quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A embriaguez do saudosismo


Há pouco, reencontrei um amigo, colega de profissão, uma ‘espécie rara’ de ser humano, em extinção nos dias de hoje. Como sempre acontece, quando nos encontramos, ficamos conversando sobre tudo, mais ‘viajando’ mesmo. Ao longo do papo longo, fui percebendo que o saudosismo é uma embriaguez da alma. Mas o saudosismo embriaga a alma no ponto exato, por que, depois de uma certa dose, o bêbado fica chato, insuportável, começa a babar, vomitar, cair em cima dos outros. O saudosismo não chega a tanto – é um bêbado elegante, delicado, comedido, que se permite até chorar, sem qualquer exagero.
Eu e meu amigo ficamos recordando os “tempos dinossáuricos da imprensa” (como ele mesmo denominou). Pra quem não sabe, primeiro foi a escrita na pedra. Tô de brincadeira... Primeiro, foi a máquina de escrever mesmo (manual, depois elétrica). Depois, veio o telex, pra ajudar. Mas não bastou, e aí chegou o fax modem. O computador veio pra arrasar com tudo, fazer os profissionais do jornalismo até esquecerem do passado trabalhoso. “Fala a verdade, Nara, há quanto tempo você não visita as redações? Lembra que, antes dos emails, a gente tinha de visitar, diariamente, jornais, rádios e o pessoal de televisão, pra deixarmos nossas matérias, e atualizarmos o convívio?”... (silenciei)
Meu amigo continuou: “Primeiro, a gente ‘batia à máquina’, fazia cópias, e entregava junto com as fotos, reveladas em diversas cópias. Depois, com o telex e o fax, ainda nos restava levar, em mãos, aos colegas, as fotos copiadas em revelação. Agora, vai tudo por email: textos, fotos, e já não se tem mais o aperto de mão, o abraço, o bate-papo informal, o contato humano”... (silenciei novamente)
“Ah, lembra dos laboratórios improvisados, pra revelação de fotografias?” – perguntou-me. Claro, quantas vezes exagerei no fixador! – lembrei na hora. E rimos juntos – eu e meu amigo -, mas rimos com o riso saudosista. “As máquinas digitais trouxeram junto as revelações digitais, e muita gente perdeu emprego” – falou meu amigo. A ordem, agora, meu amigo, é estar ‘antenado’, disse-lhe sem ânimo. De imediato, meu amigo completou: “Antenado sempre, por que senão perde o lançamento de mais alguma coisa que revoluciona o mundo”.
Mas fomos mais longe, na nossa ‘viagem’. Eu lembrei ao meu amigo que, não faz tanto tempo assim, gostávamos de uma música, e precisávamos ficar esperando, com ansiedade, obviamente, a chegada do disco de vinil, na cidade. E isso demorava muito, mas não desístiamos. Até que, finalmente, a tão esperada música chegava no “bolachão” de vinil, e corríamos pra ouvi-la. Pura emoção!...
Hoje, as coisas mudaram – tanto, tanto! “Perdeu-se a nostalgia” – disse meu amigo. E eu completei: perdeu-se o encanto da poesia; tudo é descartável. E meu amigo seguiu: “A turma de hoje baixa tudo pela internet, fica ouvindo em ‘ipods’, logo enjoa, joga tudo fora, e ‘baixa’ outras músicas. No nosso tempo, como cuidávamos dos vinis, que não podiam ser ‘arranhados’. Acabavam tornando-se parte da família da gente, de geração pra geração”.
Embriagados de alma, eu e meu amigo rimos. Depois, ainda falamos sobre os filhos – crescidos, cada um construindo o próprio caminho. E meu amigo gargalhou, falando: “Daqui a pouco, serão eles, os nossos filhos, Nara, a se sentirem dinossauros, em meio a tanta modernidade”. Dinossauros? Não. Dinossauros somos nós, meu amigo. Eles já fazem parte do futuro – respondi.
Depois, nos abraçamos, eu e meu amigo, e prometemos ainda reunir a “turminha da velha guarda, nem que seja num clube dinossáurico” (brincou ele). “A gente precisa se reunir mais, não só no velório dos colegas mais antigos” – ainda disse meu amigo, tentando esboçar um sorriso, contido por uma lágrima (ou, melhor, duas lágrimas)...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Coisas de ser humano


Você está nascendo, nascendo para uma vida que acaba sempre em morte... e não há mais o que fazer (fatal!), senão “ir vivendo”...
Nos primeiros momentos de vida, você conhecerá gente que falará dialetos intraduzíveis: “gu-gu-dá-dá”, “bilu-bilu", e outros grunhidos que não terão tradução alguma, a vida inteira. Você não sabe o que é isso, mas, se a criatura sorrir, te pegar no colo, te beijar, pode sorrir também - pelo menos, faz algum bem. Quando te deixarem sozinho, num lugarzinho aconchegante, ao qual chamam “berço”, não adianta espernear, nem chorar. O destino é sempre o mesmo: berço. A hora é de dormir, e você nem sabe disso, mas acaba dormindo, do mesmo jeito. Só bem mais tarde, você conhecerá insônia, e haverá momentos em que você perderá todos os sonhos. É coisa de ser humano mesmo.
No começo da vida que acaba, você sentirá ‘coisas’ incômodas, desagradáveis mesmo, no teu corpo frágil e desconhecido, ‘coisas’ que você nunca sentiu, e vai chorar por isso, você, que ainda nem sabe o que é choro, ou lágrima. Ser humano denomina tudo, e chamam essas coisas por variados nomes – colite, otite, alergia, etc e tal. Não importa. Tudo isso causa dor. Mas passa, por que sempre alguém vai te dar remédio, chá – tudo com gostinho adocicado. Uma delícia. Só de sentir o gosto, você esquecerá a dor, que você nem sabe o nome. Até para o choro sem dor, os adultos já acharam nome (acredita?): dengo, manha – que nem sempre é correspondido. Muito tempo depois, a dor da tua alma se mostrará – pungente -, e não haverá remédio, ou chá, para sequer amenizá-la. E todas as lágrimas do mundo não expressariam a tua dor, que é só tua, e será tua companheira inseparável, nesta viagem com tantos caminhos, desvios, e um único fim. Ser humano é isso, e um cadinho mais.
Depois de alguns meses, já vai ter gente te colocando em pé no chão, tentando te fazer andar, e aí vale tudo – orações, simpatias. Aos poucos, sem saber exatamente o que está fazendo, você vai dar alguns passos titubeantes, e cair, e chorar, e vão te fazer levantar, muitas vezes, até você caminhar com as próprias e inseguras pernas. E você continuará caindo e levantando, a vida a inteira – nem sempre terá alguém por perto.
O tempo vai passar longe do teu saber, e você já estará brincando no gramado, jogando bola, com cicatrizes nos joelhos, nos cotovelos, extasiado diante de uma formiga, ou de um formigueiro. E você vai chorar numa queda, mas vai descobrir que também se pode chorar, de tanto rir. E você não compreenderá por que não pode falar palavrão em público, se todo mundo acha engraçado.
Na adolescência, você ouvirá muitos 'nãos', à tua sede de experimentar todos os sabores do mundo que te chama. Ah, e não vai mais receber visita no “bercinho”, não, com um monte de gente em volta dizendo o quanto você é “uma gracinha”. Pelo contrário. Todos dirão que você é grande pra (ainda) fazer algumas coisas, e pequeno pra fazer outras tantas. E você não saberá mais qual o teu espaço, neste mundo humano. Não importa, por que, um tempo depois, a cena se repetirá: você será novo demais pra ser velho, e velho demais pra ser novo. Para muitos, você estará errado, e para outros, na mesma circunstância, você estará certo. E você (ainda) não saberá, mas continuará agindo certo e errado, a vida inteira. É coisa de ser humano mesmo.
Cedo ou tarde, você conhecerá a morte, e odiará o significado desta palavra, a vida inteira, por que será ela a levar embora, pra nunca mais, justamente as criaturas que você mais ama. Cedo ou tarde, você saberá, sem saber, que a morte não tem lógica, nem faz o menor sentido – como a própria vida.
Na escola, te ensinarão um monte de coisa que não vai prestar pra coisa alguma, na tua vida inteira. Mas, mesmo assim, você terá de mostrar que aprendeu. Ah, será nos primeiros anos de escola, também, que você conhecerá uma palavra que terá de enfrentar, a vida inteira: competitividade. Palavrão, né?... Ser humano é assim mesmo.
Das fraldas à escola, a diferença será gritante mesmo (pode gritar!), e você sentirá abandono, desamparo, solidão até. Prepare-se – tudo isso é apenas o começo de (mais) uma vida que acaba, a cada dia...
Não importa em que tempo, tua alma se encherá de candura, através do amor que você sentirá por outra criatura, que pode, ou não, corresponder ao teu sentimento único. Há quem diga que essa relação de amor sempre tem fim (eu não acredito que acaba). E você sentirá, na pele, o desejo sexual. E passará a vida inteira buscando sexo com amor. Você conhecerá (e saberá denominar) sentimentos, além do amor, de ódio, saudade, raiva, inveja, melancolia, hostilidade, ciúme, vingança, nostalgia, e tantos outros... E sentirá medo de tudo, de todos, até de você mesmo. Mas você pode escolher, e viver a vida do jeito que acreditar nela. Não esqueça: você pode mudar – sempre – de idéia, se contradizer, desistir, retomar, fazer e refazer a tua própria história de vida, que é só tua mesmo. Pode até se suicidar, se quiser. Sobre isso, eu penso: e adianta se matar, se, desde que a gente nasce, o único destino imutável é justamente a morte?... ‘Sacanagem’, né?... Não dá pra fazer a vida da gente tão previsível. Afinal, um dia, pelo menos uma pessoa vai falar assim da gente: morreu!...
Um dos momentos de maior indecisão será quando você pensar sobre que rumo tomar profissionalmente. Você pode tornar-se “o médico”, “o engenheiro”, ou “o advogado” que a família sempre sonhou, ou, como costumo dizer, ‘lamber selo’, a vida inteira (traduzindo: assumir um trabalho contínuo, sem novidade alguma, todo dia, a mesma coisa). O ‘leque’ de profissões é cada vez maior. Se, de repente, você não se der bem como contabilista, pode trabalhar numa loja de confecções, e tudo bem. Vender bananas na praça, suco na praia, ou pamonha, acarajé e sorvete por aí também parece ser bom demais. Poucos irão se importar mesmo se você se sente realizado no trabalho – a maioria vai querer saber se “o salário compensa”. Agora, aposto que até você já sabe: é coisa de ser humano mesmo.
Chegará o momento de você deixar o “ninho” dos pais. Não importa se você terá 20, 30, 40 anos. Se demorar muito, os pais é que se mudarão pra eternidade, enquanto você permanece na hesitação. Você pode casar, ou simplesmente morar com a pessoa que você ama, ter filhos. Aí, será você a emitir grunhidos de felicidade, diante de um berço iluminado. Sem pai, nem mãe, você estará construindo uma nova família. Você pode também querer viver sozinho, solteirão. Não pense que a solidão o deixará, dependendo da tua escolha. É coisa de ser humano mesmo. Muitas vezes, com a casa cheia, ou vazia, você sentirá vontade de chorar, sem porquê, como quando ficava no berço, e você nem sabia o que era abandono, desamparo, solidão. Chore, por que este é você: ser humano.
A tua velhice chegará num repente. De um dia para outro, você perceberá cada ruga na face oculta, todos os cabelos brancos, o cansaço e as dores no corpo, dores que você tratará pelos nomes mais complicados, cheios de “ites” e “oses”. E não há mais volta. Mas há mais vida. E você pode continuar escolhendo o que e como viver. Talvez, você ainda tenha tempo de voltar a ser criança, não só pra usar fraldas, mas pra brincar mais, pensar menos, fazer besteiras, rir de si mesmo, e sonhar, sonhar... Coisas de ser humano.

Ah, já ia quase esquecendo (imagine!): depois disso tudo, e mais um pouco, você morre...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Lembrete


Sempre esqueço de deixar aqui um lembrete, sem importância alguma pra mim. Tem gente que me fala: "Naquele dia que você escreveu ‘tal coisa’, foi por causa do que tinha acontecido naquela tarde?"

Como alguém vai saber em que dia escrevi alguma coisa postada aqui, se nem eu sei?... Aliás, pra começo de conversa, nunca imagino estar escrevendo especialmente pro blog, e também não sei nem se foi pela manhã, ou à tarde, ou até de madrugada, quase dormindo, ou (quem sabe?) um pedacinho em cada período desses... Às vezes, escrevo num pedaço de papel qualquer - “na rua, na chuva, na fazenda” -, e, depois, sei lá quanto tempo passado, digito e guardo num arquivo esquecido. Também, costumo começar algum rabisco, sem finalizar o que escrevo, e guardar na gaveta do pc, pra, um dia, quem sabe, talvez, retomar a escrita, ou aproveitar o "gancho" de uma palavra, uma frase, e seguir outro descaminho. Outras vezes, digito tudo, feito vômito, e deixo 'repousando' na calmaria sem memória, até que volto a ler, reler, e ouso postar.

O que deixo registrado, neste espaço, não é “o que acontece” - pra isso, disponho dos meios convencionais de comunicação. Aqui, só acontece dentro.

Não há segredo. Nem mistério. Há vida além/aquém da vida cotidiana - vida que permanece, vida que pulsa, vida que se escreve por si só. Poderia ser amanhã, ontem, hoje. Por isso, atemporal. Aqui, só existe o espaço – sem tempo cronometrado. E não se fala mais nisso.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Na saia justa


Abomino qualquer réstia de restrição, ou limitação, proibição mesmo, ditadura maquiada, moderninha. Por isso, não gosto de pensar que nem todos têm acesso à tv a cabo, por exemplo – nem ao menos à TV Senado, ou à TV Câmara, ou à TV Assembléia, ou à Rede Brasil, ou à TV Futura, nem à TV Cultura. No Brasil, nem uma delas é canal público, tv aberta. Tá certo que, muitas vezes, assisto sessões na TV Senado, ou na TV Câmara, ou mesmo na TV Assembléia, e sinto alívio, ao pensar que a maioria dos telespectadores não está assistindo aquela ‘merda’ toda no ventilador, simplesmente por que a transmissão desses canais é paga. Eu pago – pago caro, muito mais caro ainda, por que o meu mal-estar é tão grande, diante de algumas cenas das “excelências” públicas (até no canal do STF!), que eu preferia mesmo estar assistindo alguma novela mexicana (pelo menos, seria ‘merda’ imaginada, indolor à nossa realidade). Bastaria desligar, ou trocar de canal, e depois esquecer. E pronto.
Pra salvação (será?) dos telespectadores, a tv a cabo oferece um remédio (dosagem única) que sempre funciona: o controle remoto. Quando posso, assisto “Saia Justa”, na GNT. O nome instiga, não mais que as protagonistas desse programa. Quem conduz todas as “jogadas” é a jornalista Mônica Waldvogel, seguida pela filósofa Márcia Tiburi e as atrizes Betty Lago e Maitê Proença. Imagine tudo isso junto, se você nunca assistiu. Se já viu o que eu vi, pode ficar sabendo a minha opinião agora sobre “Saia Justa”.
Mônica é funcionária global – veste a ‘camisa’, há muito tempo, e, no campo jornalístico, já ganhou coleção de troféus de credibilidade. Márcia é filósofa gaúcha – tava lá nos “pampas”, tomando chimarrão, quando foi convidada a participar de um debate, assistido por Mônica, que a chamou pro programa. Betty vem das passarelas, nacionais e internacionais, seguindo a carreira de atriz. Maitê foi “hippie”, depois atriz, começou a escrever demais, e hoje é colunista, tem obra publicada, e tá escrevendo peças de teatro.
Feitas as devidas apresentações, o que assisto, de quando em vez, é o contraste destacado entre as quatro personalidades, que, a cada semana (o programa reprisa, reprisa, reprisa a semana inteirinha), emitem opiniões sobre um determinado tema. Confesso que não consigo me deter somente no que elas falam, por que soltam muuuuuuuuuuitas “abobrinhas”. Como não como abobrinha, como não como chuchu, acabo sempre “viajando”, durante o programa. Chega ser algo feito você comprar uma passagem pra viajar uma hora (tempo do programa), dormir no trajeto, e acordar somente no fim da linha do trem, mais de cinco horas depois.
Mônica Waldvogel dá sempre o “pontapé inicial”, parecendo nem imaginar aonde vai parar a ‘bola’. Maitê Proença é aquela que sempre sabe tudo, até quando diz: “Não sei, mas, na minha opinião blá blá blá” (que não acaba nunca, por que tem de ser interrompida nas suas “delongas” longas). Betty Lago é aquela que quer saber tudo, e por isso se contrapõe. Ela pergunta, e, logo depois, parecendo compreender (o que ainda não compreendeu), já interrompe a fala da outra, seja a outra quem for. Mas é visível, a cada programa, a disputa entre ambas: Betty X Maitê (uma alfinetada aqui, uma tesourada ali).
No outro lado do sofá, estão Mônica Waldvogel, que, pra mim, representa a fatia emocional do programa, e Márcia Tiburi, a fatia racional. O bacana é que, às vezes, Mônica é emoção racional, e Márcia, razão emocional. A alquimia se torna harmoniosa, até enquanto o programa permite, já que Maitê e Betty se degladiam, quase o tempo todo, sempre por causa de picuinhas.
O que eu enxergo ali é a humanidade inteira (homens, mulheres, em todas as fases da vida): tão diferente, tão igual. Provavelmente, as quatro recebam script, mas, conforme o programa vai “rolando”, é notório que todas perdem o fio condutor inicial. Algumas retomam o fiozinho quase esquecido – na maioria das vezes, Márcia e Mônica, enquanto Betty e Maitê persistem, bravamente, na discussão sobre quem ‘pintou’ primeiro: o ovo, ou a galinha.
É assim que vejo “Saia Justa”: de pijama, cheia de preguiça, com o (abençoado) controle remoto na mão... é preciso estar preparada pra tudo... quem assiste, sabe o que digo... hehehehehehehehe

domingo, 20 de setembro de 2009

Joguinhos imortais


Enquanto as telonas e as telinhas exibem “Jogos Mortais” I, II, III, IV, V, VI (“ad infinitum”), eu fico pensando nos joguinhos imortais que nós, seres humanos, usamos e abusamos cotidianamente. Sei lá quem nos ensinou, mas aprendemos, durante a vida, muito mais a insinuarmos, na tentativa, consciente ou não, de que o outro assuma também por nós, fazendo o que esperamos dele.
Por exemplo (exemplo é uma palavrinha que não rima comigo), quando queremos aumento salarial, ou promoção no ambiente de trabalho, nos esforçamos à perfeição. Há ainda aqueles, mais exagerados, que começam servir cafezinho para o chefe, às oito da matina, e só param, depois de “baterem o ponto”, no início da noite, quando já “se mataram” em horas extras esquecidas pelo Departamento de RH. Poucos mesmo ousam chegar diretamente ao chefe (que não é “guru adivinhatório”), verbalizando o que desejam. Somente uma minoria é que marca reunião, ou aproveita um momento propício, para expor que tem trabalhado, se esforçado bastante, e considera justo e viável o reconhecimento, por parte do patrão, com aumento na folha de pagamento, ou algum cargo de ascensão.
Mas os joguinhos imortais não param por aí... Aliás, não param jamais, por que os autores dos joguinhos morrem, mas os joguinhos permanecem – imortais...
Acredite se quiser, há muitas mulheres, jovens inclusive, que estão, neste momento talvez, “se produzindo”, na esperança de receberem convite de casamento de um namorado, ou “ficante”, incauto, que não adivinha tal sonho, nem pensa em casar. Eu não compreendo essa linguagem, e até imagino que tudo isso dê muito mais trabalho do que se a criatura for direta e franca.
Se você ainda não sabe, eu sempre questiono tudo o que observo. Sei que também devo participar, ou promover, zilhões de joguinhos imortais. O que não compreendo é por que, quando temos a clareza do que queremos, não ousamos expor, manifestar. Será medo?... Mas não há medo em criar esses constantes joguinhos cansativos?... Se o medo é de receber um “não”, os joguinhos também podem nos levar, junto com a vaca, “pro brejo”. Gente, é muita perda de tempo! – estou dizendo isso pra mim também, que sou parte dessa humanidade que cultua joguinhos mais intrínsecos que os enredos cinematográficos contemporâneos.
Por questionar demais tudo isso, sempre busco ouvir pessoas a respeito. Já ouvi gente que cria esses joguinhos imortais, como também outra gente que, consciente de que está fazendo parte do joguinho, continua alimentando. O que percebi, na minha visão estrábica, é que quem cria, conscientemente, esses joguinhos sente insegurança em assumir, e conduz o outro à ação tão desejada. Quem alimenta, com consciência, os joguinhos é por que, acho, prefere ser seduzido (a), e pra isso dá toda corda (mas só corda mesmo).
Teve gente que me confessou esperar que chamassem pra se candidatar, e “deu com os burros n’água”, pois outras pessoas colocaram seus nomes à disposição, abertamente, e concorreram, na eleição. Os joguinhos imortais – é o que penso – podem atrasar a vida, pois, enquanto alguns somente se insinuam, outros dão a cartada definitiva, através da franqueza: Quero! Não quero!
Eu mesma não sou “chegada” em jogos, até por que sou péssima jogadora. Confesso que, no futebol, não torço nem pra Seleção Brasileira. Sempre digo que não presto nem pra isso: torcer por aqueles que vivem de desafios competitivos. Até assisto alguns jogos de televisão, ou playstation, mas não por causa do jogo - mais e tão-somente pela companhia. Também, não gosto de me enxergar alvo de joguinhos, e, quando percebo que estou criando ou alimentando algum (joguinho), mudo o rumo pra lugar nenhum. Às vezes, demora “pra cair a ficha”, mas cai. Quando ‘saco’ que sou eu a criar o dito joguinho imortal, fico p. da vida comigo mesma. Mais do que simplesmente baixar a cortina, pra não dar continuidade à cena, eu busco reavaliar, em mim, como posso ser franca. Tenho dificuldades, reconheço, em ser direta, objetiva, mas o caminho da franqueza me é sabido. Quando consigo suspender o joguinho, com o exercício da franqueza, me admiro pra caramba. É o que estou tentando fazer agora. (Por favor, não pense você, que eu nem imagino quem seja, que estou fazendo, aqui, algum desses joguinhos. Se você me conhece, deve saber que eu não usaria este meu “chão” pra enviar “torpedo” a uma pessoa – seria exclusividade demais, e eu não faria isso por aqui. Neste espaço, eu paro pra pensar, repensar, ‘despensar’. Só “viagem” – mesmo.)
Admito que faço parte deste filme: joguinhos imortais. Às vezes, protagonista; outras, coadjuvante. Sei também que os joguinhos não vão acabar, até por que servem de instrumento a todos nós, que, numa circunstância inesperada, nos sentimos inseguros, com medo. Queremos ascender, do jeito que for, mas não queremos assumir o risco – o outro representa a aprovação (externa) que desejamos. Que o outro arrisque, ouse, tome a iniciativa, trazendo nossa medalhinha de “honra ao mérito”.
Não foi à toa que o ser humano criou aquela figura instigante: o labirinto... né?...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Conversa fora




Tô sempre jogando conversa fora, senão com alguém, ou ‘alguéns’, sozinha – converso bastante comigo mesma (mais até do que com os outros), e chego a grandes debates. Desta vez, resolvi mudar, e não ‘surdar’. Ao invés de jogar conversa fora, decidi catar conversa fora. Fiquei mais atenta, obviamente, em relação ao que acontece fora, sem a minha participação. Gostei do que vi, ouvi, testemunhei, e, se não tivesse visto, ouvido, testemunhado, não veria mais, nem ouviria mais, ou testemunharia mais, nem menos. Foram cenas inusitadas, cenas que seriam improvisadas num palco, e não poderiam mais ser repetidas. Valeu a pena.

Em vez de você jogar conversa fora, prestenção nas conversas aqui de dentro:

“- Esse meu amigo passou uns dez dias fazendo curso pra canário...
- Curso de canto?
- Não. Ficou preso mesmo, uns dez dias, né amigo?...”
putzzzzzzzzz

“- Seu computador não tem mais conserto. Eu avisei à senhora para não abrir emails de desconhecidos...
- Ah, mas o cartão era tão bonitinho, e me chamava de amor!...”
putzzzzzzzzz

“(pelo celular:)
- A febre do moleque baixou?... Semana que vem ele ainda vai tá no hospital?... É quando vou poder dar uma passadinha lá, pra ver o filhão...”
putzzzzzzzzz

“- Entra aí, nessa loja mesmo, pra ele não te ver...
- Tá, mas não empurra... não empurra... pera...
(kataploftttttttttttttttttttttttt duplo)”
putzzzzzzzzz

“(caixa de supermercado) - Se eu fosse a senhora, não comprava esses tomates!
- Por que não?
- Eu não gosto de tomates!
- Mas eu gosto!
- É a sua última chance: posso retirar os tomates do caixa e das suas compras?...
- !!!!!!”
putzzzzzzzzz

“- Esse é o encontro das mulheres, né?
- Sim.
- Quem é o único homem, aquele moreno bonitão, encostado na porta?
- É o marido da palestrante convidada.”
putzzzzzzzzz

“- Que pássaro lindo e imponente!... De qual espécie é?...
- Aquele lá no alto?... É urubu mesmo!...”
putzzzzzzzzz

“- Não adianta, gente, o secretário não está na Secretaria.
- Ah, pega o megafone aí, vai pro meio da rua, pra ver se ele não aparece rapidinho...
(no megafone:)
- Secretário, há quanto tempo!!!...”
putzzzzzzzzz

“- Acabei de experimentar um novo medicamento, que não me fez bem.
- Precisa de alguma coisa?...
- De um outro medicamento que me faça bem...”
putzzzzzzzzz

“- O que me enlouquece não é ela ser louca, mas sim, ela enlouquecer todo mundo. É isso que me deixa louco. É uma loucura, você nem imagina!...
- Não mesmo...”
putzzzzzzzzz

“- É muita mulher pro meu caminhãozinho! Nossa!...
- Que cara de ‘merda’!... Você acha que me produzo inteirinha, pra ficar ouvindo essa coisa mais pobre?... vai estudar, ou fica sem mulher nenhuma...”
putzzzzzzzzz

“- Chá, ou café?...
- Café, por favor.
...
- Aqui, é casa de chá mesmo, hein?... Até o café vira chafé...”
putzzzzzzzzz


Agora chega. É a tua vez de observar conversa fora. Abra a janela... Boa paisagem!...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O machismo das mulheres


Nada mais repugnante que uma mulher machista. Pior que isso, só mesmo muuuuuuuuuuuuuuuuuitas mulheres machistas, juntas. Aliás, acho mesmo que qualquer exagero, excesso, sempre cai mal, seja no machismo, quanto no feminismo, ou em qualquer outro ‘ismo’. Humilhar gênero, categoria profissional, ou seja lá o que ou quem for, sempre é coisa de gente besta, que parou num tempo, que, talvez, nem tenha existido.
Duvido que você, aonde estiver, também não conviva com alguma machista de saia. Cá entre nós, a situação é meio estranha, né não?... Eu sempre estou a observar, de soslaio, alguma machista, que jura, de pés e mãos juntos, que não é contra as mulheres. E ainda justifica: “as mulheres é que são incompetentes, burras, fofoqueiras”. Inimagináveis adjetivos fluem, deslizam tão naturalmente, em tom de segredo, que eu chego a questionar: Como será que ela convive com o próprio sexo, já que também é uma mulher – ou não?... E, quanto a mim, será que ela pensa que sou homem (ou gay)?...
Confesso que não sou muito “chegada” nessas coisas de “grupinhos” – até gosto de alguns, mas são tão raros, que os prazerosos encontros fazem com que eu esqueça que faço parte de um “grupinho” desses. Nunca me filiei a partido político algum – nem pretendo, nas próximas encarnações também. Grupo, pra mim, pressupõe exclusão de outros, e, na maioria das vezes, eu prefiro os outros, que são mais, são muitos, e não cabem num “grupinho”. Tô escrevendo isso, pra dizer que sei de grupos feministas e machistas, que têm até regimento, etc e tal. A coisa é, senão legal, legalizada.
Tive a oportunidade de conhecer algumas mulheres que “mergulharam” de tal forma no feminismo de Betty Freeman, que deixaram de ser femininas. Talvez, foi aí que o movimento dividiu-se: Movimento Feminista e Movimento Feminino. Pelo que sei, o Movimento Feminista é aquele que (ainda) manda a mulher pro tatame, pra lutar, de igual pra igual, contra o homem. O Movimento Feminino continua, acho (e espero!), defendendo direitos iguais às mulheres, em todos os setores da sociedade.
Não compreendo bem esse ‘jogo’, por não me ver participante dele. Como ser humano, ser social (nem tão sociável), acho que o que conta mesmo é o que a criatura, independente de ser homem, mulher, ou gay, faz. Não tenho pré-conceitos, nem ‘pós-conceitos’ em relação a gays, homens, ou mulheres. O que sempre ouço é uma série de frases machistas, mais de mulheres, inclusive, que de homens. São elas que dizem: “aquela ali não vale nada”, “só podia mesmo ser mulher no volante”, “não precisa ser mulher na presidência”, “essa mulher é uma vergonha”, etc e tal (espaço à tua imaginação). Enquanto os homens fazem piadas, e se divertem com elas, as mulheres – é o que presencio – se degladiam, a todo instante. Lamentavelmente.
Quer mais?... Hoje, já estamos ultrapassando a metade dos votos eleitorais, no Brasil. E a maioria dos votos continua sendo para os homens – seja no município, ou no estado, até na esfera federal. E não é por que não existam candidatAs (é lei até que elas se candidatem). Dizem que Marina Silva e Dilma Roussef estão chegando à candidatura à presidência da República, e que Heloísa Helena também está ‘doidinha’ pra entrar nessa ‘briga’. Só quero ver no que vai dar. Na minha opinião, deveriam convidar algum juiz de luta livre, pra controlar os ‘ânimos’, nos prováveis debates.
Gente, aonde foi parar o discurso feminino, por igualdade, por direitos às mulheres, sem precisarmos assassinar os pobres homens, já amedrontados com tudo o que vivem hoje?... Não faz tanto tempo assim, eram só eles, os machões, os machistas, os “donos da bola”. Hoje, em muitas famílias, as mulheres são aprovadas em concursos (salário altíssimo), enquanto os homens ficam em casa, cuidando dos filhos, preparando as refeições, lavando e passando roupas, correndo atrás de faxineira (pra faxina mesmo). Acho bacana tudo isso, desde que – é o que penso – haja harmonia familiar. Muitas dessas mulheres de ‘sucesso’ já me confessaram que suas maiores adversárias, no mercado cada vez mais competitivo, são as mulheres, não os homens. Algumas até me fazem lembrar Margaret Thatcher (alguém consegue esquecer a “dama de ferro” que dominou tanto tempo?), como se precisassem ser “muito machos”, pra ocuparem altos cargos. Que baboseira!... Pra essas, definitivamente, nem uma mulher presta. E eu trato de me afastar, antes que recuperem o juízo (se algum dia tiveram), e lembrem que também sou mulher...
Há mulheres que não valem nada?... Claro, como também existem homens que não valem nada, e gays que não valem nada. Mas aposto que o não valer nada não decorre do fato de serem mulheres, homens, ou gays. O valer, ou não valer, pra mim, está além, ou aquém, do gênero (personalidade e caráter não têm sexo).
Resumindo essa ‘merda’ toda, machismo é ruim, tanto na manifestação dos homens, ou das mulheres. Feminismo é ruim, se exclui a participação masculina. Acho que dá pra equilibrar os gêneros e os gênios. Não sou Pitágoras (nem íntima dele), mas penso que uma boa matemática resolve tudo.
Sou mulher. Não sou machista, nem feminista – talvez, sonhadora que acredita na soma, na convivência de amor e respeito, na harmonia. Independente de “gênero, número, ou grau”... hehehehehehehehehe