quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Versão “mal amada”


Não há quem não conheça a expressão: “Ela é mal amada”. Pode observar, dificilmente se diz: “Ele é mal amado”. O estigma recai, mais uma vez, de novo, novamente, sobre as mulheres. Cá entre nós, se são as mulheres que manifestam maior grau de mau humor, nem chega ser discriminação de gênero. E mais: acho que não é crítica acusatória, não, por que mau humor é mesmo uma ‘merda’, pra todo mundo, em qualquer lugar.
A “questã” (como diz um amigo meu, que defende que, se fosse pra ser questão, seria “o questão”) é que “mal amada” está associada à “mal humorada”. Como é terrível conviver com gente de mau humor constante. Até quando os humores oscilam, fica mais fácil a gente suportar – até na gente mesma. Né não?...
Agora, cá muito entre nós, tente imaginar essa criatura “mal amada” convivendo com ela mesma, todo o tempo, o tempo todo... Meus pêsames à ela!...
Nem vou citar aqui as piadas que fazem com as ‘malas mal amadas’, por que seria acionar o ‘repeteco’ que todo mundo conhece. (Escrevendo essas poucas linhas, muitas “mal amadas” aterrissam na minha memória.) Talvez, a maioria de nós nem pense sobre a versão “mal amada”. Se temos humor suficiente, com preparo físico, corremos o necessário, pra fugir das criaturas “mal amadas”.
Tenta imaginar comigo. Se ninguém suporta o mau humor persistente da criatura – nem cachorro, nem gato, nem pai, nem mãe, nem filho, nem o espírito mais santo -, só pode acabar sendo mal amada mesmo, por todos. Mas a primeira da fila deve ser ela mesma, a ‘mala mal amada’, constante companhia de caminhada mal humorada.
Acho que bom humor é essencial à vida. E não me refiro aqui a quem costuma usar de bom humor, pra tratar as pessoas como debéis mentais. Rir da cara dos outros, fazê-los de bobos, pode até parecer engraçadinho, mas isso não é bom humor. Bom humor mesmo chega ser pueril, e o outro entra como participante da brincadeira, que não lesa as pessoas. É o que penso.
Se tem alguma gota de verdade o que muita gente diz, que “despejamos nos outros, o que temos aos borbotões dentro de nós”, a “mal amada” deve viver se afogando em mau humor crescente. Azar de quem estiver por perto, quando as comportas se rebelarem, em conjunto, arrebentando todas as barreiras, até então represadas.
Tá certo que não é todo dia que a gente amanhece dando bom dia ao sol, à chuva, ao calor, ao frio. Claro que não precisamos agradecer aos céus pelas enchentes, que estão causando tantos transtornos no planeta. Não precisamos exagerar. Afinal, Pollyana é apenas personagem de livros (ou não?).
Quem tá habituado a soltar palavrões, não precisa usá-los com mau humor. Palavrão pode ser utilizado com muito bom humor, sim senhor. E tem mais: não há justificativa pra mau humor, não. O mau humor, na minha visão estrábica, é o jeito que a criatura enxerga a vida, jeito (diferente, claro) que também tem o bem humorado.
Oxalá, chegará o dia em que o mal humorado, sem que ninguém perceba, estará tão fora de si, que, ao olhar-se no espelho (imaginário), não vai ‘guentar’ tanta sisudez, e vai despencar na gargalhada... Nesse dia (inesquecível), todo mundo vai se alegrar – bem e mal humorados vão sorrir à toa, e Pollyana saltará das páginas dos livros, gritando: “Eu não disse que, um dia, todo mundo iria sorrir, transbordando gentilezas?”...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Efeito colateral

Nem tente calcular, mas você também, como eu, já deve ter vivenciado cenas como essas:
- Tentou esclarecer alguma coisa com alguém, e acabou complicando mais ainda, perdendo a única oportunidade de clarear as sombras;
- Teve a intenção de ajudar uma pessoa com problema, mas não era isso que ela queria (precisava do problema, pra continuar sentindo-se viva);
- Lembrou do aniversário do namorado (ou namorada), dois dias depois, e gastou até as moedas do cofrinho pra comprar-lhe presente, que acabou quebrado na tua cabeça;
- Achou que a frase do coordenador da reunião (“sejam sinceros”) fosse sincera, e falou, sinceramente, o que pensava, e se deu mal por isso;
- Tomou um chá horrível, indicado por alguém que esqueceu de dizer que não precisava ferver a árvore inteira;
- Considerou o braço pra fora do caminhão, permissão do motorista pra ultrapassagem, e quase tornou-se mais um número de vítima na estrada;
- etc etc etc e tal (o resto da lista fica por tua conta – tô preguiçosa hoje).
Tudo isso e muito mais que isso tudo que exemplifiquei (palavrinha que parece palavrão) eu chamo efeito colateral. Você até racionaliza, pensa profundamente alguma coisa, mas não tem elementos suficientes pra adivinhar o efeito colateral do teu feito. E tudo, tudo mesmo, causa algum efeito – visível, ou sutil, mas sempre efeito.
Pior mesmo é quando você solta, discretamente, um “pum”, e, logo adiante, acaba caindo numa fossa de esgoto. Nem pense em “jogar verde, pra colher maduro”, por que o que chega sempre é podre, fétido. Outra: não pense que “sempre fica perfume, nas mãos que oferecem rosas”, por que rosas têm espinhos, e esses não murcham. Ah, pior, ainda, do que isso tudo é, no final das contas, depois que o efeito tornou-se colateral, você ainda querer desculpar-se, dizendo “não tive a intenção”. Aí sim, dana tudo de vez. É o que acho, eu, que prefiro me calar, pra não jogar “merda no ventilador”.
Tudo – efeito colateral.
Ou você é a causa. Ou você é o efeito. E outra opção não há, nem “consultando os universitários”. Às vezes até, você acaba sendo o efeito da causa que o outro causou, depois de ter sido o efeito da causa que você causou. Você entendeu, né?... Diga que sim, pelamordedeus!...
Na minha vidinha insignificante e medíocre, estou sempre, em tom de brincadeira, ‘traduzindo’ meus gestos: Olha, tô te oferecendo água, achando que você pode estar com sede, por causa do calor. Pensei em te dar um livro, mas não sei o que você gosta de ler, e se gosta de ler. E por aí vai. E por aí vou.
Bem no fundo, efeito é sempre bom, penso eu, justamente por que escancara, pra gente mesma, o que a gente fez, faz (causa), ao outro. O problema fica no colateral, que é sempre imprevisível, e, às vezes, como disse a jornalista Mônica Valdvogel, na televisão, “irresolvível” (depois dessa, desisti, desliguei a tv).
O colateral atinge sempre o mesmo alvo: a nossa auto-frustração. Pensei fazer tal coisa, esperando determinado resultado, e minha intenção “subiu no telhado”. Já era. E não há conserto para o que chamo efeito colateral. Até por que a gente sempre se prepara para o efeito, e não tem como se preparar para o dito colateral. É uma ‘merda’. E ainda vamos pensar muito sobre isso, e continuaremos causando efeitos colaterais... Não há remédio sem.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Intimidade = Desrespeito?


Uma das coisas (humanas) que eu não entendo há mais tempo é a tentativa prática de igualar intimidade com desrespeito. Não falo da forma como os homens (sexo masculino mesmo), desde a puberdade, se tratam verbalmente, ou ainda com gestos mais agressivos. O que quero escrever aqui é sobre a intimidade que descamba para o desrespeito mesmo.
Por que será que as pessoas confundem essas duas palavrinhas tão simples (intimidade – desrespeito), se analisadas superficialmente?... Sinceramente, não sei, e o meu não saber já tem décadas, tá ficando velhinho, caduco talvez...
Afinal, o que é intimidade?... Para alguns, intimidade é ir pra cama com alguém. Pra outros, intimidade é afinidade de almas, semelhança intelectual, e essa coisa toda intangível e indescritível. Mas há aquelas intimidades “por direito”, “por força das circunstâncias” – intimidade familiar, ou decorrente do tempo de convivência com alguém, seja no ambiente de trabalho, ou pela vizinhança. De algum jeito, alguém sempre se sente íntimo de outro alguém. Nem sempre há reciprocidade, mas isso não chega ‘derreter’ a visão de intimidade que alguém tem.
Pra mim, que pouco conheço e menos ainda sei de relações humanas, intimidade até pode ter cama, com a mais deliciosa sintonia sexual. Mas nem sempre intimidade pressupõe sexo. Na minha visão estrábica, intimidade tem várias vertentes, e é mantida pela vontade das pessoas envolvidas. Há quem não permita, nem se permita, a muita intimidade. Há outros que, sem se importarem com tempo, ou espaço, tornam-se íntimos e inesquecíveis, e reconhecem outras pessoas com tamanha intimidade, que não há limites, nem fins. Essa tamanha intimidade me fascina – tão longe mora do desrespeito.
Independente das variadas e inimagináveis opiniões acerca de intimidade, penso que nada tem a ver com desrespeito – nem vizinhos devem ser. Mas acho que a maioria das pessoas (as quais eu sei da existência delas, obviamente) não pensa, nem age assim. As pessoas confundem demais intimidade com desrespeito, um fato que eu nunca cheguei compreender. Sempre acabo na observação e no questionamento: Por que, quase sempre, as pessoas, sentindo-se íntimas, tratam as outras com desrespeito?
Não estou me referindo aqui a brincadeiras. Não e não. Absolutamente. Falo sobre situações sérias, momentos únicos, da necessidade (acho) do respeito básico. Sentindo-se íntima, e considerando o outro íntimo, se vê no direito de desrespeitá-lo. Não entendo isso, como não entendo a maior parte do que enxergo, percebo e vivo observando nos seres humanos. Talvez, quem sabe, por isso (também), ainda não sei ser humana.
Com a minha “veia jornalística”, sempre que tenho uma oportunidade, questiono as pessoas sobre isso. O que me dizem é que “é natural”, que, quanto mais amam, mais se sentem no direito de até humilhar o alvo do seu amor. Compreendo menos ainda.
O que vejo é gente tentando cativar outra gente, com mil manifestações de afeto, que, “depois do primeiro tempo, feito o gol”, deslancham para o desrespeito, por que (talvez) essa gente sente-se segura o suficiente, para ser quem é, ou simplesmente desabafar no primeiro “saco de lixo” que topar a ‘função’. O mais lamentável, na minha opinião, é quando intimidade = desrespeito torna-se um hábito, e depois um vício incorrigível. Azar de quem conviver com.
Se o que o outro faz, na intimidade, é desrespeitar, e justifica que age assim, em razão da vida que teve, como aprendeu associar a dor ao prazer, fazendo sempre amor rimar com dor, o problema (reconhecido) é dele, não do alvo dessa convivência íntima. É o que penso. Tem gente que diz que há pares que são feitos de um que bate e de outro que apanha, e ambos gostam de viver assim. Não consigo (nem quero) acreditar nisso.
Não sabe como tratar as raras pessoas que compartilham intimidade contigo?... Ah, sei lá, você deve ter tido papai, mamãe, ou alguém que fez um desses papéis na tua vida, e que te mostrou a chave mágica, que abre todas as portas: gentileza (que provém do respeito humano)... Já pensou nisso?... A vida pode não ser um ensaio, mas é um experimento, e a gente pode experimentar tudo, todo o tempo – ou não.
Não é julgamento meu, nem sequer pré-julgamento. Para se configurar julgamento, necessário é conhecimento de causa, o que não tenho farelo. Só expus o que (entre tantas coisas) não compreendo. Registrado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Minha capacidade é tua




Às vezes sempre, olhamos o outro, como se estivéssemos diante de um espelho, o que raramente, aí sim, reconhecemos. Se o outro é amigo, julgamos conhecê-lo, e, também por isso, imaginamos o que ele (o outro) pensa, gosta, desgosta. Se o outro é inimigo, não agimos diferente, quando supomos a capacidade dele (o outro). Nesses instantes tão humanos, esquecemos de nós mesmos – o princípio e o fim de tudo e nada.
Capazes?... Capazes todos nós somos. Capazes de tudo, “a qualquer momento, em edição extraordinária”. Quando você imagina (julga) a minha capacidade, ela (a capacidade) não é minha – é tua. Não importa se você está enxergando a capacidade de amar, ou odiar, matar, construir. Não interessa mesmo o verbo que faz par com a ‘dona capacidade’ (tua, não minha). O mesmo faço eu, quando conjecturo sobre a tua capacidade, ou sei lá de quem.
Esse espelho diário – o outro -, que nos acompanha a vida inteira, e fica diante de nós (às vezes, a criatura mais adorável, outras, a mais odiável), é a gente mesma se olhando, e pressupondo que sabe do outro. E até vamos mais longe. Quando se está em “pé-de-guerra” com alguém, a gente observa o mínimo gesto desse alguém. Quando menos se espera, a gente é que ‘ataca’, por ter imaginado que o outro iria ‘atacar’ (com palavras, ou atitudes, ou ‘ambas as duas’ coisas). Tem gente que vai mais longe ainda, chegando usar, ou inverter, manifestações do outro contra ele (o outro).
Se o outro (nosso espelho) é amigo, tá de aniversário (exemplo aleatório), vamos em busca do que julgamos ser o melhor presente a ele. Com o que podemos gastar, procuramos dvds, por que o amigo gosta de filmes. Mas que filme dar (são tantos)?... Assim que entramos na loja, enxergamos o dvd daquele filme que o amigo riu a valer, naquela cidadezinha do interior, depois de tomarmos aquele porre juntos. Compramos o ‘belo presente’, imediatamente, e saímos da loja, satisfeitos, felizes até. Em casa, tudo o que o amigo aniversariante quer é esquecer aquela viagem, e tudo o que aconteceu – o carro enguiçado, a goteira no quarto da pensão, o ‘gosto de cabo de guarda-chuva’ da ressaca, incluindo o dito filme que serviu de presente nosso...
E quando alguém conta uma circunstância extrema que viveu?... Quase sempre, tem outro alguém pra dizer: “Ah, se fosse comigo, eu faria isso, aquilo, aquel’outro”... Será?... Sei não. Como a mãe do Forrest Gump (filme lindo) disse, a vida é uma caixinha de bombons... Vivenciar alguma coisa, penso eu, é sofrer (sentir) todo o ambiente (situação), fazer parte da cena inteira, ter como colegas, até os ácaros do tapete, das cortinas. Se chega de repente, pra sair em seguida, é ator amador, coadjuvante contratado na última hora, pra substituir aquele que quebrou a perna. Nada mais, nem menos.
“Fulano é capaz de matar”. “Beltrano é capaz de morrer, por causa disso”. “Cicrano é capaz de fazer muito mais, pra ter sucesso”. Fulano, beltrano, cicrano, ou o escambau, são capazes de tudo, o tempo todo. Se eu delimito, por medo, ou a ‘merda’ que for, a capacidade imputada é minha, não de beltrano, fulano, cicrano. Acabou.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ouvir


Eu não sei se eu sei ouvir. O que sei é que gosto de ouvir. Das minhas mais remotas memórias da infância, me chega a voz do meu pai soletrando pra mim as primeiras palavras, depois os versos, as prosas, enquanto me apresentava a alquimia da leitura e da escrita. Depois, outras vozes leram pra mim, e cantaram canções lindas, inesquecíveis.
Algumas pessoas com quem convivo dizem, generosamente, que tenho “voz suave, delicada”, que minha “voz acalma tanto, que chega causar sono”. Se for isso mesmo, preciso patentear ‘o produto sonífero natural’, antes que alguém o faça. hehehehehehehehehehe
Ouvir me faz bem, principalmente se for leitura de livros, ou canções. Durmo na companhia da música – sempre preparo uma listinha musical para fazer companhia ao meu sono, aos meus parcos sonhos (sonho mais acordada). Ah, sempre que leio, sou eu, mas a voz que ouço (no silêncio) não é minha – não é alucinação, nem delírio, por que a voz não me fala coisas ininteligíveis, mas só o que leio, o que lemos... Será isso loucura?... No meu caso, se for, é piada!... hehehehehehehe
Ouvir me acalma a alma sem calma... Falar já não me faz esse bem todo. Aliás, falar é sempre um dos meus maiores desafios, por que sei, de antemão, que vou dizer alguma coisa pra alguém, ou ‘alguéns’, que ouvirá, ou ouvirão, de forma diferente da que eu tentei dizer, por causa daquela historinha de que “cada qual carrega a própria vivência única de tudo”. Se isso não bastasse, ainda tenho dificuldades de expressão verbal – às vezes, falo demais, e digo nada. Só faço as pazes com a fala, quando o meu falar nada tem de pessoal.
Ah, mas ouvir me faz esquecer até as dificuldades que tenho em falar, e o quanto me esforço pra dizer alguma coisa, quando escrevo – agora, por exemplo...
Já me disseram que a minha memória auditiva é aguçada. Pode até ser. Mas, se for isso mesmo, quem a aguçou fui eu mesma, por tanto que gosto de ouvir. Não é um gostar de ouvir qualquer coisa, por não suportar o silêncio. Pelo contrário. Gosto também de ouvir o silêncio – silêncio mesmo, nenhum ruído, nada de televisão ligada, nem música, nenhuma palavra, e sequer um pensamento teimando em agarrar-se ao pobre “tico” (nessa hora, “teco” já vai longe no passeio). É assim que escuto o silêncio da minha alma...
O que tô tentando escrever aqui é que gosto mesmo de ouvir o que gosto de ouvir, e quem gosto de ouvir. Convivi e convivo com seres humanos especiais (por que minha alma os guarda assim: tão especiais) – poetas, loucos, sonhadores -, que cantam, lêem, interpretam como ninguém canções e leituras inimagináveis, únicas. Minha alma, que descansa, vadia, na rede da minha vida, continua ouvir essas vozes, mesmo no silêncio delas... E são tantas leituras, tantas canções, tanta vida que (ainda e sempre) pulsa, que o que posso falar é que gosto mesmo é de ouvir... Por isso, não insistam que eu fale – a minha fala só quer ouvir... até o silêncio... ouvir... e silenciar...
Em tempo: Não só gosto de ouvir, como também gosto de quem gosta de ouvir... Acho que saber ouvir é uma arte. Quando se gosta de ouvir, pode até não se saber ouvir, mas é caminho e meio ao aprendizado... Agora, chega de tentar falar alguma coisa... Dá licença, quero só ouvir... ouvir...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Doce mistério amargo


Sempre ouço, leio, assisto – por aí, por aqui, por todo lugar - gente falando sobre o sentido da existência humana. As dissertações chegam ser estapafúrdias (consegui usar este palavrão! consegui!). Para os astrônomos, a vida terrena surgiu, a partir do “conluio” de elementos químicos, que se reuniram e combinaram: “Vamos fazer todos os experimentos impossíveis, neste planetinha”. Para os religiosos, a humanidade passou a existir, depois que um “todo-poderoso” entediou-se com a solidão em que vivia, e resolveu criar habitantes, no “pontinho azul” do universo. Para os poetas, a existência humana existe, pra não fazer qualquer sentido. Para os estilistas e costureiros, a humanidade foi criada, pra ser (bem) vestida. Cada qual pensa o que bem entende. Os otimistas pensaram tanto, e descobriram que “a vida existe, pra ser vivida” (e a morte - pra ser morrida?). Os pessimistas adiantam o relógio, e passam a vida inteira dizendo que “a única coisa certa na vida é a morte” (qual será a única coisa certa na morte – que não há mais vida?).
Nunca fui Pasteur, nem Papa. Talvez, por isso, ou não, prefiro questionar esse doce mistério amargo: Existir – pra quê?... Se eu fosse colecionadora de respostas, certezas, ou verdades absolutas, provavelmente teria ‘empacado’ lá atrás, há muuuuuuuuuuuuito tempo, quando comecei admirar as nuvens, ignorando o termo “sentido da vida”.
Alguns de nós até ‘maquiamos’ uma resposta – bem elaborada, é verdade, mas tão oca quanto a nossa credulidade sobre o que nós mesmos pensamos. Pior, quando tentamos convencer os outros. Não gosto que julguem que estou tentando convencer, nem que isso seja em relação a um animal qualquer. Não convenço nem a mim mesma.
Esse doce mistério amargo, o qual apelidamos vida, pode fazer algum sentido, acredito, particularmente. Se você observar, quase sempre colocamos o sentido da vida, onde não estamos. Talvez, através disso, buscamos motivação pra continuarmos vivendo (vivendo em busca de vida). Se temos como meta, a realização de sonhos, justamente são sonhos, por que não são realidade (ainda). Se concretizamos algum sonho, logo buscamos outro que ocupe o mesmo vazio, o qual cremos ser ocupável.
No meu caso, acho que o sentido da vida tá em perguntar qual o sentido da vida (?), sem querer resposta, ou respostas. Simplesmente questionar. Às vezes, penso que achei uma doce resposta; outras, o gosto da resposta é amargo. São respostas que passam, como as nuvens – aquelas que guardo na minha coleção de fotos de nuvens, e aquelas que foram e vão, sem que eu tome conhecimento delas.
Profissionalmente, escolhi perguntar, sem a expectativa de respostas. Talvez, eu tenha escolhido isso também à minha vida, mesmo quando as pessoas, ao abrirem a boca, confundem ignorância com resposta. Se me perco, isso acontece justamente nas perguntas, não nas respostas, que, pra mim, nada mais são que “instantâneos de vida”, não chegando revelar o que realmente é. Pra mim, o que realmente é permanece na pergunta. A resposta é a tentativa de fazer calar a pergunta persistente. Nada além disso. É o que penso, sei lá por quê.

Agora, chega... Como eu, vai você também sentir e viver esse doce mistério amargo, que, um dia, acaba, sem qualquer sentido – simplesmente acaba...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Meias-mentiras. Meias-verdades.


Ouço sempre as pessoas falarem que a mentira tem tantas faces, quanto necessário seja para sustentá-la. Discordo. E ainda faço mais: distorço, inverto. Acho que a verdade – que não existe (talvez, more mais distante da realidade, ainda, que a própria mentira) – é que tem incontáveis e desconhecidas faces.
Se quiser, siga minha loucura ‘pensamental’. Senão, vou continuar pensando, e escrevendo...
Invertendo o conceito, eu enxergo que a mentira, de repente, pode ser muito mais lógica, condizente com a realidade, para qual foi criada, muito mais que a própria “verdade do momento”. Observe que a mentira precisa (parece necessitar) de uma simetria, até chegar à linearidade absoluta: começo, meio, fim. A verdade não é assim. E você, como eu, sabe disso. E sabe mais. Sabe que a verdade não é; a verdade está.
Se a mentira surge maquiada, com o propósito de esconder (já que não pode negar, ou fazer desaparecer) a verdade, essa – a verdade – tem curtos tempo e espaço de validade. Por quê?... Ora, por que simplesmente outra verdade (ou mentira) chega, a qualquer momento, e sobrepõe as (pobres) certezas absolutas antigas.
Você pode até pensar: Ah, mas o passado (fato real) torna-se definitivo, imutável, e, por isso mesmo, verdade absoluta. Discordo novamente. O passado histórico ficou tão lá atrás, que a nossa memória (espertinha!) é muito seletiva, por que mais emocional, guarda e faz lembrar o passado, a seu “bel prazer”, cambaleando sempre na linha tênue dos fatos: acontecidos, vivenciados, sentidos.
Por diversas vezes, tive a oportunidade de reencontrar pessoas que fizeram parte do meu passado. E ainda acontece muito isso. O que percebi, escancaradamente, é que cada uma delas, incluindo eu mesma, guardava uma história diferente sobre o mesmo fato. É aqui que entra a historinha da “visão de cada um”, na prática. Profissionalmente, o que mais gosto de fazer é ouvir (muito mais que entrevistar) o maior número de pessoas, para que falem livremente sobre o mesmo fato. Às vezes, a situação (factual) está ali, diante de todos, e cada um, de olhos bem abertos, relata uma série interminável de histórias, em cima da cena. ‘Tá’ certo que alguns ‘viajam’ mesmo ‘na maionese’, extrapolando a visão de realidade. Mas nem um deles é considerado mentiroso, por que, antes de julgá-los como tais (mentirosos, no caso), os ouvintes olham a cena (real), ou lembram da situação passada, e reconhecem: “É verdade, eu não havia me apercebido disso, até você falar”.
Quanto à mentira, essa não pode sustentar tantas faces, como tem a verdade. A mentira exige coerência, e tantas coisas mais. Assisti um filme (não guardo nomes de filmes, livros, etc), onde um dos protagonistas lembrava que o pai dele havia dito que o maior trabalho da mentira era manter a memória (que não podia desmentir). Olha só a vantagem da verdade, que não tem qualquer compromisso com a memória. Podemos lembrar de todos os fatos, como bem entendemos, por que estivemos lá, naquele tempo, naquele espaço, ou ouvimos falar sobre. Se for justificar com “me contaram”, então, a verdade torna-se “red bull” – que “dá aaaaaasas”. hehehehehehehehehe
Vou mais longe, nesta minha ‘viagem’ sem bússola. Acho que amadurecimento é isso: amadurecer os fatos vivenciados, a partir da recordação deles, com a experiência que temos na bagagem (sempre sobra alguma). Poxa, dá muito trabalho (pelo menos, pra mim), vivenciar o agora, racionalizar sobre, e guardar com lacre todos os detalhes, para que as minhas lembranças não sejam modificadas, principalmente por mim mesma. É loucura demais pra minha cabeça, sinceramente.
Resumindo essa ‘merda’ toda, acho que cada ser humano é feito de meias-mentiras, meias-verdades. Na mentira, há um ‘quê’ de verdade, que é justamente o motivo, a intenção que fez criá-la. Na verdade, há outro ‘quê’, que é justamente o que ainda ignoramos – em nós mesmos, ou nos outros (daí, acho, depende a duração dessa verdade). Confesso que me interesso mais pela ‘utilidade’ da mentira, quanto da verdade do momento, que a própria mentira, ou a verdade em questão. Se não é preciso mentir, pra que então? (o motivo me instiga)... Se dizer a verdade, não mais omiti-la, pode causar danos, até a verdade é dispensável, por que o tempo (outra realidade) a revelará, e depois a substituirá... É tudo o que penso.

O mais fica por conta de Drummond:
“VERDADE
Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim, não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”