quinta-feira, 24 de março de 2011

O “Deus” de Maria

Maria perambula, todos os dias, pelas ruas centrais da cidade. Arrasta-se com dificuldades, carregada pelas pernas com trombose e inchaço constante. Banguela, Maria sorri. E me conta que já não mora mais em barraco de plastico preto, em chão de terra batida. Não. Maria tem casa, agora, lá na favela.
Maria tem dez filhos. “Toda vez que embarrigava, eu não tomava aquelas xaropadas, pra tirar os inocentes” – me relata Maria, a velha que quase ninguém vê. Banguela, Maria ainda sorri. E me conta que a maioria dos filhos foi morar no litoral, mas Maria ainda ajuda alguns que ficaram por perto, deram-lhe netos - “umas riquezas de crianças”.
Percebendo a dificuldade de caminhar de Maria, principalmente quando atravessa as ruas, eu alerto: Precisa se cuidar mais, Maria! E ela me responde, com a ingenuidade do sorriso banguela: “Não preciso. Deus cuida!” E Maria me conta que não frequenta igreja alguma: “Na igreja, querem dinheiro, e eu não tenho dinheiro pra dar. Deus me ajuda com o que preciso. E só.”
A velha Maria foi analfabetizada – vida afora -, nunca leu, ou escreveu, uma oração, uma prece suplicante. Mas Maria me revela, enquanto dá mais uma “paradinha na calçada, pra tomar folego”, que “nem preciso pedir, por que Deus me conhece, e me dá o suficiente pra viver”. De olhos fechados, cabisbaixa, a velha Maria ainda sorri o sorriso banguela da fé sem nome, sem explicação alguma.
Maria me conta que vai buscar, a pé, frutas, no interior, pra vender na cidade. “Tem gente rica que come as frutas, e fica me devendo, mas não tem importancia” – me diz o sorriso banguela. E ninguém fica sabendo que Maria vai, toda semana, no “postinho de saúde”, com uma só esperança: “Vou lá saber se os cientistas descobriram um remedio pra essa trombose, que é a minha unica dor na vida”. Mas o remedio não chega, e Maria segue perambulando, na companhia da dor, que, à noite, quando Maria deita, lateja, “arde fininho, cortando minhas pernas”.
Ao atravessarmos a rua movimentada, sem pensar, eu ainda repito à Maria: Precisa se cuidar, Maria! E Maria arregala os olhos miúdos, mostrando timidamente o sorriso banguela, para repetir: “Já falei que Deus cuida, e Ele não faia”.
Na esquina, Maria limpa, desajeitadamente, a mão direita no vestido roto, e estende à minha mão. Cumprimento Maria, como quem dá a mão à esperança cega, sem razão alguma para existir (como o é toda esperança genuína). E Maria me mostra, pela ultima vez, o sorriso banguela silencioso mais bonito que já vi...

(Ah, velha Maria, quem dera eu – só por um dia! – sentir teu “Deus” cuidando de mim, me dando o suficiente para viver. Não duvido de tuas palavras, Maria. Só queria senti-las – apenas por um dia, Maria. Quem dera eu repetir tuas palavras sentidas, Maria, e também dizer que “Deus não faia”...)

terça-feira, 22 de março de 2011

Você escolhe

Ah, por favor, não venha com aquela conversinha popular de que “o destino quer assim, a vida me leva”. É você quem escolhe sempre. Comigo acontece o mesmo. E já não posso responsabilizar, ou culpar, o outro, os outros, pelas escolhas que faço, ou deixo de fazer. Você também não.
Eu escolho
Tu escolhes
Ele escolhe
Nós escolhemos
Vós escolheis
Eles escolhem
E isso é tudo – sempre igual -, a vida inteira (haja o tempo que houver, ou não).
Se fazemos boas ou más escolhas?... Sempre ficamos sabendo – logo, logo depois da escolha que fazemos. As consequencias chegam nos engasgando, enquanto ainda pensamos engolir cadinho mais da vida. E ninguém precisa dizer que a escolha é nossa. A escolha continua sendo nossa – quando o silencio paira absoluto.
Mesmo quando escolhemos não escolher – fazemos a nossa escolha. A escolha pode ser diversificadissima: para o bem, para o mal, para o desconhecido, para o que nem queremos saber. Escolhemos – do mesmo jeito.
Há algumas escolhas fáceis, simples – você também deve, como eu, identificá-las logo, ‘de cara’. Outras escolhas são dificilimas, complicadas, e acabam sendo mais complicadas ainda. Mas, ainda assim, escolhemos – sempre. Quando dizemos a ‘celebre’ frase “você escolhe por mim” – o peso da nossa escolha é maior ainda, por que o outro, no maximo, só sabe ser ele mesmo (o outro).
Pra justificar nossas escolhas de cada dia, temos um ‘leque’ de outras tantas escolhas por fazer. Dispomos de ‘n’ scripts da historia humana. Podemos atuar como vitimas, algozes, santos, cafajestes, e tantos outros papéis que herdamos da humanidade que nos persegue, na memoria camuflada de um tempo que voa, quebrando ainda mais o quebra-cabeças da vida.
Quantas vezes, sentimos vontade de não fazer escolhas. Mas temos de fazer – não há para onde ir, ou fugir, se não escolhermos. Jamais saberemos como seria, se tivéssemos escolhido outro rumo. Mas, depois de algum tempo, nem mais pensamos sobre as escolhas que fizemos amiúde, pela vida afora. E outras escolhas continuamos fazendo – até quando a morte nos surpreende, e ficamos (de repente) sem uma só escolha.
Escolher entre o que nos faz mal e o que nos faz bem nem é exatamente fazer uma escolha. Ainda assim, precisamos escolher – e escolhemos. Às vezes, a escolha para o nosso bem (caminho mais natural) não resulta em sucesso. Daí, temos de buscar saídas – se não há mais portas, pelas janelas mesmo. E acabamos tropeçando em escolhas inimagináveis. E nos vemos forçados a fazer mais escolhas. E seguimos o exercicio de escolher – sempre.
Por isso, essa conversinha de que “estava escrito, o universo conspirava, o destino havia traçado” não serve mais nem pra canção de ninar. Pelo contrario. Acorda os que dormem pra não viver a realidade desperta, enquanto os insones escolhem não fazer escolhas, até que o dia amanheça...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Nada com nada

Tenho ouvido muita gente reclamar que a maioria das pessoas não quer nada com nada. Também, tenho observado muito isso, mas nem tanto. Até discordo. Nada com nada é exagero. Acho que a maioria não ‘tá’ a fim de trabalhar, estudar, cumprir deveres, obrigações, assumir e cumprir compromissos. A maioria quer curtir – não sabe, às vezes, nem o quê, mas sabe que quer curtir a vida. Se, em vez de contratar algum serviço, ou pedir ajuda, você oferecer uma viagenzinha de avião – ao entregador de jornal, que sempre joga o diario na poça d’agua, ou ao empresario que te cobra juros exorbitantes -, todo mundo vai ‘estar a fim’. Nada com nada só aparece, quando algum serviço precisa (ou precisaria) ser feito.
Hoje, por exemplo, atendimento é sempre feito de maneira descompromissada, irresponsavel até. Refiro-me a atendimento obrigatorio – eu, que prefiro lojas de departamentos, ou (como são chamadas também) de auto-atendimento.
Duvido se você nunca se deparou – ou até protagonizou junto – com uma dessas cenas:
Na farmacia:
- O remedio que o senhor pediu está em falta. Quer outro? Temos varios, baratinhos. Afinal, nunca se sabe quando vai adoecer, não é mesmo?...

Na loja de ferragens:
- Torneira dupla?... Tipo o que, por exemplo?
- Tipo uma torneira dupla mesmo...

Na loja de confecções:
- Eu sugiro que o senhor leve preto – é mais bonito que o azul...
- Eu quero o azul, por que o preto já tenho. Por isso, não pedi o preto.

No escritorio:
- Você já acabou o seu trabalho?... Então, vem fazer o meu, que estou atrasada para a academia...

Na creche:
- Seu filho não quis comer, mas, em compensação, dormiu o dia todo...

No caixa da agencia bancaria:
- O senhor aguarde aqui no balcão, por que caiu o sistema, e eu vou aproveitar para fazer mais um lanche...

O motorista, dirigindo-se aos passageiros, no onibus:
- Vocês se segurem nos bancos, por que vou acelerar. Estamos atrasados, e não posso perder esse emprego...

No pronto socorro:
- A senhora seria atendida agora, se estivesse desmaiada, ou quase morta. Se não está, trate de não reclamar, e aguarde a sua vez, sentada, por que vai demorar...

Atendente da empresa aerea, justificando mais um atraso no voo:
- Se a aeronave da outra empresa decolou, a gente não tem nada a ver com isso...

Na loja de calçados:
- O senhor não prefere levar este sapato mesmo?... Ficou maravilhoso no seu pé. O outro que o senhor quer experimentar vai me dar muito trabalho, pois está no alto daquela escada... Está vendo?...

Na feira:
- É liquidação, madame!... As frutas não estão podres – só estão pretinhas e moles, mas nem cheiram mal. Pode ver...

O pintor de paredes ao provavel cliente:
- O senhor tem certeza que quer pintar todas as paredes?... Ah, mas aí vai dar muito trabalho... Não vou pegar o serviço, não...

Na funeraria:
- No proximo caixão que o senhor comprar aqui, prometo dar desconto...

No hospital:
- Não fizemos o exame de alergia à penicilina, por que estavamos atrasados e com pressa. Havia muita gente para ser atendida. Lamentamos a morte da paciente.

Pra gente não confundir pobre com humilde – o mendigo fala:
- Esse pão fatiado eu não como, dona!... Quero não!...

... E, assim, quem não quer nada com nada vai “curtindo a vida”, “tirando uma onda”, enquanto as silenciosas vitimas continuam baixando a cabeça, aceitando, cumprindo o papel que acham encaixar-se: eternas vitimas do seu proprio silencio...

terça-feira, 8 de março de 2011

A falta da falta

Lembro que, quando criança, eu ficava de olho em tudo e em todos: observava os adultos, sem pensar se um dia eu me tornaria adulta. Eu olhava tudo e todos com assombro – lembro até hoje de tantas pessoas que (hoje sei) ficavam sem jeito, diante do meu olhar. Eu queria compreender o que o meu olhar infantil não compreendia. Foi nessa epoca, inclusive, que passei notar que havia gente que se alimentava nas latas de lixo, pelas ruas, enquanto outras pessoas (vizinhas da casa de minha familia) não podiam alimentar-se, por problemas de saúde. E eu-menina questionava meu pai sobre isso, entre tantas outras coisas, com quem eu podia pensar alto, quando eu nem sabia que rabiscava pensamentos. Em vez de me dar respostas (prontas e definitivas), meu pai me questionava, fazendo-me pensar – eu, que nem pensar sabia.
Aos poucos – lentamente mesmo -, fui tentando passar a limpo alguns pensamentos meus, elaborando-os, talhando-os com alguma logica, não para convencer, mas na (sempre) tentativa de me fazer compreendida – por mim mesma, primeiramente. Acho que não saí dos rabiscos, até hoje. Talvez, não haja tempo. Não importa. Continuo olhando tudo e todos com assombro e deslumbramento, como os primeiros olhares que recordo que tive, quando me enxerguei projeto de ser humano.
Ainda hoje também, continuo vendo gente com falta de, enquanto outra gente tem de sobra, mas falta. E essa falta da falta é que – acho – faz falta mesmo. Complicado?... Que nada!... Pode ser simples – fica por sua conta e risco, se seguir viagem comigo...
Por todos os cantos, encontramos criaturas que sempre têm o que não querem, e querem ter o que não têm. Nós todos somos assim – em algum momento da vida, ou a vida inteirinha. Se não são os pais, os filhos, os sogros, os primos, os cunhados, os espiritos (nem tão santos), nós queremos sempre o que brilha nas vitrines da vida. Ah, aquela familia do comercial de margarina, sim, seria a nossa familia ideal... E sofremos a falta do que não temos - às vezes, não podemos ter. É tamanha força empreendida, que chegamos esquecer o que temos, por que não nos faz falta. Pode ser até que não nos faça falta, por que temos – não pensamos nisso...
Na minha profissão de ‘operaria das letras’, mantenho contato com “tanta diferente gente”, e não deixo de observar a falta da falta. O que alguém daria tudo pra ter, o outro joga fora – antes, faz até questão de quebrar, pra depois jogar no lixo. Fazemos isso, o tempo todo, mesmo quando (quase sempre) não nos apercebemos. É fato. É certo que tem muita gente, também, que, numa necessidade, lembra o que jogou fora, e lamenta ter de gastar, na compra de um outro objeto novo.
Não pense você que gosto de guardar entulhos. Não tive uma avó que me dissesse: “Quem guarda o que não presta, sempre tem o que precisa” (ou algo assim). Acho que tudo o que é utilizável é pra ser utilizado – senão por mim, por alguém que sinta falta. Se eu não utilizo mais – por qualquer motivo -, alguém, com certeza, vai utilizar, por que a minha intenção é passar adiante. É tamanha vontade – acredite você -, que eu não me apego nem aos livros que gosto. Já repassei tantos, que até esqueci – prefiro presentear que emprestar (a quem, como eu, gosta de ler), na maioria das vezes.
Muita gente fala em “consumismo desenfreado” – disso, realmente não sei. Se tem freio, ou nunca teve, o consumismo, acho, sempre existiu – agora, em maior proporção, por causa do aumento das ofertas. Nada além. Mas o que acontece é que, no meio disso tudo, existe a falta da falta. Quando não temos, sentimos falta. Quando temos, sentimos a falta da falta de ter. E como isso tudo faz falta...

sábado, 5 de março de 2011

“ad referendum”

“ad referendum”:
- Pensar no outro – seja o outro quem for – não vale a pena;
- Crer e alimentar sonhos é perda de tempo;
- Competir é o mais importante somente para perdedores;
- Amor é coisa de livrinhos antigos e antiquados;
- Lugar de saudosista é em museu;
- Se alguém te bate na cara, oferece as tuas duas mãos, numa porrada;
- Lograr rende mais lucros;
- O importante é levar vantagem, sempre;
- Homem que chora é ‘viado’;
- Mulher que chora é atriz;
- Amigo hoje – inimigo amanhã;
- Burro é que gosta de trabalhar;
- Fuja de “beleza interior”;
- Vender a alma é sempre o melhor negocio;
- Amizade só rima com utilidade;
- Aceite apenas alma depenada – ao molho pardo;
- Ler e escrever é coisa de quem não tem o que fazer;
- Se alguém te fala coisas lindas está querendo alguma coisa de você;
- Nada mesmo é de graça;
- Perdão é coisa de religião;
- “Caiu na rede é peixe” - até sem preservativo;
- Guardar boas ou más lembranças é coisa de aposentado;
- O rapaz do caixa te deu acima do troco justo? Azar o dele – sorte sua;
- Justiça e todos os filhos da bondade só existem em dicionarios que ninguém lê;
- Se você não atropela o animal, na estrada, outro motorista vai atropelar;
- O que você acha que enxerga é que é verdade absoluta;
- Coração? Só se for recheado, e bem assado – não aceite outro;
- Quem tem baixa auto-estima é que conversa com miseraveis;
- Trabalhe sempre em equipe, e deixe que os outros façam tudo;
- Exercite a mentira, até você se convencer que é verdade absoluta;
- Sentimento negativo é raiz de força;
- Sentimento positivo é fraqueza de ‘sentimentalóides’;
- Se alguém grita, grite mais alto ainda;
- Pense só em você, por que cada um só pensa em si mesmo;
- O tempo que se dane.
(etc etc etc e tal)

Que conste o adendo, nos anais:
Ouço isso, cotidianamente. Mas não acredito em nada disso. “Dixi”.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A leveza dos ‘enta’

Depois que se chega aos ‘enta’ – não tem mais jeito. Os quarenta anos de idade chegam rapidinho – os cinquenta, os oitenta, mais rapido ainda. E não há botox, ou cirurgia plastica, que interrompa, ou retarde, o calendario.
Confesso que não tenho “nóia” em relação à idade – minhas “nóias” são outras (piores, talvez). Acho até que existe uma certa leveza nos ‘enta’. Já não existe tanta cobrança – externa e interna. Não há mais aquela ansiedade toda em querer conhecer, saber, vivenciar, por que já se conhece, já se sabe, já se vivencia, e, por isso mesmo, se guarda alguma coisa de sabor e dissabor, graça e desgraça da vida.
Já faz algum tempo que cheguei nos ‘enta’. Nem lembro como foi a passagem, mas acho que aconteceu como acontece com todo ser humano: De repente, você acorda, e tem quarenta, cinquenta, noventa anos. Deve ser assim mesmo. Naturalmente. E está tudo certo. O sabio tempo, a cada instante, me retira e me presenteia vida.
Talvez, o grande misterio esteja justamente aí: O que fazer com o tempo?... Mas isso podemos perguntar, a partir do instante que nos reconhecemos como seres viventes. Não precisamos esperar chegar nos ‘enta’, para nos questionarmos, ou nos respondermos.
Realmente, não tenho opinião a respeito das pessoas que fazem tudo para manter a fisionomia jovial, gastam fortunas em cirurgias plasticas, e acabam sofrendo períodos dolorosos de recuperação dos tecidos faciais, principalmente. Não sei o que é isso. Acho que a unica diferença é que tem gente velha morrendo com aparencia velha, e gente velha morrendo com aparencia nova. Nada além. O mais importante (e previsivel), nisso tudo, é que a morte chega – maravilha, quando chega bem mais tarde!...
A leveza dos ‘enta’, acho, está no olhar mais calmo, diante da vida que passa. A vida continua igual, manifestando-se de formas cada vez mais diferentes, mas, ainda assim, sempre igual. O que muda – nos ‘enta’ – é o olhar da gente. Não chega ser uma visão comodista, ou desanimada, ou ainda pessimista. Não. Os ‘enta’ nos trazem a leveza de olharmos, com mais profundidade e largueza, talvez, o nosso mundinho particular. Às vezes, dependendo do que enxergamos, nos entristecemos, ou nos revoltamos, e até nos alegramos e nos sentimos plenos, por toda a vida que continuamos vivendo.
Entre perdas e ganhos, erros e acertos, mais ou menos felizes, bem ou mal amados, chegamos nos ‘enta’ – mais leves, menos cobrados, mais seletivos, menos exigentes, mais compreensivos, menos ansiosos. E a vida (ainda) continua – longe, e perto de nós. Enquanto isso, seguimos a estrada dos ‘enta’ – e já não importa mais se omitimos, ou reduzimos, a propria idade, por que vivemos toda a vida que temos em nós, e é só nossa: unica e instransferivel.
De repente, num momento qualquer, lembramos quando tinhamos nossos dez, vinte, trinta anos – sonhos e pesadelos, desejos e medos. E até rimos, ou choramos, pelo que já vivemos. De repente, o cabelo branco que teima em aparecer, enquanto nos penteamos, diante do velho espelho, nos causa nostalgia, e apazigua o coração. Certos ou errados, abrimos e seguimos nosso proprio caminho – e assumimos a vida que é só nossa. E os ‘enta’ já não nos pesam mais, como poderia pesar uma palmatoria, ou até uma guilhotina. Os ‘enta’ nos devolvem a leveza infantil, que, aos poucos, no corre-corre da vida, fomos perdendo, junto com o tempo fugidio...

(...E Mercedes Sosa continua cantando Violeta Parra: “...Gracias a la vida que me ha dado tanto... Me ha dado la risa y me ha dado el llanto...”)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Uma formiga



Saí da sala fechada, em busca de ar fresco. Sentada no meio-fio, enxerguei-a, pela primeira vez. A formiga estava sozinha, e parecia sem direção. Será que formigas sentem calor, transpiram? Não. Não podem suar, mas devem sentir calor e frio intensos. Lembrei que, quando criança, eu ficava observando as formigas – quase sempre em filas indianas, numa disciplina, que eu ficava procurando de onde vinha o comando. Não havia comandante, mas as filas não se dissipavam. Às vezes, uma ou outra formiga parava no meio do caminho, e, em pouco tempo, reuniam-se, para cumprir o destino das formigas, o qual eu-menina nunca soube. Menos ainda agora, depois de tanto tempo sem pensar nas formigas.
Mas a formiga que enxerguei, rente ao meio-fio, estava sozinha – acho que foi isso que me chamou a atenção (a mim, que não queria mais pensar no debate que havia na sala de onde saí). O que faz uma formiga sozinha, quando a natureza das formigas, parece, é seguir em grandes caravanas?...
Ignorando a minha presença cabisbaixa e cada vez mais concentrada, a formiga parecia estar tentando arrancar uma raiz. Não era. Rodopiando em volta de uma metade de folha seca com um fiapo de linha suja enroscado, o inseto parecia fazer calculos matematicos, precisando extensão, peso, e força necessaria para transporte. O exame parecia mesmo minucioso – a formiga parava (atenta?) diante de cada milionesimo milimetro do ‘objeto desejado’, bem maior e mais pesado que ela, com toda certeza. Uma formiga comum – minuscula, sem “pedigree”. Não sou mirmecologa, nem levo jeito, mas reconheço a imponencia - até de um inseto. Naquela formiga, não havia empafia – talvez, eu tenha até identificado, no ser minimo, um cadinho de natureza simploria.
O que fazia uma formiga sozinha, naquele asfalto quente?... Eu não fazia a menor ideia, nem fiquei sabendo. A verdade é que havia, ali, naquele espaço livre, uma formiga tonta, às voltas com um pedaço de folha e um fiapo de linha. Formiga persistente, mesmo sozinha. Minuscula - como o é toda e qualquer formiga -, mas grande na vontade de dar jeito de carregar a ‘carga’ enorme.
Há muito tempo atrás, ouvi dizer que as formigas não têm mais que dois meses de vida. Diante de um tempo tão curto (pra nós, humanos), eu fiquei observando o que o inseto fazia, naqueles minutos, pra mim, e, talvez, meses, pra ele. A formiguinha continuava indo e vindo, sempre em direção do fiapo de linha no pedaço de folha seca esquecida pelo vento.
Foi ali, olhando a formiga, que, pela primeira vez, pensei na minha vida: Nunca quis fazer estudo sobre as milhares de especies de formigas existentes. Sei o que todo mundo sabe sobre o mundinho delas. Nada além, nem aquém. Mas, de repente, me deu uma vontade de saber, de me comunicar com o inseto – até ajudar a formiga, carregando a ‘carga’ por ela. Não havia jeito, nem tempo para estudos aprofundados. Provavelmente, eu precisasse de meses, para saber sobre a especie daquela formiga, que nem existiria mais, quando eu me tornasse mais uma mirmecologa mediana. Sentada no meio-fio, eu só podia mesmo olhar a formiga, admirá-la na pequenez e na grandeza da existencia dela. Também as formigas contribuem com o nosso ecossistema, né?... Também é um ser vivente.
O tempo passou sem eu perceber, as pessoas saíram do debate, se despediram, foram embora. E eu ainda olhei mais uma vez à formiga, que permanecia lá, dando jeito de carregar a sua ‘carga’. Eu sabia que ela conseguiria. Ela não saberia jamais, mesmo carregando todas as ‘cargas’. A formiga não é isso, nem aquilo – ela mesma não se sabe. A formiga é. Simplesmente. E nós nem sabemos a existencia de cada uma delas.