sábado, 7 de março de 2015
segunda-feira, 2 de março de 2015
Essa coisa toda chamada amor
Pelo que a gente percebe,
diariamente, dá mesmo pra dizer, parodiando “o cara”, que “nunca
antes, na história desse mundo”, ouviu-se tanto: eu te amo. Essa
coisa toda chamada amor, na minha opiniãozinha medíocre, representa
tantas outras coisas - menos amor.
Cá entre nós, faz muito tempo
que as criaturas usam e abusam da desgastada palavrinha 'amor'. “Por
amor”, tem muita gente enganando, violentando, e até matando. Mas
ainda há quem faça do 'amor', negócio mais rentável - com duas ou
três frases de Shakespeare, ou de Chico Xavier, muita gente, sem
dinheiro, encurta caminho para um empreendimento de sucesso, ou até
casamento que renda polpuda pensão.
Acho que chegamos mais perto do
que possa ser realmente amor, se amamos as pessoas, com o mesmo amor
devotado aos animais, respeitando a natureza de cada um deles - sem
expectativas. Ainda há quem ame os animais, simplesmente por eles
existirem, e, de alguma forma, fazerem companhia - nem precisam
abanar o rabo. Tem gente que ama cachorros, gatos, pássaros,
iguanas, e até cobras. Quando somem, nos preocupamos, vamos atrás
deles, sem cobrarmos, no retorno, onde e com quem estavam, fazendo o
quê. Simplesmente, continuamos amando esses bichinhos que encantam,
respeitando a vida própria e natural deles. Os animais de estimação
não exigem além do que doamos a eles: água, comida, e algum afago
distraído.
Por isso, tem tanta gente
escolhendo criar animais, em vez de casar, ou ter filhos. Muita gente
vai além, no que chama “amor sem medidas”, e trata os bichos,
feito filhos, comprando roupas e joias para os animais - os pet shops
estão cheios de encomendas para festas de cachorros e gatos,
principalmente. Na realidade (desmedida), há quem queira fazer do
bichinho de estimação, projeto de gente (da ostentação) - com roupas, joias,
acessórios inimagináveis em qualquer mundo animal.
Enquanto isso tudo acontece, os
protetores de animais se multiplicam - afirmam que, “por amor”,
socorrem gatos e cães matratados. Depois, voltam para casa, para
devorarem seus pratos com carnes de bois, peixes, porcos, frangos,
patos, pombos, marrecos, bodes, perus, ovelhas, lagartos, rãs,
tatus, coelhos, etc etc etc, bem ou mal passados. Por todo lugar, há
defensores de animais que usam casacos, chapéus e calças de couro,
e cintos e sapatos, também de couro (animal). E ainda tem gente que
cria chester, no freezer, para matar e comer nas festas de final de
ano (tô brincando, gente)...
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Mundinho mimado e sexualizado
Na minha desimportante opinião, vivemos sempre numa geração intermediária - entre outras duas gerações. Por isso, talvez, em meio à vida dinâmica (“nada é; tudo está”), não temos valores bem definidos, ou qualquer outra coisa que acabe tendo valor, ou não.
Habitante, também, desse planetinha, eu me vejo entre duas gerações, nem sempre distintas. Convivo num mundinho potencialmente mimado e sexualizado (se você vive no planeta terra, também deve saber) - às vezes, um; às vezes, outro; às vezes, os dois, ao mesmo tempo. Infelizmente, refiro-me, aqui, aos chamados 'seres adultos' (traduzindo: já passaram, pelo menos na faixa etária, pelas fases da infância e da adolescência). Por isso (quem sabe?), tem tanta gente defendendo a redução da idade penal: querem exigir (com punição), dos menores, ética e moral que não existem realmente no mundo adulto. Se fosse para os menores seguirem esses exemplos exigidos de ética e moral, hoje, teriam de buscar em outros planetas. A coisa está tão rara, que, volta e meia, vira manchete de algum jornal que se perde do sensacionalismo, por um momento apenas.
Penso que tudo isso torna-se bastante complicado, justamente por não haver mais distinção de comportamento(s). O que enxergo, na minha visão estrábica, é a maioria das pessoas com atitudes mimada e sexualizada, em situações bastante cotidianas. Nem vou me deter, aqui, nas redes sociais, onde o que predomina é tudo, ou quase tudo, que as pessoas gostariam de ser - em algum momento da vida, se perderam do caminho, ou nem sequer chegaram a qualquer indício de caminho.
Esse mundinho está mimado e sexualizado demais, gente - isso é fato. Em qualquer ambiente, você encontra gente que só faz o que quer, com quem quer, quando quer. Penso que, assim, a vida seria um resort - férias vitalícias. E ainda a maioria trata de sexualizar tudo o que vê e ouve, como se realmente pensasse apenas em sexo. Eu fico com Renato Russo: “Sexo verbal não faz meu estilo”. Entre o simbólico e o imaginário, de repente, uma simples banana, ou um modesto pepino, torna-se representação do falo. Vai saber o que, daqui a pouco, poderá simbolizar o pênis propriamente dito. Se continuar assim, a velha conhecida feira de frutas e legumes acabará representando sex shop.
Estamos sendo bombardeados por apelos imperativos (“seja mimado”, “seja sexualizado”), o tempo todo, mas poucos enxergam isso. E já não existe mais piada, ou brincadeira, que não tenha conotação sexual. E não há um dia que você não veja cenas de adultos mimados exigindo isso, ou aquilo, ou isso e aquilo, sem qualquer possibilidade de diálogo. Em algum instante da vida, a maioria se perde, ou se perdeu, e, de tão perdida, continua sem pensar sobre isso, ou qualquer outra coisa. Pra (quase) tudo desandar de vez, os canais de televisão, como sempre, dão aquela mãozinha básica, exaltando (e ensinando) as atitudes sexualizada e mimada - mix de tudo isso, num programa só.
Eu ainda penso nas crianças (faixa etária: infância), aliás, nas crianças que podem ser crianças, ainda. Muitas delas cumprem vida adulta (ou o que se imagina ser vida adulta), com tantos compromissos (aulas de balé, inglês, judô, futebol, informática, espanhol, boas maneiras), que, no final do dia, estão tão exaustas, acabam dormindo, em cima de lições escolares. Mas continuo pensando nas crianças que ainda conseguem ser crianças, que testemunham, diariamente, esse chamado mundo adulto, com a maioria agindo debilmente, sem assumir a própria vida, multiplicando e reproduzindo atitudes mimadas e sexualizadas. Dia desses, presenciei uma cena cada vez mais comum, num shopping: a mulher gesticulava, e começava a gritar (“eu quero, eu quero”), o homem tentava segurá-la, enquanto o filho (cinco anos, no máximo), de olhos arregalados, boca aberta e silenciosa, nem se apercebia do sorvete que derretia e escorria pelos dedinhos dele.
Com tanta gente mimada e tantas interpretações potencialmente sexualizadas, não podia acontecer outra coisa: os relacionamentos tornam-se cada vez mais difíceis, até se tornarem realmente inviáveis, e impossíveis. Pense comigo (se quiser/puder): Que criatura mimada vai querer atender aos mimos de outra (mimada)?... O que falar, manifestar, num ambiente onde tudo, tudo mesmo, é sexualizado?... “Os incomodados que se retirem” (dizem alguns) - os incomodados e os desacomodados se retiram mesmo, enquanto a maioria se acomoda. A cena seria cômica, se não fosse trágica: todo mundo andando em círculos (sexualizados e mimados), no meio de um bombardeio constante, no olho cego de um furacão. Catatonia triste e desoladora. E a Juíza Andréa Pachá ainda faz pensar mais: "Quando você estabelece que seu objetivo de vida é o seu prazer, você perde o olhar para quem está perto. Aí, fica impossível viver junto. Não podemos nos ocupar só do nosso desejo”.
Mas isso tudo sou eu que enxergo, e penso - penso muito. E continuo observando, na tentativa de ver o que ainda não vi, para deixar de lado o que penso, e pensar um mundo menos e mais, pra (quem sabe?) termos o equilíbrio como vizinho mais próximo.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Estamos quites
Nesta
virada de ano, fiquei pensando tantas coisas. O que mais pensei é
que eu estou quite com o mundo, com a vida, com o tempo. Eu e o tempo
estamos quites, por que sempre me dei bem com o tempo - não adianta
querer brigar com quem tem o “Coringa” na manga. Eu e o mundo
estamos quites, por que fazemos o melhor que podemos fazer - “tudo
a seu tempo”. Eu e a vida estamos quites, por que não há nada,
nada mesmo, que eu tenha me arrependido de viver - foi assim que
cheguei até aqui.
Se
a vida continua, depois da morte, não sei - há muitas
controvérsias, sobre “ninguém ter voltado pra contar”. O que
sei é que essa vida (presente) é única, por que não volta mais -
mesmo. Jamais estaremos onde estamos, com quem estamos, fazendo o que
fazemos, deixando de fazer o que deixamos, fazendo as escolhas que
fazemos. As outras vidas que teremos - se teremos - serão realmente
outras. Tem muita gente desavisada, de mal com a vida, com o mundo,
com o tempo, à espera, sempre, do passaporte à ilha da fantasia.
Pior ainda, quando escolhe esperar que a vida boa venha, prontinha,
embrulhada em papel de presente, pelas mãos dos outros. Enquanto
isso, fica sem saber que cada instante desta vida é realmente
especial, por que sempre único. Por isso tudo, Lenine ainda canta:
“A vida é tão rara”...
Feito
toda gente, também eu faço as minhas escolhas. A cada ano que
passa, tenho reduzido, cada vez mais, as minhas expectativas em
relação ao mundo, à vida, ao tempo. Nada desesperador. Percebo
que, assim, tenho amadurecido quem (acho que) sou. Cabe colocar aqui
que nem consigo me imaginar correspondendo a expectativas alheias -
seria muito pra minha cabecinha, por que cada pessoa espera algo
(diferente) da gente. Quanto menos expectativas eu tenho, mais
surpresas boas recebo (vivo o que acredito, cada vez mais). Gosto do
imprevisto, da porta que se abre no meio do nada, das nuvens que
aplacam a tempestade. Essa é a minha (única) expectativa para 2015:
o imprevisto.
Sempre
gostei de desafios - dos bons desafios. Nem considero desafio o que é
feito para ser exposto nas redes sociais. Não. Desafio, pra mim, é
o que desafia (só) eu mesma. Também, não gosto do que chega
prontinho, embalado em pacote de presente. Gosto das peças de Lego
(conhece?), do que me instiga a desfazer, fazer, desmontar, montar,
desconstruir, construir (refazer, remontar e reconstruir dá muito
trabalho, e o resultado é sempre o mesmo).
Nada
acontece de um momento para o outro - tudo flui aos poucos, seguindo
o que existe de ritmo harmonioso no mundo, no tempo, na vida. Depois
disso, só dá pra pensar, mais uma vez, em Benjamin Disraeli: "A
vida é muito curta para ser pequena”.
E
lá vou eu aprender um pouquinho mais...
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Novo Ano Novo
Desse
ano, restarão alguns sonhos, algumas promessas não cumpridas,
algumas contas a pagar, alguns projetos concretizados, algumas
decepções, alguns quilos a mais (ou a menos), alguns amores
despedaçados, alguns livros esquecidos nas gavetas, alguma saudade,
algumas frustrações, algum recado antigo na porta da geladeira,
algum silêncio, algumas sobras e algumas tantas faltas, algumas
paisagens, algumas receitas novas de culinária, algumas coisas pra
compreender (ou não), algum cansaço antigo, algumas cartas escritas
pela metade, alguns testes de paciência, algumas fotografias da
infância, alguns novos filmes e canções, alguns banhos de chuva,
algum dicionário entreaberto, algumas ternas lembranças, algumas
lágrimas que ficaram na sala de cinema, algumas agendas em branco
(ou cheias de coisas para fazer), algum marcador de livro à espera,
alguns parafusos em desuso, alguns pratos sujos na pia, alguns
conflitos, algumas roupas no varal, alguns afetos e alguns outros
desafetos, algum rádio sem pilhas, algumas noites insones, algumas
palavras, alguns tantos medos, algum resto de sorvete de chocolate no
freezer, algumas mágoas, algum pássaro na soleira da janela,
algumas tantas partidas e algumas poucas chegadas, algum relógio
parado, algumas dores, algum texto sem título, alguns farelos de pão
na mesa, alguns telefonemas inesperados, algumas ideias e alguns
tantos ideais, algumas dietas malucas recortadas de revistas antigas,
algum dinheiro esquecido no bolso do casaco, alguns pesadelos, algum
manual de instrução da televisão que não existe mais, algumas
despedidas, algumas alegrias, alguns acertos e alguns tantos erros,
alguma torneira que pinga sem parar, algum medicamento com validade
vencida, alguns números de telefone sem identificação, algumas
tantas chaves perdidas, algum papel de presente sem cartão, algumas
histórias de tantas vidas, algumas garrafas vazias na lixeira, algum
envelope fechado sem remetente, algum pedaço de bolo de aniversário,
algumas ausências, algum cartão promocional de uma academia
desconhecida de ginástica, algumas palmas e algumas outras vaias,
alguma música que não sai da cabeça, alguma proposta de novo
trabalho, alguma gaveta há muito esquecida, alguma roupa fora de
moda, algumas companhias, alguns papéis em branco, alguns olhares,
alguns tantos pontos de interrogação, algumas nuvens, algum
esquecimento, alguns desafios, alguma xícara sem asa, alguns emails
que não foram lidos, algumas folhas secas entre folhas de livros,
alguma maçaneta sem porta, algumas loucuras, algum cartão postal
sem destinatário, algum pinguim de geladeira quebrado...
Um
novo ano está chegando - com dúvidas, e dívidas. A escolha é sua:
Que viagem você deseja fazer?... Com bússola, ou à deriva?... Que
bagagem você pretende continuar carregando?... Que óculos você vai
usar?... Vai acordado, ou dormindo?... Quer conduzir, ou vai na
carona?... Por onde você deseja seguir?... A escolha - a vida,
individual e solitária - é sua, de mais ninguém... e boa
viagem!...
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
(Des)encontro
-
Você por aq...
-
Olá, querida!... Há quanto tempo!... Vamos entrar nesse
restaurante, aqui, pra colocarmos as fofocas em dia... Arrume uma
mesa pra gente, enquanto eu me despeço de um amigo, no whatsapp...
...
-
Pronto!... Mas, antes de sentar, vamos fazer uma selfie...
-
Sou tímida, e além do ma...
-
Que nada! É rapidinho... Feito!
-
Por onde você tem andado, que não te vej...
-
Só um pouco... Quero postar nossa selfie...
...
-
Você tinha perguntado alguma coisa?...
-
Nem lembro ma...
-
Mais um instante, por que tenho de responder um comentário da
selfie...
-
O garçom está vind...
-
O que você pedir, eu aceito... Tem mais gente comentando a foto...
-
Eu só quero um copo d'ág...
-
Vamos fazer assim, então: pedimos água de griffe, e fazemos outra
selfie...
-
Desde que seja água líquid...
-
Você é muito engraçada, nem assim sorri...
-
Não conheço griffes de ág...
-
Deixa que eu peço... Garçom, traga água importada pra nós...
Quantos comentários sobre o meu cabelo... Preciso ir ao
cabeleireiro, ainda hoje...
-
Chegou a nossa ág...
-
Vamos fazer uma selfie, mas sorria, pra não ficar feia... Aproxima a
sua garrafa, e mostra o rótulo, pra todo mundo morrer de inveja...
-
Foi o melhor que pude faz...
-
Não ficou das piores... Você, sempre desajeitada... Só vou atender
uma ligação... Não demoro... Olá, querido!...
-
Cuidado para não tocar no...
-
Garçom, caiu o copo... Limpe essa sujeira...
...
-
Mais um pouco, tenho de falar com a prima de uma vizinha da
encarregada do buffet que contratei... Só mesmo o face, para salvar
a minha vida...
-
Eu ainda tenho alguns minutos, antes de voltar ao traba...
-
Você, sempre tão calada... Deixou o seu smart no carro?...
-
Não tenho carro, nem smartpho...
-
Nossa!... Li no whatsapp que você não estava bem, financeiramente,
mas não pensei que tivesse chegado a tanto... Se eu soubesse, teria
trazido um smartphone antigo, do ano passado, que as crianças
brincam, lá em casa...
-
Não é preciso, obrig...
-
Não seja orgulhosa... Olha a foto que a cunhada de uma amiga
postou... A nordestina é babá dos filhos dela... hahahahahaha
-
Isso é assédio mor...
-
Sei lá o que você está falando, mas a foto ficou ridícula... Essa
não arruma mais emprego... hahahahaha
...
-
Pelo menos, você tem facebook, né?...
-
Não, por que...
-
Eu não acredito... Você não muda, continua esquisita... Preciso
responder agora um convite, no email...
...
-
Os comentários das fotos não param... Estão perguntando se você
existe...
-
Responda que...
-
Pronto!... Tenho mesmo de dar um jeito no meu cabelo...
-
Eu preciso ir...
-
Nem tomou sua água... Fica quieta aí, que eu vou pedir a conta, pra
fazer uma selfie, por que tem gente perguntando quanto custa...
-
Tenho mesmo de ir...
-
Então, tá!... Amei ver você, minha amiga, amei nosso papo, amei
tudo... Beijo e me liga!...
...
domingo, 16 de novembro de 2014
De mão com a contramão
Sempre
repito que a primeira lição que aprendi foi não ser. Foram e
continuam sendo tantas lições pra eu não ser, que, às vezes, me
restam ínfimas escolhas. Confesso que, de quando em vez, tilinta,
bem no fundo de mim, um prazer intraduzível: não sou. De mão com a
contramão, continuo não sendo, e aprendendo ser quem (acho que)
sou. E não há solidão maior - pra mim, pelo menos -, enquanto a
maioria segue quem segue a maioria.
Acredito
mesmo que o maior desafio, nos tempos atuais, é não ser. Até
parece que a maioria ignora mesmo os assaltos constantes do
consumismo, com campanhas devoradoras de qualquer vontade: carro,
cerveja, comida, roupa, produto de alta tecnologia, adereço, joia
para animal de estimação, oferta de medicamento, calçado,
acessório, maquiagem, vitamina, roteiro de viagem, curso que ensina
trocar fraldas, batatinha com sabor de churrasco, emagrecedor
milagroso, livro de autoajuda, etc etc etc. Somos assaltados,
diariamente, mas ninguém quer saber - o que todo mundo deseja mesmo
é consumir, estar na moda, pra se ver sendo parte do que, na maioria
das vezes, nem sabe. Eufórica, a maioria segue, obediente.
Que
todo mundo quer ser diferente, todo mundo sabe - todo mundo quer.
Mas, na mesma proporção, todo mundo quer pertencer, fazer parte,
ser igual. Os modelos de heróis que temos hoje são frágeis,
efêmeros, não duram mais que uma manchete on line. Por isso, me
parece, a mesma via, que ainda mantém a placa antiga de mão dupla,
acaba se tornando mão única, onde a boiada passa, sem pensar, na
mesma direção, oscilando entre a euforia e a tristeza causada por
falta de euforia.
Seres
humanos que somos, queremos ser aceitos, mas, na maior parte do
tempo, pra sermos aceitos, não podemos ser quem somos. Por isso,
talvez, a maioria, pra não ficar sozinha, não ser descartada, deixa
de ser quem é, ou até se distancia de si mesma, sem saber quem é,
ou quem pode ser. Ignorando a sinalização de mão dupla, a maioria
segue a mão única, feito espectro, massa que se modela ao exemplo
da maioria que segue.
Eu
ainda não sei qual a maior solidão: quando não somos quem os
outros são, ou quando somos quem os outros não são. Talvez, eu
ainda descubra que a solidão, em ambos os casos, seja a mesma -
única, fatal. No fundo, penso eu, independente de quem realmente
somos, ou até mesmo quando escolhemos seguir a boiada de olhos
fechados, a solidão continua fazendo parte de cada ser humano.
Parece
que o ato de seguir pressupõe segurança - se alguém foi por aquele
caminho, e se deu bem, os demais terão o mesmo resultado. Quem dera,
mas nem sempre é assim. De repente, no meio do caminho e da boiada,
alguém resolve pensar: dana tudo, por que não há como voltar, nem
sair do meio da maioria, que não olha para baixo, para ver em quem
pisa. O que a boiada sabe fazer é passar - passar por cima de tudo
que a remeta à individualidade(solidão), ao pensar(mais solidão),
para continuar devorando o cardápio principal, que tem tempo de
validade cada vez mais reduzido. Não há tempo a ser perdido - a
ordem é seguir a mão única do consumismo que consome a maioria.
Antes, lentamente. Agora, com fome cega e voraz. E a boiada segue.
Por
isso, se você ousa equilibrar-se na contramão, aja com precauções.
Não se desespere com a solidão(companheira inseparável), nem
pense, por um momento sequer, que a via é mesmo de mão única, como
grita a boiada. A placa antiga continua sinalizando via dupla -
atitude depende de escolhas. Não se deixe levar pela boiada. Procure
enxergar você - a boiada não quer ser identificada individualmente,
o que mais deseja é parecer igual. Jamais feche os olhos, diante da
boiada que passa. Deixa passar. Feito no trânsito, cada vez mais
caótico, você não vai querer perder a vida, que é só sua,
seguindo na contramão, indo para o meio de uma boiada que nem sabe
pra onde vai, né?... A placa continua à beira dos trilhos: Pare
Olhe Escute (ainda não sei se esse é um conselho, mas eu continuo
tentando aprender).
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