido do planeta, e só pessoas do bem, assim como eu, viveriam.”

“Matei, sim. Essa historia de bullying é coisa de escola particular. Aqui, a gente resolve tudo na porrada mesmo. Sempre foi assim. De vez em quando, morre um. Desta vez, foi a professora, mas podia ter sido eu.”

“Não lembro de ter espancado ela, até morrer. Eu estava bêbado, nem tenho tanta força pra isso. Ela deve estar fingindo de morta.”

“A culpa não é minha. Esse viciado é que sempre vem me acordar, pra comprar drogas. Eu nem procuro ele, não faço propaganda do produto. Ele que vem atrás.”

“O moleque sempre dizia que já era grande. Achei que meu filho podia ir brincar no córrego, me dar descanso. Três dias depois, fiquei sabendo que o moleque, de seis anos, morreu afogado. Não tenho dinheiro pra caixão, não, sou pobre.”

“Eu imaginei que você tivesse imaginado que eu estava imaginando que você imaginou que eu teria imaginado que você pudesse imaginar que eu imagino que você imagina outra coisa além da imaginação.”

São tantas as justificativas, que faltaria papel higiênico no mundo, pra descrevê-las todas – a cada dia, os chamados “originais” criam (retocam) mais e mais justificativas. Se você, feito eu, se sacrificou, lendo até aqui, pode estar questionando: E daí?... E eu respondo, como sempre, com uma pergunta: Pois é, e daí?...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Vê se te enxerga!

Em vez de ficar cuidando e se metendo na vida dos outros, vê se te enxerga!... Qual a tua condição, diante dos outros, com os outros?... Já pensou nisso?... Ou você pensa que todo mundo existe para te servir, fazer o que você quer, no momento que você quer?... Será que você pensa (isso seria pensar?) que os outros não tem medos e desejos, feito você?... Vê se te enxerga!...
Mesmo que você queira, os outros não fazem escolhas por você, que pode até querer responsabilizá-los, culpá-los – cada escolha, na tua vidinha medíocre, é somente tua (escolha). Nem adianta te maquiar de “pobre vítima da natureza”...
Basta olhar para o lado – nem precisa ser Platão, Nietzsche, Nostradamus, ou mãe Dinah, para enxergar. A maioria que convive contigo não quer saber de você. Se alguém pergunta tudo bem? - pouco importa a resposta. Pergunta isso, por não querer dizer outra coisa. E só.
Se, algum dia, alguém que te estende a mão, aguarde esse mesmo alguém buscar a “contrapartida” - todo mundo espera de você (não o troco) a devolução, com juros e correção monetária, baseados numa hiper inflação. Ninguém te trata do jeito que te trata, pelos teus “belos olhos”. Vê se te enxerga!...
A maioria quer alguma coisa de você, mas não quer saber de você. Se você dá o que a maioria quer e espera, você até chega ser “o bom”. Mas isso não perdura muito tempo: ontem, amado; hoje, odiado; amanhã, esquecido.
Vê se te enxerga!... Desça do pedestal das tuas certezas absolutas, pare de te sentir o mais querido, admirado, respeitado e invejado de todos os mortais. Sim, pois você (também), feito eu, feito todo mundo, vai morrer. E não adianta invocar mamãe, papai...
Vou parar de escrever. Achei o que eu estava procurando: meu espelho.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Direito de sonhar

Se conquistamos, diariamente, o direito de viver, por que não alimentarmos o direito de sonhar?... Afinal, sonhar vai muito além do viver, e não há lei que mensure o sonho, os sonhos. Tem gente que diz que não sonha – dormindo. Sonho, que é sonho mesmo, nos mantém acordados, despertos à vida que passa por nós. Pelo menos, eu, que sei sonhar muito mais acordada que dormindo, penso assim.
Não vou apelar aos livrinhos que ajudam (financeiramente) os autores, por que acho que eles (os autores) nem precisam. Quem procura livrinhos de autoajuda é por que, me parece, não entende a mensagem subliminar – a autoajuda é o ápice de sinceridade do autor, da autora. Acho que, para compreender o conteúdo, é preciso, antes, perceber o esforço pela autoajuda da própria autoria. Se o leitor aprende isso, que é o básico, pode conseguir, também, uma graninha, faturando com o lançamento de outros livrinhos da mesma espécie – aí, sim, a autoajuda do leitor pode ser concretizada. Não acredito em outra.
Também, não penso que necessitamos de permissão para sonhar, seja dormindo, ou acordados. Nascemos com esse direito. Pronto. A escolha é nossa. Claro que não temos controle sobre nossos sonhos sonhados, enquanto dormimos. Por isso, há tantos pesadelos tirando o sono de tanta gente – por aí, por aqui, em todo, ou qualquer, lugar. Mas, acordados, temos o direito de sonhar todos os sonhos que sonhamos sonhar. Por isso, também, há tanta gente dormindo pouco, sem reclamar de insônia.
Penso mais. Penso que sonhar é exercitar o máximo da liberdade humana. Ninguém tem a ver com isso (diretamente), para nos 'guiar', ou nos proibir. Sonhamos o que bem entendemos, bem desejamos. Fim de papo. Há quem busque concretizar os sonhos sonhados. Isso já resulta em trabalho, obviamente, mas não é impossível – seja o sonho que for. Outros preferem continuar refugiando-se nos sonhos sonhados, como se houvesse jeito de mantê-los distanciados da realidade vivida.
O brilho do olhar denuncia os sonhadores – e não há como esconder o fato de exercitar e exercer o direito de sonhar. Quem sonha, sonha adiante do que vive. Isso é realidade. Um dia, há muito tempo atrás (mesmo!), eu estava diante de alguém que verbalizava uma lista infindável do que me era proibido. Escutei tudo, em silêncio, enquanto eu pensava: Você pode me proibir de (quase) tudo, mas eu vou continuar sonhando acordada. Acho, até hoje, que, a partir daquele momento, sonhar, pra mim, passou a ser viver.
E ainda tem gente que não se acha no direito de sonhar – lamentável. Já ouvi muita gente, envergonhada, contar que teve um sonho lindo, dormindo, e fazer o sinal da cruz, dizendo: Não mereço. O sonho dormido é pouco, acho, pra alimentar a vida (acordada). Vou mais longe. Se há interpretações (inimagináveis até) para os sonhos que temos, enquanto dormimos, só nós mesmos sabemos, “na íntegra”, o significado dos sonhos que escolhemos sonhar. Nem sonhando, os outros conseguem imaginar. E isso tudo é vida, que acaba, feito tudo o que é vivo, que também acaba...
Em tempo, Milton Nascimento, Márcio Borges: “os sonhos não envelhecem” mesmo. Os sonhadores é que envelhecem, principalmente, quando abandonam os sonhos... e bons sonhos pra todos nós!...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

13 sexta-feira

Ah, depois de brincar de acreditar em Papai Noel, você não vai acreditar em azar agora, né?... Se acredita em azar, deve acreditar em sorte também... Porque hoje é 13 sexta-feira, eu pergunto: e daí?... Hoje é 13 sexta, amanhã será 14 sábado, etc etc etc e tal. E daí?...
Sei lá, gente, pode parecer descrença (e é, realmente, quanto a isso), mas não sou fã de superstições. Respeito as superstições e os supersticiosos, e, se não passo debaixo de escadas, é simplesmente por que tem alguma lata de tinta pendurada. Ah, também acredito que muitas coisas caem do céu: chuva, coco de passarinho, alguns raios, alguns aviões e asas deltas desgovernados. E só. Se creio em milagres?... Claro – a vida é um milagre único.
Num dia feito hoje (13 sexta-feira), tem muita gente que renova o estoque de amuletos e talismãs – haja tanta arruda, pra isso!... Mas tem muita gente também que fatura, neste Brasil carregado de superstições. A cada ano, camelôs e vendedores ambulantes investem mais no mercado supersticioso. São tantas “figuinhas”, chaveiros com talismãs, correntes e pulseirinhas de “proteção” - Nosso Senhor do Bonfim deve suar as fitas. Mas, a exemplo de qualquer 'filé de mercado', a superstição e os supersticiosos recebem atendimento vip, sempre com inovações – tem produtos para todos os gostos e desgostos, para alcançar graças, e fugir das desgraças da vida.
Ainda, sobre superstição, sinceramente, eu só não acho legal essa ojeriza por gato preto, principalmente em sexta-feira 13. Discriminação com os animais, racismo – a troco de que, gente?... Ninguém precisa exagerar. Deixa os gatinhos continuarem pretinhos, e engraçadinhos – o resto, nada a ver. Já vi gente pincelando de branco, um gato preto, numa sexta-feira 13. O que muda?... O que muda é o estranhamento do pobre felino, que, por algum tempo de desconfiança, se mantém afastado, já que não pensa, e, por isso mesmo, não pode preparar uma armadilha contra o inimigo que surge no dia 13 sexta-feira.
Se você gosta, ou não, de superstições, prepare-se: este ano, teremos mais sextas 13. Nem adianta se benzer, ou soltar palavrão. Calendário não pode ser alterado. Depois dessa de hoje, tem reprise, nos meses de abril e julho – dia 13 sexta-feira (batata!). Não há outro jeito: ou a gente encara a sexta-feira 13, ou é a própria sexta-feira 13 que encara, acompanhada de todas as superstições imagináveis. Tenha um bom dia!...