quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Prometo não cumprir o que prometo


Todo final de ano, a gente dá uma sacudidela na historinha, que é sempre a mesma: prometo não cumprir o que prometo. E lá vamos nós prometendo coisas para realizarmos (?) no ano novinho em folha, que está por chegar. Não há limites.
Os mais econômicos e práticos tratam logo de buscar a agenda do final do ano passado, reforçar a promessa, soprando a poeira do tempo que passou. Promessa pra si mesmo é sempre uma coisa boa, saudável, acho eu. Penso que prometer aos outros, seja quem for, é comprometer-se demais com o que a gente nem imagina. Sei lá. Não costumo prometer coisa alguma – nem a mim mesma.
A verdade é que a maioria aproveita o finalzinho do ano, pra prometer que “ano que vem, sim, vou fazer aquela dieta”, ou “vou parar de beber”, “vou parar de fumar”, “vou abrir uma caderneta de poupança”, “vou procurar um trabalho que me dê mais dinheiro”, “vou escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho” (nem sempre nesta mesma ordem), etc, etc, etc e tal. Acho mesmo que promessas assim são feitas pra renovar as esperanças, ou a esperança de uma “vida nova”. Mas promessa é só promessa – cumpri-la é outra história. Continuamos agindo assim, até a morte, que chega, antes ou depois de qualquer final de ano...
Se eu prometo, nesta época, alguma coisa a mim mesma, lá no fundinho (da alma), sei que estou prometendo o que não vou cumprir. Mas preciso prometer alguma coisa a mim mesma, pra eu (quem sabe?) continuar acreditando em mim, e até depositando maior auto-confiança. Renovando esperanças (“ano que vem será diferente, bem melhor do que este”), eu crio o 'clima', junto com a euforia, de alguma coisa nova, especial. Assim, acho que a promessa 'funciona'.
Afinal, não podemos, a cada “virada de ano”, jogar todos os sonhos fora, e simplesmente direcionarmos nossas mãos vazias aos céus. Precisamos de alguma perspectiva concreta, certamente, mas, mais que isso, precisamos de sonhos - novos e antigos sonhos - vivos. Pra isso, na minha opinião, servem as promessas de final de ano. Por mais utópicas que pareçam, nossas promessas traduzem nossa vontade de viver, e continuar vivendo.
Há criaturas, como eu, que não fazem promessas a si mesmas, muito menos aos outros. Mas continuam (continuamos) alimentando sonhos, por mais “impossíveis” que sejam aos outros. Às vezes, fazer uma dieta pode ser mais fácil a alguém que nunca pensou nisso, do que a quem prometeu vencer a “façanha”.
Independente das promessas, ou dos sonhos, o tempo continua a ludibriar os relógios - voa, imperceptível, mais “impossível” que nossos sonhos, mais persistente que nossas promessas, mais ávido que nossas esperanças...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Procura-se

Procura-se gente que saiba:
- Limpar banheiros, com sorriso estampado de felicidade;
- Cozinhar pratos dos diversos países famosos do planeta, e esquecer a receita do angu que prepara em casa;
- Lavar roupa à mão, para “poupar a lavadora”;
- Trabalhar sem parar, sem cansar, sem reclamar;
- Obedecer a “patroa”, sem questionar;
- Não trabalhar maltrapilha, e fazer 'milagres' com a “merreca” que recebe, pra sempre agradecer, agradecer aos “bondosos patrões”;
- Criar os filhos e os gatos e os cachorros dos outros, sem pensar nos próprios filhos abandonados à fome, em casa;
- Ler e escrever, exclusivamente pra ler e anotar as ordens da “patroa”, sem ler e escrever mais nada, nem raciocinar;
- Nas refeições, esperar os patrões saírem da mesa, e comer os restos;
- Não ter problemas em casa, pra “não perder tempo de serviço, com choratéu”;
- Não assistir televisão, nem ouvir radinho de pilha (mesmo trazido de casa);
- Testemunhar tudo, “na casa dos patrões”, sem fofocar em lugar algum;
- Constantemente, “puxar saco” dos “patrões” - o dono da casa, a dona da casa, os filhos, os gatos, os cachorros, os periquitos;
- Não reclamar de dores no corpo, por causa do serviço pesado;
- Olhar, sempre, para o chão, e deixar tudo brilhando, ofuscando;
- Nunca ficar doente;
- Calar, sem que a “patroa” mande, e só responder: “sim, senhora”;
- Assumir toda culpa que lhe imputem – roubo de algum 'tesouro' na mansão, ou por “comer demais” durante o trabalho.
Ah, que tenha, também:
- Auto-estima 'no pé';
- Pouco estudo e pouca visão da vida;
- Alma escrava, sempre pronta ao servilismo cego;
- Boca fechada, pra comer pouco, e falar menos ainda;
- Disponibilidade de trabalhar 25 horas por dia, todos os finais de semana e feriados, sem exigir qualquer moedinha, ou agradecimento por isso;
- Somente o gosto dos patrões, pra aplaudi-los sempre;
- Vergonha na cara, pra não pedir aumento salarial, nem folga nos feriados e fins de semana.
Procura-se um robô (última geração de perfeição), com cara e jeito de gente, de preferência reprogramável, e com controle remoto, à função de todos os serviços domésticos – muito trabalho, pouca remuneração. Motivo: Princesa Isabel morreu, sem prever que a escravidão resistiria à própria história da humanidade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A “coisinha” da internet


Há pouco, eu estava batendo papo sobre a “coisinha” da internet, com um casal de amigos hippies, mas hippies mesmo. Não estou falando de internet, aonde todo mundo pode ser maluco, sem nunca ter sido. Às vezes, há gente que é “metida à besta” pra dedéu, pessoalmente, no cotidiano além (ou aquém) da internet, e, virtualmente, cria a imagem de ser gente boa, sem frescuras, etc e tal. Nada contra, desde que eu não tenha de subir junto no picadeiro. Quanto a mim, acredite se quiser, gosto de andar descalça mesmo, comer sem talheres – mesmo -, sou muuuuuuito chata, chata mesmo. Não sou assim por que estou, ou não, na internet. Sou só isso, ou nem isso – como costumo dizer.
Aliás (quer saber?), essa 'coisinha' da internet é mesmo 'uma faca de dois legumes': um é abobrinha, e o outro, jiló (brincadeirinha! hehehehehehehehe). A maioria das pessoas costuma dizer que se sente à vontade, na internet, pra ser quem realmente é, enquanto os outros reclamam, dizendo que essa mesma maioria mente tanto, e por isso se refugia na internet, por que, no “vamos ver de verdade”, não consegue manter suas mentiras por muito tempo. Acho que todo mundo tem razão – pronto! E a internet 'taí' pra atender “gregos e troianos” - gente que prefere 'viver' a mentira, e gente que prefere falar sobre a vida desses outros que preferem 'viver' a mentira. E não se fala mais nisso.
Por “transitar” em alguns chats, ouso comparar o ambiente com um programa de jurados. Sempre tem o “ranzinza Pedro de Lara” em ação, e também não podem faltar o “justiceiro José Messias”, a “chorona Marly Marley”, e a “excêntrica Elke Maravilha”, na companhia de outros “tipos convidados”. Quem esquece essas 'figuras' que marcaram e ainda marcam a televisão brasileira?... Acho que eu seria, num cantinho qualquer desse picadeiro, o bobo da corte, a sempre idiota que acredita e leva a sério Papai Noel até sem barba. Fico observando (aprendendo), atentamente, e lendo coisas assim (uma das mais recentes): "kem mandou nao por camisinha no mouse?"
Em outras “salas virtuais”, não aleatórias - escolhidas por mim -, participo, interajo, por me sentir à vontade pra continuar sendo a maluca que sou, nesta minha vidinha cotidiana, nada cotidiana. Até brinco com aqueles que querem criar, ou manter, uma imagem – brinco, por que somos amigos, e sei que não levam adiante a brincadeira, não desrespeitam, nem zombam de sentimentos.
Até que os relacionamentos virtuais fazem bem. Tenho uma amiga que está “namorando” um indiano que vive na Rússia, e – pasme! - fala português fluentemente, por que sonhou um dia conhecer Portugal, e pretende casar com ela no Brasil (ignorando, certamente, que minha amiga mora com os dois filhos e o marido). Poxa, todo mundo precisa acreditar em alguma coisa, pelo menos no Papai Noel (principalmente nesta época do ano). Não acha?...
Ah, mas o mais importante é ser feliz – não importa como, nem por quanto tempo!... E ainda dizem por aí que todos nós podemos ser felizes, sem fazer a infelicidade do outro. E eu pergunto: Será?... Mas a festa tem de continuar, não é mesmo?... Quem mais entra na 'dança' dessas máscaras tão descartáveis, nem sempre indolores?...

domingo, 6 de dezembro de 2009

O mês de ser “bonzinho”

Acho que dezembro é mesmo o mês de ser “bonzinho”. A maioria das pessoas passa o ano inteirinho, sem pensar na maioria das pessoas que faz parte da vida dela. Chega dezembro, sente vontade até de “beijar o português da padaria”, como canta Zeca Baleiro.
Dezembro é (quase) mês da riqueza dos pobres, que recebem doações inesperadas. Chega às favelas, todo lixo dos bairros de gente rica, ou 'ascendente ao posto'. São roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, e até alguns eletrônicos – tudo o que foi substituído por outros produtos de melhor qualidade. Ah, muitas cestas básicas são distribuídas aos famintos, em dezembro. Até parece que os pobres coitados só se alimentam, um mês a cada ano. Nos outros onze meses, eles sobrevivem, reviram lixeiras de restaurantes, onde a gerência manda os funcionários jogarem os restos de comida fora, por que é proibido fazer doação de alimentos perecíveis (perigo de contaminação – quanta ironia!).
Alguém pode até dizer: “Que bom que existe dezembro!” Nada contra, sinceramente. Mas não consigo deixar de pensar, vivenciando dezembro, nos outros meses de cada ano que passa. Tá certo que nem um outro mês encerra o ano, nem faz lembrar mais a história cristã. Sobre isso, sem me meter em religião, ou crença, imagino que Jesus Cristo não praticava bondade, caridade, solidariedade, amor ao próximo, um mês a cada ano. Confesso que não conheço tão bem a bíblia, mas também nunca ouvi alguém (que tenha lido toda a bíblia) contar que Jesus e os apóstolos ficavam 'de férias', onze meses por ano, da missão cristã.
Agora, me vem uma idéia maluca: Será que introjetamos tanto a imagem do Papai Noel, que aparece e reaparece somente no mês de dezembro?... Conheci um velhinho que vestia-se de Papai Noel, todos os anos, e chorava miséria, nos outros onze meses. Um dia, perguntei-lhe por que eu não o via durante o ano, senão só em dezembro. E ele me respondeu, cabisbaixo: “Só em dezembro, eu tenho trabalho e salário. Nos outros meses, eu quase nem vivo”. Fiquei sabendo que o velhinho morreu, sozinho e abandonado num barraco – não era dezembro, nem ele estava vestido de Papai Noel...
Até é imaginariamente compreensível o que chamo de 'febre de bondade', que 'acomete' a humanidade, neste mês tão especial. Acho mesmo que é somente em dezembro que a maioria das criaturas humanas se permite viver a própria humanidade, talvez, justamente por que a maioria também está mais receptiva. O que começa numa iniciativa pessoal torna-se, em pouco tempo, uma troca, e depois em moto-contínuo. É assim que surgem as grandes epidemias – neste caso, 'epidemia do bem', com “tempo de vida” previamente conhecido (até 31 dias).
Em janeiro, me parece, a maioria das pessoas desperta (do 'entorpecimento de bondade', ficam as lembranças), com as cobranças para pagamento das contas feitas a crédito, no final do ano. Fevereiro é mês de carnaval, e poucos ainda falam no “natal passado”, ou na “festa da virada de ano”. Com o carnaval, vem o movimento, e tudo volta, senão ao 'normal', ao ritmo habitual: trabalho, escola, mil e uma correrias.
Em um dia qualquer, num desses meses que não são dezembro, você (ou alguém) encontra um maltrapilho (irreconhecível à tua memória) que te cumprimenta, com todo sorriso que pode te dar, com os poucos dentes que resistem bravamente à cárie. Você, sem saber quem ele é, julga apressadamente (não há tempo) tratar-se de algum assaltante, e atravessa a avenida às pressas. Você jamais lembrará (nem no próximo dezembro) que foi você mesmo quem foi ao barraco do maltrapilho desconhecido, e presenteou-lhe com a cesta básica que recebeu de um fornecedor, mais algumas “tralhas” que a tua família tirou dos armários, para dar lugar aos novos produtos comprados, recém lançados na Capital.
Não demora muito (“o tempo voa” - cada vez mais pesado), e outro dezembro chega. Como agora. E você se permite, mais uma vez, olhar para o lado, enxergar a criança que brinca na calçada, o doente arrastado por um par de muletas emprestadas, o velho que olha para o nada, sozinho, no banco da praça. E tudo isso, mais uma vez, faz brotar a sensibilidade do teu coração humano, que só tem uma fresta aberta, no mês de dezembro. Se você for mais longe no pensamento, saberá que nada muda, neste mês tão especial. Dezembro só é especial, por que você, por que eu, por que a maioria de toda gente resolvemos, juntos, torná-lo especial. Se você pensou até aqui, deixa dezembro ser dezembro, bem do jeitinho que é, mas vá adiante: se permita à humanidade, também, em janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, e outro dezembro, e mais um janeiro, e outro fevereiro, e março, e abril, e maio, e junho, e julho, e agosto, e setembro...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Carta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

Na ânsia de ter meu pedido atendido, espero, nesta data, ser uma das primeiras cartas a chegar aí, seja aonde for. Velhinho, do jeito que te “pintam” por aqui, você deve ter “memória curta”, curtíssima – melhor garantir logo um lugarzinho pra mim, na tua inimaginável lista.
Papai Noel, o que lhe peço não é um saco cheio – de brinquedos. O que quero (preciso), de presente, neste Natal, é um saco vazio – bem assim, como o seu, mas não cheio. Eu até entendo por que você vive de saco cheio (isso ajuda, pra que você atenda meu pedido?).
Tô precisando demais, demais mesmo, de um saco beeeeeeeem grande, e vazio, e de preferência sem fundo, Papai Noel. Não tenho sequer um saquinho, pra suportar:
- gente mal-humorada,
- gente estressada, que só reclama, e nada faz,
- gente que não tem o que fazer (será?), e fica me “observando”, me “catalogando” (sou pequena demais pra catálogo),
- gente que me procura pra alimentar fofocas,
- gente que quer me envolver em situações que sequer entendo,
- gente que acha que é “inteligente” o bastante, pra continuar sendo ignorante e orgulhoso,
- gente que quer me convencer que o melhor é viver o que chama “possível”,
- gente que (ainda) quer me moldar a algum padrão previsível,
- gente que acha que o mundo gira em torno do próprio umbigo, e que toda gente deve segui-lo,
- gente que me confunde com lixeira, ou privada,
- gente que me trata como “cobaia”, e fica me “testando”,
- gente que quer “brincar” de joguinhos comigo, dizendo: “eu faço isso; você, aquilo” (script tão previsível de dança de marionetes).

Se puder, Papai Noel, me presenteia também com um outro saco grande, vazio, sem fundo, pra eu dar a alguém que conviva com as minhas chatices cotidianas. Aos que perturbam a vidinha dos outros, dá-lhes logo um espelho, Papai Noel, como aquele que o senhor me deu, há tanto tempo, e ainda utilizo.

Por favor, querido Papai Noel, atenda meu pedido, que eu prometo continuar me descomportando sempre, como fiz até aqui. Já ganhei, de presente, do senhor, roupas, brinquedos, até material escolar. O tempo passou, Papai Noel. O que peço hoje é só o que preciso: um cadinho de paz...

Ah, se não for pedir demais, Papai Noel, gostaria muito que o senhor me devolvesse um sonho – só um pedacinho de um daqueles sonhos que eu tinha, quando criança. Há muito tempo, não durmo o sono dos sonhadores... A sirene da vida que passa pela minha visão estrábica já não me permite sonhar... é só o que peço.

domingo, 29 de novembro de 2009

Filhos da mãe


Eu soube, há pouco tempo, por uma pesquisa divulgada no País, que 20% da população brasileira está nascendo sem pai. Milagre?... Nada disso. Se alguma seita religiosa, ou igreja, afirmar que é “obra do senhor”, não acredite – nem na “obra”, muito menos no “senhor”, que, no final do 'espetáculo', passa sempre a “sacolinha do dízimo”.
É que o nome do pai já não aparece com tanta frequência, nos registros de nascimento. Obviamente, a pesquisa não inclui os brasileirinhos que não têm certidão de nascimento – sem pai, nem mãe, literalmente, ou, melhor, judicialmente. Diante disso, eu fico – ou vou – pensando: O que pode causar a ausência de reconhecimento paterno? Tanta coisa, tanta coisa – tanta coisa eu imagino, sozinha (imagine se eu imaginasse com mais gente imaginando).
Cá entre nós, sabemos que muitas adolescentes engravidam – e ainda são expulsas de casa pelos pais, ou obrigadas a casar, quando o 'adolescente pai' é de família conhecida (e com alguma grana, obviamente). Nossa! (tradução de “uau”, em filme norte-americano) Como repetimos a história dos tataravós de nossos bisavós!... A verdade é que essas “mães impetuosas” têm filhos sem pais, na maioria das vezes.
Não vou 'baixar' aqui o moralismo que eu condeno, na prática cotidiana da minha vidinha insignificante. Acho mesmo que o velho discurso de “moça de família” etc e tal envelheceu tanto, ficou “gagá”, e um dia morreu espirrando, ou engasgado com uma casquinha de pão francês (ou era noite?).
A instituição familiar começou a mudar (se bem lembro), quando surgiu o famoso e inesquecível “desquite”. Mulher desquitada era mal-vista, mal-falada – acabava mal mesmo, em tudo, por causa da discriminação. Nunca conheci um homem mal-falado. Você conhece algum?... Apresente-me. Com o tempo, a mulher desquitada passou a ser vista como “pobre vítima da natureza” (“Vingança maligna!” hehehehehehehehehe)
Ah, mas depois evoluímos – fomos parar no “divórcio”. Aí, a 'coisa' da separação de casais virou moda. Lembro que eu tinha colegas de aula que se vangloriavam, e mantinham uma empáfia especial (e inesquecível), para dizerem: “Meus pais são desquitados”. Mas, no olhar sarcástico, elas diziam mais: “Meus pais são desquitados; os teus, não”. “De cara”, eu nunca entendi como a separação dos pais podia ser razão de troféu de orgulho, ou medalhinha de vaidade, àquelas filhas. Como meus pais morreram sem desquite, ou divórcio, acabei por não saber o que orgulhava tanto aquelas garotas.
Mas - moda vem, moda vai - agora já nem se casa mais, pra separar depois. E o Brasil, como o resto do mundo, vai somando altos percentuais de filhos da mãe. Do pai, a presença (essencial = 'espermatozoidal') de participação – e não precisa mais se falar sobre o assunto. Se muitos nascem sem pais, em condições de miséria, há outros filhos de mulheres que levaram a sério a “revolução feminina”, e resolveram colocar em prática os discursos feministas.
No meio desse “samba do crioulo doido”, a família, como instituição, tem hoje diversas versões, que multiplicam-se a cada instante, para todos os gostos, ou desgostos. Há “casamento de fachada”, pra manter a imagem de família. Há filhos da mãe, que nem sonham com o nome do próprio pai. Há filhos criados pelo pai, por que a mãe fugiu de casa. Há filhos com duas mães, sem pai. Há filhos com dois pais, sem mãe. Há pai sem mãe. Há mãe sem pai. Há filhos sem pai, nem mãe. Há “pães” também. O que sei é que há, e há muita gente, em todo lugar – e, onde há gente, a gente sabe que foi feita em nome do pai, e da mãe. Um dos dois pode até negar, mas isso (ainda) não mudou: a gente continua nascendo de duas gentes, e a gente, com outra gente, vai fazendo mais gentes, neste universo de gentes – gentes tão diferentes, e tão gente. No meio desse mundaréu de gente, alguém (ainda) grita: “Tem gente!!!”

… Sobre o que mesmo eu comecei escrevendo?... Putzzzzzzzzzzzzzzz

Ah, sim! (Oh! Não!) Eu escrevia que eu soube, há pouco tempo, por uma pesquisa divulgada, que 20% da população brasileira está nascendo sem pai. Milagre?... Nada disso. Se alguma seita religiosa, ou igreja, afirmar que é “obra do senhor”, não acredite – nem na “obra”, muito menos no “senhor”, que, no final do 'espetáculo', passa sempre a “sacolinha do dízimo”... (Você não vai querer reler esta 'merda', né? - ou vai???)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desmitificando Clarice Lispector – O começo do fim


Nos meus dez anos de idade, a escrita de Clarice Lispector me foi apresentada por uma professora, que, analisando as minhas “composições” (segundo ela, na época, “nunca narram fatos”), me levou à biblioteca da escola, dizendo: “Eis aqui alguém que escreve como você”. Com o livro nas mãos (“Perto do Coração Selvagem”), agradeci em silêncio, pois não sabia do que exatamente a professora falava. A partir dali, me identifiquei com Clarice Lispector, minha companhia constante até hoje.
Naquela época – e faz tanto tempo! -, eu não tinha acesso à informação, no máximo, à edição de domingo do Correio do Povo (ainda tamanho standard, grandão), aonde eu me deliciava com Mário Quintana, no Caderno H, título, inclusive, de um livro dele, posteriormente lançado. Mas não é sobre Quintaninha que quero escrever – qualquer dia desses, conto pra você uma entrevista que tive com o escritor.
Pra você ter uma idéia da minha desinformação, só lá pelo final de 1978, soube que Clarice Lispector tinha morrido, em dezembro de 1977. Confesso que me doeu saber que não poderia alimentar sequer a possibilidade (esperança?) de conhecê-la, olhar profundamente nos olhos profundos dela.
Sem vaidade alguma, acho que já li e reli (tantas e tantas vezes) todas as obras editadas de Clarice Lispector, junto com livros de autores que falam sobre a “veia literária” dela, e mais matérias a respeito da escritora, incluindo até aquelas notinhas pequenas, em “pé de página”. Aliás, este ano, a atriz Beth Goulart escreveu, produziu, lançou e encenou a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, no Rio de Janeiro. Escrevo isso, pra que você saiba do meu interesse por toda obra literária da ucraniana que tornou-se nordestina brasileira, e morreu carioca.
Talvez, por identificar-me com a escrita de Clarice, busquei 'conhecê-la', do jeito que me era, e ainda me é, possível: muita pesquisa. Pouco me interessei sobre o que escreveram ou depuseram sobre ela, por que o “mito Clarice” foi tornando-se, a cada leitura minha, gigante, e, por fim, um “monstro”. Diante do “monstro sagrado”, resolvi fazer o caminho de volta, e reler todas as cartas dela a tanta gente – cartas pessoais, íntimas mesmo (publicadas em livros, obviamente). Percebo que, de tempos em tempos, outras correspondências de Clarice Lispector são reveladas, com a edição (e todo lucro) de mais uma obra, justamente da escritora que morreu de câncer, em condição de indigente, num hospital público do Rio de Janeiro. (Ah, Clarice, se um dia você sonhasse que daria “mais lucro” morta do que viva!... - a quem: ao filho Paulo, ainda vivo?)
…Afinal, quem foi, quem é essa mulher até hoje chamada “hermética”?... Que alma é essa que deixou escrito: “Cuido dos meus filhos. Cuido da casa. O resto é mito”?... Que sonhos tinha?... Alimentou vaidades?... O que lhe fazia mal?... O que lhe fazia bem?... Como o ato de escrever se processava nela, que tentava traduzir isso, buscando compreensão?... Perguntas... Perguntas... Gosto mais das perguntas do que das respostas, que limitam e acomodam. Foi a própria Clarice quem escreveu “eu sou uma pergunta”. E eu respondo à ela: Também quero que você continue sendo uma pergunta, Clarice – sem mitificação.
Minha intenção, aqui, é uma das mais ousadas, pois pretendo percorrer a contramão de tudo o que já li e reli sobre a escritora, partindo da própria Clarice Lispector. Como qualquer ser humano, também ela escrevia cartas, sem imaginar que estivesse se revelando tanto, pois mantinha correspondência com pessoas com quem, provavelmente, buscasse, se ainda não tinha, intimidade humana. Foi Clarice quem deixou escrito que “nasci com o desejo de pertencer”. Parece que era mesmo o que ela mais queria.
Pretendo desmitificar a 'idéia' sobre Clarice, ou, senão, pelo menos, fazer pensar a respeito – não macular imagem, ou destruí-la (quem sou eu pra isso?) -, com a mais profunda intenção de, depois de tanto tempo, alguém acolher Clarice Lispector, quem ela realmente foi (é), longe da mitificação toda, que a fez silenciar. Nas minhas leituras e releituras, percebi que, aos poucos, Clarice foi se desintegrando. Estilhaçada, viveu sem rumo, correspondendo (ou, pelo menos, tentando isso) à imagem mitificada que deram-lhe – talvez, a única coisa que tenha recebido, depois de querer e esperar tanto.
Não pretendo, nem quero definir Clarice Lispector (ser humano algum é catalogável). Seria reduzi-la. A intenção é desmitificar a imagem que permanece dela entre nós. Se quiser acreditar no que escrevo, pesquise, e você também terá a revelação: a vida de Clarice não foi feita só de sombras, escuridão aterradora. Não. Clarice Lispector, longe da catalogação de “monstro sagrado”, foi ser humano – como você, como eu -, numa vida de luzes e sombras, risos e lágrimas, sonhos e desenganos. Ela ousou viver. E viveu tudo intensamente, me parece – tão intensamente, que bebeu até a última gota de sensibilidade. Conheceu a fragilidade mais recôndita, e não soube mais o que fazer com a vida a que se permitiu. Longe dos próprios sonhos de menina, deixou-se levar (pra onde, Clarice?) por uma realidade que se lhe apresentava cada vez mais estranha.
Deixarei meu texto na contramão, aqui, em quatro postagens, previamente escritas, após intenso e intensivo trabalho de organização, que demandou tempo, distanciamento e racionalidade. Não digo imparcialidade, por que tenho um só objetivo, neste trabalho que pretendo continuar, além do blog. Em uma semana, pretendo 'fechar' o ciclo da (tentativa de) desmitificação. Mas continuarei tentando ouvir (não interpretar) o silêncio de Clarice Lispector... (“Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras.”)