sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Na moda


O velho “Aurelião” nos lembra: “Significado de Moda: s.f. Uso passageiro que rege, de acordo com o gosto do momento, a maneira de viver, de vestir etc. / Fantasia, gosto, maneira ou modo segundo o qual cada um faz as coisas. / Cantiga, ária, modinha. / Estatística. Valor do argumento central da classe de frequência máxima. &151; Suponha-se que um menino conte os ovos de 77 ninhos de pássaros. Ele vê que quatro ninhos possuem um ovo cada um, 65 têm dois ovos cada um; cinco têm três ovos; e três têm quatro ovos. Os ninhos que contêm dois ovos são os que mais se repetem. Portanto, dois é a moda ou valor modal deste grupo de números. A moda é um tipo de média muito utilizada. // Estar na moda, estar em voga, ser geralmente usado. // Passar da moda, deixar de ser imitado, deixar de estar no gosto atual. // Bife à moda, prato feito de maneira especial por alguém, ou por um restaurante. // &151; loc. prep. À moda de, segundo o gosto de”.
Eu digo: Tem gente que gosta de viver na moda. Mas a moda, às vezes, passa rápido demais, sem dar tempo de mudar o modus vivendi. Outras modas sobrepõem ao tempo, e, por isso, volta e meia, ou meia volta, nos deparamos com algum casaco com ombreiras, ou qualquer coisa que nos remeta a antigos filmes (em preto e branco).
Pelo visto, a moda atual é sair por aí ateando fogo em ônibus, ou quebrando portas de vidro, em lojas, agências bancárias, ou veículos de televisão. Causar quebradeira - é o que conta, está na moda. Mas, também, a moda parece ser saquear supermercados, lojas, e até caminhão com mercadorias, envolvido em acidente. O mais irônico, nisso tudo, na minha insignificante opinião, é que ainda querem (os da moda) justificar que tudo isso é para reivindicar “mais saúde, mais educação, mais segurança”. Saúde? Falta sim - principalmente, mental. Educação? Até concordo, assistindo as manifestações, nas ruas. Segurança, deste jeito? É piada, né?...
Por isso, se você, feito eu, se sente fora de moda, depois de assistir um desses noticiários reprisados, o dia todo, em todos os canais de televisão, não se desespere. Ainda há tempo. Fique de olho nas redes sociais - sempre tem planos para mais uma manifestação moderna. Se preferir, você pode se informar com o vizinho, o colega, o primo, o cunhado, o dono do bar - alguém sempre sabe quando e onde haverá mais uma manifestação (desfile) da moda atual. Se você não quiser sair ateando fogo em ônibus, por aí, pode escolher acender rojões, sem alvo previsto, em plena via pública - a luz do dia facilita a moderna atividade.
Mas, se você quer estar na moda, no anonimato, use máscaras, ou até gorros desengonçados, fora de moda, ou coloque uma camiseta na cabeça. Se é para manter o anonimato, esconda a cara, da forma mais ridícula que puder, e saia quebrando tudo. A moda, agora, é não diferenciar privado, público - quebradeira geral.
Já ia esquecendo: há denúncias de que muitas pessoas recebem uma graninha, para desfilarem a dita moda, a exemplo de modelos, que frequentam eventos sociais, vestindo renomadas grifes, e levando cachês, pra isso. Nessa moda mais popular, que tem tomado conta das ruas brasileiras, ainda não lançaram as novas grifes de rojões, coquetel molotov, pedras, paus e ferros (aguardemos). Como acontece na divulgação de moda, qualquer canalzinho de televisão contribui, ensinando (passo a passo) sobre os instrumentos de destruição - uma vara de pescar não quebra uma porta de vidro de uma agência bancária, ou de uma loja, e os rojões não precisam ficar estocados, até a festa junina. Moda é moda - vale tudo, ou vale nada.
Como em toda nova moda, há quem se destaque mais. Nesta modernidade atual, tem muita gente que está indo parar, bem além da televisão - vai pra cadeia mesmo. Lá fora, na arena gigante, entre vaias e aplausos, outros - incansáveis mascarados - persistem na busca da mesma fama. Faltam câmeras, para tantas imagens tão modernas, que, às vezes sempre, nos remetem à moda mais antiga, dos primórdios mesmo, bem antes do nascimento dos tios dos nossos tataravós, do cinema mudo.
E ainda tem gente que reclama que não tem grana, para manter-se na moda. Nessa moda, especificamente, não precisa ter dinheiro, gente. Quem paga os estragos são justamente os que não estão na moda. Tem gente que paga, inclusive, justamente por resistir à moda, não participar. Alguns, mais ousados, pagam (mais caro), por denunciarem a nova moda, que não é genuinamente brasileira - todos sabemos. Semelhante às demais modas, também esta chega de todos os cantos do planeta (que continua redondo). Tem gente que não resiste à nova moda, e acaba perdendo a noção do ridículo - isso já aconteceu, em outras épocas, outras modas - e modos.
Se é holofote que os moderninhos desejam - pronto! -, já tiveram os minutos de fama. Agora, está na hora de mostrarem a cara (com, ou sem, vergonha), e continuarem a vida, longe das passarelas. “O show já terminou” - não há mais público... (Moda sempre me cansa - escolho continuar na contramão.)
Dizem que toda moda tem prazo de validade - às vezes, a dita dura mais tempo. Não esqueçamos a velha e boa calça jeans, que perdura até hoje, nas vitrines e na maioria das pernas brasileiras e estrangeiras. Se essa é uma moda sem tempo de validade, necessário é que se faça alguns ajustes, penso eu - toda moda recebe pequenos retoques. Sugiro que, junto com “mais saúde, mais educação, mais segurança”, sejam acrescidos: mais IMLs, mais necrotérios, mais crematórios, mais cemitérios. E tudo vira moda.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fazer amor

Quantas vezes você faz amor, durante um dia inteiro?... Se me deixarem, faço amor, o tempo todo, em todos os dias inteiros - e noites, e madrugadas inteirinhas. Se me permitem, amanheço, anoiteço, envelheço, rejuvenesço, fazendo amor. A vida inteira. É o maior prazer da minha vida: fazer amor.
Não sou ninfomaníaca, não. Simplesmente, o que algum poeta romântico denominou “fazer amor”, pra mim, não é. Relação sexual nem sempre envolve amor, e até existe amor, sem sexo - sexo é sexo, amor é amor, mesmo com a discordância da igreja, não tão santa, como querem os fiéis (que o digam, a inquisição e a pedofilia).
Se depender de mim, faço amor, o tempo todo - nem quero saber de outra coisa. Porque, na minha insignificante opinião, fazer amor é fazer qualquer coisa, por amor, com amor. Claro, nem sempre fazer amor me é possível, por que os outros, as circunstâncias, ou seja lá o que for, me impossibilitam. Tão logo me desvencilho do que tive de fazer, sem amor, lá estou eu, novamente, fazendo amor, por amor, com amor. Assim, aprendo a amar - mais e melhor. Só sei de mim, quando faço amor - e, pra mim, não há amor maior à vida que esse momento, quando estou (inteira) fazendo alguma coisa, até afagando um animalzinho, por amor, com amor.
Provavelmente, quem associou o termo “fazer amor” com a relação sexual transbordava os pecados impingidos pela histórica igreja. Assim, para alívio de consciência (traduzindo: prazer desvinculado de pecado), denominou o ato sexual como “fazer amor” - termo cheio de romantismo, nada pecaminoso, longe da palmatória religiosa. A partir daí, foi estabelecida a ordem, nem sempre implícita: Só pode manter relação sexual, se existe amor. Por isso, tem tanta gente confusa, buscando amor no sexo, sexo no amor, e por aí vai... Claro, é ilimitadamente mais prazeroso, fazer sexo com amor. Na minha medíocre opinião, triste é o cada vez mais popular sexo casual, também chamado “masturbação terceirizada”.
Fazer amor, na minha vida, é toda a ação feita por amor, com amor. Às vezes, não fazer (alguma ou qualquer coisa) é a maior ação de amor.
Já confundimos e complicamos tanto, nem havia necessidade de a igreja se intrometer nas relações humanas. Como se não bastasse o “balaio de gatos” que criamos, e chamamos amor, a igreja ainda impinge que relação sexual é pecado mortal. Depois dessa, claro que a relação entre os seres humanos só poderia desandar de vez. Aliás, não desandou só a relação sexual, mas todas as demais. Criamos e mantemos, até hoje, uma espécie de aristocracia, onde alguns poderosos (a quem delegamos poderes, sempre questionáveis e frágeis) determinam o que é certo, o que é errado. Por causa disso, inclusive, tem gente vivendo em autossuplício, com o intento de redimir-se dos tantos pecados cometidos.
Longe de tudo isso, que obriga a ‘boiada’ seguir adiante, prevalece o amor genuíno, esse sentimento que nos identifica uns com os outros, em cada olhar humano, em qualquer esquina da vida. Amor - cada vez mais distante.
Acaso, algum dia, ou alguma noite, você me encontre, por aí, por aqui, mantenha a discrição. Pode ser que, neste exato momento, eu esteja fazendo o que mais gosto: amor.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Milho aos pombos


A foto, aí em cima, mostra uma das cenas do filme “Minhas Tardes com Margueritte”. Mas não é sobre o filme (maravilhoso) que quero escrever. Fiquei um tempo dando milho aos pombos – nem o milho, nem os pombos eram os cantados por Zé Geraldo. Eu estava – e ainda estou – mais para “Minhas Tardes (ou minhas noites, ou meu qualquer tempo) com Margueritte (pseudônimo de um bom diálogo)”. Tem ser humano que gosta de pensar, e conversar sobre o que pensa, né?... Pois é. Eu sou projeto de ser humano, assim: gosto de pensar, conversar sobre o que penso, na companhia de quem também gosta de pensar, conversar sobre o que pensa. Nem sempre pensar e conversar viram ação conjunta. Por isso, aproveito o tempo – meu tempo – com essa conjunção, cada vez mais rara. Quando não converso com outro ser humano, converso com livros, filmes, feito esse da foto: “Minhas Tardes com Margueritte”. E tudo é diálogo. Solidão acompanhada de outra solidão.
Sobre o blog, o criei, com a simples intenção de divulgar o que considero impublicável. Sem qualquer outro compromisso, a não ser fielmente ao que penso enxergar, considero, o blog, uma extensão minha, sem verdade absoluta alguma, sem querer dizer além, ou aquém, do que fica escrito, registrado. Isso pressupõe que você, leitor(a), pode concordar, discordar, ou até espernear – nada adianta, pois é o que consigo e quero enxergar, até aqui. Mas, sempre, cada comentário é válido. Por isso mesmo, não retiro os comentários daqui, sejam quais forem – a favor, contra, ou muito antes pelo contrário.
Tenho de reconhecer que, relendo meus textos, no ironia-crônica, gosto do que vejo, pois tudo, tudo mesmo, retrata pensamentos meus, de mais ninguém. Se alguém lê, pensa a respeito, discorda, ou até concorda, já tem ideia própria, que, certamente, não é a minha (original), registrada no blog.
Enquanto escrevo, seja sobre o que for, para guardar, e, depois, quem sabe, talvez, um dia, postar aqui, sou leal somente a mim mesma, sem sequer imaginar que alguém possa vir a ler. Muito menos, penso: o que será que pensarão sobre o que escrevi?... Pra mim, são dois processos distintos que acontecem aqui. O primeiro é eu pensar, organizar meus pensamentos (são tantos), para, depois, permitir que transbordem. Feito isso, depois de um tempo (curto, ou longo, não importa), posto no blog, e continuo sem pensar se alguém vai ler, muito menos se pensará, ou não, a respeito do que escrevi. Por isso, os comentários, deixados aqui, sempre me surpreendem – de repente, percebo que causei alguma coisa, com a minha escrita, resultado de tantos pensamentos.
Definitivamente, em cada palavra que registro, especificamente, neste blog, não há a microscópica intenção de desagradar, ou agradar, algum leitor incauto. Absolutamente. Até por que, para isso (agradar, desagradar), tenho a minha profissão de jornalista, que, sem qualquer falsa modéstia, tento cumprir, da melhor forma impossível, preocupando-me com o que quero dizer, até com o que pode ser interpretado. Isso é responsabilidade profissional. Aí, sim, a exemplo de todos os jornalistas, também eu sou tendenciosa. E ainda falam em jornalismo imparcial... Profissionalmente, sou porta-voz de tantas vozes – aqui, no blog, permito-me ser apenas a minha própria voz. De mais ninguém.
Posso até escrever que, pra mim, esse blog é uma brincadeira – considero toda brincadeira, coisa séria. Às vezes, pode não parecer, pelo jeito que escrevo, mas, com toda certeza minha, sei muito bem o que estou escrevendo, o que escrevi. Depois disso, não me ocupo com o que pode ser interpretado. Até por que, feito eu, as pessoas mudam muito de ideias, de pensamentos, de visões, e até de endereços, como dizia Millôr.
Sei que cada leitor do blog jamais vai ler aqui o que eu realmente escrevi – cada um lê o que pode, ou, simplesmente, o que quer ler. Ainda bem. Assim, meus textos rabiscados ganham a companhia de outros pensamentos, que não são os meus. Contra, ou favor – o que importa?... Em tempos de falta de tempo, quando a maioria demonstra não querer pensar, ao que parece, ainda tem gente na contramão. Enquanto houver um só alguém na contramão, encontrará uma outra mão: a minha – escrevendo, sempre...
Só não gosto de trocar ideias – nessa, alguém sempre sai perdendo... e viva a vida!...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Receita de Ano Novo

Receita de Ano Novo
Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O saco cheio do Papai Noel

Chega mais um mês de dezembro, quando a humanidade se enche de humanidade. Tem muita gente já comprando e distribuindo cestas básicas, balas, pirulitos, bolas e bonecas, por todo lugar – por aí, por aqui. Nada contra, mas penso que esse excesso de bondade poderia ser melhor distribuído, nos doze meses de cada ano.
Tem gente que só lembra de algum familiar, ou amigo, no final do ano – entre o Natal e o reveillon. Nunca entendi muito bem isso. Como também não entendo tanta coisa em mim, prefiro pensar que, pelo menos, as pessoas recuperam alguma memória perdida – coincidentemente, sempre no final de ano.
A realidade mesmo é que a maioria resolve ser boazinha, por tempo limitado. O prazo de validade começa expirar, nas primeiras semanas de dezembro, acabando de vez, na primeira semana de janeiro. Isso é tão notório, que tem gente que sempre se aproveita deste período, para chamar a atenção, fazendo pedidos inimagináveis de presentes com preços inimagináveis.
Também nesta época, muita gente faz promessas – possíveis e impossíveis. As promessas (claro!) sempre estão embasadas nas frustrações do ano que termina. Os mais espertos, em vez de prometerem o que, sabem, não vão cumprir, preferem fazer simpatias, no fim do ano. E já ninguém dá mais bola para o ridículo de contar e comer sementes de uva, ou vestir roupas apertadas, ou fora de moda, com a “cor da sorte”.
Confesso que fico um tanto reticente, a cada final de ano, diante de tantas caridades, solidariedades, bondades, e outras “dades”. Em vez de pensar sobre isso, ainda prefiro acreditar que, no próximo ano, seremos melhores – com a gente mesma e com os outros -, antes mesmo de chegar dezembro.
Dia desses, fiquei sabendo, por um favelado, que dois veículos estacionaram, junto aos barracos onde ele mora. Os dois motoristas foram lá fazer doações – cestas básicas, brinquedos, e todo resto vendido em liquidação de lojinhas de um real. “Até aí, tudo bem, por que já estamos acostumados, todo fim de ano, ser lembrados, mais uma vez” - disse o favelado. O pior da história, ele deixou pro final: “A coisa ficou feia, quando os motoristas se xingaram e brigaram, com socos e pontapés, por que queriam ser o primeiro a fazer a doação. E primeiro é só um, né?”
Mas ainda tem algo mais gritante, em todos os fins de anos: as propagandas do comércio, na televisão, nas rádios, nos jornais, na internet. Toda vez, é a mesma coisa: eu quase me convenço de que, comprando isso ou aquilo (especial = caro e descartável), vou fazer alguém feliz (provavelmente, o vendedor do produto).
Depois disso tudo, eu prefiro ignorar as campanhas – publicitárias e de arrecadação de doações –, pelo menos, no final de cada ano...
Até o Papai Noel já deve estar de saco cheio...