Justamente na véspera do dia das mães deste ano, uma policial (mãe de duas meninas) matou o filho de uma outra mãe. Sim. Qualquer assaltante, bandido, também foi parido por uma mulher – mãe (surpresa!). Elivelton Neves Moreira, de 20 anos, também deveria ter mãe - talvez, a única que chora a morte dele. Quem se importa? “Bandido bom é bandido morto!” - dizem os bem vivos. Na manhã de sábado (12/05), Elivelton, armado com revólver, tentava fazer arrastão, na entrada de uma escola particular, em Suzano, região metropolitana de São Paulo. A cabo da polícia militar Katia da Silva Sastre (de folga, mas armada) chegava na escola, com uma das filhas, onde seria homenageada, pelo dia das mães. Katia percebeu o assalto, e matou Elivelton, que levou tiros na perna e no peito. Pra que sobrecarregar o judiciário, se o que todo mundo quer saber é da lava jato mesmo, né?… Até hoje, os (ir)responsáveis pela mídia nacional se deliciam, ao divulgarem, repetidamente, as cenas do crime, gravadas por uma câmera instalada na calçada. São tantos orgasmos, que os ‘corvos de plantão’ esquecem que a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) mantém, permanentemente, monitoramento em programas de rádio e TV das cinco regiões brasileiras, o qual acusa níveis preocupantes de violações de direitos e de infrações a leis e a normas autorregulatórias do campo midiático. Mas essa é outra história (interessados que se informem)… Morto o bandido (sem toda a morosidade de um julgamento), a cabo tornou-se heroína, homenageada até pelo governador de São Paulo. Autoridades e a própria policial militar disseram que, para isso, ela é treinada. Exemplo dado, ninguém mais quer saber de atravessar velhinha em faixa de segurança. Eu daria logo a cabo o prêmio nobel da paz (de quem?). Um amigo carioca me disse que a cabo deve ser convidada para fazer workshop no Rio de Janeiro, para acabar de vez com a violência na ‘cidade maravilhosa’. De lambuja, ela agilizaria a ação de pms e milicianos, e acabaria com os favelados e quem os defende. Três tiros em cada um: fim da miséria toda. Agora, vou ali na esquina procurar (de graça, sem fila) uma cena de pena de morte nas ruas – ao vivo, ao morto.
Marielle Francisco da Silva nasceu mulher, negra, favelada, e depois foi ser mãe solteira. Feminista, muito cedo, já começou a participar das lutas em defesa dos direitos humanos, por justiça social, contra as ações violentas nas favelas. Com a garra que só as mulheres, as negras, as faveladas conhecem tão bem, formou-se socióloga, e fez mestrado em Administração Pública. Nas eleições municipais do Rio de Janeiro, em 2016, foi eleita vereadora, com 46.502 votos, quinta mais votada no município. Marielle era extremamente crítica da intervenção federal, na segurança pública do Rio de Janeiro. Há duas semanas, ela assumiu a função de relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio, criada para acompanhar a atuação das tropas na intervenção. No sábado, dia 10 de março, Marielle usou rede social para denunciar, mais uma vez: "Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando os moradores. Nessa semana, dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje, a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior". Marielle morreu na luta! Foi brutalmente assassinada, ontem à noite, após ter participado do evento chamado "Jovens Negras Movendo Estruturas", na Lapa (RJ).
Depois de mais essa tragédia, que tanto envergonha os seres que persistem humanos, ainda temos de aguentar “notas de lamento” dos conhecidos vampiro brasileiro, cri-crivela e pezão de mãos grandes. O que será que eles lamentam primeiro: terem nascido, ou terem se candidatado? O dito “santo do pau oco” só não pode se chatear, senão, repete a viagem à europa, e gasta mais R$ 150 mil, em cinco dias – tudo, por conta da rapa dos cofres públicos cariocas.
Urgente Neste momento de dor e revolta, nem penso que seja urgente todo mundo repensar. É mais que urgente: pensar – isso sim. Pensar uma vez na vida. Que os deuses da justiça e da política brasileira pensem. Que os (ir)responsáveis por programas policialescos pensem. Que a bancada da bala pense. Que cada trabalhador militarizado pense. Que os retrógrados milicianos pensem. Que os defensores da volta da ditadura pensem. Que os cérebros mais ocos pensem. Pensemos todos – uma vez na vida.
Novela – tem todo dia, gente. A vida acaba – sem final feliz.
Hoje, todas as mulheres, as negras, as faveladas, choram sua morte, Marielle! Hoje, todos os homens que amam as mulheres, as negras, as faveladas, choram a sua morte, Marielle! E todo esse choro, que se derrama pelo Brasil e em tantos outros países, grita: O seu silêncio é a nossa voz, Marielle!
(No início de 2015, postei o que republico aqui. Como na vida de toda gente, na minha vida, também, muitas coisas aconteceram, mudaram – de lá para cá, de cá para lá. Mas nada mudou tanto quanto o meu olhar o mundo, a vida, o tempo. Mudar sempre me faz tão bem – me surpreende, me dá brilho no olhar. O mundo muda. A vida muda. O tempo muda. Mudo eu. Se amadureci? Não sei, nem me preocupo em saber, por que, pra mim, isso não importa mesmo. O que me tem valor é que eu mudei, e continuo mudando – sempre, quites com o tempo, com a vida, com o mundo. Menos expectativas – mais surpresas boas. Continuamos quites: eu, a vida, o tempo, o mundo.)
Nesta virada de ano, fiquei pensando tantas coisas. O que mais pensei é que eu estou quite com o mundo, com a vida, com o tempo. Eu e o tempo estamos quites, por que sempre me dei bem com o tempo - não adianta querer brigar com quem tem o “coringa” na manga. Eu e o mundo estamos quites, por que fazemos o melhor que podemos fazer - “tudo a seu tempo”. Eu e a vida estamos quites, por que não há nada, nada mesmo, que eu tenha me arrependido de viver - foi assim que cheguei até aqui. Se a vida continua, depois da morte, não sei - há muitas controvérsias, sobre “ninguém ter voltado pra contar”. O que sei é que essa vida (presente) é única, por que não volta mais - mesmo. Jamais estaremos onde estamos, com quem estamos, fazendo o que fazemos, deixando de fazer o que deixamos, fazendo as escolhas que fazemos. As outras vidas que teremos - se teremos - serão realmente outras, e também únicas. Tem muita gente desavisada, de mal com a vida, com o mundo, com o tempo, à espera, sempre, do passaporte à ilha da fantasia. Pior ainda, quando escolhe esperar que a vida boa venha, prontinha, embrulhada em papel de presente, pelas mãos dos outros. Enquanto isso, fica sem saber que cada instante desta vida é realmente especial, por que sempre único – não volta. Por isso tudo, Lenine ainda canta: “A vida é tão rara”... Feito toda gente, também eu faço as minhas escolhas. A cada ano que passa, tenho reduzido, cada vez mais, as minhas expectativas em relação ao mundo, à vida, ao tempo. Nada desesperador. Percebo que, assim, tenho sabido mais de quem (acho que) sou. Cabe colocar aqui que nem consigo me imaginar correspondendo a expectativas alheias - seria muito pra minha cabecinha, por que cada pessoa espera algo (diferente) da gente. Quanto menos expectativas eu tenho, mais surpresas boas recebo (vivo o que acredito, cada vez mais). Gosto do imprevisto, da porta que se abre no meio do nada, das nuvens que aplacam a tempestade. Essa é a minha (única) expectativa para 2015 (para 2018, mais ainda): o imprevisto. Sempre gostei de desafios - dos bons desafios. Nem considero desafio o que é feito para ser exposto nas redes sociais. Não. Desafio, pra mim, é o que desafia (só) eu mesma. Também, não gosto do que chega prontinho, embalado em pacote de presente. Gosto das peças de Lego (conhece?), do que me instiga a desfazer, fazer, desmontar, montar, desconstruir, construir (refazer, remontar e reconstruir dá muito trabalho, e o resultado é sempre o mesmo). Nada acontece de um momento para o outro - tudo flui aos poucos, seguindo o que existe de ritmo harmonioso no mundo, no tempo, na vida. Depois disso, só dá pra pensar, mais uma vez, em Benjamin Disraeli: "A vida é muito curta para ser pequena”. E lá vou eu aprender um pouquinho mais...
Sem quaisquer ‘achismos’, eu só penso – e muito. Pensando na realidade em que estou vivente, começo a me enxergar no mundo da tetravó da minha avó. Penso mesmo que a minha avó enxergaria esta realidade atual, mundo ultrapassado, retrógrado, até perigoso de se viver. Por isso, penso, quem se sentiria à vontade mesmo seria a tetravó da minha avó. Penso que o Brasil não (sobre)vive hoje a retirada da sujeira debaixo do tapete. Quem dera fosse essa coisa digna. Não é, ainda que todos os deuses que surgem queiram nos convencer disso. Observe: o tapete deteriorou, com tantas décadas de corrupção. Não há jeito de remendar. Não há mais tapete (bingo!). Todos contribuímos pra isso – grandes e pequenas corrupções, ou simples conivência, ignorando a realidade. (Não ria: o tapete da história da sua vida também está desgastando) Afinal, que mundo é esse que faria a tetravó da minha avó se sentir à vontade e confortável? Não tenho resposta(s). Mas não deixo de observar e questionar tudo, todos – primeiramente, eu mesma, que estou mais perto. Exemplo próximo (a maioria dos brasileiros trabalha): Em novembro de 2017 (logo, logo), a reforma trabalhista será implantada, em todo o Brasil. Não sei por que, mas, sabendo disso, conhecendo a íntegra da Lei nº 13.467 (que trata sobre a dita dura reforma), penso que estamos a um passo de um passado que a maioria prefere ignorar até hoje - bem antes de 1888, ano em que a princesa assinou a lei áurea. Traduzindo o que penso: com a reforma, os patrões terão autoridade absoluta, mascarada de negociação. Resumindo: ou o empregado (escravo mascarado) acata a decisão patronal, ou a fila (dos interessados na vaga) anda (para admissão na empresa). Neste mesmo pacote (saco dos tempos mais antigos e vazio de direitos), ainda tem a famigerada aposentadoria: a partir de novembro deste ano, muitos trabalhadores velhos e cansados estarão (obrigatoriamente) na ativa (sem o merecido descanso da aposentadoria), até a morte, literalmente. Como se não bastasse, no nosso Brasil, alguém que age como se sentisse deus do trabalho, com o apoio de outro que se acha deus da agricultura, resolveu alterar a definição conceitual de trabalho escravo, para aliviar as penas de quem não tem pena dos trabalhadores em condição de escravidão. Dizem que a alteração da lei atende à dita bancada ruralista, que está por bancar a permanência de (mais) um pau de galinheiro, no coliseu. Daqui a pouco, os deuses do olimpo devem julgar (verbo que tem sido mais força de expressão) se o Brasil vai mesmo retroceder no tempo, lá pelo século XVI. Se isso, de fato, acontecer, vamos reviver os tempos que antecederam as leis do ventre livre e dos sexagenários, até chegarmos, mais uma vez, à abolição, em meio a todo aquele cenário de violência e desrespeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, previstos na Constituição (ignorada por tantos): “Art. 5º. Todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Se quiser saber mais a respeito disso tudo, se informe (ou não), leia e reflita além do que escrevem nas redes sociais – antes tarde que mais tarde. Tem mais – muito mais. A tetravó da minha avó se sentiria cada vez mais em casa, se vivesse o que estamos vivendo. Todo mundo sabe que, por arrastados e silenciosos séculos, a humanidade (ou parte dela) caminhou, sob o jugo do dedo em riste da igreja católica apostólica romana. Isso até não faz tanto tempo assim – os conservadores da igreja continuam crendo numa ressurreição cada vez mais próxima. Hoje, apodrecidas as viseiras, depois de tanto tempo, se sabe que a inquisição – que de santa não tinha p%*&@ alguma – era apenas a ponta do monstruoso iceberg religioso. A pedofilia continua sendo praticada, sob o manto da fé católica e de seus pregadores (in)fiéis, que teimam em pregar, com o martelo da moral e da ética, que sexo, fora do casamento, é pecado (talvez, por isso, tem tanta gente casando, e praticando sexo casual). Não faz tanto tempo assim, um dos deuses da igreja católica apostólica romana foi ao continente africano, no auge da disseminação da aids, e orientou que ninguém utilizasse preservativo (camisinha). Até esse capítulo da história, sexo era pecado (mortal). “Fé demais não cheira bem”. Mas tem pior que isso. Sempre tem. “Não há mal que não possa piorar” – não é mesmo?… Pois bem, há algumas décadas, testemunhamos o surgimento e o poder de domínio de uma outra igreja universal: Mãos ao alto (aleluia!), entregue todo dinheiro que tem, fale que eu te escuto, e você enriquece neste paraíso (fiscal), bem longe do céu. Neste quesito religioso, prefiro abster-me, vossa excelência (e os deuses do olimpo empatando jogos). Aos poucos, o que parecia ser (somente) mais uma igreja tornou-se um monstro feito de ouro, garimpado na mais pura miséria humana. Já no primeiro tempo, um dos deuses chutou uma imagem santificada pela humildade que ainda deseja crer. Era apenas o começo – novamente, eis que surgia outra ponta de iceberg (dessa vez, desconhecido). E a igreja, que nasceu dizendo-se universal, foi dominando o mundo – não o universo -, se instalando em comunidades ignoradas, esquecidas pela humanidade. E esse universo foi se sentindo poderoso, como nunca havia se sentido. A igreja, sempre oportunista, aproveitou para universalizar a tese do crime do sexo. Hoje, parte da humanidade retrocede, seguindo a boiada, e, mais que pecado, considera crime, sexo até nas manifestações artísticas. Não é à toa que, só no Brasil, a “bancada evangélica” tem eleito pastores e fiéis a tantos cargos político-partidários. Por isso, no Congresso, as pautas voltam sempre a girar em torno de “crime do aborto, em quaisquer circunstâncias”, “redução da maioridade penal”, “estatuto do armamento”, e até pena de morte, proposta que, quando menos se espera, volta à baila, num discurso inflamado, “em defesa dos homens de bem”. Tudo isso acontecendo em Brasília, no coliseu em ruínas, e o povo, distraído, consumindo por impulso, fofocando no whatsapp, ateando fogo e disparando armas em escolas, curtindo fotos de bichos engraçadinhos e participando de masturbações pseudointelectuais coletivas, no facebook, ejaculando em ônibus, no metrô, etc e tal. Ainda há os fiéis dos dramas policialescos e novelescos – não saem da frente da televisão, nem por Ato Institucional (6, 7, ou outro número qualquer). O que se percebe é que todo mundo está se organizando – crime organizado, organização de quadrilha, etc etc etc. Não consigo mais sequer imaginar como estaria a tetravó da minha avó, neste mundo, o qual já não sei se seria o dela, ou de algum homo habilis, ou erectus… São tantos deuses, que o da saúde viu que não podia ficar de fora do retrocesso todo, imposto no Brasil. A concorrência é grande – a cada instante, mais um atraso de vida para os brasileiros. Até quem, no início, aplaudiu com panelas já não tem mais as mãos desocupadas – tenta agarrar o que ainda lhe resta. Pois bem, vamos ao fato: o deus da saúde assinou uma portaria, que entrou em vigor em outubro do ano passado, estabelecendo “inaptidão, por 12 meses, para a doação de sangue, para homens que tenham tido relação sexual com outro homem”. Traduzindo: homossexuais masculinos estão impedidos, há um ano, de doarem sangue, no Brasil. A coisa feia começou a ser julgada no olimpo – daqui a pouco, sai o veredicto. Precisou o deus relator da matéria, no olimpo, esclarecer (que seja definitivamente!) que “orientação sexual não contamina ninguém; preconceito, sim”. Como eu queria ter visto algum deus da anvisa ouvindo isso, coçando a cabeça, para murmurar: “Ah, então tá”… E ainda tem mais e mais – o teste brasileiro de resistência não acaba. Um gestor paulistinha – que diz não ser político, mas continua em cargo político -, depois do extermínio da cracolândia, sem política pública para atender os dependentes químicos invisíveis, tratou logo de lançar uma tal “farinata”, ração feita a partir de alimentos perto de perder a validade. A intenção do gestor paulistinha é distribuir, goela abaixo, a dita ração aos cidadãos em condição de rua e na merenda escolar da rede municipal de São Paulo. Não deu outra: os moradores de rua não têm defesa, mas famílias dos estudantes já começaram a protestar. No “Primeiro Ato Contra Ração Humana na Merenda de Nossos Filhos”, organizado no vão livre do Masp, havia o manifesto: “O ‘gestor’ chama essa ração humana de farinata. Nós, mães, pais e familiares, chamamos aberração”. O dito paulistinha, que diz não ser político, e não é burro, percebendo a indignação de nutricionistas e autoridades do setor de nutrição (inclusive, internacionais), tratou de desdizer o discurso, informando, agora, que “a farinata será complemento alimentar”. Pasmem: a direção da empresa contratada para o servicinho informou que “já existem 50 toneladas do alimento em estoque”. Uma perguntinha não me sai da cabeça: se seres humanos receberão ração, o que comerão os animais do gestor paulistinha?… Alguém explica (desenha) pra ele que “o Direito Humano à Alimentação Adequada tem duas dimensões: o direito de estar livre da fome e o direito à alimentação adequada”?… Por todo o país, há deuses (enrustidos) destilando ressentimento e ira, fechando exposições, cerceando liberdade de expressão, em nome “da moral e dos bons costumes”. E ainda temos de saber da existência de um general do exército, que defende a volta dos que nunca foram: os ditadores. A possibilidade de outra intervenção militar, no nosso pobre Brasil, foi citada, três vezes, pelo general saudosista, que proferiu palestra numa loja maçônica, em Brasília. No meio disso tudo, lembro que, há pouco tempo, Ruth Escobar, a revolucionária das artes cênicas, faleceu. Justamente nesses tempos em que tentam eliminar a memória revolucionária de Ruth Escobar e de tantos outros artistas – como se fosse possível, diante dos fatos históricos que superam decretos. Felizmente, tem muita gente viva, para recontar histórias revolucionárias, onde o nome de Ruth Escobar é guardado sem segredo. Alda Marcantonio, uma das companheiras de luta de Ruth, conta que, no auge da ditadura militar no Brasil, um policial bateu na porta do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, onde estava acontecendo uma reunião de um dos grupos que enfrentava a ditadura. A própria (Ruth Escobar) o atendeu. O policial repetia que tinha ordem judicial para terminar a reunião. Ruth Escobar – sempre revolucionária – não hesitou, e exigiu mandato judicial, documento que, prontamente, o policial apresentou. Era Ruth Escobar – não podia se dar por vencida. De imediato, a artista revolucionária chamou seu gerente do Teatro, entregou-lhe o mandato. O gerente sumiu da porta, levando o documento, enquanto Ruth Escobar continuava interrogando o policial: O senhor tem mandato judicial? O policial repetia: Entreguei à senhora. Era Ruth Escobar que não desistia de enlouquecer o policial, que só queria continuar cumprindo ordens: O senhor tem mandato judicial? Sem papel, o senhor não entra… e fechou a porta, na cara estarrecida do policial. Diante do silêncio imposto pela ditadura militar (tempo em que seres humanos foram torturados e mortos, quando não havia bala perdida), no olho do vulcão do medo brasileiro, Ruth Escobar – tinha de ser ela – trouxe diretores, atores e produtores do mundo inteiro, para participarem do Festival Internacional de Artes Cênicas. Nem todos enxergaram: Ruth Escobar – a eterna revolucionária - denunciou, ao universo das artes, a mordaça, a violência e o medo no Brasil. Tudo isso aconteceu nos anos 60 e 70 – e hoje as mulheres travam guerra para garantirem o direito de amamentar em local público… A ordem dos deuses da vez é mesmo uníssona: “Meia volta, volver!”
Com tudo isso acontecendo, no Brasil e no mundo (ninguém está incólume), não acredito que a tetravó da minha avó continue descansando em paz – nem as gerações depois dela.
Nossa pátria amada Brasil está parecendo barco à deriva. Tem gente que torce para que o casco fure, e o barco afunde logo. Outros jogam água dentro do barco, para que afunde, bem antes de corroer o casco. Os enjoados só reclamam do marulho, das tempestades, da falta de caviar, dos ventos, do sol escaldante, da chuva fria, dos dias, das noites, da vida. Alguns se precipitam para fora do barco, até de olhos fechados. Alguém sonha acordado com anzol, enquanto aves não fazem outra coisa, senão arriscarem voos rasantes, atrás de alimento vivo, que salta nas águas. Há aqueles que só discursam aos ventos, lembrando fatos históricos acontecidos no mesmo barco. Na proa, alguém grita, ninguém entende: “Veja a época. Isto é globo”. Outros nem sabem que velejam sem destino, ou meta traçada, e fazem poesia da paisagem. Alguns ocupantes se identificam como náufragos, e só o que fazem é chorar e sentir pena de si mesmos. Na despensa quase vazia, alguém rouba a cabeça de um bagre desnutrido, e a engole inteira. Os pessimistas fazem qualquer um desistir de uma tentativa sensata para salvar o barco. Há aqueles que agarram lata vazia, colocam-na na cabeça, e se denominam reis, e chegam brigar entre eles. Aos poucos, um pequeno grupo se reúne, próximo da popa, debate sobre a realidade em que vive, e fica deprimido. Perto dali, meia dúzia batuca e canta marchinhas de carnaval, para alegrar a população, por pouco tempo. Logo, um líder evangélico corta as asas da alegria, e o barco escurece em depressão. Hipocondríacos encontram e distribuem antidepressivos – conformismo geral. Outros procuram óleo de peroba, para fazerem brilhar a embarcação. Poucos ainda perscrutam bússola, sinalizadores, salva-vidas, até leme de vento, e tentam se equilibrar, entre proa e popa, bombordo e estibordo. Alguns permanecem escorados, nas anteparas, sem se importarem com solavancos. O que todo mundo quer mesmo é ser o timoneiro do barco, que segue sem rumo – às vezes, sacode tanto, que parece virar, antes mesmo da próxima onda. Tem quem passe mal. Tem quem passe bem. Tem quem queira passe livre. De repente, um dos incautos, com uma caixa de fósforos na mão e um punhado de fé, pergunta: alguém viu a vela desse barco?...
Alvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) - 1917
Fora tu, reles esnobe, plebeu, fora tu, imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade, banalidade em caracteres gregos, sopa salgada fria, fora com tudo isso, fora! Que fazes tu na celebridade? Quem és tu? Tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro, todos os outros, lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual, incompetentes, barris de lixo virados para baixo. Tirem isso tudo da minha frente, tudo daqui para fora. Ultimatum a todos eles e a todos os outros que sejam como eles. Todos!
Falência geral de tudo por causa de todos. Falência dos povos e dos destinos, desfile das nações para o meu desprezo. Passai gigantes de formigueiro. Passai mistos que só cantai a debilidade. Passai bolor do novo, passai à esquerda do meu desdém. Passai e não volteis, párias na ambição de parecer grande.
Passai finas sensibilidades, montes de tijolos com pretensões a casa. Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomania triunfante, voz que confundis o humano com o popular, que confundis tudo, chocalhos incompletos, maravalhas, passai!
Passai tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Vem tu finalmente ao meu asco, roça-te finalmente contra a sola do meu desdém. 'Grand finale' dos parvos, impotência a fazer barulho. Quem acredita neles?
Descasquetem o rebanho inteiro, mandem isso tudo para casa, descascar batatas simbólicas. O mundo tem sede de que se crie, tem fome de futuro.
Tu, Estados Unidos da América, síntese bastardia da Baixa Europa, alho da sorda transatlântica pronúncia nasal do modernismo inistético. E tu, Portugal, centavos, resto da monarquia a apodrecer república. E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir. Ponham-me um pano por cima de tudo isso, fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
A política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência. Sufoco de ter só isso à minha volta. Deixem-me respirar! Abram todas as janelas, abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão. Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações a reis lacaios.
Sim, todos vós que representais o mundo, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, passai vozes ambiciosas do luxo cotidiano, aristocrata de tanga de ouro. Passai vós que sois autores de correntes sociais, de correntes literárias, de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar.
Passai, frouxos! Passai, radicais do pouco! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer o poeta que busque a imortalidade ardentemente e não se importe com a fama. Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que é apenas a derrota dos outros.
O mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar. Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um mundo novo. Ergo-me ante o sol que desce e, à sombra do meu desprezo, anoitece em vós, e proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito.
És mãe – o mundo já não te enxerga mais, por que te tornaste invisível, diante de tamanha luz que rompe a estrada da maternidade. Todo mundo vê teu filho – lindo, gracioso, com saúde. E tu te tornas coadjuvante feliz, numa peça que existe, por que tu escolheste construí-la.
És mãe – te desdobras e te multiplicas em tantas quantas necessárias, para atenderes teu rebento. Estás feliz – teus olhos brilham. Não há dor e prazer maiores que este que sentes agora, e continuarás sentindo, sempre, sempre…
És mãe – te alimentas, no momento que consegues, cuida de ti, quando o pequeno adormece. E não haverá – jamais – sentido maior à tua vida, que já não pulsa só em teu corpo que se desnutre e emagrece.
És mãe – amamentas a vida que, enquanto se desenvolve, de mãos dadas com o tempo e a natureza, te envolve na essência do amor. Teus olhos, teus ouvidos, teus sentidos todos aguçam, a cada novo dia – primeiro sorriso, primeira palavra, primeiros passos, primeiro abraço. E não há alegria que te faça mais emocionada e feliz, ao ouvir a voz infantil: “Mamãe”.
És mãe – animal que pensa com o coração, age com a intuição, e sabe sem saber. Já não há espaço vazio, todo ocupado pelas pequenas e grandes emoções, que se multiplicam com os momentos de puro êxtase.
És mãe – ninguém mais enxerga o que só tu vês, e compreendes. Ninguém mais se preocupa tanto em cuidar, proteger, acarinhar e acolher o teu pequeno. Ninguém mais sabe, ou saberá, tanto sobre teu rebento.
És mãe – carregas todas as lágrimas de emoção, com o filho junto ao peito. Sem tradução, segues o destino de todas as mães que sofrem – dor e prazer -, muito além de uma vida inteira.
És mãe – tudo faz sentido, ou até deixa de ter sentido. Não importa. A vida vive, espalha alegria e luz, por onde corre o teu pequeno, com olhinhos curiosos e sorriso largo, diante de tudo tão novo.
És mãe – ninguém sabe o quanto. Só o pequenino, aconchegado ao teu colo, reconhece, no teu olhar de puro amor, o sentido da própria vida que cresce.
És mãe – depois da tua barriga predestinada a crescer, fazes esforços, sacrifícios até, abres concessões. Nada disso é, ou será, reconhecido. Por toda a vida, haverá sempre alguém (único) a te chamar, até em silêncio: Mamãe.
És mãe – e isso é tudo. Não precisas pensar, conjecturar, a respeito. Pelo menos hoje, dia que te homenageiam, descansa...
Primeiro de maio é dia daqueles que bateram mais de um prato de arroz, feijão e bife por dia, por mais de uma década, e também daqueles que bateram panelas, há mais de um ano – todos, trabalhadores brasileiros.
E ainda teve gente que quis acreditar que os trabalhadores não receberiam presente, neste primeiro de maio. Quem dera! O presente chegou bem a tempo, e veio a galope, enviado por aquele descendente libanês (nada a ver com o povo libanês), que resolveu dar, aos trabalhadores brasileiros, um presente grego, bem à moda de Troia mesmo, com direito a coices e relinchos.
O descendente libanês enviou o cavalo grego (puro sangue), à moda brasileira, e a boiada toda do congresso resolveu despachar logo o presente aos trabalhadores, para chegar a tempo desse primeiro de maio. Segurem mais isso, trabalhadores brasileiros:
Negociação
Negociação entre empresas e trabalhadores vai prevalecer sobre a lei para pontos como: parcelamento das férias em até três vezes; jornada de trabalho, com limitação de 12 horas diárias e 220 horas mensais; participação nos lucros e resultados; jornada em deslocamento; intervalo entre jornadas (limite mínimo de 30 minutos); extensão de acordo coletivo após a expiração; entrada no Programa de Seguro Emprego; plano de cargos e salários; banco de horas, garantido o acréscimo de 50% na hora extra; remuneração por produtividade; trabalho remoto; registro de ponto. No entanto, pontos como fundo de garanta, salário-mínimo, 13º salário e férias proporcionais não podem ser objeto de negociação.
Fora da negociação
As negociações entre patrões e empregados não podem tratar de FGTS, 13º salário, seguro-desemprego e salário-família (benefícios previdenciários), remuneração da hora de 50% acima da hora normal, licença-maternidade de 120 dias, aviso prévio proporcional ao tempo de serviço e normas relativas à segurança e saúde do trabalhador.
Trabalho intermitente
Modalidade pela qual os trabalhadores são pagos por período trabalhado. É diferente do trabalho contínuo, que é pago levando em conta 30 dias trabalhados, em forma de salário. O projeto prevê que o trabalhador receba pela jornada ou diária, e, proporcionalmente, com férias, FGTS, previdência e 13º salário.
Fora do trabalho intermitente
Marinho acatou emendas que proíbem a contratação por meio de contrato de trabalho intermitente de aeronautas, que continuarão regidos por lei específica.
Rescisão contratual
O projeto de lei retira a exigência de a homologação da rescisão contratual ser feita em sindicatos. Ela passa a ser feita na própria empresa, na presença dos advogados do empregador e do funcionário – que pode ter assistência do sindicato. Segundo o relator, a medida agiliza o acesso do empregado a benefícios como o saque do FGTS.
Trabalho em casa
Regulamentação de modalidades de trabalho por home office (trabalho em casa), que será acordado previamente com o patrão – inclusive o uso de equipamentos e gastos com energia e internet.
Representação
Representantes dos trabalhadores dentro das empresas não precisam mais ser sindicalizados. Sindicatos continuarão atuando nos acordos e nas convenções coletivas.
Jornada de 12 x 36 horas
O projeto estabelece a possibilidade de jornada de 12 de trabalho com 36 horas de descanso. Segundo o relator, a jornada 12x36 favorece o trabalhador, já que soma 176 horas de trabalho por mês, enquanto a jornada de 44 horas soma 196 horas.
Ações trabalhistas
O trabalhador será obrigado a comparecer às audiências na Justiça do Trabalho e arcar com as custas do processo, caso perca a ação. Hoje, o empregado pode faltar a até três audiências judiciais.
Terceirização
O projeto propõe salvaguardas para o trabalhador terceirizado, como uma quarentena de 18 meses, para impedir que a empresa demita o trabalhador efetivo para recontratá-lo como terceirizado.
Contribuição sindical
A proposta torna a contribuição sindical optativa. Atualmente, o pagamento é obrigatório para empregados sindicalizados ou não. O pagamento é feito uma vez ao ano, por meio do desconto equivalente a um dia de salário do trabalhador.
Sucessão empresarial
O projeto prevê que, no caso em que uma empresa adquire outra, as obrigações trabalhistas passam a ser de responsabilidade da empresa sucessora.
Ambiente insalubre
Marinho acatou emenda sugerida pela deputada Laura Carneiro (PMDB-RJ), que determina o afastamento de mulheres grávidas de ambientes considerados insalubres em grau máximo. Nas atividades insalubres, em graus médio e leve, o afastamento depende de atestado de médico de confiança da trabalhadora que recomende o afastamento durante a gestação.
Justiça do Trabalho
O projeto torna mais rigorosos os pressupostos para uma ação trabalhista, limita o poder de tribunais de interpretarem a lei, e onera o empregado que ingressar com ação por má fé. Em caso de criação e alteração de súmulas nos tribunais, por exemplo, passa a ser exigida a aprovação de ao menos dois terços dos ministros do Tribunal Superior do Trabalho. Além disso, a matéria tem que ter sido decidida de forma idêntica por unanimidade em pelo menos dois terços das turmas, em pelo menos dez sessões diferentes.
Regime parcial
O parecer do relator estabelece que trabalho em regime de tempo parcial é de até 30 horas semanais, sem a possibilidade de horas suplementares por semana, ou de 26 horas por semana – neste caso com a possibilidade de 6 horas extras semanais. As horas extras serão pagas com o acréscimo de 50% sobre o salário-hora normal. Atualmente, trabalho em regime de tempo parcial é aquele que tem duração máxima de 25 horas semanais e a hora extra é vedada.
Multa
Na proposta original, apresentada pelo governo, a multa para empregador que mantém empregado não registrado era de R$ 6 mil por empregado, valor que caía para R$ 1 mil para microempresas ou empresa de pequeno porte. Em seu parecer, porém, Rogério Marinho reduziu o valor da multa, respectivamente, para R$ 3 mil e R$ 800. Atualmente, a empresa está sujeita a multa de um salário-mínimo regional, por empregado não registrado, acrescido de igual valor em cada reincidência.
Recontratação
O texto modifica o substitutivo anterior para proibir uma empresa de recontratar, como terceirizado, o serviço de empregado demitido por essa mesma empresa. Modifica a Lei 6.019/74.
Tempo de deslocamento
O tempo despendido pelo empregado até o local de trabalho e para o seu retorno, por qualquer meio de transporte, não será computado na jornada de trabalho. A CLT, hoje, contabiliza como jornada de trabalho deslocamento fornecido pelo empregador para locais de difícil acesso ou não servido por transporte público. Segundo Rogério Marinho, o dispositivo atual desestimula o empregador a fornecer transporte para seus funcionários.
Acordos individuais
Os trabalhadores poderão fazer acordos individuais sobre parcelamento de férias, banco de horas, jornada de trabalho e jornada em escala (12x36).
Banco de horas
A lei atual permite o banco de horas: a compensação do excesso de horas em um dia de trabalho possa ser compensado em outro dia, desde que não exceda, no período máximo de um ano, à soma das jornadas semanais de trabalho previstas, nem seja ultrapassado o limite máximo de dez horas diárias. O substitutivo permite que o banco de horas seja pactuado por acordo individual escrito, desde que a compensação se realize no mesmo mês.
Trabalhador que ganha mais
Relações contratuais firmadas entre empregador e empregado portador de diploma de nível superior, e que receba salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social, prevalecem sobre o que está escrito na CLT.
Demissão
O substitutivo considera justa causa, para rescisão do contrato de trabalho pelo empregador, a perda da habilitação, ou dos requisitos estabelecidos em lei, para o exercício da profissão, pelo empregado. Rogério Marinho acatou emenda que condiciona essa demissão “caso haja dolo na conduta do empregado”.
Custas processuais
Nos dissídios individuais e nos dissídios coletivos do trabalho, nas ações e procedimentos de competência da Justiça do Trabalho, bem como nas demandas propostas perante à Justiça Estadual, no exercício da jurisdição trabalhista, as custas relativas ao processo terão valor máximo de quatro vezes o teto dos benefícios do Regime Geral da Previdência Social, que em valores atuais corresponde a R$ 22.125,24.
Justiça gratuita
O projeto permite, aos juízes, órgãos julgadores e presidentes dos tribunais do trabalho de qualquer instância, conceder o benefício da justiça gratuita a todos os trabalhadores que perceberem salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social. A proposta anterior estabelecia limite de 30%.
Tempo de trabalho
O substitutivo altera o artigo 4º da CLT, para desconsiderar como extra da jornada de trabalho, atividades particulares que o trabalhador realiza no âmbito da empresa, como: descanso, estudo, alimentação, atividade social de interação entre colegas, higiene pessoal e troca de uniforme.
Jornada excedente
Hoje, a CLT permite que a jornada de trabalho exceda o limite legal (8 horas diárias e 44 semanais), ou convencionado, se ocorrer necessidade imperiosa. A duração excedente pode ser feita, se o empregador comunicar a necessidade à autoridade competente, dez dias antes. O projeto acaba com essa obrigação.
(Se você, trabalhador, leu tudo isso, não entendeu p#&%@ nenhuma, nem sequer imaginou os prejuízos que sofrerá, a partir de agora, sorria, pois você alcançou o objetivo do descendente libanês, que ainda tem 4% de aprovação, pelo Brasil – certamente, outro malabarismo presidencial.)
“Ser ajustado a uma sociedade profundamente doente não é sinal de saúde”. - Jiddu Krishnamurti
Tem muita gente que demonstra realmente não saber o que fazer. Às vezes, assusta o que muita gente decide fazer. Escolha é algo complicado: a gente faz, a vida inteira, e sempre respinga nos outros – perto, ou longe. Sempre repito que onde há dúvida, há esperança. As certezas são, sempre, tão pesadas, que acabam mesmo sufocando qualquer outra escolha.
Houve um tempo em que muita gente sinalizava referências – de humanidade, vida, ética, saúde, estudo, solidariedade, e tantos outros valores. O tempo passou – implacável. Penso que estamos vivendo um tempo de derrubadas de conceitos. Até aí – se tivesse parado por aí -, tudo certo. Pena que os preconceitos estejam sendo fortalecidos, e ocupando todos os espaços vagos. Ainda não estamos - a maioria de nós - adaptados aos novos tipos de vida. Avançamos na tecnologia, na ciência, mas agimos com mais violência do que os nossos antepassados, quando a vida nos apresenta formas diferentes de viver. Tanto é real, que vemos muita gente, com tablet, smartphone, repudiando uniões homoafetivas, e/ou o fato de que crianças, com alguma deficiência, frequentem salas de aula, onde os demais alunos são considerados “normais”(?) – afinal, são maioria.
Nas ruas, motoristas embriagados atropelam e matam números de vítimas de uma crescente estatística de acidentes. Pelas vias públicas, também, pessoas da zona sul e da favela lincham pessoas da favela e da zona sul. E ainda tem os ‘milicianos’, os ‘justiceiros’, os (de)formadores de opinião, na tv. O motorista bêbado atropela a criança, na calçada. Os transeuntes lincham o motorista bêbado. A polícia bate nos linchadores. Os moradores da área, em protesto à ação policial, ateiam fogo nos ônibus. Enquanto tudo isso acontece, no programa policialesco da televisão, o apresentador defende a pena de morte.
Vivemos numa sociedade, onde a maioria das pessoas não quer saber de desafios, ou qualquer coisa que remeta a isso. O que todo mundo quer é parecer super herói. Por isso, penso eu, se proliferam tantos jovens que arriscam a própria vida, 'brincando' de jogo da asfixia, roleta russa, ou fazendo piruetas, nas alturas, sem qualquer equipamento de proteção. Na minha visão estrábica, os que fazem isso não são mais que suicidas exibicionistas - prova é que acabam postando vídeos e fotos, nas redes sociais, com essas baboseiras. Enquanto isso, os reais desafios continuam sendo negados, deixados de lado. Às vezes, um grande desafio é feito tão interna, intimamente, que acaba nem sendo divulgado, e até reconhecido. Na minha desimportante opinião, desafio mesmo não é você colocar a vida em risco. Pelo contrário, desafio é você lutar pela preservação da sua vida, com compromisso, por uma vida melhor, mais responsável. Mas, em tempo de aparências, quem quer saber de estar em paz consigo mesmo?... O que vale, numa sociedade sem valores, é o status: “comprar coisas que você não quer, com o dinheiro que você não tem, a fim de mostrar, para gente que você não gosta, uma pessoa que você não é”.
De repente, prender o ar por mais tempo, em rede social, e/ou pendurar-se em cabo de aço, no mais alto edifício, é considerado mais desafiador, neste mundo de imagens, do que, por exemplo, reconhecer os próprios erros e acertos, diante do outro, ou de si mesmo. Quem arrisca nas alturas pode, no máximo, morrer; quem reconhece os próprios erros, arrisca tantas coisas - não ser bem interpretado, compreendido, perdoado, aceito, etc. Cometemos o que achamos ser grandes atos, para que grandes holofotes nos tornem os grandes seres que desejamos ser para os outros, no momento. Mudarmos nossas atitudes, para o amadurecimento, pressupõe muito trabalho, muito mais que nos pendurarmos, por alguns segundos, lá no alto, seja como for. Até por que amadurecimento de personalidade não vira vídeo, ou foto, na internet. E o que a maioria quer mesmo é ser vista, e passar, dias e noites, comemorando o número de visualizações, enquanto está no pronto socorro, engessando uma perna, um braço, ocupando lugar na fila dos desesperados. Na pior das hipóteses, alguns alcançam a fama esperada, mas não podem comemorar – morreram no que consideravam desafio.
… E ainda tem gente que acredita que, nesse ano de 2017, tudo isso vai mudar, de uma hora pra outra, sem toque de mágica, simplesmente por ser ano novo… O que resta fazer?… nem arrisco perguntar isso
Vivemos tempos estranhos, apesar de a maioria nem refletir sobre isso. Dia desses, num encontro com uma professora de língua portuguesa, perguntei a ela se estava mais fácil ensinar conjugação verbal aos estudantes. Ela respondeu, rapidamente, que não via diferença, e me perguntou o porquê da pergunta. Eu disse a ela que, na realidade atual, só temos conjugado, nas nossas relações, a primeira e a terceira pessoas do plural – eu, tu, ele, vós já não cabem mais nas conversas, principalmente, nas redes sociais.
Hoje, nessa realidade tão banal e descartável, nos tornamos 'nós' e 'eles'. Se não somos nós – somos eles. Nós fazemos vultosas doações, abatidas no imposto de renda – eles querem consumir o que não foi feito para eles. Nós somos os bons, os mocinhos – eles são os maus, os bandidos. Nós, as vítimas – eles, os carrascos. Nós, os éticos – eles, os corruptos. Nós moramos no alto dos prédios da zona sul – eles ocupam áreas de preservação ambiental, no alto dos morros da favela. Nós, os certos – eles, os errados. Nós protegemos os animais e o meio ambiente – eles humilham e até matam aqueles que desfrutam a liberdade de serem quem são, entre quatro paredes. Nós pagamos muito bem as escolas particulares dos nossos filhos – eles reclamam da escola gratuita dos filhos. Nós, os verdadeiros – eles, os hipócritas. Nós defendemos o armamento da sociedade – eles roubam armas e matam. Nós somos contra o aborto – eles maltratam e violentam as crianças, os adolescentes. Nós gastamos muito dinheiro, em shoppings – eles apavoram, nos shoppings, quando fazem “rolezinho”. Nós somos cautelosos – eles são covardes. Nós somos brancos – eles são morenos, quase pretos. Nós queremos pena de morte, enquanto eles superlotam as prisões brasileiras. Nós refletimos, para, depois, fazermos comentários nas redes sociais – eles criam boatos e intrigas, ofendem, nas (mesmas) redes sociais. Nós fazemos dietas – eles jogam comida no lixo. Nós bebemos, dirigimos, mas nos cuidamos – eles bebem e atropelam, matam. Nós não queremos saber de política – eles continuam votando nos que fazem a pior política. Nós somos todos heterossexuais performáticos – eles são todos pedófilos, estupradores, “viados” e “sapatonas” sem vergonha. Nós pagamos mal pessoas incapacitadas para cuidarem dos nossos filhos – eles abandonam os filhos, em latas de lixo. Nós mandamos matar desafetos – eles matam quem não conhecem, a troco de 50 reais. Nós vamos à missa, todos os domingos – eles pecam, a semana inteira. Nós somos enganados, quando compramos produtos de receptadores – eles assaltam e roubam. Nós, seres humanos que somos, matamos, em nome do nosso 'deus' – eles matam, sem fé alguma, os seres humanos. Nós exercitamos o senso criativo – eles mentem. Nós pensamos, primeiro, em nós mesmos – eles só pensam neles mesmos. Nós perdoamos, mas não esquecemos, e até nos vingamos – eles não perdoam. Nós participamos de campanhas contra a violência contra a mulher – eles espancam, e ameaçam as mulheres. Nós não temos preconceito – eles são contra os diferentes (deles). Nós enxergamos, sempre, o bem – eles só praticam o mal. Nós 'furamos' filas, por que estamos com pressa – eles não respeitam filas. Nós reclamamos dos impostos sobre produtos importados – eles exportam mão de obra barata. Nós compramos todos os tipos de drogas dos traficantes – eles, os criminosos, vendem as drogas. Nós somos imparciais, e só noticiamos a verdade absoluta – eles são tendenciosos e cheios de más interpretações e intenções. Nós oferecemos desconto, nos produtos superfaturados – eles superfaturam os preços dos produtos.
De repente, o caldo entorna, e nós nos tornamos eles – para eles, obviamente. Às vezes, somos maioria – não demora, somos minoria. Equação duvidosa. E eu continuo sem entender esses muros (invisíveis e sólidos) erguidos a qualquer momento, em qualquer lugar...
Eu gosto mesmo de uma fila – quanto maior, melhor. Fila é um dos raros momentos em que todo mundo se iguala, mesmo não querendo se igualar, mesmo permanecendo tão diferente: patrão, empregado, desempregado, dona de casa alugada, “office boy” estressado, monge estagiário, homofóbico, ateu, aquele mundaréu de gente sem identificação, desinteressada e desinteressante. Ninguém se importa com ninguém. Todos, sem exceção, se importam mesmo, quando acontece de a atendente informar: O sistema saiu do ar. Aí, não tem jeito mesmo: a fila dos burburinhos se transforma, imediatamente, na fila dos gritos e palavrões. É afrodescendentezinho (pra não ferir com 'neguinho' mesmo) esbravejando pra todo lado. De repente, aparece um segurança – e a fila segue, silenciosa, forçosamente parada em minutos que levam uma eternidade.
Eu gosto de filas – mais ainda, eu gosto de ficar, e aprender a esperar, em filas. Há filas intermináveis, e filas que acabam de surpresa. Filas que não andam, e filas que parecem maratona.
Nas filas, a maioria está sempre com pressa. Eu escolho entrar em filas, quando tenho todo o tempo do mundo. E ainda me divirto. Observo – é curso humano intensivo, sempre, sem reprise. Nas filas, não faltam aqueles que reclamam da quilometragem. E nunca se vê gente elogiando fila, manifestando prazer, por estar em pé, aguardando atendimento. Até quando há bancos e cadeiras, ninguém esquece que está mesmo numa fila: o enfileirado se ajeita de um lado, de outro, olha para o relógio, cronometrando até os segundos. Não adianta: é fila. Nunca vi essa gente toda conectada fazendo “selfie” em fila de agência bancária, ou lotérica. Alguns ainda se fotografam, sorridentes, em filas de aeroporto – antes de saberem do atraso, ou cancelamento, do avião, claro.
Nos mais variados locais públicos, que aglomeram filas quilométricas, o que não falta mesmo é cartaz: “estamos trabalhando por você, cliente, reduzindo as filas”. Mas, na realidade, o que reduz mesmo é o número de caixas atendentes. Por isso, nem sempre aumenta a população em fila – o atendimento acaba cada vez mais concentrado. O que sempre foi um conjunto de seis filas acaba se tornando uma fila, seis vezes maior, enfurecendo a maioria dos clientes.
Nessa realidade intolerante em que vivemos, sem olharmos para os lados, sem tempo para pensar, as filas prevalecem no sistema: filas, unidas, jamais serão vencidas. E, assim, seguimos – clientes disciplinados -, de fila em fila, de reclamação em reclamação, de pressa em pressa, de raiva em raiva, de stress em stress, de egoísmo em egoísmo. O mais estranho é que a fila – sempre coletiva – é um dos locais mais individualizados da sociedade. Nem ferida exposta passa na frente. O enfileirado pode estar atrasado para o enterro do tataravô – sem discussão: se é o 58º colocado no ranking, só será atendido depois dos 57 ansiosos, à frente dele. Mas sempre tem pior. Há aqueles que, sem qualquer vergonha, com mania de “office boy”, resolve carregar uma 'pastinha', fila afora. Quando chega na frente do caixa bancário, o milagre acontece: faturas e mais faturas se multiplicam, num passe de mágica, semelhantes, não a pombos, a penas que esvoaçam no balcão. Nos demorados minutos seguintes, a fila entorta, os enfileirados reclamam – alguns lembram até palavras deixadas de lado, em tantas filas: solidariedade, empatia, compaixão.
Mas, apesar de, e com tudo isso, eu gosto de uma fila, onde a gente encontra mais diversidade do que na feira. Em todas as filas – a da padaria do Seu Manoel, ou a do Banco dos maiores investidores -, sempre há os que reclamam do tempo de espera, do que ainda têm por fazer. E não faltam aqueles que dão aulas de economia, culpam os governos. Têm os que fazem da fila, divã – tantas histórias de vida contadas para enfileirados que não prestam a mínima atenção.
Tem gente que resolve lanchar, em plena fila estática e estressada. Comem de tudo, por ali, um atrás do outro: balas, pastel de feira, chicletes, chocolates, salgadinhos, e até marmita. E engolem medicamentos, a seco. Atendem e fazem ligações, nos mais variados modelos de celulares. Fazem crochê, tricô, e raramente alguém lê um livro. As filas de banheiros públicos são sempre as mais movimentadas. Alguns circulam, ensimesmados, em passos curtos e leves. Outros chegam bater à porta: “Vai demorar muito?”
Nas filas, você escuta de tudo: “Justamente hoje, que tenho tanto por fazer, essa fila não anda”. “Vou reclamar no Procon”. “Tem espaço vago, ali na frente. Vamos apertar, pessoal”. “Tomara que a fila do jogo da mega sena esteja menor”. “Pode segurar o meu lugar? Preciso ir ao banheiro, com urgência”. “Que bicha que não se mexe”! “Não tem quem aguente tantas filas. Por isso, faço tratamento para o sistema nervoso”. “Dois, quatro, seis… são 38, na minha frente”. “Tenho cabelos brancos, mas não sou idoso”. “Tem gente tentando furar a fila”. “Pode reparar, a fila do lado anda depressa”. “Desisto. Volto amanhã. Fui”.
Mas bolo sem a única cereja em cima não é bolo. O auge de uma fila (de liquidação, principalmente) chega, quando a funcionária (até então, invisível, no meio da multidão afoita) avisa, timidamente: “Encerramos nosso atendimento, por hoje, mas, amanhã cedo, esperamos todos vocês”. É o fim.
Realmente, Elke maravilhava, por onde passava. Nosso cometa da liberdade partiu, nessa madrugada. Alguns não tiveram “olhos para ver”, e riram, sem pensar, do jeito que Elke falava, se vestia, se maquiava. Mas Elke Maravilha era mais, muito mais – a pisciana Elke Georgievna Grunupp (“brasileiríssima”, nascida na Rússia) era intensa, profunda, inteligente (dominava nove idiomas: alemão, russo, italiano, espanhol, francês, inglês, grego, latim e português), livre, apaixonada e apaixonante. Por onde passava – na televisão, nas calçadas, nas praças – causava alegria e antipatia imediatas.
Em mim, Elke sempre foi Maravilha. Quando menina, eu me encantava com a imagem irreverente de Elke – e eu ainda nem sabia o que era liberdade. Em entrevista, Elke contou como tornou-se quem ela era: “Um dia (por volta dos 18 anos), eu acordei de manhã, fui no meu armário, e vi que só usava preto. Eu pensei: Nada disso. Peguei uma calça e rasguei toda, botei uma meia roxa, enchi a cara de batom, desgrenhei o cabelo e fui para a rua. Levei porrada. É difícil ser a primeira, a ousar, a usar esse visual”. Provavelmente, Elke soubesse que não era o visual que aterrorizava, mas a liberdade que continha, nas atitudes dela. Até hoje, a maioria, que segue a boiada, teme o desconhecido, justamente por que aponta o caminho da liberdade.
Nosso cometa da liberdade partiu, e deixou o que muitos (maioria) não querem pensar: “O mundo não tá careta, o mundo tá muito ignorante. E a ignorância é mãe e irmã do preconceito. (…) Sou contra bandeiras, sou a favor de boas maneiras. (…) Solidão é invenção de gente que quer chamar atenção. Tenho muitos momentos de solitude, solidão, não. Cada um dos mais de sete bilhões de habitantes desse mundo é parte de mim. Sou impregnada de mundo. (…) Amo gente e gosto sempre de estar cercada por amigos. (…) Eu não sou de direita, nem de esquerda, talvez eu seja de banda. Porque eu não acredito, nunca acreditei em ideal fora do coração. Eu só acredito em ideal no coração. (…) O poder não corrompe, revela. (…) Sou movida pela paixão. (…) A mentira é o que mais me revolta. (…) Atualmente, não assusto mais, mas tem gente que acha que sou travesti. (…) Sempre fui assim. Não sei ser de outro jeito. Tudo na minha vida, na minha carreira, foi acontecendo. Não escolhi nada, fui escolhida. Não programei nada, e até hoje ainda não sei o que quero ser quando crescer. (…) Não tenho problemas em ficar velha, mas, ultrapassada, nunca. (…) Ser livre é um trabalho de muitas gerações, não incomoda absolutamente. Mas nós não estamos prontos para isso. A gente tem liberdade de escolher a prisão que a gente quer ficar. Tem gente que é até escravo da liberdade: procura tanto a liberdade, que fica escravo dela. (…) Fiz três abortos. Sempre soube que não tinha talento para isso, que não saberia educar uma criança. Parir é fácil, mas educar é difícil. Setenta por cento das mulheres que têm filhos não deviam. Sou completamente consciente do passo que posso dar. Eu nunca quis segurar homem. Sempre disse: 'Quer ter filhos? Vai ter com outra'. Não estou aqui para interferir no carma de ninguém. (…) Eu sou uma vira-lata. Minha mãe era alemã, meu pai era russo, minha avó mongol, meu avô era mestiço de viking com azerbaijano. (…) Nós todos não temos definição. Somos tudo, somos santos e demônios, somos bonitos, somos feios, somos grandes, somos minhocas. (…) Querem que eu faça uma biografia. Biografia é pra gente que modificou o mundo. (…) A morte está mais próxima (risos). Já fui jovem, de meia-idade e sou velha. Vivi cada coisa no tempo da mãe natureza. Meu pai me dizia: 'Minha filha, aprende com a mãe natureza'. E ela nos ensina tudo mesmo. (...) Estou pronta para morrer. Me preparo todos os dias para isso. A morte é amiga, gente.(…) O melhor da vida não é viver, é conviver. (…) A vida tem que ter magia. (...) Olhar para trás, nunca. Cruz credo. Sinto saudades do futuro. (…) Crianças, conviver é o grande barato da vida. Aproveitem e convivam.”
Nosso cometa da liberdade partiu – como Elke dizia: foi “brincar de outra coisa”...
Não esqueça que correntes e cadeados – de metal barato, ou de ouro, cravado com diamantes – serão sempre correntes e cadeados que aprisionam. Surpresas são sempre surpresas – boas, ou ruins. Existe vida, além do umbigo. Ninguém cursa Ciências Contábeis, com a expectativa de, no final do curso, formar-se em Robótica. Remédio e veneno – amargo, ou doce – são sempre remédio e veneno. Sem julgamento, não há criminoso. O outro, seja quem for, também carrega desejos e medos. Você pode até se descabelar, mas farmácia não vende bife – mesmo. Alguns são a favor; outros, contrários – e ainda há os que se agarram em cima do muro. Amor dá trabalho – e, às vezes, até filhos. Não adianta plantar uma muda de laranjeira, e querer colher tamarindo. Não espere errar, para aprender. Você pode xingar, espernear, não adianta: as escolhas da sua vida são suas, só suas – as consequências, também. Jiló é mesmo com 'J' – com 'G', a palavra fica amarga, indigesta. Não deposite os seus sonhos em relicário de promessas alheias. Se foi “Deus” quem salvou a sua vida, quem permitiu que o outro morresse? Você tem de aprender – “antes tarde que mais tarde” – que até o passado muda, conforme o desejo das nossas lembranças. A vida não é completamente má, nem boa – a vida é sua. Às vezes, o outro pode ser espelho que reflete o que você se recusa refletir. Toda “selfie” é uma tampa. Silêncios podem existir, para não falarem mais nada - mesmo. Não existem pessoas insensíveis – martelada no dedo, todo mundo sente. Não reze, pedindo o que você nem sabe. Expectativas sempre caminham de mãos dadas com frustrações e decepções. A chave de casa não abre todas as portas. Quem renuncia à vida – já não vive mais. Relação entre duas pessoas se constrói em duas vias – se não for isso, é qualquer outra coisa mesmo. Até quem envelhece tem outra opção (morte). Você pode continuar falando, falando – poucos vão querer ouvir, e todos só saberão interpretar a sua fala. Nem o cachorro é responsável pelo seu mau humor. Papai Noel não existe – nem renas voam. Não são só os outros que morrem – não são só os outros que matam. Para dar opinião – necessário ter opinião. Por mais que a ciência continue nos vendendo produtos que esticam a pele, clareiam olheiras, levantam pele e músculos cansados pelo tempo, a natureza – impassível – continuará impondo o 'veredicto'. Só a boiada dócil se curva, diante da cangalha. A vida – real e dolorida – não é rede social, e a dor persiste, à revelia de todas as fugas humanas. Se você diz 'sim', quando deseja dizer 'não' – você deixa de existir, só ocupa espaço mesmo. Você precisa saber, de uma vez por todas, que, quando alguém pergunta – Tudo bem? -, não quer ter outra resposta, senão um ligeiro: Tudo bem. Estar do lado de alguém que te faz bem não tem hora, nem preço. Nem sempre, remédio é o remédio. A atendente da loja não se apaixona por você – não é amor à primeira vista -, quando ela exibe todas as roupas da loja ao seu consumismo desenfreado. Tem gente que vive feito porcos e frangos: a caminho do abate, sem pensar. O pão com manteiga vai sempre cair com a manteiga colada no chão – não tem jeito. Quando projetamos a vida, ou persistimos reviver o passado – está faltando um presente que nos surpreenda, nos extasie. Você pode até insistir que a clara do ovo é escura – continuará sendo branca, até mais clara. O que o outro, também, mais quer é que você mude, para que vocês sejam (in)felizes para sempre. Não troque ideias – alguém sai sempre perdendo. Você pode até se achar o melhor de todos – e se perder nessa vaidade -, mas haverá sempre alguém, entre todos, que mostrará que não. A vida acontece, aqui e agora – sem ensaio, sem sono fora de hora. Não se compare a ninguém – nem a Jesus -, e trate de pensar e agir por si mesmo. Coisas são coisas; seres humanos são seres humanos – principalmente, quando não parecem ser. Às vezes, o gramado do vizinho é sintético. Quem procura alguém para lhe preencher os vazios, acaba encontrando quem lhe encha o saco. De repente, pessoas assustam mais que baratas.
Agora, levanta logo daí. Se papai e mamãe não advertiram, agora, você já não pode mais justificar que não sabe. A vida é (só) isso – e ainda acaba.
Justamente na véspera dos 128 anos da abolição da escravatura, a democracia brasileira, depois de levar chibatadas, presa ao tronco, agoniza. Lá fora, milhões de brasileiros sofrem, ao ouvir o inesquecível tropel da ditadura, que retorna, não mais em cima de equinos, mas com seres bípedes fascistas e psicopatas. O passado volta, com mais força e ódio. Mesmo assim, muitos tapam os ouvidos, e ligam a televisão aberta, cheia de novelas e programas policialescos.
Se a esquerda errou, erramos todos nós – na esquerda, na direita, em cima do muro, no “muito antes, pelo contrário”. Errou, quem ficou só apontando as tentativas de acerto, do governo Dilma, que resultaram em erros. Errou, quem preferiu fechar portas e janelas, e só assistir as novelas globais, o programa policialesco de uma televisão evangélica. Errou, o governo Dilma, que se distanciou do povo (maioria que o elegeu) e dos grupos de esquerda, imaginando (quem sabe?) fazer todas as mudanças – políticas, econômicas, sociais -, sem se estressar em debates, para não causar atraso nas metas.
Meu pai sempre me fez acreditar que, em tudo, existe o lado bom da história: “é preciso ter olhos, para enxergar”. Por isso, penso – eu, que penso tão inutilmente – que o ódio do cunha, que sentiu-se traído pelo governo, colocou, mais uma vez, a roda da indignação em movimento (o que meu pai chamaria “o mal a serviço do bem”). Antes de cunha abraçar e fazer conluio com o jurista ex-petista, as águas da superfície estavam calmas.
Depois que 42 milhões de brasileiros desembarcaram dos índices de miséria, o povo foi aos shoppings, concessionárias de veículos, aeroportos, teatros, restaurantes, supermercados, cinemas, estádios de futebol, até ao exterior. Os gastos, com débito e crédito, ascenderam. O povo, consumido pelo consumismo, cada vez mais esfomeado, embriagou-se – e só acordou, com ressaca, no dia que o cunha resolveu ser taxativo com o governo: “ou faz o que eu quero, ou não brinco mais de coalizão”. Foi o estopim de uma guerra partidária velada, antiga. Brasília tornou-se, então, legitimamente, a “cidade luz” (nada a ver com Paris) - tudo clareado.
De lá pra cá, não há quem não saiba o que está acontecendo – mesmo quando finge não saber, e até afirma não ter a ver com isso. Os smarphones “de ponta”, comprados no crediário de 24 prestações mensais, transbordam notícias sobre o atual momento político brasileiro. Em todas as redes sociais, os brasileiros discutem (finalmente!) questões políticas. Já era esperado que, quando isso acontecesse, viria com imaturidade – mais embate que debate, concurso de adjetivos chulos. Mas a história, dizia meu pai, sempre tem um lado bom: hoje, a maioria já mostra a cara, e conhece a cara do outro. Fascistas e psicopatas são os mais afoitos – se retroalimentam, em manifestações (públicas) de ódio e ressentimento. Penso que será difícil – nada é impossível – essa gente toda voltar para o armário, depois do efeito do veneno ódio.
Na realidade, a democracia brasileira é (ainda) adolescente – cheia de vontades e contradições. Por isso, testemunhamos, em todo o processo de impeachment, tantas aberrações, por parte de deputados e senadores, todos eleitos, democraticamente, pelo povo, que pouco (ainda) sabe de democracia. A princípio, o processo de impeachment de Dilma Rousseff era para permanecer jurídico, o que inverteu, durante as tramitações no congresso nacional. No final, o processo histórico resultou em questão e decisão políticas. Obedecendo o rito constitucional, as vossas excelências do supremo tribunal federal não manifestaram-se a respeito, apenas restringiram-se a indeferir pedidos de finalização do impeachment. Na minha desimportante opinião - pequena que sou (maioria), diante do olimpo -, obedecer o rito é respeitável. Ainda assim, penso que houve omissão, por parte dos ministros do stf, que, em momento algum, mesmo quando tomaram conhecimento oficial do teor do processo escrito pelo jurista ex-petista, apontaram a fragilidade e a inconstitucionalidade do documento acusatório. Não fossem vossas excelências, eu até imaginaria a cena: no camarote, acima do picadeiro, todo mundo de braços cruzados, postando em redes sociais, rindo baixinho, fazendo apostas.
Logo no começo de tudo isso, o povo despertou no berço esplêndido, desligou a televisão, parou de assistir jornal nacional e novelas, e começou ir às ruas, em defesa da democracia, da manutenção do governo Dilma, como nunca havia feito, até então. Era tarde. Os senhores deputados já tinham fechado acordo e ensaiado o grand finale, nas bancadas do boi, da bíblia e da bala (bbb). Por isso, durante a votação do impeachment, na Câmara dos Deputados, fomos condenados a assistir, em rede pública nacional, as vergonhas: “pelos pais, pelos filhos e pelos netos, os que já existem e os que estão chegando”, “pelos maçons do Brasil”, “pelo meu país, por deus, por minha família, pelas pessoas de bem”, “que deus tenha misericórdia desta nação”, “por Sérgio Moro, pelo Paraná”, “pelos evangélicos de toda a nação”, “pelo povo de São Paulo nas ruas com o espírito dos revolucionários de 32, pelo respeito aos 59 milhões de votos contra o estatuto do desarmamento em 2005, pelos militares de 64, hoje e sempre, pelas polícias, em nome de deus e da família brasileira”, “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi o pavor de Dilma Rousseff”, #*@%#*&*¨”.
Mas a sangria não parou por aí. Ainda restava ao Senado Federal clicar: game over. E assim foi feito – na calada da noite passada, madrugada adentro. Sabendo, de antemão, o resultado (guilhotina), o senhor presidente do senado permitiu a entrada de jornalistas e cinegrafistas da direita, da esquerda, de cima do muro. Quanto mais público para testemunhar a guilhotinada, melhor – e não faltaram os deputados federais para acompanharem o veredictum. De casa cheia, o senhor presidente anunciou o final do primeiro tempo do jogo: 55 X 22. Primeiro tempo, por que Dilma Rousseff garantiu que retornará à presidência, para cumprir o mandato, para o qual foi eleita por 54,5 milhões de cidadãos, que encerra em 31 de dezembro de 2018 – repetiu isso, quando falou ao povo, que a aguardava, na saída do Palácio do Planalto. Dilma Rousseff abraçou e foi abraçada pelo povo, “como nunca antes, na história desse país” - abraço tardio, lamentavelmente. (Tem gente que ainda lembra de Fernando Collor descendo a rampa do Planalto, acompanhado da esposa e da empáfia que não o deixava baixar a cabeça, nem murchar o peito. Mais ninguém.)
A adolescente democracia brasileira (Oxalá!) parece ter aprendido algumas lições, nas últimas semanas. Assim, também acontece com estudantes adolescentes, que cabulam aulas, e depois passam madrugadas insones, para estudarem à prova do dia seguinte. O importante mesmo é que aprendam, aprendamos: não existe liberdade, sem responsabilidade, sem compromisso. Votamos, elegemos – nada de lavarmos as mãos, depois, e/ou só apontarmos os erros, e reclamarmos. Foi votada, eleita – não pode se afastar do povo que a elegeu. Os envolvidos no processo – seja eleitoral, ou de impeachment – continuam envolvidos, antes, durante e depois da tempestade.
O momento, certamente, é de exaustão – luta cansativa, sonhos desanimados (não mortos). Com certeza, tudo isso vai passar. O governo interino chegará com a simpatia conhecida – tema quem temer. Pelo visto, a mobilização continuará nas ruas de todo o Brasil. O povo promete continuar gritando “é golpe”, até que os surdos também gritem: “já entendemos o que vocês gritam”.
Quanto a mim, pequena mortal, sem qualquer direito a voto – a favor, contra, nulo, ou de abstenção -, releio o sensacionalista:
O Brasil abriu os olhos, mas não quis levantar. Ficou deitado, viu que horas eram. Depois olhou pro lado e viu Michel Temer. O susto foi grande. Numa fração de segundos, o Brasil tentou se lembrar de como chegara ali. Mas não conseguiu. Talvez tenha bebido. Talvez estivesse tão mal, que criou uma defesa contra a memória.
Só depois soube que, por 55 a 22, os senadores da República levaram Temer para sua cama. Como não tinha outro jeito, o Brasil levantou e foi trabalhar.
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? De nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.
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Dizem que sou uma pessoa dura. Não sou dura, sou honesta. É diferente. Vou continuar lutando, porque o povo brasileiro merece respeito, consideração e, sobretudo, merece a democracia que nós conquistamos com tanto esforço. (Presidenta Dilma Rousseff)
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Golpe da direita é assim: tiram a primeira mulher presidenta do Brasil, honesta, para colocar governo só de homens, brancos, corruptos, bandidos, sem voto, machistas. (Emir Sader - sociólogo. cientista político)
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Parece que não pretendem só o impedimento da presidente. Querem que ela aceite calada e abra mão da garantia constitucional do acesso à justiça. Tenho muita dificuldade de entender e respeitar aqueles que se ofendem com o direito dos outros. (Andréa Maciel Pachá – juíza de Direito)
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O que espanta é a profusão de bandeiras desfraldadas, a enfeitarem fachadas e carros, ou envolverem cidadãos ignaros. Celebra-se, igual à conquista de uma Taça do Mundo, o enterro do Estado de Direito. O espetáculo é assustador sem deixar de ser patético, reação parva, para não dizer demente, à fatal prepotência cometida contra qualquer propósito democrático. (Mino Carta - jornalista, pintor, romancista)
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Temer, tema-me. Não vou te deixar governar. E você vai ficar para a história sim, como um usurpador, coberto de vergonha. Nem a tua poesia consegue ser tão ruim quanto isso. (Alice Ruiz – poeta e tradutora)
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Todos já sabem que o Brasil é um país onde putas gozam, cafetões têm ciúmes, traficantes cheiram, e, segundo Tim Maia, pobres são de direita. Agora, o “New York Times” incorporou: “Onde uma pessoa que não rouba é julgada por ladrões.” (Nelson Motta - jornalista, compositor, escritor)
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O que sobrou não se chama mais democracia... (Márcia Tiburi – filósofa)
Sou jornalista. Profissionalmente, tudo o que escrevo é publicável, publicado. Quando redijo uma matéria (a ser publicada), por uma questão de coerência comigo mesma, o que menos interessa escrever é a minha opinião a respeito, seja sobre o que for. Por isso, sempre resta a minha visão sobre as coisas privadas e públicas - na maioria das vezes, impublicáveis, e impublicadas. Decidi agora criar este blog, para, quem sabe, exigir de mim mesma, o registro pessoal de (quase) tudo o que enxergo, na minha visão estrábica. São opiniões e ideias irônicas, com certeza, que acabam sendo atropeladas pelo tempo, e esquecidas nas valas indigentes.
Que o leitor fique certo de que não há nem uma pretensão, aqui, em persuadi-lo sobre qualquer coisa. Se eu conseguir manter atualizado o blog, quanto percebo minha visão, terei vencido o desafio que agora me imponho. Exercício - nada além disso.