sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sua história de vida daria um livro

Não conheço você (não conheço nem a mim mesma), mas sei, antes de tudo e de mais nada, que a sua história de vida daria um livro. Ou mais que um livro – uma biblioteca, talvez. Por que sei isso? Por que toda vida humana é única, e - por isso e apesar de - especial. Milhões de pessoas podem ser atingidas pelo mesmo tsunami, mas nem duas terão e guardarão a mesma visão da catástrofe. Cada qual lembrará um tsunami único, que modificará, ou não, a vida que será vivida, a partir de.
Não me refiro, aqui, a genoma. Vou além, ou aquém, disso. Existem peculiaridades, em cada personalidade, que surpreendem até a genética. Como escreveu Sartre, eu sou o resultado do que escolhi fazer com o que sabia ser de mim. Por isso, o tataravô do meu bisavô, e os demais familiares, pouco têm a ver com o que me torno, a cada dia, por escolha minha.
Também, discordo de quem diz que cada dia de vida é uma página em branco, à espera do que desejamos escrever. Na minha visão estrábica, não há como você apagar quem já foi, o que fez, vida bem, ou mal, escrita, simplesmente virando a página. A gente é quem é, sempre a partir do que foi, e escolheu ser. Mesmo que houvesse essa virada (radical) de página, a história de vida jamais seria mesmo um recomeço, pois que somos resultado do que fizemos com o que já fomos. Tem gente que escolhe ser melhor do que já foi, e outros, piores. É escolha de vida, independe de condição social, ou de qualquer outra imagem que se queira manter.
À revelia das postagens nas redes sociais, existe uma história de vida (única) que daria um livro, sem plágio. Depois (quem sabe?), algum cineasta, tomando conhecimento do livro, ousasse fazer um filme, que levaria milhões às salas de cinema, e, aí, sim, causasse comentários nas redes sociais. Não há novidade nisso, pois muitos fizeram, fazem e farão o mesmo, com sucesso garantido. Às vezes, o livro e o filme são tão realistas, que poucos acreditam tratar-se de biografia mesmo. Talvez, a vida real seja insuportavelmente nua, enquanto a imagem dela exiba as cores e flores da moda. E ainda há a singularidade de cada olhar. Por isso, o melhor mesmo é a autobiografia – como o próprio protagonista se vê, já que a mãe dele enxerga-o diferente.
Por mais que alguém tente igualar-se àqueles que considera semelhantes, ainda assim, prevalecerão singularidades. O olhar de cada um é sempre diferente do outro, que processa o que enxerga, a partir das vivências (íntimas) que já teve. Não há como igualar, ou igualar-se. No máximo, nos assemelhamos, por gostos, ou desgostos, características de caráter, personalidade, etc. Nada além disso. Mas, mesmo assim, continuamos sendo diferentes dos demais.
Se não somos iguais, podemos até seguir a moda, vestir o uniforme da maioria, seguir a boiada que nada questiona, mas a nossa história de vida continuará sendo única. Por outro lado, podemos economizar energias, já que não precisamos nos esforçar para sermos diferentes. Como também não poderia ser diferente, teremos, cada um, a morte única, especial. Jamais existiu, ou existirá, alguém igualzinho a cada um de nós. E cada livro, dessa biblioteca infindável chamada vida, será único. A história que cada um conta, de um jeito, ou de outro, e deixa (bem ou mal) registrada, depende de cada escolha que faz, por toda a vida, que ninguém sabe quando acaba, se acaba mesmo.
Em tempo: São essas histórias de vida que eu tento traduzir à minha compreensão, a cada instante em que escrevo a história da minha própria vida – também única, especial. Sem qualquer ironia.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A grande lição

Ela insistia em dizer a ele:
- Tenta. Continue tentando. Abandone as muletas. Não olhe para trás. Sei o quanto é difícil. Mas você consegue. Não, não é por aí. Você tem muito mais que isso. Continue tentando. Você já fez tantas coisas. Impossível você não conseguir isso. Sei que é uma grande lição – talvez, a maior da sua vida. Mas, se eu consegui, outros conseguiram e tantos outros conseguirão, você também consegue. Não desista. Tenha e mantenha foco. Não se distraia. Não permita mais que façam isso por você. Faça você mesmo. Tenha ousadia. Você consegue. Você pode transferir decisões e escolhas da sua vida, aos outros, mas essa escolha – seguir adiante – é intransferível (o resultado disso, também). Tenta um pouco mais. Ainda não é por aí. Prossiga. Continue firme. Não esmoreça. Não se deixe levar por desvios iluminados. Vá em frente. Derrube a resistência dos seus costumes e vícios. Você consegue. Não pare no meio do caminho. Não se acomode. Você ainda vai saber o quanto valeu todo o esforço. Saiba que, quanto mais você seguir, mais sozinho ficará. Vai até encontrar gente voltando do meio do caminho, mas você continuará obstinado. Acredite que você é maior que todas as tentações. Descubra você mesmo. Siga em frente. Você consegue. Transpire, mas não desista. Multiplique seus esforços. Força. Fé em você mesmo. Coragem. Encare essa grande lição. Continue. Continue. Vá em frente. É bem por aí, mas ainda está longe, muito longe. Não ouça o que as pessoas estão gritando – elas nem imaginam o que você está fazendo. Você consegue. Quando necessário, seja até inflexível, dentro do seu equilíbrio. Tente por outro lado. Mas continue tentando. Prossiga. Não tenha medo da escuridão. Seja o melhor de você mesmo, para continuar. Não desista de você. Se esforce, tanto quanto seja necessário. Levante. Chão é para os caídos, e também para os que desejam caminhar. Se falta pouco, ou falta muito – o importante é seguir caminhando. Continue atento para o foco. Mantenha o equilíbrio. Não se deixe tropeçar, por causa dos pedregulhos. Deixe, à beira do caminho, os livros de autoajuda – é muito peso, para pouca bagagem. Não se detenha na paisagem tentadora. Você tem um só alvo. Siga-o. Você consegue. Ignore as setas, que só apontam caminhos, aos que não sabem aonde ir. Você é o seu próprio caminho. Quebre as rochas que entravam a sua passagem. Persevera no objetivo. Não desista. Você alcançará. Vai doer, sim, mas, semelhante a tudo, também vai passar. Não tema o silêncio. Não desperdice cada aprendizado, na sua caminhada solitária. O seu maior desafio é você mesmo. Não desista. Você consegue. Você não faz mais parte da boiada – deixe-a passar, na contramão. Mantenha o foco. Seu objetivo existe – é um só. Prossiga. Sempre em frente. Acostume-se à companhia da solidão – ela é o seu caminho, a sua caminhada. Não desista. Coragem. Seguir adiante – seu foco único. Vai doer, sim, mas bem menos que as pisoteadas da boiada que você abandonou. Siga. Prossiga. Muitos tiveram esse seu objetivo, mas nem um percorreu o seu caminho – que é (e será sempre) só seu. Você consegue. Não questione – não sei onde vai dar esse caminho. Só você saberá – confie. Não se desequilibre... e salto no escuro.

Depois de tanto tempo, ele solta um urro – de dor, de alívio, e, finalmente, êxtase: Conseguiu vencer todos os obstáculos. Pela primeira vez na vida, ele pensou. E aprendeu. Ela? Ela já está bem longe, pensando.

(Etimologicamente, estudante provém do latim studiosus – “aquele que dedica-se ao estudo e deseja aprender sempre”. A todos nós, estudantes da vida, em mais esse dia que pode ser especial: 11 de agosto – Dia do Estudante.)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Assim caminha a desumanidade (in terra brasilis)

Honduras? El Salvador? Costa do Marfim? Afeganistão? Que nada! Esses, até que são países com altos índices de violência, mas falta estímulo, motivação mesmo. Nesse ranking, o Brasil fica em 19º colocação. Mas a desumanidade brasileira, ao que parece, até aceita o 3º lugar, nos Jogos Pan-americanos (ninguém bateu panelas, nas vias públicas), mas não se conforma com o 19º, na violência, e quer maior destaque mundial, neste quesito. Nada de esperar prisão, julgamento. A desumanidade nacional – a mesma que quer, de qualquer jeito, redução da idade penal e pena de morte – faz “justiça com as próprias mãos”, à espera de um minuto e meio de fama, na mídia, nas redes sociais. E acaba recebendo aplausos dos fãs, cada vez mais fervorosos.
Os noticiários já nem mais divulgam, nas manchetes, que a violência se multiplica, por todo o Brasil. Banal demais. Para animar os estádios, volta e meia, a desumanidade apronta a maior quebradeira, só para dar uma treinadinha nos músculos, exercitando socos, chutes e pontapés, ou até assassinato de algum torcedor incauto. E ainda tem linchamento e aprisionamento em postes, que se assemelham aos tempos de escravatura, onde, amarrado no tronco, o escravo levava chibatadas, como exemplo para outros que tivessem a mesma intenção de burlar as leis dos “senhores”. Mas, daí, veio a Princesa Isabel, e estragou a festa branca do ‘pode tudo’.
Depois de tanto tempo sem Princesa Isabel, o passatempo, agora, é sair espancando mulheres, ladrões, assaltantes, afrodescendentes, pessoas em condição de rua e homossexuais. A moda é queimar ônibus, quebrar vitrines, saquear estabelecimentos comerciais e cargas de caminhões, nada diferente das explosões de caixas eletrônicos, nas agências bancárias. Alguns policiais militares são chamados, para atendimento dessas ocorrências, mas não podem ir, pois estão muito ocupados em alvejar, com ‘balas perdidas’, crianças e adolescentes negros favelados, e recolhendo propinas, ou, então, espancando professores, e brincando com ‘bombas de efeito (i)moral’, em praça pública. Enquanto tudo isso acontece, a desumanidade segue, pelas ruas, com faixas e cartazes exigindo a volta da ditadura (como exigir a volta do que nunca deixou de existir?).
Com cada vez mais força (bruta), a desumanidade é exemplo para os estudantes, que se engalfinham, se arrebentam, dentro e fora das escolas. E a desumanidade toma conta das redes sociais, onde escracha racismo, homofobia e tantos outros inimagináveis preconceitos. Às vezes, quase sempre, a mesma desumanidade violenta, que espanca, tortura e mata, em vias públicas, é aquela que também falsifica gasolina e/ou leite, compra produtos pirateados, ou de receptação. Às vezes, também, sem questionar, a desumanidade julga ser verdade absoluta, qualquer boato criado e compartilhado em rede social. E isso basta para a desumanidade ir à forra, e matar, a pontapés e pauladas, o/a protagonista do dito boato. Nesse caso, não há tempo para sequer pensar em processo judicial – a desumanidade parte logo à aplicação da pena de morte.
Ironicamente, grande parte dessa desumanidade toda sai em defesa dos animais, pela mídia, e até em denúncias formais, em delegacias policiais. Parece que a desumanidade enxerga esses locais (no caso em questão, as delegacias policiais), para atender só denúncias de violência contra animais mesmo. E ainda tem desumanidade que vende e desumanidade que compra atestados médicos e documentos falsos, até animais roubados. Tudo acontece nas vias públicas – nada de fazer escondido (e isso, dizem, é liberdade, democracia).
Diante de tanta carnificina, causada pela desumanidade, o que não pode faltar?... A presença de urubus, claro. Aí, entram os “apresentadores” de programas de televisão. Todo final de tarde é a mesma coisa: sangue, de todos os tipos, contaminados por ódio e vingança, escorre pelas salas da desumanidade, que reclama da violência, e tem orgasmos múltiplos, seduzida pela ‘lábia’ dos apresentadores desses ditos programas policialescos. Quanto a isso, fiquei sabendo de uma pesquisa da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), por todo o País, que registra a empolgação desses ‘senhores da mídia’, que incitam os telespectadores à violência, e apoio à pena de morte. O objetivo será denunciar ao Poder Judiciário, para posteriores julgamentos e condenações – sem linchamento.
...E assim caminha a desumanidade – talvez, para trás, ou em voo livre ao abismo. Mas isso não é problema, nem chega ser motivo de preocupação. Qualquer coisa, o presidente (mimado) da Câmara dos Deputados ressuscita a Lei Áurea, e a coloca em votação, “a toque de caixa”, para que seja extinta, de uma vez por todas – se perder, na primeira votação, continua reenviando a proposta, até conseguir vitória. De “lambuja”, o dito extingue logo a Lei do Ventre Livre, também, para garantir o branco mais branco de ‘coxinhas’, que fazem parte da decoração mais requintada do fascismo contemporâneo. Depois disso, só falta a redução da maioridade penal, com mais manobras na votação da Câmara, em agosto. Não demora muito, e a pena de morte também chega à votação, no Congresso – a galope, obviamente, para muito bem representar, nos cascos, seus defensores.
A realidade é que, apesar de muitos linchadores e simpatizantes desejarem mais e mais violência, definitivamente, a lei da força não vai sobrepor à força da lei. Que só pareça repetição do óbvio – é nisso que acredito.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

“Ora pro nobis”

Não. Não estou no corredor da morte. Eu escolhi não viver outros sonhos, nem pesadelos, senão os meus. Não estou nos Estados Unidos, nem no Irã, no Iraque, na Indonésia, ou na Etiópia, no Paquistão, na Coréia do Sul, ou do Norte, onde pena de morte é 'ordem do dia', prática comum. Não. Estou no mais interior do Brasil, onde sonho os meus sonhos. De mais ninguém. Mas continuo na sala de espera. Enquanto espero a morte chegar, enxergo a vida que faz arder a minha visão estrábica.
Ao meu lado, senta uma senhora com uns oitenta e tantos anos - os cabelos prateados revelam o tempo que ela não esconde. “A senhora é cristã?” - me pergunta a velhinha. Nunca havia pensado nisso, mas, para consolar, de imediato, a simpática idosa, respondo que sim. Enquanto, ansiosa, ela remexe o interior da bolsa, fico pensando o que pode ser cristão, neste mundo onde a maioria quer mesmo parecer quem não é. Tem tanta gente, pelo mundo, matando, em nome de Cristo, Alá, ou sei lá mais quem - às vezes, 'autor desconhecido'. Enquanto isso, eu, na minha pequenez de ser humano, continuo tentando não ser.
Retirando um papel da bolsa, a velhinha me fala: “Com esse jornal, a senhora pode falar com Jesus Cristo”. Eu pego o jornal, em gesto incerto, agradeço, abro o papel, e, para alegria da velhinha, começo a ler, silenciosamente, a “palavra de Jesus Cristo”. Não consigo ir além da segunda linha, mas, em respeito à idosa, mantenho o olhar atento no papel. “Converse com Jesus Cristo, que tem todas as respostas”, ainda diz a velhinha, menos formal, mais animada.
Preocupada em manter o olhar focado no papel, mesmo sem lê-lo, fico pensando que respostas seriam essas que a carismática senhora teria encontrado, naquele papel. Eu, que vivo à procura de cada vez mais perguntas. Que conversa eu poderia ter, hoje, depois desse tempo nascida, com Jesus Cristo?... Não, nem quero pensar sobre religiões e fé. A fé de cada um sempre foi inquestionável - merece todo respeito. Quanto às religiões, pra mim, pelo menos, são cada vez mais questionáveis, por que, na história do tempo, são construídas e mantidas por seres humanos - imperfeitos, falíveis, medrosos, oportunistas, também. Não consigo enxergar “caminho, verdade e vida”, por onde desfilam vaidades, orgulhos, egoísmos, e trapaças. Tem lugar pra tudo. Religião, na minha visão estrábica, não deveria servir de palco de encenações e logros. Se realmente tem lugar pra todos os gostos e desgostos, os mal intencionados poderiam evacuar os ambientes de fé - dinheiro fácil pode haver em outro lugar (os canais de televisão ensinam o passo-a-passo, diariamente, nos noticiários sensacionalistas). Há tanta gente dizendo que salvou-se de um acidente, “graças a Deus” – enquanto eu questiono: Será que é, também, por “graça de Deus”, que tantos morrem em acidentes?...
... E ainda ouço a velhinha repetir: “A verdade de Jesus Cristo, vizinha (me torno vizinha dela, por parecer ler o papel que me deu), é que vivemos o final dos tempos, por que o inferno se aproxima”... Lamento dizer-lhe, bondosa senhora, o inferno tem sido escolha diária de cada um, da maioria, e, por isso mesmo, está sendo construído, com requinte, por todo lugar - nas vidas pública e privada. O fim dos tempos se arrasta, senhora, de mãos dadas com o inferno, pelas ruas, linchando a realidade, devorando nossos sonhos e o que ainda sabemos sobre o mundo humano. Ore bastante, “ora pro nobis”, fiel cristã, e mantenha os olhos bem fechados, para, ao contrário de mim, continuar sem perguntas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Confirmado: o Brasil continua maior que o umbigo


Apesar da campanha aberta, feita pelo próprio presidente da Câmara dos Deputados, o plenário de hoje à noite não teve os 308 votos necessários à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171. Confirmado: o Brasil continua maior que o umbigo. No final da sessão da Câmara, depois de tantos absurdos vingativos, defendidos em plenário, a derrota foi da hipocrisia e da injustiça, e o caminho da pena de morte foi, mais uma vez, obstruído.
Bravamente, deputados federais sensatos, de diversas bancadas, chegaram até a contrapor-se à decisão do próprio Partido, em respeito ao direito à vida dos adolescentes de 16 e 17 anos. Com todas as caras feias, dos que acreditavam destruir, finalmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que, este ano, completa 25 anos, a redução da idade penal – de 18 para 16 anos – foi rejeitada pela Câmara dos Deputados. Por falta de cinco votos, os adolescentes brasileiros foram absolvidos da guilhotina imposta pela sociedade imediatista e hipócrita, que, conforme pesquisa, quer o encarceramento dos adolescentes, retirando-lhes qualquer possibilidade de vida digna.
Disso tudo, resta o que a maioria não quer pensar: Se aos governos cabe oportunizar políticas públicas, para o desenvolvimento integral das crianças e dos adolescentes, à sociedade caberia, na mesma proporção de responsabilidade, respeitar os direitos dos cidadãos, principalmente, daqueles em condição de maior vulnerabilidade.
Por favor, não venham com discursos de que somos todos iguais – não somos, e, pior que isso, todos sabemos, mas poucos reconhecemos. Quando se pensa em oportunidades, então, as diferenças aumentam ainda mais. Isso foi comprovado, durante a sessão de hoje, na Câmara dos Deputados, quando discursos infames e separatistas, de discriminação descomunal, foram ao microfone, enquanto umbigos inchavam, inflamados pelo ódio e pela vingança, representando outros tantos umbigos.
Nossas crianças e nossos adolescentes foram salvos da guilhotina da redução da maioridade penal, no Brasil. Desta vez. Daqui a pouco, outras guilhotinas (mais afiadas) serão montadas, no picadeiro. Por quê? Simplesmente, por que alguém tem de pagar a conta do desgoverno, na aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, da hipocrisia social, que se acumula debaixo dos tapetes vermelhos (de sangue?), onde só pisam “homens e mulheres de bem”.

domingo, 17 de maio de 2015

Um crime sem precedentes

Crianças e adolescentes do nosso Brasil varonil estão para sofrer um crime sem precedentes. Senhores e senhoras do Congresso Nacional estão querendo rasgar a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente, para, justificam eles, atender à sociedade conservadora e imediatista, que não quer a solução dos problemas, mas, sim, o fim deles, através do atalho mais curto, sem se importar com as consequências.
Não é à toa que a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) tem o número 171, no Congresso Nacional – se aprovada, a 171 jamais será esquecida mesmo. Nada por acaso – o número 171 remete a outras representações, que, talvez, não sejam outras, mas somente sinônimos.
Por diversas vezes, já postei, neste blog, a minha preocupação com os nossos adolescentes e as nossas crianças. Adulta que sou, começo a me preocupar mais com o que os adultos estão fazendo - esses que dizem representar “a vontade da maioria”. Mas isso realmente não importa – é pouco. A realidade é que tem muita gente levando a cabo o conservadorismo que fazemos questão de destacar que não existe mais, que faz parte de um passado ainda sombrio – isso tudo, só em discurso político, que mais parece setor de frigorífico, onde enchem linguiça.
Não quero tratar, aqui, sobre a questão legal da dita PEC 171 – se atropela a nossa Constituição Federal (ainda temos uma, soberana, para quem já esqueceu), ou se vai mais longe, e faz parte de um processo legal, para chegar à aplicação da pena de morte, no Brasil. O que tenho acompanhado, principalmente, nos canais de televisão e jornais de circulação nacional, é que, de fato, está sendo feita uma campanha massiva, para que a redução da idade penal seja colocada em prática, o quanto antes.
A maioria dos canais de televisão não é sutil, quando vende felicidade, como bônus da redução da idade penal. Em qualquer programa do que costumo chamar picadeiro televisivo, sempre fazem alguma associação com a palavra ‘menor’. Inclusive, dá pra perceber que os ‘famosos’ programas, que jorram sangue pelas salas dos brasileiros, apresentam, diária e prioritariamente, crimes cometidos por menores. A partir da exibição dessas notícias, os comentários dos apresentadores remetem às piores épocas da humanidade – nazismo, ditadura militar, etc e tal. Alguns apresentadores se empolgam tanto, que chegam defender, ao vivo, a aplicação da pena de morte no Brasil. Quando assisto isso, mesmo por distração, me assusto, e penso: Isso também é ser humano. Olho pela janela, enxergo uma criança brincando na calçada, um gato se espreguiçando no gramado, me acalmo – nem tudo está perdido (ainda).
Quando ouço um desses conservadores justificar que “precisamos dar uma resposta à sociedade”, fico pensando: de que sociedade ele está falando?... Onde está a 'faixa de gaza' brasileira?... Se realmente existe, preciso me posicionar, urgentemente. Na condição de participante dessa sociedade (sou ser vivente, brasileira, devidamente registrada em cartório), nunca foi essa a resposta que esperei, até mesmo dos 'poderosos' conservadores. Acredito em amadurecimento, mas pode ser que haja alguma alteração genética, e o apodrecimento chega antes. Alguém precisa pagar por isso, também?... Não sei. De repente, se, numa só sociedade, existem 'nós' e 'eles', eu preciso ter atitude, e assumir se sou 'nós', ou 'eles'. Nunca pensei chegar a tal questionamento. Mais uma vez, eu faço minha escolha simples: Não sou – nem ‘nós’, nem ‘eles’, nem...
Resumindo a história, na minha visão estrábica, daqui pra frente, tudo pode ficar diferente. Os mesmos conservadores que defendem a redução da idade penal continuarão contra a legalização do aborto. Só pra fazer pensar: o menor é obrigado a nascer, pra ser encarcerado, aos 16 anos (vida curta essa, hein?). Essa é uma possibilidade, caso a criança sobreviva até os 16, já que, volta e meia, tem bala perdida (de alguma arma policial) matando menores, pelo País, não só no Rio de Janeiro. Desse jeito, qualquer gravidez é de sério risco...
E ainda tem mais possibilidade: os 'poderosos' representantes dos eleitores podem ganhar essa de reduzir a idade penal mesmo. De outro lado, os 'poderosos' do crime podem, também, reduzir a idade dos menores contratados, os únicos, aliás, nada 'poderosos'. Nesse “samba do crioulo doido”, pode não demorar muito pra reduzirem a idade penal aos recém-nascidos - pobres e negros, claro, por que os outros, com 'pedigree', nascem com oportunidades, e, quase sempre, têm apoio dos 'poderosos', com quem aprendem a fazer o mesmo, no futuro cada vez mais próximo. ‘Apartheid’ velado, sem que uma só criatura tenha de assumi-lo, já que diz representar ‘a sociedade’, que não é identificada.
Falamos tanto em ditadura, e torturas e injustiças, mas, pelo visto, ainda tem muita gente que não saiu dos tempos da escravidão, que foram muitos. Naquela época, sim, uma 'lei do ventre livre' libertava um nascituro, que acabava por conhecer somente torturas e injustiças sofridas pelo povo pobre e negro (já citei pobre e negro, neste texto, né?). E ainda tem tanta gente se preocupando com “curtidas e compartilhamentos”, em rede social, enquanto um bando de conservadores quer ser aplaudido, pra 'ficar bem na foto' – ou selfie, para os que não estão nem aí com o que escrevi... Os 'poderosos' parecem não estar muito interessados – nem com a minha, nem com a sua opinião. Sem plebiscito. Depois disso, não vamos dizer que jamais imaginamos chegar a tal ponto (oh!), quando a pena de morte for à votação, no Congresso Nacional.
Quando encontro a ignorância defendendo a pena de morte, sempre digo: Deixemos isso para o primeiro mundo – lá nos Estados Unidos (mero exemplo), esse termo chega ao termo. Não merecemos isso – nem nós, nem os que virão, se virão. E viva o terceiro mundo. Fim de linha.
Se houver mesmo redução da idade penal para 16 anos (ou 15, 14, 13, 12, 11, 10, ou para recém nascidos sem ‘pedigree’ – que diferença faz?), acreditemos nos políticos que estufam o peito, para dizer: “o futuro é agora”. Será mesmo – por que outro futuro não haverá, senão construído por herdeiros do sistema cada vez mais ‘poderoso’, e alguns poucos mutilados, ignorados pela mesma sociedade moralista, conservadora, preconceituosa, irresponsável, discriminadora, imediatista, extremamente cruel e injusta, sem qualquer noção de humanidade.

(Enquanto houver crianças e adolescentes, em condição vulnerável, à mercê de desmandos políticos, e/ou da hipócrita sociedade, escreverei a respeito o que não deixo de pensar – sempre tem mais a ser pensado, e repensado.)