quinta-feira, 31 de março de 2016

De Onde Moro

Meu amigo, estou escrevendo, de onde moro, por saber que você sabe o que todos nós sabemos. Que ninguém mais me leia, para interpretar que sou isso, sou aquilo. Não sou – nem isso, nem aquilo. Sou contra. Sou a favor. Sou pelo contrário. Só quero viver o nosso tempo de paz, sem retrocesso. Se tem gente que perdeu a memória, muitos livros e museus (e até vítimas) continuam vivos, e muitos outros surgirão, contando, à posteridade, a história que construímos e destruímos hoje. Rebobina! - não funciona (definitivamente). Dizem que as ruas estão abarrotadas de cães raivosos e cegos, de raça ariana - por isso, não posso visitá-lo, meu amigo. Escolho escrever esse email singelo – mais sensato, que correr o risco de telefonar para sua casa, e algum grampeador incauto interceptar nossa amizade. Tenho alimentado traumas - tantos, que deixei até de usar grampos nos cabelos, e estremeço, quando ouço a batida de um martelo. Há alguns dias, tenho procurado, onde moro, as minhas garantias individuais, e não as encontro no lugar seguro e inviolável, onde as guardei. E tudo isso tem, em incerta medida, alterado minha rotina. Nem posso mais sair às ruas, com as cores de roupas que sempre vesti, sob pena de, em poucos minutos, ser julgada, condenada e linchada pelos cães raivosos. Qual será o programa policialesco que eles assistem? São tantos que instigam e aplaudem a violência. De onde moro, escuto vociferarem fascismo e psicopatia, que aprisionam a liberdade de todos os direitos. A tortura psicológica é monstruosa, meu amigo – e eu, semelhante a tantos (maioria), sou cidadã menor. Não sei por que, mas já não me apetece mais coxinhas, nos cardápios desses dias surpreendentes. Na sala de leitura, me alegra a presença da Constituição Federal, que persiste: “por uma sociedade livre, justa e solidária”. Eu, que sou (quase) à toa, tenho me assustado com as notícias de um outro 'deus' – mais poderoso que Têmis, ou Atena, Zeus, Hera, Ares, Artêmis e até Apolo. Lá fora, meu amigo, esgotos borbulham, cada vez mais fétidos, vazando, à revelia e a qualquer hora, o que ninguém sabe, mas, pior, acha saber - por isso, não pensa, nem questiona -, enquanto destila mais ódio. Onde moro, querem domesticar minha subjetividade, enquanto me enxergo impedida de ser objetiva. E eu que aprendi, na escola, que ser juiz é diferente de ser justiceiro (alguém se importa com isso?). Nem sei por que escrevo isso a você, meu amigo, mas pode ser por que sou impopular, e temo destituição (sei lá de onde e do quê). Dia desses, ouvi contarem, pela conservadora janela de vidro poluído, que, ali, na esquina, à esquerda de onde moro, um homem, vítima dos cães raivosos, foi salvo por policiais (tempos estranhos, esses), justamente por que verbalizou a palavra proibida: “discordo”. E ainda dizem que tem tilintar de panelas brilhosas – isso é demais para eu ouvir. Perco o sono, e, quando o encontro, sempre vem acompanhado do mesmo pesadelo: 1964, mutismo desesperador. Quando acordo, onde moro, imploro confirmação do calendário (o susto passou!), e rezo, com urgência urgentíssima, para que nem uma medida coercitiva venha tomar café comigo, sem aviso prévio. Meu amigo, de onde moro, pela janela cada vez mais imunda, posso ver algumas matilhas que perambulam pelas ruas, enroladas em bandeiras suadas de ódio e ressentimento. E tudo isso me faz lembrar o pesadelo que teima em bater, bater, enquanto eu, animal histórico que sou, escolho continuar sonhando (acordada), e acreditar que 1964 já era, os tempos são outros, vivemos o Estado Democrático de Direito. O gol perdeu a bola; o tiro nem saiu pela culatra, que ficou à espera. Nas ruas, “os cães ladram, a caravana passa”. Que o pesadelo sirva de alimento aos cães raivosos, de raça ariana, e me deixe dormir sossegada – e sonhar. Enquanto tudo ameaça, sem direito a defesa, tão perto da minha casa nova e democrática, ainda em construção, fico eu, com a minha única companhia: cálice. Já não bebo nem um gole – a realidade das ruas tem me embriagado tanto, de longe. Que eu acorde logo – na maior ressaca. Que o pesadelo acabe cedo, antes que a palavra justiça seja destroçada pelos cães raivosos, de raça ariana, e vire um palavrão. Que não destruam, meu amigo, sei lá a que pretexto, o que já conseguimos construir juntos, a duras penas, que só manifestavam escarlate. Podem dizer que esqueceram, mas todos lembrarão, sempre, das batidas cadenciadas dos cascos dos cavalos, dos coices e pisoteadas das ferraduras – depois, o toque de recolher (a indignação e a revolta). Que a dita dura realidade, meu amigo, não sobreponha o senso, o bom senso, e a consciência daqueles que pareciam exemplos de tudo isso, antes de começarem inverter os valores, mudarem as leis, com prejulgamentos e atitudes impetuosas, obedecendo a matilha, em troca de aplausos. Amém.

(Aos desinformados: hoje é 31 de março – não (mais) 1964. Basta.)
… e os cães (ainda) vociferam...

sábado, 12 de março de 2016

O que você tem a ver com isso?

O planeta está em crise. As pessoas estão em crise. Os setores estão em crise. A mídia está em crise. O trabalho está em crise. Os países estão em crise. A infância está em crise. A economia está em crise. O ser humano está em crise. A política está em crise. O caráter está em crise. A educação está em crise. A natureza está em crise. As redes sociais estão em crise. Os acordos internacionais estão em crise. A saúde está em crise. A ética está em crise. A família está em crise. A sensatez está em crise. O conceito de beleza está em crise. A segurança está em crise. A psicanálise está em crise. As relações estão em crise. Os jornais estão em crise. As artes estão em crise. Os animais (quadrúpedes) estão em crise. A bolsa está em crise. A velhice está em crise. A inteligência está em crise. Os valores estão em crise. A religião está em crise. A polícia está em crise. A sociedade está em crise. O papel higiênico está em crise.
É tanta crise, que falta espaço à reflexão. Por isso, poucos (ainda) insistem em pensar. A maioria reproduz o que a maioria faz – e ainda acha (achismo mesmo) que está sendo original. Crise de pensar, criar.
Ninguém mais se entende – nem quer compreender o que acontece. A crise predomina, em todos os lugares, em todas as decisões, em todos os gestos, em todos os olhares. É crise para todos os lados – nem precisa haver água parada, para se reproduzir, e causar mais e mais danos, sem qualquer expectativa de vacina, muito menos de cura.
Diante da realidade inteira em crise, eis que surge a pergunta: O que você tem a ver com isso?… Afinal, você, tão inocente, não é responsável pelas guerras, pela corrupção, pela fome, pelos linchamentos, pelas atrocidades religiosas, pela violência, pela crise da humanidade. Muito cá entre nós, sabemos que nem você, nem ninguém, é violento, fascista, psicopata, racista, ardiloso, homofóbico, corrupto, hostil, anormal, egoísta, pedófilo, desonesto, mau, sectário, egocêntrico, ladrão, xenofóbico, descumpridor dos seus deveres, arrogante, presunçoso, traidor, agressivo, bajulador, ciumento, linchador, negligente, grosseiro, vingativo, machista, cínico, torturador, mentiroso, ditador, oportunista, cruel, desequilibrado, estuprador, preguiçoso, intolerante, sádico, invejoso, dissimulado, rancoroso, bêbado atropelador, desleal, falso, orgulhoso, injusto, falsificador, maledicente, preconceituoso, possessivo, assassino, narcisista, colérico, inconsequente, burlador, avarento, o pior dos piores (ufa!). Todo mundo é bonzinho, cheio das melhores intenções e atitudes, e só quer ter o direito de adquirir armas, para se defender – ninguém deseja atacar, matar, dizimar. Os presídios e penitenciárias estão abarrotados, por todo o planeta, por aqueles que se dizem maiores vítimas, injustiçados, os mais inocentes. E ainda há os que estão do lado de fora, fazendo justiça – com as próprias patas -, para impor o mesmo discurso...
É o que penso a respeito – até agora. Pois é. E eu ainda questiono: O que você tem a ver com isso que escrevi?…

quinta-feira, 3 de março de 2016

Há vida, além da zona sul, da avenida paulista, das redes sociais, das novelas e dos programas policialescos

Somadas as minorias, a maioria da população brasileira resolveu levar a sério a enxurrada de reportagens da mídia nacional, que só mostra imagens de violência, em todas as regiões do País. Todo mundo, acreditando na insuperável violência brasileira, decidiu matar, invadir, violentar, linchar, saquear, quebrar tudo. Em vez de bater panelas, o povo está batendo no povo. Todo mundo bate, apanha, e se debate, cheio de manha. Destros e canhotos exalam ódio, provocando pancadaria, nas calçadas, esquinas e residências. Para cobrir, ao vivo, tantas tragédias, a globo importou equipamentos dos estados unidos; o sbt, do méxico; e os demais canais, do paraguai mesmo.
Finalmente, os ditos profissionais da televisão sensacionalista conseguiram: o Brasil está em guerra. Os telespectadores nem quiseram esperar a aprovação da liberação das armas, defendida pela “bancada da bala”, no congresso - se armaram de paus, pedras e ferramentas de trabalho, e ocuparam as ruas de todas as cidades brasileiras. Com a força de todos os canais de televisão, a população brasileira não quer mais esperar “tragédias naturais” - enchentes, terremotos, maremotos, tsunamis, queimadas… demoram para chegar, e vão embora logo.
Os apresentadores dos programas policialescos estão em êxtase, chegam babar, diante dos noticiários que anunciam a tamanha barbárie, por todo o País. Os livros de todas as bibliotecas foram queimados. Todas as bandeiras do Brasil tiveram as cinzas pisoteadas. Bombas foram arremessadas, em todas as escolas e universidades, e em todos os cemitérios e hospitais. Apresentadores de programas policialescos deliraram, ao informar a notícia de que nazistas haviam levado todos os presidiários brasileiros a câmaras de gás, a pleno vapor, pelo País. Com a consultoria da empresa samarco, todos os rios brasileiros foram contaminados, e os peixes não deixaram descendentes escondidos. Os locais de trabalho fecharam, antes dos prédios desabarem. Depois de tantos cursos intensivos de violência, nos programas policialescos, telespectadores foram às ruas, e partiram à prática de fuzilamento ao alvo – animais e transeuntes mortos. Todas as agências bancárias, bovespa e lotéricas, a exemplo dos supermercados, foram saqueadas. Museus, galerias de artes, monumentos, teatros e cinemas foram destruídos por incêndio fantástico. Cansados do stress e dos acidentes causados pelo trânsito caótico, em todo o País – contados em 'prosa e verso', nos programas sensacionalistas diários -, motoristas e usuários de transportes coletivos bombardearam todos os túneis, viadutos, vias públicas, pontes, e até as estações de trens e metrô, aeroportos, portos e rodoviárias, para garantirem a solução imediata de todos os problemas do setor. Grupos piromaníacos organizados dizimaram toda a floresta amazônica e a mata atlântica inteira. As praças, antes públicas, estão cercadas. Dos três poderes constituídos, não restou meio. Fascistas e psicopatas comemoram, em tiroteios espetaculares, a explosão de todas as obras de Oscar Niemeyer, principalmente, as de Brasília. As forças armadas divulgam nota, manifestam obediência, à espera da retomada da ditadura. Enquanto divulgam o terror brasileiro, apresentadores dos programas policialescos surtam, histéricos, em orgasmos múltiplos, ao vivo.

Como o sonho, o pesadelo (ainda) não acabou. Felizmente, acordei. Preciso levantar. Do pesadelo à realidade: (ainda) há vida, além da zona sul, da avenida paulista, das redes sociais, das novelas e dos programas policialescos… Por precaução e sobrevivência, não vou ligar a televisão. Agora, tranquila, lembro que nunca morei na zona (sul), nem tampouco sou mais uma presa das redes (sociais) – vivo nadando contra a maré, nem sempre nos trilhos, mas respeitando a faixa (de segurança).

domingo, 31 de janeiro de 2016

Vida fácil?

   Quem pensa que vida fácil é uma das profissões mais antigas da humanidade, engana-se profunda e injustamente. Não argumento a respeito, nem ouso me deter em detalhes que desconheço, da vista do ponto das trabalhadoras do sexo, que sabem que a vida delas também não é nada fácil.
   Resta, então, pensar na infância, como vida fácil. Que nada! A infância – a primeira, mais ainda – deve ser comparada a um dos piores filmes trash que se tem notícia. Ainda bem que esquecemos da nossa primeira infância. Só imagine um mundaréu de gentes em cima de você, na maior catarse humana. Cegueira demais. Expectativas demais. Fantasia demais. Esperança demais. Enquanto cada qual pensa no próprio umbigo, o bebê, se pudesse pensar, pensaria só no cordão umbilical que perdeu. Ele chora a falta, chora por não saber, e choraria mais ainda, se soubesse. Nem pensar. Nos primeiros meses, surgem cólicas, mal-estar no corpo todo. A coisa só piora, quando o infante começa a caminhar (correr), falar, enxergar o mundo e as pessoas, raciocinar. De lá para cá, a coisa só desanda. Não podia ser diferente. E ainda crianças são esquecidas dentro de carros trancados, em estacionamento.
   Depois de ser expulso do paraíso (útero), o bebê sofre o primeiro e mais dolorido impacto: viver. O pior é que quase tudo da própria sobrevivência não depende dele – só mesmo o respirar, sem saber que respira. Por isso, a primeira linguagem é chorar – só mesmo na primeira infância, os adultos, ao redor, fazem tudo para acabar com o choro infantil. O tempo passa, até que chega a nova ordem, sem exceção: proibido chorar. A criança tem de aprender a caminhar, falar, comer, beber, fazer gracinhas para os adultos – em tudo isso, vai aprendendo a raciocinar, mas poucos adultos percebem esse detalhe. Vale lembrar: nos países sempre em guerra, crianças também nascem – e vivem, e são mortas. Nos países onde a guerra é camuflada, atrás dos muros da hipocrisia, recém-nascidos são embalados em sacos plásticos, e abandonados em lixeiras. Vida fácil – quando, aonde?…
   Após, vem ainda a adolescência – fase triste, melancólica, período das maiores incertezas (pelo menos, assumidas). Talvez, seja uma das épocas da vida em que a gente mais questiona – tudo e todos. Com a lentidão do tempo (demora a passar), a maioria se acomoda, torna-se subserviente do adulto, e aluga uma quitinete, na zona de conforto mais próxima, e rende-se ao consumismo. Tanta coisa acontece, nesta fase: o adolescente é grande para os pequenos, e pequeno para os grandes. Como se houvesse necessidade de 'uma mãozinha', os adultos ainda dizem ao adolescente “não faça isso, você não é mais criança”, para, numa outra situação, falarem “você é apenas uma criança”. Por isso, o adolescente se desespera tanto: sofre com os menores, e não compreende os maiores. Sabe, sem saber, que não é igual aos irmãos, nem aos pais, nem a ninguém. Busca ser diferente – acaba descobrindo que somos iguais e diferentes, o tempo todo. E ainda precisa ser o primeiro da classe, o primeiro no futebol, a primeira a usar maquiagem e salto alto, o primeiro a beijar na boca, a primeira no balé, o primeiro no videogame, o primeiro a perder a virgindade, o primeiro a receber diploma, o primeiro da família, o primeiro da escola, o primeiro da turma. Tem de escolher uma carreira profissional promissora, correspondendo ao que os adultos esperam dele. Se for pobre e negro, o adolescente sofre ainda mais, nem sempre escapando das balas perdidas, as quais, coincidentemente, acham sempre o mesmo alvo. Tudo – nada fácil.
   A fase adulta chega, fazendo escândalos revolucionários – só no começo -; em seguida, o fogo de palha não deixa sequer lembrança. A criança que sonhava tornar-se super herói, o adolescente que queria mudar o mundo simplesmente são deixados de lado pelo adulto, que só quer saber de alimentar-se de imagens, poder($) e fama. Se o adulto é pobre e negro (conseguiu sobreviver às balas perdidas da adolescência), certamente, é o primeiro suspeito de cometer todos os crimes. Por isso, é linchado pela sociedade moralista, e/ou permanece preso, sem julgamento. Se for ator global, pode ser liberado da cadeia, sem pedido de desculpas.
   Mas o que o adulto mais deseja mesmo é ser bem-sucedido – no peso e na medida ditados pela sociedade. Nas redes sociais, todo mundo exibe felicidade desconhecida de todo mundo. O adulto quer pertencer aos grupos, e, por isso, tenta imitá-los, para, depois participante, mostrar-se melhor que os demais. Os adultos convivem com outros adultos, que reproduzem vidas aparentes de outros adultos. Por isso, adulto perde o sono, trabalha e consome demais, querendo compensar o que não teve e o que não fez, deixando de fazer e abandonando tantas coisas da essência humana. E ainda quer ser melhor que os outros (adultos), sem saber quem ele mesmo (adulto) é. Não sabe que o que vê, não enxerga, e quer convencer os outros (adultos) para olharem o que ele (adulto) aparenta ser. Nesse processo exaustivo, quase impensado, o adulto está sendo exemplo, às crianças e aos adolescentes. Até poderia ser vida fácil, se fosse outra vida: adulta.
   Tem mais. O tempo (algoz) não deixa por menos: logo no início da velhice, entrega o veredito da vida: fim da linha. Enquanto alguns escolhem seguir vivendo, aprendendo com a nova etapa, outros tentam fazer o que sempre quiseram, tanto, que, às vezes, acabam exagerando no botox, nas cirurgias plásticas, no excesso de bebidas e/ou comidas. Tem aqueles que seguem, se arrastando, numa vida concentrada nas dores que o tempo faz latejar no corpo. Junto com a velhice, podem chegar, também, o abandono, o desamparo. Quem quer saber de um velho caquético, fora de moda, que esquece tudo, e só lembra do próprio passado, cada vez mais distante?… Ainda assim, os velhos persistem – vida nada fácil.
   Apesar de desejarem estar numa outra fase da vida, fazer parte de uma outra época dessa história mal contada, todos vivem – e morrem.
   Nem sempre a grama do vizinho é a mais verde. A vida não é fácil, para ninguém, mas pode tornar-se insuportável, para todos, quando o adolescente escolhe ser adulto, antes do tempo; o adulto resolve ser bebê, bem depois do tempo; e quando todos exigem que o bebê se comporte como adolescente, muito antes do tempo, sem que o pequeno saiba disso. Não dá. O velho, quase sempre, quer voltar a ser criança, enquanto o adulto deseja ser jovem, e o adolescente quer tornar-se adulto. Somente o bebê (ainda) não sabe que pode querer, desejar. Na realidade, todos sonham: liberdade e segurança. Mas são tantas as exigências – internas, externas.
   E ainda tem gente que imagina que estamos neste planeta, de férias, ou a passeio…
   Vida fácil? Que eu conheça e saiba, só mesmo a da samambaia que eu rego e trato – existe, sem saber que existe, e sequer ocupa espaço de exibição, para julgamentos públicos.
   Num ínterim qualquer dessa vida sempre tão frágil: game over.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Carta aos jovens de espírito

Você pode até se orgulhar, ao dizer que faz parte do grupo dos jovens de espírito, fingir nos ignorar – a cada dia, tornamo-nos maioria. Não tem escapatória, mesmo quando você nos encobre de todos os olhares. Bem no fundo, permanecemos na sua cabeça – você sabe disso. E nos multiplicamos – em silêncio.
Tem muita gente que até faz poesia, inspirada na nossa existência – fala que somos símbolo de experiência e maturidade. Balela! Somos o que somos, por que, tanto quanto você, vocês todos, nós fazemos parte da natureza (real, realista).
Um dia, fatalmente, surgimos, e não abandonamos você. No início, nos multiplicamos, mas, aos poucos, só os mais fortes permanecem. Você pode até tentar nos eliminar – um ou outro se deixa morrer, mas, logo, a maioria resiste. Nossa revolução é silenciosa, para, só mais tarde, você perceber que não tem jeito – pode enfeitar, pintar o sete, nós prevalecemos na sua cabeça.
Você pode até continuar se autointitulando jovem de espírito – que seja mesmo, e mantenha a saúde renovada, sem hipocondria, ou qualquer outro desequilíbrio, até o último minuto marcado pelo seu relógio do tempo. Independente das suas escolhas, seremos sua companhia mais constante.
Alguns choram, desesperados que ficam, com a nossa procriação deliberada. Crescemos e nos multiplicamos, à revelia do que você deseja, pensa, ou sente. Vocês são muitos – nós somos, infinitamente, muito mais.
Tanto quanto impossível, não brigue, nem se revolte, com a nossa existência tão presente, e inesquecível. Com toda certeza, você não escolheria a única outra opção, para não nos ter na cabeça. Se quiser, compreenda que o tempo segue os passos da natureza, ignorando se você nos esconde, ou nos revela – existimos simplesmente.
Quanto a nós, não questione além do que você enxerga. Somos predestinados a cumprir a sina – talvez, simbolicamente, representamos a prova de que você (ainda) está vivo, e pode fazer (outras, ou as mesmas,) escolhas.
Somos filhos obedientes do tempo – até mantemos a nossa beleza, o nosso charme. Tenha olhos para enxergar isso – ou se descabele. A escolha é – sempre – sua: ou aceita envelhecer, ou não aceita, e envelhece do mesmo jeito. O que todo mundo quer é longevidade, não é mesmo?...
Assinado: seus cabelos brancos.

P.S.: Que você (ainda) tenha vida, para, um dia, diante do espelho, nos tocando à raiz, com suas mãos distraídas, longe dos olhares alheios, sinta compaixão – quem sabe, até uma mecha de amor.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A vida segue, mais pobre – sem Marília...

Neste cinco de dezembro de 2015, o Brasil amanheceu mais pobre – pobreza dolorida, que arde e sangra na cultura e na arte nacionais. Marília Pêra - atriz, bailarina, cantora, coreografa, diretora e produtora de teatro – dormiu, não mais acordou. Por isso, o Brasil amanheceu mais pobre: perdeu tantas criaturas, numa só. A ausência de Marília será sentida, a partir de agora, em todos os palcos e estúdios em que ela pisou, e por onde não fez arte, também. Morre a delicadeza da criatura empática, sempre preocupada com o outro, os outros – qualidade destacada pelos amigos e colegas dela. O que permanece (vivo) é o que ficou na memória, nas lembranças.
Marília viveu e morreu pela arte, se entregou – inteira e plena – à arte. E que sentido tem a vida, sem arte? Como viver, sem arte?… Marília partiu, com o mesmo sentimento que nasceu e viveu: amor à arte. Por isso, o sol amanheceu carente de brilho. “O céu ganhou uma estrela”, disse a atriz Eva Wilma. Mas nós perdemos a existência de uma artista completa, honesta com o ofício que escolheu viver (morrer) - respondo eu, que não convivi com Marília Pêra, sequer me deslumbrei com um de seus belíssimos espetáculos, ao vivo. Saber da existência de criaturas do bem e talentosas, a exemplo de Marília, já me transborda de esperança de que nem tudo está perdido.
Em mim, resta a dor da perda de um País inteiro, onde muita gente confunde música com som, ou ruído, barulho, arte com forma de expressão. Hoje, cinco de dezembro de 2015, perde o Brasil – muito mais que uma Copa do Mundo, ou cinco. Perdem os que têm sensibilidade, e os psicopatas (insensíveis, sem empatia alguma). Todos sofrem a perda da arte – conscientes, ou não. Marília já faz falta, a quem soube da existência dela, e a quem ignorava.
Talvez, hoje - primeiro dia sem Marília -, as pessoas mais próximas considerem a morte dela, uma injustiça. Tratando-se de Marília, a morte seria injusta, na mesma proporção, se a obrigasse partir, depois de quatrocentos anos de arte da maior e melhor qualidade. A própria Marília sentiria isso, por que transbordava vida, e sonhava mais vidas para o palco – novos e inimagináveis projetos brotariam, o que causaria aplausos de todas as emoções (pura doação).
Marília Pêra partiu, deixando um legado artístico equilibrado entre sensibilidade e fragilidade. Mesmo se houvesse intenção, não se teria como apagar os rastros de luz de tamanha doação (visceral e plena!) de toda a generosidade que fica. Exemplo de entrega desmedida, Marília soube ser tão profunda, até mesmo nas personagens mais superficiais que assumiu, no teatro, no cinema e na televisão. Nos textos mais densos, ela foi mestra em falar e silenciar, com os olhos, os gestos, a respiração, de corpo inteiro – por todos os sentidos e poros. Marília viveu imersa e diluída na arte de viver – por isso, tanta vida bondosamente escorrendo e transbordando por todos os cantos dela. Quando cantava Carmem, Elis, Dalva, Clara, Callas, e tantas outras – levitava, e fazia levitar. E não houve espetáculos, peças, filmes, novelas, protagonizados e encenados por ela, que tenham passado desapercebidos pela sensibilidade pública desperta.
Marília Pêra entra e sai de cena - eterna que é -, de mãos dadas com a arte. Quanto a nós, pobres mortais, permanecemos no mesmo caminho, na mesma fila de espera, sem sabermos o que Marília não sabia.

Letra do Samba – Carnaval 2015 – Mocidade Alegre

“Nos Palcos da Vida, Uma Vida no Palco... Marília!”

Intérprete Oficial: Igor Sorriso

Compositores: Ana Martins, Douglas Sabião, Imperial, Marcio Bueno, Rodriguinho e Victor Alves

Divina inspiração, um ato de amor
A arte concebeu Marília
Tão menina, a flor bailarina
Carrega no sangue o dom de encenar
Vai brilhar na ribalta infinita
Liberta, a poesia não vai se calar
Nos palcos de corpo e alma
Desponta no alvorecer
Destino traçado, talento e magia
Estrela a resplandecer

Ê mulher... Lições pra ensinar
São elas por ela, mil vidas contar                                   refrão
Tem Carmem Miranda, ganzá e pandeiro
De saia rodada, ginga no terreiro

Dama do cinema e televisão
Em qualquer cenário transmite emoção
Graciosidade e carisma
Um anjo da noite embala criança
A lua cheia de amor reflete esperança
Meu samba chamou você pra sambar
E te consagrar rainha do nosso carnaval
Pois o teu nome já é imortal...Bravo, Marília!
Orgulho do nosso país... És musa, brilhante atriz
O mundo a reverenciar...
Nossa “Morada” a homenagear!

Vem aplaudir a diva nos palcos da vida
Faz delirar, meu povo alegre a cantar                            refrão
Mulher guerreira, bem brasileira
A Mocidade é Marília Pêra

(Exatamente há um mês atrás, li a notícia de que Marília Pêra havia partido – com aviso prévio. Escrevi - no papel mais à mão - o que você acaba de ler, e guardei no silêncio da minha alma. Só mesmo o tempo para nos mostrar o que persiste vivo – em cada um de nós.)

A vida segue, mais pobre – sem Marília...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

No balanço de final de ano

Todo final de ano é a mesma coisa: bate aquela depressão sazonal, que resolve ficar de papo com o ‘grilo falante’(consciência) da gente. Tem coisas que, não adianta, você precisa, tanto quanto possível, esquecer, ou, pelo menos, não lembrar. No desesperado balanço de final de ano, você pode até cortar os pulsos, mas isso só causaria dívidas (médica, ambulatorial, hospitalar), além do sentimento de culpa, pelos transtornos à família, justamente quando todo mundo prepara festas e festas.
De soslaio, você dá uma olhada no extrato (vermelho de vergonha) do seu cartão de crédito, e logo vê que vai demorar muito para zerar de vez aqueles números cada vez mais aterrorizantes. Você até tentou fazer aquela dieta de abobrinhas, mas não foi longe, por que esqueceu tudo, no rodízio de pizza, regado a chopp.
Você prometeu ao seu ‘grilo falante’ que, este ano, sim, pediria demissão do seu trabalho medíocre, e venderia suco na praia, tempo em que pensaria o que fazer da vida, depois do verão acabar. Você queria tanto, no início do ano, fazer “pé de meia”, e hoje culpa a crise econômica mundial, por ter ficado até sem a meia.
Em vez de ficar no pedido de perdão, mostre, pra você mesmo, que sabe crescer, e não repita a causa das dores, nos outros. São tantos os erros humanos – pra que repeti-los?… Mas nada de armas letais, por favor. O mundo, que está cheio de psicopatas, fascistas e terroristas, agradece, por continuar existindo – antes e depois de você.
Às vésperas de ano novo, não dá pra encarar análise da própria vida, muito menos discussão de relação, né?… É demais, pra cabeça de qualquer um – até de quem não está habituado a pensar, por não querer. Mas o mais importante é que você chegou até aqui – e tem um novo ano pela frente. O que passou, passou (mesmo!), já foi – ficou você, e tudo o que você pode fazer e ser (de melhor). Sem segredos. Sem mistérios. Sem revelações. Simples assim.
Outros anos virão e virarão, como este – com, ou sem, o seu balanço, independente das suas escolhas. Enquanto tantos morrem – e nascem -, você continua vivo, colocando, sempre fora do seu alcance, o que chama projeto de vida. A princípio, pode até ser projeto de vida mesmo, por que você projeta em vida – nada além disso, por que continua balançando entre as suas escolhas, como se o projeto de vida fosse independente, agisse por conta própria (quem dera!). Faça novos projetos (entusiastas), aqueles que você sabe, de antemão, que, além da capacidade, você tem o forte desejo de.
Se você resistir ao final de mais esse ano, e não cortar os pulsos, nem se jogar de cima da mesa, você sobrevive. Vai ficar tudo bem. Um novo ano chega, com sabor e cheiro de ano novo – faça sua parte (poxa!), renove os sonhos, limpe as gavetas da alma. Se puder, faça mais: tome um porre, ou dois, dance “na rua, na chuva, na fazenda”, faça declaração de amor ao poste sem luz, durma no gramado – na praça mais próxima. E nunca esqueça que nem tudo é como a gente quer que seja – nem fatos, nem pessoas, nem nós mesmos. A vida flui – colorida (até preto e branco são cores) -, em todos os matizes, idiomas, olhares e gestos, por todos os cantos. Compreenda que essa realidade, com tantas semelhanças e diferenças, é o jeito de a própria vida se sonhar. E sonha, também, você – sonha com sonhos que você jamais sonhou que pudesse sonhar. Pense: serão mais 8.784 horas, até você pensar em voltar a pensar no que fez, deixou de fazer. Ano novo é pra isso: Carpe diem!