sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mundinho mimado e sexualizado

Na minha desimportante opinião, vivemos sempre numa geração intermediária - entre outras duas gerações. Por isso, talvez, em meio à vida dinâmica (“nada é; tudo está”), não temos valores bem definidos, ou qualquer outra coisa que acabe tendo valor, ou não.
Habitante, também, desse planetinha, eu me vejo entre duas gerações, nem sempre distintas. Convivo num mundinho potencialmente mimado e sexualizado (se você vive no planeta terra, também deve saber) - às vezes, um; às vezes, outro; às vezes, os dois, ao mesmo tempo. Infelizmente, refiro-me, aqui, aos chamados 'seres adultos' (traduzindo: já passaram, pelo menos na faixa etária, pelas fases da infância e da adolescência). Por isso (quem sabe?), tem tanta gente defendendo a redução da idade penal: querem exigir (com punição), dos menores, ética e moral que não existem realmente no mundo adulto. Se fosse para os menores seguirem esses exemplos exigidos de ética e moral, hoje, teriam de buscar em outros planetas. A coisa está tão rara, que, volta e meia, vira manchete de algum jornal que se perde do sensacionalismo, por um momento apenas.
Penso que tudo isso torna-se bastante complicado, justamente por não haver mais distinção de comportamento(s). O que enxergo, na minha visão estrábica, é a maioria das pessoas com atitudes mimada e sexualizada, em situações bastante cotidianas. Nem vou me deter, aqui, nas redes sociais, onde o que predomina é tudo, ou quase tudo, que as pessoas gostariam de ser - em algum momento da vida, se perderam do caminho, ou nem sequer chegaram a qualquer indício de caminho.
Esse mundinho está mimado e sexualizado demais, gente - isso é fato. Em qualquer ambiente, você encontra gente que só faz o que quer, com quem quer, quando quer. Penso que, assim, a vida seria um resort - férias vitalícias. E ainda a maioria trata de sexualizar tudo o que vê e ouve, como se realmente pensasse apenas em sexo. Eu fico com Renato Russo: “Sexo verbal não faz meu estilo”. Entre o simbólico e o imaginário, de repente, uma simples banana, ou um modesto pepino, torna-se representação do falo. Vai saber o que, daqui a pouco, poderá simbolizar o pênis propriamente dito. Se continuar assim, a velha conhecida feira de frutas e legumes acabará representando sex shop.
Estamos sendo bombardeados por apelos imperativos (“seja mimado”, “seja sexualizado”), o tempo todo, mas poucos enxergam isso. E já não existe mais piada, ou brincadeira, que não tenha conotação sexual. E não há um dia que você não veja cenas de adultos mimados exigindo isso, ou aquilo, ou isso e aquilo, sem qualquer possibilidade de diálogo. Em algum instante da vida, a maioria se perde, ou se perdeu, e, de tão perdida, continua sem pensar sobre isso, ou qualquer outra coisa. Pra (quase) tudo desandar de vez, os canais de televisão, como sempre, dão aquela mãozinha básica, exaltando (e ensinando) as atitudes sexualizada e mimada - mix de tudo isso, num programa só.
Eu ainda penso nas crianças (faixa etária: infância), aliás, nas crianças que podem ser crianças, ainda. Muitas delas cumprem vida adulta (ou o que se imagina ser vida adulta), com tantos compromissos (aulas de balé, inglês, judô, futebol, informática, espanhol, boas maneiras), que, no final do dia, estão tão exaustas, acabam dormindo, em cima de lições escolares. Mas continuo pensando nas crianças que ainda conseguem ser crianças, que testemunham, diariamente, esse chamado mundo adulto, com a maioria agindo debilmente, sem assumir a própria vida, multiplicando e reproduzindo atitudes mimadas e sexualizadas. Dia desses, presenciei uma cena cada vez mais comum, num shopping: a mulher gesticulava, e começava a gritar (“eu quero, eu quero”), o homem tentava segurá-la, enquanto o filho (cinco anos, no máximo), de olhos arregalados, boca aberta e silenciosa, nem se apercebia do sorvete que derretia e escorria pelos dedinhos dele.
Com tanta gente mimada e tantas interpretações potencialmente sexualizadas, não podia acontecer outra coisa: os relacionamentos tornam-se cada vez mais difíceis, até se tornarem realmente inviáveis, e impossíveis. Pense comigo (se quiser/puder): Que criatura mimada vai querer atender aos mimos de outra (mimada)?... O que falar, manifestar, num ambiente onde tudo, tudo mesmo, é sexualizado?... “Os incomodados que se retirem” (dizem alguns) - os incomodados e os desacomodados se retiram mesmo, enquanto a maioria se acomoda. A cena seria cômica, se não fosse trágica: todo mundo andando em círculos (sexualizados e mimados), no meio de um bombardeio constante, no olho cego de um furacão. Catatonia triste e desoladora. E a Juíza Andréa Pachá ainda faz pensar mais: "Quando você estabelece que seu objetivo de vida é o seu prazer, você perde o olhar para quem está perto. Aí, fica impossível viver junto. Não podemos nos ocupar só do nosso desejo”.
Mas isso tudo sou eu que enxergo, e penso - penso muito. E continuo observando, na tentativa de ver o que ainda não vi, para deixar de lado o que penso, e pensar um mundo menos e mais, pra (quem sabe?) termos o equilíbrio como vizinho mais próximo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Estamos quites

Nesta virada de ano, fiquei pensando tantas coisas. O que mais pensei é que eu estou quite com o mundo, com a vida, com o tempo. Eu e o tempo estamos quites, por que sempre me dei bem com o tempo - não adianta querer brigar com quem tem o “Coringa” na manga. Eu e o mundo estamos quites, por que fazemos o melhor que podemos fazer - “tudo a seu tempo”. Eu e a vida estamos quites, por que não há nada, nada mesmo, que eu tenha me arrependido de viver - foi assim que cheguei até aqui.
Se a vida continua, depois da morte, não sei - há muitas controvérsias, sobre “ninguém ter voltado pra contar”. O que sei é que essa vida (presente) é única, por que não volta mais - mesmo. Jamais estaremos onde estamos, com quem estamos, fazendo o que fazemos, deixando de fazer o que deixamos, fazendo as escolhas que fazemos. As outras vidas que teremos - se teremos - serão realmente outras. Tem muita gente desavisada, de mal com a vida, com o mundo, com o tempo, à espera, sempre, do passaporte à ilha da fantasia. Pior ainda, quando escolhe esperar que a vida boa venha, prontinha, embrulhada em papel de presente, pelas mãos dos outros. Enquanto isso, fica sem saber que cada instante desta vida é realmente especial, por que sempre único. Por isso tudo, Lenine ainda canta: “A vida é tão rara”...
Feito toda gente, também eu faço as minhas escolhas. A cada ano que passa, tenho reduzido, cada vez mais, as minhas expectativas em relação ao mundo, à vida, ao tempo. Nada desesperador. Percebo que, assim, tenho amadurecido quem (acho que) sou. Cabe colocar aqui que nem consigo me imaginar correspondendo a expectativas alheias - seria muito pra minha cabecinha, por que cada pessoa espera algo (diferente) da gente. Quanto menos expectativas eu tenho, mais surpresas boas recebo (vivo o que acredito, cada vez mais). Gosto do imprevisto, da porta que se abre no meio do nada, das nuvens que aplacam a tempestade. Essa é a minha (única) expectativa para 2015: o imprevisto.
Sempre gostei de desafios - dos bons desafios. Nem considero desafio o que é feito para ser exposto nas redes sociais. Não. Desafio, pra mim, é o que desafia (só) eu mesma. Também, não gosto do que chega prontinho, embalado em pacote de presente. Gosto das peças de Lego (conhece?), do que me instiga a desfazer, fazer, desmontar, montar, desconstruir, construir (refazer, remontar e reconstruir dá muito trabalho, e o resultado é sempre o mesmo).
Nada acontece de um momento para o outro - tudo flui aos poucos, seguindo o que existe de ritmo harmonioso no mundo, no tempo, na vida. Depois disso, só dá pra pensar, mais uma vez, em Benjamin Disraeli: "A vida é muito curta para ser pequena”.
E lá vou eu aprender um pouquinho mais...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Novo Ano Novo

Desse ano, restarão alguns sonhos, algumas promessas não cumpridas, algumas contas a pagar, alguns projetos concretizados, algumas decepções, alguns quilos a mais (ou a menos), alguns amores despedaçados, alguns livros esquecidos nas gavetas, alguma saudade, algumas frustrações, algum recado antigo na porta da geladeira, algum silêncio, algumas sobras e algumas tantas faltas, algumas paisagens, algumas receitas novas de culinária, algumas coisas pra compreender (ou não), algum cansaço antigo, algumas cartas escritas pela metade, alguns testes de paciência, algumas fotografias da infância, alguns novos filmes e canções, alguns banhos de chuva, algum dicionário entreaberto, algumas ternas lembranças, algumas lágrimas que ficaram na sala de cinema, algumas agendas em branco (ou cheias de coisas para fazer), algum marcador de livro à espera, alguns parafusos em desuso, alguns pratos sujos na pia, alguns conflitos, algumas roupas no varal, alguns afetos e alguns outros desafetos, algum rádio sem pilhas, algumas noites insones, algumas palavras, alguns tantos medos, algum resto de sorvete de chocolate no freezer, algumas mágoas, algum pássaro na soleira da janela, algumas tantas partidas e algumas poucas chegadas, algum relógio parado, algumas dores, algum texto sem título, alguns farelos de pão na mesa, alguns telefonemas inesperados, algumas ideias e alguns tantos ideais, algumas dietas malucas recortadas de revistas antigas, algum dinheiro esquecido no bolso do casaco, alguns pesadelos, algum manual de instrução da televisão que não existe mais, algumas despedidas, algumas alegrias, alguns acertos e alguns tantos erros, alguma torneira que pinga sem parar, algum medicamento com validade vencida, alguns números de telefone sem identificação, algumas tantas chaves perdidas, algum papel de presente sem cartão, algumas histórias de tantas vidas, algumas garrafas vazias na lixeira, algum envelope fechado sem remetente, algum pedaço de bolo de aniversário, algumas ausências, algum cartão promocional de uma academia desconhecida de ginástica, algumas palmas e algumas outras vaias, alguma música que não sai da cabeça, alguma proposta de novo trabalho, alguma gaveta há muito esquecida, alguma roupa fora de moda, algumas companhias, alguns papéis em branco, alguns olhares, alguns tantos pontos de interrogação, algumas nuvens, algum esquecimento, alguns desafios, alguma xícara sem asa, alguns emails que não foram lidos, algumas folhas secas entre folhas de livros, alguma maçaneta sem porta, algumas loucuras, algum cartão postal sem destinatário, algum pinguim de geladeira quebrado...
Um novo ano está chegando - com dúvidas, e dívidas. A escolha é sua: Que viagem você deseja fazer?... Com bússola, ou à deriva?... Que bagagem você pretende continuar carregando?... Que óculos você vai usar?... Vai acordado, ou dormindo?... Quer conduzir, ou vai na carona?... Por onde você deseja seguir?... A escolha - a vida, individual e solitária - é sua, de mais ninguém... e boa viagem!...

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

(Des)encontro

- Você por aq...
- Olá, querida!... Há quanto tempo!... Vamos entrar nesse restaurante, aqui, pra colocarmos as fofocas em dia... Arrume uma mesa pra gente, enquanto eu me despeço de um amigo, no whatsapp...
...
- Pronto!... Mas, antes de sentar, vamos fazer uma selfie...
- Sou tímida, e além do ma...
- Que nada! É rapidinho... Feito!
- Por onde você tem andado, que não te vej...
- Só um pouco... Quero postar nossa selfie...
...
- Você tinha perguntado alguma coisa?...
- Nem lembro ma...
- Mais um instante, por que tenho de responder um comentário da selfie...
- O garçom está vind...
- O que você pedir, eu aceito... Tem mais gente comentando a foto...
- Eu só quero um copo d'ág...
- Vamos fazer assim, então: pedimos água de griffe, e fazemos outra selfie...
- Desde que seja água líquid...
- Você é muito engraçada, nem assim sorri...
- Não conheço griffes de ág...
- Deixa que eu peço... Garçom, traga água importada pra nós... Quantos comentários sobre o meu cabelo... Preciso ir ao cabeleireiro, ainda hoje...
- Chegou a nossa ág...
- Vamos fazer uma selfie, mas sorria, pra não ficar feia... Aproxima a sua garrafa, e mostra o rótulo, pra todo mundo morrer de inveja...
- Foi o melhor que pude faz...
- Não ficou das piores... Você, sempre desajeitada... Só vou atender uma ligação... Não demoro... Olá, querido!...
- Cuidado para não tocar no...
- Garçom, caiu o copo... Limpe essa sujeira...
...
- Mais um pouco, tenho de falar com a prima de uma vizinha da encarregada do buffet que contratei... Só mesmo o face, para salvar a minha vida...
- Eu ainda tenho alguns minutos, antes de voltar ao traba...
- Você, sempre tão calada... Deixou o seu smart no carro?...
- Não tenho carro, nem smartpho...
- Nossa!... Li no whatsapp que você não estava bem, financeiramente, mas não pensei que tivesse chegado a tanto... Se eu soubesse, teria trazido um smartphone antigo, do ano passado, que as crianças brincam, lá em casa...
- Não é preciso, obrig...
- Não seja orgulhosa... Olha a foto que a cunhada de uma amiga postou... A nordestina é babá dos filhos dela... hahahahahaha
- Isso é assédio mor...
- Sei lá o que você está falando, mas a foto ficou ridícula... Essa não arruma mais emprego... hahahahaha
...
- Pelo menos, você tem facebook, né?...
- Não, por que...
- Eu não acredito... Você não muda, continua esquisita... Preciso responder agora um convite, no email...
...
- Os comentários das fotos não param... Estão perguntando se você existe...
- Responda que...
- Pronto!... Tenho mesmo de dar um jeito no meu cabelo...
- Eu preciso ir...
- Nem tomou sua água... Fica quieta aí, que eu vou pedir a conta, pra fazer uma selfie, por que tem gente perguntando quanto custa...
- Tenho mesmo de ir...
- Então, tá!... Amei ver você, minha amiga, amei nosso papo, amei tudo... Beijo e me liga!...
...

domingo, 16 de novembro de 2014

De mão com a contramão

Sempre repito que a primeira lição que aprendi foi não ser. Foram e continuam sendo tantas lições pra eu não ser, que, às vezes, me restam ínfimas escolhas. Confesso que, de quando em vez, tilinta, bem no fundo de mim, um prazer intraduzível: não sou. De mão com a contramão, continuo não sendo, e aprendendo ser quem (acho que) sou. E não há solidão maior - pra mim, pelo menos -, enquanto a maioria segue quem segue a maioria.
Acredito mesmo que o maior desafio, nos tempos atuais, é não ser. Até parece que a maioria ignora mesmo os assaltos constantes do consumismo, com campanhas devoradoras de qualquer vontade: carro, cerveja, comida, roupa, produto de alta tecnologia, adereço, joia para animal de estimação, oferta de medicamento, calçado, acessório, maquiagem, vitamina, roteiro de viagem, curso que ensina trocar fraldas, batatinha com sabor de churrasco, emagrecedor milagroso, livro de autoajuda, etc etc etc. Somos assaltados, diariamente, mas ninguém quer saber - o que todo mundo deseja mesmo é consumir, estar na moda, pra se ver sendo parte do que, na maioria das vezes, nem sabe. Eufórica, a maioria segue, obediente.
Que todo mundo quer ser diferente, todo mundo sabe - todo mundo quer. Mas, na mesma proporção, todo mundo quer pertencer, fazer parte, ser igual. Os modelos de heróis que temos hoje são frágeis, efêmeros, não duram mais que uma manchete on line. Por isso, me parece, a mesma via, que ainda mantém a placa antiga de mão dupla, acaba se tornando mão única, onde a boiada passa, sem pensar, na mesma direção, oscilando entre a euforia e a tristeza causada por falta de euforia.
Seres humanos que somos, queremos ser aceitos, mas, na maior parte do tempo, pra sermos aceitos, não podemos ser quem somos. Por isso, talvez, a maioria, pra não ficar sozinha, não ser descartada, deixa de ser quem é, ou até se distancia de si mesma, sem saber quem é, ou quem pode ser. Ignorando a sinalização de mão dupla, a maioria segue a mão única, feito espectro, massa que se modela ao exemplo da maioria que segue.
Eu ainda não sei qual a maior solidão: quando não somos quem os outros são, ou quando somos quem os outros não são. Talvez, eu ainda descubra que a solidão, em ambos os casos, seja a mesma - única, fatal. No fundo, penso eu, independente de quem realmente somos, ou até mesmo quando escolhemos seguir a boiada de olhos fechados, a solidão continua fazendo parte de cada ser humano.
Parece que o ato de seguir pressupõe segurança - se alguém foi por aquele caminho, e se deu bem, os demais terão o mesmo resultado. Quem dera, mas nem sempre é assim. De repente, no meio do caminho e da boiada, alguém resolve pensar: dana tudo, por que não há como voltar, nem sair do meio da maioria, que não olha para baixo, para ver em quem pisa. O que a boiada sabe fazer é passar - passar por cima de tudo que a remeta à individualidade(solidão), ao pensar(mais solidão), para continuar devorando o cardápio principal, que tem tempo de validade cada vez mais reduzido. Não há tempo a ser perdido - a ordem é seguir a mão única do consumismo que consome a maioria. Antes, lentamente. Agora, com fome cega e voraz. E a boiada segue.
Por isso, se você ousa equilibrar-se na contramão, aja com precauções. Não se desespere com a solidão(companheira inseparável), nem pense, por um momento sequer, que a via é mesmo de mão única, como grita a boiada. A placa antiga continua sinalizando via dupla - atitude depende de escolhas. Não se deixe levar pela boiada. Procure enxergar você - a boiada não quer ser identificada individualmente, o que mais deseja é parecer igual. Jamais feche os olhos, diante da boiada que passa. Deixa passar. Feito no trânsito, cada vez mais caótico, você não vai querer perder a vida, que é só sua, seguindo na contramão, indo para o meio de uma boiada que nem sabe pra onde vai, né?... A placa continua à beira dos trilhos: Pare Olhe Escute (ainda não sei se esse é um conselho, mas eu continuo tentando aprender).

sábado, 1 de novembro de 2014

O incrível “livro de caras”

Na minha insignificante opinião, a atualidade dos tempos é marcada pelo incrível “livro de caras”, tradução literal de facebook. Tudo mais é crível - acredite -, além, ou aquém, desse "livro de caras", motivo de rebuliço na vida de zilhões de pessoas, pelo planeta inteiro. Além de cuidar da própria vida, cada 'facebookiano' (o termo saiu agorinha do forno dessa cabecinha medíocre aqui) se sente na obrigação de cuidar da vida dos incontáveis “amigos” (palavrinha que já teve, sim - acredite, não faz tanto tempo -, significado especial).
Confesso que tenho resistido bravamente, para não criar meu perfil no facebook. Nem sei relatar como eu vivo, sem ficar “curtindo” frases sem sentido, o dia inteiro, e fuçando fotos de gente que nem conheço. Reconheço, a minha maior tentação tem sido eu criar meu perfil, para postar fotos minhas comendo, bebendo, nem ligando. Isso tudo é irrestível, pra mim também, que sou humana mortal.
Sem perfil no “livro de caras”, fui obrigada mesmo a recorrer ao 'mestre google', pra bisbilhotar as postagens mais curtidas e compartilhadas. São tantas - emoções. Percebi, nesse trabalho sério e investigativo, que o que o povo gosta mesmo de curtir é luto - o que têm de curtidas e compartilhamentos, nos avisos fúnebres de familiares, colegas de trabalho e aula, e alguns amigos (amigos sem aspas)... Os 'facebookeanos' curtem bastante, também, tragédias, desastres e miséria de vida, ou morte - as curtidas e os compartilhamentos aumentam, quando a vítima é dona do perfil. Lendo tudo isso, enquanto vadiava nas ondas do meu tempo, que é só meu, cheguei pensar que eu não faria esse sucesso todo, no “livro de caras”. Afinal, minha vidinha é tão comum, sem grandes tragédias (gregas, ou venezuelanas), nada, nada mesmo, comparado ao que pude ver, pelo binóculo do google. Ainda assim, não perco a esperança de ter vítimas (sei lá de quê) ao meu redor, para, pelo menos, ter a sensação de quem posta no facebook: “meu pai acabou de falecer”, “fui assaltado, na rua, há pouco”, “meu noivo se suicidou hoje”, “levei tiro dentro de casa”, “fiquei preso na DP”, etc etc etc. Quanta emoção os 'facebookeanos' demonstram, quando, no “olho do furacão”, lembram justamente de conectar o perfil, para registrarem as maiores mazelas do mundo. A disputa parece acirrada. E - o mais incrível: - todo mundo curte, e até compartilha. Todo mundo mesmo, um montão de gentes - e eu (ainda) me incluo fora dessa lista.
Preciso admitir que meus dedos coçam, toda vez que me imagino sem precisar sequer escrever “bjs”, “tks”, ou 't+”. Eu poderia viver, até morrer, no facebook, só curtindo e compartilhando, compartilhando e curtindo, e até curtindo e compartilhando a mesma coisa, sem me preocupar com o que é, ou possa vir a ser. Depois de tudo isso, ainda ficar “famosa”, com zilhões de “amigos”, em todo esse trabalho de clicar curtir e compartilhar, sem precisar assistir qualquer viral, ou perder tempo com mensagens de autoajuda, no meio de incontáveis figuras brilhantes. Isso tudo realmente é irresistível, incrível.
Acabo me emocionando tanto, toda vez que tento imaginar o que estou perdendo de curtir no facebook, que esqueço o dobro da metade. Mas o que todo mundo lembra mesmo foi a incrível comoção nacional (e até internacional) da inveja, depois da postagem de uma selfie, senão histórica, pelo menos única - não tem como ser repetida. A fama, geradora de diversas piadas, ficou por conta da mulher que encarou a fila interminável, no velório de Eduardo Campos, para fazer selfie, com o caixão como pano de fundo. Não há limites - eu que continuo limitada, sem facebook.
Gente, o “livro de caras” é mesmo incrível, e eu continuo sem participar, por que meu celular é tão antigo, que só funciona com fita isolante, sem qualquer furo de câmera. Pra ter perfil no “face” (para os íntimos), eu queria mesmo um iPhone 5 Black Diamond Edition, da Apple, que custa a bagatela de um pouco mais de R$ 36 milhões. Aí, sim, eu iria até para o facebook, e colecionaria autógrafos dos funkeiros da ostentação, que criariam filas, pra fazerem selfie comigo...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Feliz Dia da Criança Feliz!

Sinceramente? Penso que a gente adulta vem, ou vai, perdendo a memória. Esquecemos que ninguém nasce racista, homofóbico, criminoso, assassino. Por esquecimento, continuamos permitindo (sempre escolha) que mais crianças cresçam nas ruas, em completo desamparo. Isso não é culpa de governo, ou qualquer outro poder instituído, seja no Brasil, ou até mesmo na ilha de Tristan da Cunha, o lugar mais longe do mundo. Na realidade, a culpa nem existe - o que deveria haver seria uma outra coisa: responsabilidade humana. Para acabar com qualquer esperança de conscientização, ainda confundimos conceitos e práticas: família educa; escola ensina.
Conseguimos ser piores, quando separamos nossos filhos dos filhos de ninguém, dizendo que não existe a menor comparação. Acredite, nenhuma criança nasce de um pé de repolho, ou pimenta. Esquecemos (o que deveríamos saber, antes mesmo das vogais do alfabeto) que crianças são crianças, em qualquer condição, em qualquer lugar do mundo - têm sonhos, desejos e medos -, e crescem, tornam-se adultas. Continuamos todos assim - sonhadores e medrosos.
Por isso, pra mim, Dia da Criança só é feliz, quando a criança se sente feliz, tem alegria de viver. O resto é marketing, engodo, para não nos sentirmos culpados, responsáveis pelas crianças que vemos nas praças, debaixo de pontes e viadutos, nas ruas, nos semáforos. Eu venho lembrar isso: São crianças, sim. Nem sempre as carinhas estão lavadas, os cabelos penteados e cortados, as roupas limpas e com etiquetas. Mas continuam sendo crianças. A maioria desses menores, filhos de ninguém, nem sabe que é infeliz, por que desconhece esse tipo de parâmetro, ou exemplo. A maioria até tenta parecer feliz, criando brincadeiras, no meio da rua. Mas nem um olhar adulto se interessa por isso. A maioria dos maiores, quando se depara com essas crianças “mulambentas”, o mínimo que faz é proteger a carteira, o bolso, a bolsa, o celular última geração, proteger o que tem e o que aquele ser quase invisível provavelmente nunca terá.
Tem gente (boazinha) que ainda mantém o hábito (caridoso) de preparar pacotes com doces e brinquedos, e distribuí-los em instituições que abrigam e atendem crianças. Já tentei fazer isso, também. Não deu certo, quando ouvi uma senhora, que atendia num orfanato, dizer que, tanto quanto podia, guardava alguns pacotes de balas e pirulitos, para entregar às crianças, pelo menos uma vez por mês, mesmo quando a validade já havia sido vencida pelo tempo. Compreendi que aquela senhora queria manter viva a chama de esperança, naquelas dezenas de crianças. Foi quando desisti da caridade com hora marcada.
Somos tão inteligentes e hábeis, que sabemos lidar com toda essa altíssima tecnologia que nos assalta, diariamente. Também, sabemos que, lá fora, até as ruas, ou o mais simples banco de praça, quando não recebem atenção e cuidado, acabam deteriorando. Um parque que não é limpo é invadido, em pouco tempo, por ervas daninhas. Por isso, cuidamos dos parques, das ruas, dos bancos de praça. Se você leu até aqui, pode estar perguntando: E as crianças em condição de rua?... Eu respondo: continuam invisíveis, ao nosso olhar cego de quem não tem a ver com isso, nem quer pensar a respeito.
Ah, claro (quase esqueci): Daqui a pouco, será 12 de outubro: Feliz Dia da Criança Feliz! Por que as crianças infelizes continuarão sendo infelizes, até que a gente escolha fazer alguma coisa, para mostrar que a felicidade pode realmente existir (pra nós, e para os outros), quando a gente exercita sobrepor o próprio umbigo.