segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Receita de Ano Novo
Receita
de Ano Novo
Carlos
Drummond de Andrade
Para
você ganhar belíssimo Ano Novo
cor
do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano
Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal
vivido talvez ou sem sentido)
para
você ganhar um ano
não
apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas
novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até
no coração das coisas menos percebidas
(a
começar pelo seu interior)
novo,
espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas
com ele se come, se passeia,
se
ama, se compreende, se trabalha,
você
não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não
precisa expedir nem receber mensagens
(planta
recebe mensagens?
passa
telegramas?)
Não
precisa
fazer
lista de boas intenções
para
arquivá-las na gaveta.
Não
precisa chorar arrependido
pelas
besteiras consumadas
nem
parvamente acreditar
que
por decreto de esperança
a
partir de janeiro as coisas mudem
e
seja tudo claridade, recompensa,
justiça
entre os homens e as nações,
liberdade
com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos
respeitados, começando
pelo
direito augusto de viver.
Para
ganhar um Ano Novo
que
mereça este nome,
você,
meu caro, tem de merecê-lo,
tem
de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas
tente, experimente, consciente.
É
dentro de você que o Ano Novo
cochila
e espera desde sempre.
sábado, 8 de dezembro de 2012
O saco cheio do Papai Noel
Chega mais um mês de dezembro, quando a humanidade se
enche de humanidade. Tem muita gente já comprando e distribuindo
cestas básicas, balas, pirulitos, bolas e bonecas, por todo lugar –
por aí, por aqui. Nada contra, mas penso que esse excesso de bondade
poderia ser melhor distribuído, nos doze meses de cada ano.
Tem gente que só lembra de algum familiar, ou amigo, no
final do ano – entre o Natal e o reveillon. Nunca entendi muito bem
isso. Como também não entendo tanta coisa em mim, prefiro pensar
que, pelo menos, as pessoas recuperam alguma memória perdida –
coincidentemente, sempre no final de ano.
A realidade mesmo é que a maioria resolve ser boazinha,
por tempo limitado. O prazo de validade começa expirar, nas
primeiras semanas de dezembro, acabando de vez, na primeira semana de
janeiro. Isso é tão notório, que tem gente que sempre se aproveita
deste período, para chamar a atenção, fazendo pedidos
inimagináveis de presentes com preços inimagináveis.
Também nesta época, muita gente faz promessas –
possíveis e impossíveis. As promessas (claro!) sempre estão
embasadas nas frustrações do ano que termina. Os mais espertos, em
vez de prometerem o que, sabem, não vão cumprir, preferem fazer
simpatias, no fim do ano. E já ninguém dá mais bola para o
ridículo de contar e comer sementes de uva, ou vestir roupas
apertadas, ou fora de moda, com a “cor da sorte”.
Confesso que fico um tanto reticente, a cada final de
ano, diante de tantas caridades, solidariedades, bondades, e outras
“dades”. Em vez de pensar sobre isso, ainda prefiro acreditar
que, no próximo ano, seremos melhores – com a gente mesma e com os
outros -, antes mesmo de chegar dezembro.
Dia desses, fiquei sabendo, por um favelado, que dois
veículos estacionaram, junto aos barracos onde ele mora. Os dois
motoristas foram lá fazer doações – cestas básicas, brinquedos,
e todo resto vendido em liquidação de lojinhas de um real. “Até
aí, tudo bem, por que já estamos acostumados, todo fim de ano, ser
lembrados, mais uma vez” - disse o favelado. O pior da história,
ele deixou pro final: “A coisa ficou feia, quando os motoristas se
xingaram e brigaram, com socos e pontapés, por que queriam ser o
primeiro a fazer a doação. E primeiro é só um, né?”
Mas ainda tem algo mais gritante, em todos os fins de
anos: as propagandas do comércio, na televisão, nas rádios, nos
jornais, na internet. Toda vez, é a mesma coisa: eu quase me
convenço de que, comprando isso ou aquilo (especial = caro e
descartável), vou fazer alguém feliz (provavelmente, o vendedor do
produto).
Depois disso tudo, eu prefiro ignorar as campanhas –
publicitárias e de arrecadação de doações –, pelo
menos, no final de cada ano...
Até o Papai Noel já deve estar de saco cheio...
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Pensar
Uns pensam, por pensar.
Outros pensam, sem querer.
Alguns desejam pensar, e acabam não pensando.
Tem aqueles que não querem pensar, e só pensam nisso.
Outros pensam, e esquecem o que pensaram.
Há os que pensam, para lembrar.
Uns pensam no que estão fazendo.
Alguns pensam no que não fizeram, não fazem.
Tem os que agem, sem pensar.
Outros só pensam, não agem.
Há aqueles que pensam, pensam, só pensam.
Alguns pensam no que poderiam estar pensando.
Outros tentam pensar o que os outros podem estar
pensando.
Tem gente que pensa que pensa, mas não pensa.
Uns fingem não pensar.
Há quem diz que não tem tempo de pensar.
Ainda tem os que fingem pensar.
Outros brincam de pensar.
Tem gente que não pensa, por que isso dá trabalho.
Alguns trabalham, só pensando.
Outros nem sabem o que pensar.
Uns pensam demais, e perdem o sono.
Há aqueles que acordam, pensando.
Alguns se apavoram com o que pensam.
Outros se veem, de repente, pensando.
Tem quem comemora o que pensa.
Uns não conseguem decifrar o que pensam.
Tem gente que julga o que pensa.
Outros julgam o que os outros dizem pensar.
Muitos perdem o fio da meada do que estão pensando.
Uns não conseguem parar de pensar o que pensam.
Há quem relaxa, pensando.
Tem aqueles que pensam, mas nem chegam pensar que
pensam.
Alguns querem pensar por todos nós.
Outros alguns querem que pensemos por eles.
Tem gente que larga tudo, para ficar pensando, pensando,
só pensando.
Uns pensam, buscando respostas.
Outros questionam mais ainda, quando pensam.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
A imagem da imagem
Sabemos que podíamos estar “roubando, matando,
estuprando”. Mas não. Escrevo. E, enquanto escrevo, penso que você
pode até me ler – ou não. Sabemos, também, que, em países do
“primeiro mundo”, as crianças falam, fluentemente, o inglês –
and I no speak english today, and tomorrow, too. Oh, god!...
Tudo, tudo mesmo, é imagem, representação. Não
enxergamos – tão somente imaginamos enxergar o que vemos. Imagem,
imagem – nada além do que imagens. A vida pode ser resumida nisso:
imagem, ou a imagem da imagem. Por que, além da representação, há
o imaginário, que permeia lugares inimagináveis.
Tudo começa – penso eu, que penso demais, mas não
chego a tanto – quando passamos a construir uma imagem de nós
mesmos. Depois, nos detemos na 'feitura' da imagem do(s) outro(s),
com quem convivemos. Mas a historinha vai além (sempre tem mais):
cada outro faz uma imagem da gente. Pior que isso é que, quase
sempre, desapontamos e nos desapontamos com as imagens criadas por
nós e pelos outros. Acho mesmo que o maior desapontamento é nosso,
em relação a nós mesmos. Depois, vem o desapontamento em relação
à imagem que construímos do outro, à revelia da imagem que o outro
tenha conseguido fazer dele mesmo.
Mas precisamos reconhecer, também, que há muita imagem
nossa melhor do que somos, ou, pelo menos, de quem imaginamos que
somos. Pode observar, tem sempre alguém retocando a nossa imagem da
imagem nossa: ou nós mesmos, ou os outros. Para melhor. Para pior.
Tudo depende do olhar do momento - banido, sempre, pelo próximo
instante, pelo outro olhar.
Ser humano vai sempre além. Por isso, criamos mitos –
desde sempre. Por não querermos mais só idolatrar os mitos gregos e
romanos – que prevalecem nos livros de história da humanidade -,
mitificamos personagens contemporâneos, vestidos pelas imagens
criadas por nós. É por isso que hoje temos tantos mitos estampados
por todo o lugar. Bons ou maus, os mitos são criados, conforme a
necessidade do público, que quer vaiar, ou aplaudir.
Com isso tudo acontecendo, proliferam-se os conhecidos
“paparazzi”, que ganham dinheiro, fotografando e vendendo imagens
de mitos populares – saindo de banheiro público, comendo com a
boca aberta, ou simplesmente andando de bicicleta, em algum calçadão.
As imagens fascinam, por que, para os idólatras, situações comuns
de todos nós são inimagináveis, quando os protagonistas são os
mitos adorados, com imagens cada vez mais distanciadas da realidade
humana.
Tem gente que diz que necessitamos mitificar, para
mantermos os parâmetros de bem e mal, bondade e maldade, etc e tal,
destacando exemplos humanos a serem seguidos, ou não. Na minha
opiniãozinha sem importância alguma, não penso que necessitamos
disso – até por que muitos de nós (eu também) nos esforçamos
para não alimentar as imagens dos mitos. Já dizia a tataravó da
minha bisavó: quanto mais alto o pedestal, maior o tombo.
Claro que somos todos diferentes – idólatras e
idolatrados -, mas nem tanto. Sonhos, desejos, projetos, medos –
temos muito em comum. Se a mitificação decorre da frustração em
relação a nós mesmos, acho que, em vez de despejarmos no outro
(mito), expectativas além do além, o mais simples seria lidar
(mudar) com a própria realidade – a nossa realidade. Sem
mitificação.
sábado, 27 de outubro de 2012
Sabor de caramelo
A vida pode ter mesmo sabor de caramelo. Acredito nisso,
por que alguém me mostrou, há muito tempo, na minha infância cheia
de observações, sabores, cheiros, imagens, que o o melhor da vida
pode ter sabor de caramelo: meu pai.
Muito mais que falar, meu pai colocava valores, na vida,
que, se você não lhes dá atenção, nem os percebe. Foi assim que
cresci, na companhia de meu pai: observando tudo, silenciosamente, e
aprendendo. Se sempre falo do meu pai, é por que ele foi meu
primeiro mestre da vida, na minha vidinha. Depois, tive outros
mestres, que me mostraram tantas paisagens, tantos caminhos. Mas foi
com meu pai que aprendi a buscar sempre meu olhar microscópico, sem
me deter, me perder, na aparência, na casca, no invólucro.
Lembro, agora, quando meu pai, já aposentado, criou um
hábito vicioso: comprava sempre pacotes de caramelos. Nada de
caramelos linda e separadamente embalados. Não. Eram caramelos
comuns – multicoloridos, mas sempre os mais baratos. Comprava um,
ou dois quilos, e íamos para casa, chupando caramelos. O sabor era
especial – talvez, puro açúcar -, por que tinha o sorriso do meu
pai, naquele olhar acinzentado.
Já disse que meu pai não verbalizava tudo – as
atitudes eram mais as palavras dele. Foi meu pai que me ensinou, com
os exemplos que dava, naturalmente, a buscar o melhor das pessoas.
Havia, nos olhos de meu pai, uma esperança na humanidade, que me
encantava, e até me fazia acreditar que nem tudo estava perdido, que
podíamos nos tornar melhores – todos, todos nós, seres humanos.
Entre um caramelo e outro, meu pai, às vezes, falava da
infância dele, quando lembrava ter vendido, de porta em porta,
verduras, legumes, frutas. Depois, recordava os tempos de exército,
dos exercícios físicos forçados na neve. Ah, mas o melhor sempre
ficava por último, na conversa com sabor de caramelo. Meu pai
contava sobre as viagens dele, conduzindo trens (por mais de 30 anos,
foi maquinista). Quantas paradas de trem meu pai fez, de madrugada,
no meio do nada, só para tomar chimarrão, “no ar fresco e puro da
noite” - dizia ele. Mas, também, haviam as caçadas de pequenos
animais do mato, além da pesca em algum “lugar perdido cheio de
água limpa”. Depois, feito menino cansado de brincar, meu pai
retornava ao trem, e continuava conduzindo a grande viagem.
Antigamente, os trilhos dos trens não tinham pressa, passeavam no
meio do mato, adentravam lugares silenciosos e sombrios, para depois
se depararem com o nascer do sol.
Ainda sinto o sabor daqueles caramelos que alegravam a
alma infantil do meu pai, que, numa noite, seguiu a viagem mais
surpreendente da vida - nós todos também trilharemos...
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Nosso presente para o futuro
Em meio a brinquedos atrativos e barulhentos, presentes
variados, pacotes brilhantes e laços coloridos, fico eu pensando nas
crianças. Meus filhos cresceram – tempo célere. Não tenho
(ainda) netos, tataranetos, bisnetos. Mas continuo fascinada pela
infância – toda infância humana, e a minha infância, também.
Lembro do meu espanto, quando percebi que, sem planejar,
sem maquiavelismo algum, eduquei meus filhos. Até então, eu ainda
imaginava que educar fosse aquilo que me impingiram, quando eu era
criança: educação rimava com obrigação. E eu nunca levei jeito
pra impor, obrigar, ou até mesmo brigar. Do meu jeito sem jeito,
eduquei, e, até hoje, meus filhos lembram nossas aventuras, na
infância deles, que também foi minha, e continua sendo, por que
continuamos brincando, nos aventurando, compartilhando vida.
Enquanto a maioria, que tem crianças por perto, se
preocupa em comprar e dar presentes, nesse dia, eu fico pensando no
que pode ser nosso presente para o futuro. Até por que, acho eu, de
nada adiantaria superlotarmos as crianças de brinquedos e doces,
esquecendo que o que fica mesmo é o exemplo de ser humano. A minha
preocupação maior, no que se refere à infância, reside justamente
aí: e se esquecermos que, todo o tempo da vida inteira, somos
exemplos, principalmente às crianças?...
É certo que, entre 8 e 80, há outras 72
possibilidades. Por isso, o ato de cercear completamente, ou liberar
geral, gera desequilíbrios inimagináveis. Isso, a gente (chamada
adulta) sabe, por que vivencia. Mas cadê balança, régua, pra
precisarem como cuidar de uma criança?... Por favor, não me venham
com manuais que determinam como educar crianças!... Só mesmo no
'olhômetro' do sentimento – penso eu, que penso tanto, sem nada
concluir. Se são nossos filhos, torna-se mais simples, o ato de
observar, conhecer, respeitar, por que existe o amor genuíno –
ainda acredito nisso. Se não são nossos filhos, existe vínculo –
ou por que somos babás, ou por que damos aulas, enfim, convivemos.
Mas ainda nos deparamos com outras crianças – os filhos de
ninguém, rostos invisíveis pedindo “um trocado, tia”. São
todas crianças – sonhos e desejos semelhantes.
Sei que estou 'viajando', enquanto escrevo. Mas é isso
que quero, por que, quando se trata de crianças, viajo mesmo, me
permito a isso, e o passaporte é a minha preocupação: qual será
nosso presente para o futuro?... Hoje, Dia das Crianças (de Nossa
Senhora Aparecida, e de Oxum, também), qualquer presente faz brilhar
o olhar infantil – e no futuro?... Presente é bom – todo mundo
(até adulto) gosta. Mas há presente que estraga, quebra, enferruja,
desmancha, desgasta, fere, até mata, e não tem mais conserto.
Em qualquer tempo da humanidade, família sempre
representa convivência de conflitos, por que todo mundo é diferente
(ainda bem). Aos pais, dizem que cabe prover, através do trabalho –
dentro e fora do lar, nem sempre doce -, as condições de
subsistência, sobrevivência e existência dos filhos. Sabemos que
nem sempre é assim. Há notícias de que tem muitos pais esquecendo
os filhos dentro de veículos trancados, jogando os filhos na
lixeira, ou pela sacada, espancando os filhos, e outros pais que
estupram os filhos. Nem me interessam as justificativas. Mas cuidado
e proteção aos filhos continuam sendo lei.
Na correria em que os pais vivem hoje, tendo condições
financeiras, contratam empregada doméstica, para cuidar da
manutenção do lar e dos filhos. Com mais dinheiro disponível
(traduzindo: trabalhando mais, com menos tempo em família), os pais
pagam os serviços de uma babá, para cuidar dos filhos. No Brasil,
isso é mais comum que na maioria dos países, principalmente, na
europa, onde os serviços domésticos estão sempre em alta cotação,
pelo que estou informada. Pois bem. Na maioria das famílias com
melhores condições financeiras, os filhos estão sendo educados por
empregadas, que, às vezes, foram alfabetizadas e deixaram os
estudos, para começarem trabalhar cedo, depois tiveram filhos, e não
retornaram à escola. Eis outra palavra salvadora: escola. É notório
que muitas famílias são dependentes da escola dos filhos, “local
seguro” (hoje, nem tanto), onde as crianças ficam, por algumas
horas. Para compensarem a ausência, os pais enchem os filhos, com
presentes atrativos. Se os filhos vão mal na escola, trocam de
escola. Pronto. Tudo resolvido. Resolvido?... sei não.
Do lado de fora da família estruturada(?), crescem as
crianças que nem sempre vão à escola, nem sempre conhecem pai e
mãe, nem sempre tem café da manhã, jantar, almoço, lanche,
roupas, calçados, brinquedos. Ignoradas ou não, as crianças
continuam lá – nas ruas, nas periferias -, à espreita, crescendo.
Mas a correria dos pais é tanta, que essas crianças tornam-se
invisíveis, até que cometem um delito, dois delitos, ou vinte
delitos, como assisti, dia desses, numa reportagem, quando um garoto
de doze anos foi apreendido pela polícia (20ª vez). Já não são
mais invisíveis, nem crianças – aos olhares humanos(?),
marginais. Mas, no fundo, continuam crianças – bem além de uma
certidão de nascimento, embalada num saco plástico retirado do
lixo.
Alguém pode perguntar (perguntam sempre): “O que eu
tenho a ver com isso?”... Gosto de responder com outra pergunta: O
que nós todos não temos a ver com isso?...
Ah, já ia esquecendo (imagina!): tenha um feriado
feliz!...
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