quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pensar

Todo mundo pensa, o tempo todo – a vida inteira.
Uns pensam, por pensar.
Outros pensam, sem querer.
Alguns desejam pensar, e acabam não pensando.
Tem aqueles que não querem pensar, e só pensam nisso.
Outros pensam, e esquecem o que pensaram.
Há os que pensam, para lembrar.
Uns pensam no que estão fazendo.
Alguns pensam no que não fizeram, não fazem.
Tem os que agem, sem pensar.
Outros só pensam, não agem.
Há aqueles que pensam, pensam, só pensam.
Alguns pensam no que poderiam estar pensando.
Outros tentam pensar o que os outros podem estar pensando.
Tem gente que pensa que pensa, mas não pensa.
Uns fingem não pensar.
Há quem diz que não tem tempo de pensar.
Ainda tem os que fingem pensar.
Outros brincam de pensar.
Tem gente que não pensa, por que isso dá trabalho.
Alguns trabalham, só pensando.
Outros nem sabem o que pensar.
Uns pensam demais, e perdem o sono.
Há aqueles que acordam, pensando.
Alguns se apavoram com o que pensam.
Outros se veem, de repente, pensando.
Tem quem comemora o que pensa.
Uns não conseguem decifrar o que pensam.
Tem gente que julga o que pensa.
Outros julgam o que os outros dizem pensar.
Muitos perdem o fio da meada do que estão pensando.
Uns não conseguem parar de pensar o que pensam.
Há quem relaxa, pensando.
Tem aqueles que pensam, mas nem chegam pensar que pensam.
Alguns querem pensar por todos nós.
Outros alguns querem que pensemos por eles.
Tem gente que larga tudo, para ficar pensando, pensando, só pensando.
Uns pensam, buscando respostas.
Outros questionam mais ainda, quando pensam.
Entre todos, estou eu – que não quero pensar mais, pelo menos agora, sobre isso.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A imagem da imagem

Sabemos que podíamos estar “roubando, matando, estuprando”. Mas não. Escrevo. E, enquanto escrevo, penso que você pode até me ler – ou não. Sabemos, também, que, em países do “primeiro mundo”, as crianças falam, fluentemente, o inglês – and I no speak english today, and tomorrow, too. Oh, god!...
Tudo, tudo mesmo, é imagem, representação. Não enxergamos – tão somente imaginamos enxergar o que vemos. Imagem, imagem – nada além do que imagens. A vida pode ser resumida nisso: imagem, ou a imagem da imagem. Por que, além da representação, há o imaginário, que permeia lugares inimagináveis.
Tudo começa – penso eu, que penso demais, mas não chego a tanto – quando passamos a construir uma imagem de nós mesmos. Depois, nos detemos na 'feitura' da imagem do(s) outro(s), com quem convivemos. Mas a historinha vai além (sempre tem mais): cada outro faz uma imagem da gente. Pior que isso é que, quase sempre, desapontamos e nos desapontamos com as imagens criadas por nós e pelos outros. Acho mesmo que o maior desapontamento é nosso, em relação a nós mesmos. Depois, vem o desapontamento em relação à imagem que construímos do outro, à revelia da imagem que o outro tenha conseguido fazer dele mesmo.
Mas precisamos reconhecer, também, que há muita imagem nossa melhor do que somos, ou, pelo menos, de quem imaginamos que somos. Pode observar, tem sempre alguém retocando a nossa imagem da imagem nossa: ou nós mesmos, ou os outros. Para melhor. Para pior. Tudo depende do olhar do momento - banido, sempre, pelo próximo instante, pelo outro olhar.
Ser humano vai sempre além. Por isso, criamos mitos – desde sempre. Por não querermos mais só idolatrar os mitos gregos e romanos – que prevalecem nos livros de história da humanidade -, mitificamos personagens contemporâneos, vestidos pelas imagens criadas por nós. É por isso que hoje temos tantos mitos estampados por todo o lugar. Bons ou maus, os mitos são criados, conforme a necessidade do público, que quer vaiar, ou aplaudir.
Com isso tudo acontecendo, proliferam-se os conhecidos “paparazzi”, que ganham dinheiro, fotografando e vendendo imagens de mitos populares – saindo de banheiro público, comendo com a boca aberta, ou simplesmente andando de bicicleta, em algum calçadão. As imagens fascinam, por que, para os idólatras, situações comuns de todos nós são inimagináveis, quando os protagonistas são os mitos adorados, com imagens cada vez mais distanciadas da realidade humana.
Tem gente que diz que necessitamos mitificar, para mantermos os parâmetros de bem e mal, bondade e maldade, etc e tal, destacando exemplos humanos a serem seguidos, ou não. Na minha opiniãozinha sem importância alguma, não penso que necessitamos disso – até por que muitos de nós (eu também) nos esforçamos para não alimentar as imagens dos mitos. Já dizia a tataravó da minha bisavó: quanto mais alto o pedestal, maior o tombo.
Claro que somos todos diferentes – idólatras e idolatrados -, mas nem tanto. Sonhos, desejos, projetos, medos – temos muito em comum. Se a mitificação decorre da frustração em relação a nós mesmos, acho que, em vez de despejarmos no outro (mito), expectativas além do além, o mais simples seria lidar (mudar) com a própria realidade – a nossa realidade. Sem mitificação.

sábado, 27 de outubro de 2012

Sabor de caramelo

A vida pode ter mesmo sabor de caramelo. Acredito nisso, por que alguém me mostrou, há muito tempo, na minha infância cheia de observações, sabores, cheiros, imagens, que o o melhor da vida pode ter sabor de caramelo: meu pai.
Muito mais que falar, meu pai colocava valores, na vida, que, se você não lhes dá atenção, nem os percebe. Foi assim que cresci, na companhia de meu pai: observando tudo, silenciosamente, e aprendendo. Se sempre falo do meu pai, é por que ele foi meu primeiro mestre da vida, na minha vidinha. Depois, tive outros mestres, que me mostraram tantas paisagens, tantos caminhos. Mas foi com meu pai que aprendi a buscar sempre meu olhar microscópico, sem me deter, me perder, na aparência, na casca, no invólucro.
Lembro, agora, quando meu pai, já aposentado, criou um hábito vicioso: comprava sempre pacotes de caramelos. Nada de caramelos linda e separadamente embalados. Não. Eram caramelos comuns – multicoloridos, mas sempre os mais baratos. Comprava um, ou dois quilos, e íamos para casa, chupando caramelos. O sabor era especial – talvez, puro açúcar -, por que tinha o sorriso do meu pai, naquele olhar acinzentado.
Já disse que meu pai não verbalizava tudo – as atitudes eram mais as palavras dele. Foi meu pai que me ensinou, com os exemplos que dava, naturalmente, a buscar o melhor das pessoas. Havia, nos olhos de meu pai, uma esperança na humanidade, que me encantava, e até me fazia acreditar que nem tudo estava perdido, que podíamos nos tornar melhores – todos, todos nós, seres humanos.
Entre um caramelo e outro, meu pai, às vezes, falava da infância dele, quando lembrava ter vendido, de porta em porta, verduras, legumes, frutas. Depois, recordava os tempos de exército, dos exercícios físicos forçados na neve. Ah, mas o melhor sempre ficava por último, na conversa com sabor de caramelo. Meu pai contava sobre as viagens dele, conduzindo trens (por mais de 30 anos, foi maquinista). Quantas paradas de trem meu pai fez, de madrugada, no meio do nada, só para tomar chimarrão, “no ar fresco e puro da noite” - dizia ele. Mas, também, haviam as caçadas de pequenos animais do mato, além da pesca em algum “lugar perdido cheio de água limpa”. Depois, feito menino cansado de brincar, meu pai retornava ao trem, e continuava conduzindo a grande viagem. Antigamente, os trilhos dos trens não tinham pressa, passeavam no meio do mato, adentravam lugares silenciosos e sombrios, para depois se depararem com o nascer do sol.
Ainda sinto o sabor daqueles caramelos que alegravam a alma infantil do meu pai, que, numa noite, seguiu a viagem mais surpreendente da vida - nós todos também trilharemos...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nosso presente para o futuro

Em meio a brinquedos atrativos e barulhentos, presentes variados, pacotes brilhantes e laços coloridos, fico eu pensando nas crianças. Meus filhos cresceram – tempo célere. Não tenho (ainda) netos, tataranetos, bisnetos. Mas continuo fascinada pela infância – toda infância humana, e a minha infância, também.
Lembro do meu espanto, quando percebi que, sem planejar, sem maquiavelismo algum, eduquei meus filhos. Até então, eu ainda imaginava que educar fosse aquilo que me impingiram, quando eu era criança: educação rimava com obrigação. E eu nunca levei jeito pra impor, obrigar, ou até mesmo brigar. Do meu jeito sem jeito, eduquei, e, até hoje, meus filhos lembram nossas aventuras, na infância deles, que também foi minha, e continua sendo, por que continuamos brincando, nos aventurando, compartilhando vida.
Enquanto a maioria, que tem crianças por perto, se preocupa em comprar e dar presentes, nesse dia, eu fico pensando no que pode ser nosso presente para o futuro. Até por que, acho eu, de nada adiantaria superlotarmos as crianças de brinquedos e doces, esquecendo que o que fica mesmo é o exemplo de ser humano. A minha preocupação maior, no que se refere à infância, reside justamente aí: e se esquecermos que, todo o tempo da vida inteira, somos exemplos, principalmente às crianças?...
É certo que, entre 8 e 80, há outras 72 possibilidades. Por isso, o ato de cercear completamente, ou liberar geral, gera desequilíbrios inimagináveis. Isso, a gente (chamada adulta) sabe, por que vivencia. Mas cadê balança, régua, pra precisarem como cuidar de uma criança?... Por favor, não me venham com manuais que determinam como educar crianças!... Só mesmo no 'olhômetro' do sentimento – penso eu, que penso tanto, sem nada concluir. Se são nossos filhos, torna-se mais simples, o ato de observar, conhecer, respeitar, por que existe o amor genuíno – ainda acredito nisso. Se não são nossos filhos, existe vínculo – ou por que somos babás, ou por que damos aulas, enfim, convivemos. Mas ainda nos deparamos com outras crianças – os filhos de ninguém, rostos invisíveis pedindo “um trocado, tia”. São todas crianças – sonhos e desejos semelhantes.
Sei que estou 'viajando', enquanto escrevo. Mas é isso que quero, por que, quando se trata de crianças, viajo mesmo, me permito a isso, e o passaporte é a minha preocupação: qual será nosso presente para o futuro?... Hoje, Dia das Crianças (de Nossa Senhora Aparecida, e de Oxum, também), qualquer presente faz brilhar o olhar infantil – e no futuro?... Presente é bom – todo mundo (até adulto) gosta. Mas há presente que estraga, quebra, enferruja, desmancha, desgasta, fere, até mata, e não tem mais conserto.
Em qualquer tempo da humanidade, família sempre representa convivência de conflitos, por que todo mundo é diferente (ainda bem). Aos pais, dizem que cabe prover, através do trabalho – dentro e fora do lar, nem sempre doce -, as condições de subsistência, sobrevivência e existência dos filhos. Sabemos que nem sempre é assim. Há notícias de que tem muitos pais esquecendo os filhos dentro de veículos trancados, jogando os filhos na lixeira, ou pela sacada, espancando os filhos, e outros pais que estupram os filhos. Nem me interessam as justificativas. Mas cuidado e proteção aos filhos continuam sendo lei.
Na correria em que os pais vivem hoje, tendo condições financeiras, contratam empregada doméstica, para cuidar da manutenção do lar e dos filhos. Com mais dinheiro disponível (traduzindo: trabalhando mais, com menos tempo em família), os pais pagam os serviços de uma babá, para cuidar dos filhos. No Brasil, isso é mais comum que na maioria dos países, principalmente, na europa, onde os serviços domésticos estão sempre em alta cotação, pelo que estou informada. Pois bem. Na maioria das famílias com melhores condições financeiras, os filhos estão sendo educados por empregadas, que, às vezes, foram alfabetizadas e deixaram os estudos, para começarem trabalhar cedo, depois tiveram filhos, e não retornaram à escola. Eis outra palavra salvadora: escola. É notório que muitas famílias são dependentes da escola dos filhos, “local seguro” (hoje, nem tanto), onde as crianças ficam, por algumas horas. Para compensarem a ausência, os pais enchem os filhos, com presentes atrativos. Se os filhos vão mal na escola, trocam de escola. Pronto. Tudo resolvido. Resolvido?... sei não.
Do lado de fora da família estruturada(?), crescem as crianças que nem sempre vão à escola, nem sempre conhecem pai e mãe, nem sempre tem café da manhã, jantar, almoço, lanche, roupas, calçados, brinquedos. Ignoradas ou não, as crianças continuam lá – nas ruas, nas periferias -, à espreita, crescendo. Mas a correria dos pais é tanta, que essas crianças tornam-se invisíveis, até que cometem um delito, dois delitos, ou vinte delitos, como assisti, dia desses, numa reportagem, quando um garoto de doze anos foi apreendido pela polícia (20ª vez). Já não são mais invisíveis, nem crianças – aos olhares humanos(?), marginais. Mas, no fundo, continuam crianças – bem além de uma certidão de nascimento, embalada num saco plástico retirado do lixo.
Alguém pode perguntar (perguntam sempre): “O que eu tenho a ver com isso?”... Gosto de responder com outra pergunta: O que nós todos não temos a ver com isso?...
Ah, já ia esquecendo (imagina!): tenha um feriado feliz!...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Oferta e demanda

Daqui a pouco, chegamos no mês de outubro, e, talvez, você, feito eu, também nem esteja se interessando pela campanha eleitoral deste ano. Pode dizer que é cedo para pensar nisso. É isso mesmo. Deixe para pensar mais tarde, muito tarde – ou, melhor ainda, nem pense a respeito. Afinal, o que a gente tem a ver com isso, não é mesmo?... Se não somos políticos – candidatos, ou puxa-sacos -, para que acompanharmos os entendiantes programas eleitoreiros, que atrasam as novelas da televisão?...
Independente de quais sejam os candidatos, na minha desimportante opinião, o que não pode faltar, numa campanha, é aquela frase maravilhosa: “Peço licença, para entrar nos vossos lares”. Gente, quanta criatividade (alguns plagiam, é verdade)!... E a impostação de voz, ou de vozes?... Tem tanta coisa artística, dita e notada, nas campanhas eleitorais, que, em ano de eleição, eu sempre acho que tem gente que reprisa vídeos, feito “vale a pena ver de novo” mesmo (traduzindo: se não gostou na primeira, engula a segunda vez).
Diante de tantos candidatos, fica mesmo difícil escolher. Eu começo sempre por eliminar – por exemplo, não falou “peço licença, para entrar nos vossos lares”, já está fora. Mas há que se considerar outros pormenores, ou 'pormaiores'. Eu sempre observo se o candidato inova: tem de falar que vai trabalhar por saúde, educação, segurança, transporte e habitação (nem sempre nesta mesma desordem). Ah, não pode faltar a preocupação dos candidatos com as crianças, os velhos, os jovens, as mulheres, os negros, os índios, os homossexuais, os trabalhadores, os desempregados, os religiosos, os ateus, os doentes, os sadios. Isso tudo (e mais um pouco) não pode ficar de fora.
Mas sou exigente. Quero mais, para continuar selecionando, até chegar à escolha dos meus candidatos – este ano, vale lembrar (tem gente que nem sabe), as eleições são municipais. Tem prefeito se pendurando em retroescavadeira (novinha em folha), buscando reeleição, enquanto vereadores se seguram nas cadeiras, cantando: “daqui, não saio; daqui, ninguém me tira”.
São tantos candidatos, que resolvi fazer um manualzinho de filtro. Escolha o candidato mais bonito, ou a candidata mais bonita (se fizer alguma coisa, não vai fazer feio). Se for artista, ou que se ache, pelo menos, celebridade, melhor ainda. Ou, então, escolha o candidato, ou a candidata, que já teve o nome em processos de falcatrua. Você não sabe o que é falcatrua? - melhor ainda. Pelo menos, o candidato, ou a candidata, já fez alguma coisa, e até ficou famoso(a), por isso. O importante é que a maioria fale – bem ou mal – do candidato, da candidata, pra você votar. Você não vai querer votar num(a) ilustre desconhecido(a), né?... Fama é tudo.
Todo mundo sabe que um monte de eleitores vende o voto a um monte de candidatos. Dependendo da cotação no mercado, o voto parece ter valor – senão para quem vende, pelo menos, para quem compra. Eu sei que tem muita gente que reclama, que quer ganhar mais dinheiro, para votar no fulano, ou na sicrana. Esses eleitores se assemelham, à minha visão estrábica, àqueles caras estressados que trabalham na bolsa de valores de qualquer lugar do planeta. Gente, necessário se faz compreender o momento: o mercado está superlotado de ofertas - muitos eleitores trocam o voto por uma casca de cebola. Isso é fato. Já a demanda é criteriosa: trabalha na base do olhômetro leiloeiro – preferencia a compra de um voto, barganhando o kit família, e oferece, não uma casca de cebola, uma cebola podre, fedorenta. Resultado disso: no dia da eleição, já não existe mais a lembrança do valor do 'negócio', mas o 'santinho' do candidato segue enroladinho, entre os calos da mão do eleitor, objeto da maior confiança dos candidatos que investiram nele.
Eu sou irônica?... imagina...

terça-feira, 31 de julho de 2012

Pensar na vida

Pensar na vida. Pensar na vida! Pensar na vida? Por que eu perderia tempo, pensando na vida? A vida inteira, tenho gente, ao meu redor, pensando na minha vida. Enquanto moro com os pais, eles que pensem na minha vida. Depois, se eu caso, o marido, ou a esposa, que pense (e cuide) da minha vida. E ainda tem os vizinhos, os colegas de trabalho, os companheiros de festas – todos pensam na minha vida. Por que eu haveria de pensar na vida?
Pensar na vida cansa, dá trabalho demais, e ainda dói. A escolha é minha, não é? Então, escolho viver, sem pensar na vida. Prefiro fugir de qualquer conversa que me faça pensar, ou me queira pensando. Se percebo, em mim, qualquer indício de pensamento sobre a vida, encho meu ambiente de ruídos, sons ensurdecedores, gargalhadas desvairadas, e festas, e baladas.
Ouço tanta gente dizer que pensa na vida – na própria (vida) e na dos outros. É religioso. É monge. É idealista. É filósofo. É assistente social. É Prêmio Nobel da Paz. Por que eu pensaria na vida, se não sou nada disso, nem pretendo ser? Quem quiser pensar, que pense, que sofra, que procure sentido pra vida. Eu quero mais é viver, curtir a vida, sem pensar.
Se eu começar pensar na vida, vou parar de culpar os outros, e vou perceber – pensando – que sou eu que causo o bem e o mal que sofro. Pensar na vida, definitivamente, não dá certo. Se eu pensar na vida, vou querer pensar mais ainda, e vou enxergar a vida de uma outra forma – mais clara, mais real. Não. Não quero pensar na vida – nem na minha vida, nem na vida de ninguém.
Pensar na vida pressupõe pensar no tempo, pensar na morte. Eu quero mais é me divertir, longe de quem pensa na vida. O que acho pior é que essas pessoas que pensam na vida dizem que não querem chegar à conclusão alguma, mas sim, questionar, cada vez mais. Prefiro não pensar, não questionar. Que ninguém tente me obrigar pensar na vida. Não obedeço – sem pensar.
Ao que parece, quem pensa na vida está sempre instigando os outros a (também) pensarem. Comigo, não. Não tenho tempo pra essas besteiras. Quero mais é o imediato, o supérfluo, o descompromisso, o sem pensar mesmo. Depois, todo mundo morre mesmo – quem curtiu a vida, e quem pensou sobre ela. Por que vou me importar com isso?
Se, de repente, me vejo pensando na vida, saio pra beber, pra curtir a vida. Quando o efeito não é o esperado, busco drogas mais fortes – alguma qualquer coisa que me faça parar de pensar. E ainda tem gente que continua pensando em mim...
Pensar na vida? Pensar na vida! Pensar na vida.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Telecursos modernos

“Nada será como antes” - canta o poeta Milton Nascimento. Tudo é modificado, a cada instante, e, por isso, impermanente. Dizem que tudo evolui (não acredito muito nisso, nem pouco). A realidade é que estamos sempre descobrindo novos brinquedinhos – na ciência, na tecnologia, em todos os setores. É claro que, diante de um mundo evoluído (?), as aulas precisam ser modernizadas. Quem não vai à escola, tem a oportunidade de instruir-se (?), através da televisão. Acompanhando o ritmo da moda acelerada, os conhecidos telecursos já não são mais os mesmos – nem os interessados nos conteúdos. Hoje, temos aulas, pela televisão, 24 horas por dia, sem precisar de TV a cabo. A televisão pública dá conta de despejar cursos intensivos, práticos e baratinhos (só o custo da energia elétrica), nas horas que temos disponíveis – refeições, cochilo no sofá, insônia no quarto, ou até de pijama, no domingo.
É tanta informação sendo recebida, ao mesmo tempo, que, às vezes, os canais (cerebrais mesmo, não os da televisão) se confundem, são confundidos. E ainda tem o maldito (bendito) controle remoto – que faz confundir mais ainda. Não são só os intervalos que estão cheios de propagandas – os programas também querem vender, e, nessa competição, não há regras, nem limites. São tantas frases (bem) feitas, apontando o caminho do sucesso, do dinheiro fácil, da mordomia, dos sonhos realizados. Tantos comerciais que se repetem, de canal em canal, lavando e enxaguando cérebros cansados de trabalho, rotina, miséria, frustrações, mesmices – todas essas coisas que, também, fazem parte da vida humana.
Por outro lado, se comparados aos programas televisivos, os comerciais representam apenas a entrada do prato principal, com saladas diversas. Os programas, sim, são certeiros. Se os comerciais fazem o telespectador se sentir um fracassado, que pode ter sucesso – se vestir tal marca, comprar tal carro, beber tal cerveja, etc e tal -, os programas são incisivos: não dão escapatória, nem direito ao raciocínio. Os programas televisivos, a qualquer hora do dia, da noite, despejam telecursos modernos, de cômoda aprendizagem – até o cérebro, desabituado de pensar, absorve. Acho que é por isso mesmo que tem tanta gente (eu já vi) fazendo piadas com as aulas (formais), via televisão. Os telecursos modernos são muito mais interessantes, e aplicáveis, de imediato, à vida prática.
Nem vou perder tempo, aqui, comentando sobre os noticiários vampíricos, na televisão (vampiro tá na moda, né?) - sangue pra todo lado. Talvez, você pense que não são divulgadas só notícias de assassinatos. Claro que não. Há reportagens ensinando, passo a passo, como sequestrar, arrombar casas, veículos, e até caixas eletrônicos. O diploma do telecurso moderno é o produto (prêmio) do roubo. Mas as aulas não param por aí, não. Ainda, tem as novelas, que, há alguns anos atrás, serviam somente para entorpecer as desilusões e frustrações humanas. Hoje, não – hoje, as novelas tem função maior: ensinam práticas que a maioria das teorias condena, com direito a reprises, em todos os capítulos. E tem pior (sempre tem pior): os ditos filmes “apresentados, pela primeira vez, na televisão brasileira”. Esses, sim, são de matar, morrer. Nem precisa mostrar tiroteio. E os cujos ditos são anunciados, com imponência, como se fossem grande coisa. Toda vez que vejo esse desrespeito, na televisão, penso: os diretores subestimam o cérebro do telespectador, o qual, provavelmente, sabe que tem um cérebro (com as funções: pensar, escolher).
Diante desse constante ataque televisivo - o que fazer?... Talvez, arriscar parar, por um momento qualquer, na frente de uma televisão (ligada), e pensar sobre o que você vê – cometa essa atitude, rara, muito rara, na vida da maioria dos telespectadores. Tenha a (inimaginável) experiência de enxergar você mesmo (a), na frente da televisão. Depois, me conta – ou não.