segunda-feira, 24 de março de 2014

Debaixo do tapete


Se houve alguma época em que dava para acumular sujeiras, debaixo do tapete, já foi, já era - hoje, já não dá mais. Sujeiras continuam procriando, mas não existe tanto tapete, para cobri-las. Apesar do esforço, ninguém mais consegue colocar problemas sociais, debaixo de tapete, simplesmente. Pior é que a sujeira mesmo está nas mãos de quem ainda tenta varrer para debaixo do tapete.
A humanidade inteira descamba para o capitalismo, e não quer assumir as conquências disso. Por exemplo, assistimos, diariamente, pelo Brasil, índigenas exigindo direito à terra. Eles - os índios - justificam a reivindicação, recontando a história do Brasil, que aprendemos nos primeiros anos de escola. Os quilombolas, também, estão sempre exigindo direito à terra. Lá atrás, muita gente cometeu erros, os quais, até hoje, regurgitam consequências, que deveriam ter sido previstas. Não foram. Varreram tudo para debaixo do tapete, deixando, às gerações futuras, o sofrimento das conquências. E ainda há os agricultores sem terra, que querem terra para plantar, produzir. O desastre maior é que, enquanto não houver solução para isso tudo, mais consequências serão geradas - isso é óbvio demais. Lastimável.
Existe uma frase - “toda ação gera uma reação” -, que, apesar de ser antiguinha, e tão repetida, ou justamente por causa disso, não é levada a sério. Se, há séculos atrás, ainda dava para ingrupir incautos, presenteando-lhes com espelhos, ou qualquer outro badulaque, hoje, não temos mais condições de varrer mais sujeiras para debaixo do tapete. O tapete rasgou - as sujeiras aumentaram.
Citei o capitalismo, por considerá-lo o deus-motor da sociedade atual. Hoje, sem dinheiro, você não come, não mora, não vive, sem contar que, sem dinheiro, você não recebe o que chamam “respeito” (o que restou da palavrinha). Isso tudo acontece, com a nossa anuência, a permissão e a escolha de cada um de nós. No Brasil, especificamente, onde nasci, onde vivo, onde posso pensar a respeito, até o coronelismo faz qualquer coisa, para se manter. Por isso, enxergamos tanta gente, ainda, escravizando outras gentes, que se permitem a isso. A chibata, o tronco, a palmatória ainda existem, além dos museus - tudo maquiado, modernizado, mas com idênticas funções. Consequentemente, o dito poder fica nas mãos de quem tem dinheiro, e paga para ter prestígio, fama, amedrontando os morros de favelas e as mansões, os apartamentos de cobertura, e até os nossos três poderes soberanos. Como tudo isso aconteceria, sem consequências?... Estamos recebendo o troco, pelo que pagamos, quando permitimos que tudo isso continuasse acontecendo. Pior que isso: continuamos permitindo.
Não há efeito sem causa. Indígenas, quilombolas e sem terras querem o direito à propriedade. Empresários querem o direito de pagar menos impostos. Famílias sem teto querem o direito à moradia. Trabalhadores querem o direito à participação nos lucros das empresas. Cidadãos do mundo querem o direito de ir e vir, em todos os países. Desempregados querem o direito ao trabalho digno e justo. Mães querem o direito a creches e escolas, para os filhos. Todo mundo quer ter o direito de - até mesmo aqueles que têm o dever de. Direito e dever caminham sempre juntos - onde existe desequilíbrio, pode ser que aquele que tem o dever de esteja priorizando o próprio direito de, que também tem.
Diante de tudo isso, ainda tem gente que consegue enxergar apenas as consequências, o que sobrou, e se multiplica, acima do tapete, sem poder ser varrido para baixo. Tem gente que ainda estuda a história do Brasil (a registrada em livros, obviamente, por que a oculta continua bem ocultada), sem fazer qualquer associação com a atualidade. A essa gente, só posso dizer: é isso mesmo, houve massacre de etnias e classes sociais, neste grande País, mas, pelo visto, nós não temos nada a ver com isso. Que cada um continue cuidando do seu - o que não é meu, nem teu, que seja meu, ou teu. E viva o capitalismo!
O problema é que não podemos fazer como os antepassados: varrer a sujeira para debaixo do tapete. A sujeira atual resolveu se manifestar, impelida pelo capitalismo, coisa que não fazia, antigamente, e começou a cometer barbaridades, atacando a sociedade, que, atingida, sem ter como varrer para debaixo do tapete, se vê obrigada a viver cercada por homens fortes e armados, câmeras, veículos blindados, clamando e reclamando por segurança pública (para quem?).
E a história do Brasil continua (claro, com mais consequências)...

sábado, 15 de março de 2014

Os outros



Não há vida humana, sem os outros. Alguns poucos (ermitões) podem até querer negar - não adianta. Pensando nos outros, agimos, ou deixamos de agir. Nossa vida está sempre fadada ao crivo dos outros, que podem manifestar-se, ou não, mas, com toda certeza, estão nos observando, diretamente, ou de soslaio. Sempre, “no meio do caminho”, há outros caminhos, outros meios.
O que fazemos, ou deixamos de fazer, tem sempre mesmo a ver com os outros. Pensamos nos outros, mesmo quando afirmamos estar pensando somente em nós mesmos. Isso não é verdade absoluta - apenas realidade constatada.
É em função dos outros, que mudamos de vida, ou permanecemos na mesma condição, enquanto não nos impelem à mudança. Por causa dos outros, estamos sempre buscando dar sentido à vida, até quando não ousamos pensar em alguém, especificamente. Também, no ato suicida, pensamos nos outros. Sempre, os outros - reflexos de nós, espalhados pelo nosso universo de convívio.
Não estamos fazendo, o que fazemos, tão-somente pelos outros, quando manifestamos concordar com opiniões/avaliações alheias. Absolutamente. Por toda a vida, nos deixamos ser capturados pelos outros, que nos influenciam, até quando nos negamos a seguir o caminho apontado por mãos que não são as nossas. Com os outros, aprendemos a pensar, ou não pensar. Os outros - vivos, ou mortos (que importa?).
Quando seguimos conselhos e exemplos, claro, estamos fazendo, abertamente, pelos outros, com os outros. Mas há, também, situações em que mudamos nosso jeito de ser, agir, viver, para satisfazermos os outros, com quem desejamos conviver. Os outros tornam-se, assim, nossos alvos, nossos reflexos, nossos desejos, nossos estímulos, para sermos quem desejamos ser, ou simplesmente deixarmos de ser quem pensamos que somos.
Dependendo da circunstância, queremos corresponder ao que os outros esperam de nós. Em outras ocasiões, tudo o que desejamos é alardear que somos diferentes dos outros. Sempre, os outros - os outros, sempre.
E não há vida humana, sem os outros. Outros que nos refletem - às vezes, tal qual lago límpido; outras, espelho embaçado, mofado. Não importa. Os outros, sejam quem forem, estão sempre a nos espiar, observar, ou até ignorar - continuam existindo, na nossa existência.
Ainda há quem diga que não está “nem aí”, para os outros. Talvez, justamente esses, os que, aparentemente, não se importam com os outros, é que estão mais concentrados nos outros, na vã preocupação de não depararem-se com eles - os outros -, que permanecem, também, como nós, de olho nos outros.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Vestindo o hábito


Existe sempre um momento - crucial -, quando a gente vai vestindo o hábito, que, depois, tão repetido e impensado, torna-se vício. É mais ou menos com esse olhar (sempre estrábico), que tenho acompanhado as informações sobre as barbáries de pessoas desatualizadas, retrógradas, que pararam, lá atrás, no tempo, quando os espetáculos de arena reduziam-se a carnificinas. Pior de tudo: as barbáries estão acontecendo no nosso Brasil, em nome da “justiça com as próprias mãos” - nesses casos que me refiro, acho que ficaria melhor usarem a expressão ‘justiça com as próprias patas’ (que me perdoem o animais irracionais).
Em nome da justiça, para conter a violência, tem gente virando bicho - animal selvagem mesmo. A selvageria é tamanha, que nem ousam mais justificar-se, dar explicações - apenas cometem linchamento contra quem nem se importam de saber os nomes. A partir dessa violência, já não se pode mais falar em um só crime, ou um só criminoso, né gente?...
Ainda tem mais: tanta gente reclama dos altos salários dos poderes públicos. É bom não esquecer que o judiciário faz parte desses poderes. Resumindo: vamos deixar os altos e baixos funcionários do judiciário trabalharem!... dá licença, né gente?... Afinal de contas, o pessoal do judiciário pode, ou não pode, trabalhar em paz, fazer jus aos salários?... se continuar essa sessão carnificina (antes, era só na televisão), não vai mais haver trabalho judicial, análise de processos, julgamentos, veredictos, etc etc etc. Está na hora de essa gente, que tem tempo de sair linchando, “a qualquer momento, em edição extraordinária”, se decidir: ou dá trabalho ao judiciário, ou não reclama mais que tem gente, lá, que ganha sem trabalhar. Não há terceira alternativa. Simples assim.
Se a dita população civilizada (bípede) continuar batendo em batedores de carteira, as salas de cinema podem ficar vazias, entregues às baratas, às traças. De que jeito?... Oras carambolas, os filmes épicos já não farão sucesso de bilheteria. Ninguém mais vai querer atravessar a cidade, pagar estacionamento, enfrentar filas enormes, gastar com pipoca, pra assistir o que pode ver na esquina de casa. Alguém tem dúvida?... Até por que a maioria gosta mesmo é ao vivo (sangue vivo) - muito mais do que em sala de cinema, ou pela televisão, que tortura, sem dó, nem piedade, os que necessitam receber sangue, com todas aquelas cenas sanguinolentas, dia e noite, noite e dia, jorrando sem parar.
Diante das multiplicadas tentativas públicas de linchamento, enquanto os apresentadores de televisão gozam orgasmo sádico, fico eu a pensar - eu, impotente, diante da violência, semelhante àqueles que apanham, àqueles que batem. Será que está havendo alguma comemoração da ditadura, que não me contaram?...  Quem dera. Alguém, daqueles “tempos de chumbo”, pode até festejar (orgasmos múltiplos), enquanto outros me informam que os socos e pontapés não fazem parte de cena de filme algum, nem eram para estar na história. Não digam que tudo isso é muito “punk” - o conceito de cultura punk é outro. Nem ofendam o nosso samba, citando tratar-se de “samba do crioulo doido”. Punk é punk. Samba é samba. Violência gera violência - mesmo quando causada em nome da paz mundial. Ninguém merece - nem o afamado, nem o difamado. E pronto.

(Por favor, se alguém aguentou ler até aqui: não me julgue desmemoriada. Em tudo que escrevi, aqui, não citei a ação policial - ignorei essa parte do processo, e tratei logo da questão judicial. Não foi à toa - reservo meu direito de questionar as ações policiais, sem concluir coisa alguma, por que conseguem sempre surpreender o que acho que sei. Desse jeito, não há possibilidade de conclusão, mesmo se houvesse intenção.)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Maquiagem à brasileira


O que quero deixar registrado, aqui, nada tem a ver com produtos ou “milagres” de maquiagem convencional. Não mesmo.
Existe uma maquiagem à brasileira, bem mais apegada à pele, ao rosto, em algumas pessoas. São muitas - sei disso -, mas não são todas, para salvação do nosso Brasil varonil.
Tem gente que levanta bandeira, grita nos microfones que é contra o racismo, e blá blá blá. Não passa disso. Aliás, pra mim, o termo correto nem deveria ser racismo, mas etnismo, ou coisa parecida - é discriminação étnica, dentro da mesma raça: humana. E dizer que uma dosagem a mais de melanina causa tanta violência, tanta discriminação, até mortes...
Por todo mundo, ou parte dele, o racismo é escancarado. No Brasil, pelo que vejo, na minha visão estrábica, é que algumas pessoas saíram discursando, enquanto outras pessoas ouviam, e saíam repetindo. No final das contas, hoje, quando se fala em combate ao racismo, eu já nem sei quem está com a maquiagem à brasileira, quem não está. O discurso é semelhante, mas as atitudes chocam tanto, que não deixam dúvida. A lei que define os crimes de racismo existe, há 25 anos. Até parece que os discriminadores alimentam o racismo, há séculos, milênios. No Brasil, a maquiagem está cinicamente tão bem feita grudada, na cara de alguns, que dificilmente cai. Mas não quero me chafurdar nisso, agora.
Dia desses, por acaso mesmo, assistindo noticiário, depois da diária sessão chacina, na televisão, descobri como os afrodescendentes (ainda não compreendi a proibição da palavra ‘negros’, já que nada mudou, com isso) podem deixar de ser alvo de surtos racistas. Se a maquiagem à brasileira não falha (“Eu, racista? Imagina! Jamais!”), os afrodescendentes precisam se defender de outra forma - no caso da minha ideia (“eureka!”), o trabalho é de prevenção mesmo.
A gente tem informação, diariamente, que, se o afrodescendente batalhar e se dar bem na vida, comprar carro importado do ano, acaba sempre abordado em blitz, encaminhado à delegacia, obrigado a provar que é afrodescendente que se deu bem (mesmo!) na vida. Por isso, sugerir que os afrodescendentes se esforcem, ainda mais, para causarem inveja aos que têm outras cores de pele, seria perda de tempo, pra mim - para os afrodescendentes, mais ainda.
Vou direto à minha ideia - essa funciona mesmo, comprovadamente. Não deve ter sido só eu que assisti o dito noticiário (inesquecível), na televisão. Meu amigo afrodescendente, brasileiro, ou residente no Brasil, se você quer mesmo deixar de lado essa vida vítima de discriminação, faça “ponta” (pequena aparição), na televisão. Na globo?... Só se for em novela - “de época”, quase sempre, onde exibem escravos. Não dá outra: basta o afrodescendente ser identificado como “o cara que fez ponta, na televisão”, é liberado. A acusação errou, se confundiu, “sei lá, tipo assim”. Não se fala mais nisso. De repente até, na saída da “prisão por engano”, apareçam fãs, ou a própria acusação, pedindo autógrafos... Sem ponta, sem chance.
Maquiagem à brasileira e máscaras, nas ruas: é carnaval!...