domingo, 5 de outubro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
E depois?... Como termina?... No final, todos morrem.
Não sei se é por conta da
globalização, do capitalismo, ou por causa disso e outras cositas
mais, a realidade é que vivemos a nossa insaciável ansiedade, o
tempo inteirinho. Se estamos trabalhando, ansiamos voltar pra casa.
Se estamos em casa, queremos que o tempo passe, para sairmos. Quando
estamos na rua, desejamos férias - de tudo, de todos -, o quanto
antes. Se chove, queremos sol. Se tem sol, o que mais desejamos é
chuva. Enquanto isso, o tempo passa (bem ou mal passado), de mãos
dadas com a vida (bem ou mal vivida).
Sempre me vejo observadora do
mundo, dos mundos - cada criatura, um mundo particular. E também me
observo - tanto, tanto, que, às vezes, me questiono: Pra que a
pressa?... De que me adianta estar onde não estou?... Posso não
estar, mas este é, continua sendo, o meu tempo, a minha vida... Por
isso (quem sabe?), a insatisfação humana. De nada me adianta comer
angu, com frango desfiado, imaginando estar diante de um prato de
quiche lorraine.
A realidade é que nós,
humanos, tão desumanos, vivemos e personificamos uma ansiedade
inimaginável. Já não queremos tempo para degustar os detalhes,
momentos de contemplação, entre uma atividade e outra. Aceleramos,
cada vez mais, de maneira impensada, certamente, os acontecimentos da
vida, feito quando estamos diante da televisão, apertando os botões
do controle remoto, numa atitude desesperada e desesperadora. O que
queremos? - talvez, nem sequer imaginamos. Quem sabe, também, nem
pensamos no que poderíamos desejar, além ou aquém do que estamos
vivendo (?). E, assim, insatisfeitos e ansiosos, continuamos trocando
canais, modos de vida. Alguns desistentes radicais escolhem tornar-se
parasitas, desumanamente inertes, abandonando até mesmo o controle
remoto, numa condição sem qualquer réstia de vida.
Nada sacia nossa ansiedade, e
acabamos derrotados e desolados, buscando, como último recurso,
livrinhos de autoajuda e medicamentos psicotrópicos. Até tentamos
mesmo nos convencer de que sofremos depressão, ou tantos
transtornos, síndromes e fobias. Enquanto isso tudo acontece, a
ansiedade continua lá, dentro de cada um de nós, crescendo,
consumindo, nos consumindo.
E depois?... Como termina?... No
final, todos morrem.
domingo, 14 de setembro de 2014
"Eles estão surdos"
Na
minha insignificante opinião, eles estão cada vez mais surdos - e
vocês continuam atuais, Erasmo Carlos e Roberto Carlos, autores da
música com esse título aí de cima. Mas o que a maioria não quer
saber mesmo é escutar o outro, os outros. Por isso, tem tanta gente
que se sente falando sozinha - não é uma questão de sentir-se,
mais que isso, está falando sozinha mesmo, por que ninguém quer
escutar. Aliás, o que todo mundo deseja é falar e ser ouvido - sem
contar todo o tipo de interpretações que pode sofrer, depois que
fala.
Mas
poucos, cada vez mais raros (valiosos), querem escutar. A realidade é
que os surdos (grande maioria) estão cada vez mais falantes, e ainda
dizem: “você não me falou”, o que poderia ser traduzido para
“eu não escutei você”. Pelo menos, seria real.
Tenho um amigo que, há alguns
meses atrás, quis fechar o escritório que tinha, para viajar,
estudar. Planejou tudo, durante meses. O que ele não previu foi o
incidente com a secretária. Como meu amigo tinha de entregar o
imóvel, naquela semana, chamou a secretária, para comunicar-lhe
que, como já havia dito a ela, informalmente, estava fechando o
escritório.
A secretária entrou na sala do
patrão, com papeis, a serem assinados por ele, e a agenda dos
telefonemas que atendera. Ela falava tanto, repetindo as tarefas, que
meu amigo simplesmente perdeu a batalha: não conseguiu frear aquela
cantilena, mesmo depois de ter quase gritado. “Ela não me ouvia”,
reclamou meu amigo, enquanto contava que foram três dias assim: a
secretária cumprimentava-o, quando ele chegava ao escritório, e
depois adentrava à sala dele, falando, falando sem parar.
Derrotado, meu amigo não teve
opção: entregou a sala, no início de uma noite, e encaminhou a
papelada toda de demissão da secretária, com o devido pagamento, ao
advogado contratado por ele. Depois do relato, perguntei, irônica:
Você a viu, depois disso?... E ele, gargalhando, contou que, algum
tempo depois, escutou um “rosário de reclamações”, no balcão
de uma empresa aérea. Era a ex-secretária do meu amigo, que não
deixava mais ninguém falar - nem ouvia que o voo dela já havia
partido, enquanto ela gritava e gesticulava para um pobre atendente,
que assentia com a cabeça, mudo, depois de desistir de ser escutado.
terça-feira, 22 de julho de 2014
A quem desinteressar possa
Pronto. Resolvi falar. Vou logo
dizendo que o que me fez falar foi meu olhar sobre o mundo,
observando gente. Percebo, a cada instante, que também eu, de algum
jeito, mesmo de um jeito desajeitado, também sou gente.
Então, resolvi falar. Pode até
ser que você nunca mais venha a escutar isso de ninguém. Por isso,
mais ainda, sinto urgência em comunicar, a quem desinteressar possa.
Você já pode ter desconfiado,
ou, distraidamente, imaginado. Eu confirmo: o outro existe. Não é
só dentro de você que existe o outro. Também, fora, em lugares que
você nem imagina que existam, o outro continua a existir, à revelia
de sabermos, ou não, a existência dele. Lamento muito mesmo, se
você nunca quis escutar, nem desejou saber, ou pensar, a respeito.
Pois é. Até cada um de nós é o outro, para o outro.
O outro aparece, de qualquer
forma - velho, criança, mulher, adolescente. Tem o outro que passa
pela gente, cansado, ou em plena forma de motivação. Não importa.
Sempre há o outro - que chora, que canta debaixo do chuveiro, que
vaga pelo shopping, que ensina a ler e escrever, que ri, que dorme
embriagado na calçada, que fala, que solta bombas de efeito moral
pelas ruas, que prepara chá de camomila, que grita, que tropeça,
que vai ao teatro, que faz malabarismos no sinal, que retoca a
imagem, que assalta, que gagueja, que toma banho de chuva, que reza,
que remexe as lixeiras, que nem olha para o outro, que pode ser eu,
pode ser você - qualquer um (outro).
Por todo lugar, sempre tem outro
- outro na rua, outro na casa, outro na academia, outro no balcão,
outro no elevador, outro na escola, outro no bar, outro no trabalho,
outro na praça, outro na feira, outro na sala de espera. Às vezes,
o outro acaba por silenciar, uma vida inteira, aprisionado numa
moldura de fotografia amarelada. De todo jeito, o outro se faz
presente desejado, passado descartado, ou futuro ignorado. Não
importa. O outro vive, e respira pontos de interrogação, mesmo
quando não quer pensar. O outro perambula, entre medos e desejos. O
outro perde o sono, depois de abandonar os sonhos, e outro fecha os
olhos, enquanto salta de bungee jumping.
O outro é aquele com quem a
gente cruza na esquina, se esbarra na fila interminável - outro que
nos ignora, outro que ignoramos. O outro dirige o carro com funk no
volume máximo, e o outro ensaia no palco escuro. Enquanto o outro
pratica Tai Chi Chuan, outro planeja assalto, numa saída de banco.
Tem outro que chora, quando nasce, e outro que seca as lágrimas, na
saída do cemitério. Tem outro que segura a mão da gente, quando
todos os outros vão embora.
Ainda que a maioria continue
negando, o outro existe. Pode ser eu. Pode ser você. Pode ser outro.
O outro é sempre mais visto, quando está na nossa frente, em
qualquer fila. Mas tem outro, ainda, que nos pergunta que horas são,
e logo se mistura na multidão, sem tempo à gentileza.
Pronto. Falei. Querendo ou não,
longe ou perto, a realidade mostra que o outro continua existindo -
quem sabe, ignorando, de um jeito, ou de outro, a minha, ou a tua,
existência. Ainda tem mais: num dia, numa noite qualquer, o outro,
feito eu, feito você, também vai deixar de existir, neste mundinho.
E chegarão outros, que continuarão existindo, e deixando de
existir, nesta vidinha de tantos outros.
domingo, 13 de julho de 2014
(De segunda a sexta) Feira da felicidade artificial
Enquanto muitos teimam em
reinventar a roda, estou lançando um negócio realmente inovador, no
mercado das concorrências cada vez mais desleais e apelativas.
Resolvi criar (de segunda a sexta) feira da felicidade artificial.
Vou logo adiantando que não se trata de venda de produtos de segunda
mão. Absolutamente. Tenho caixas, grandes e pequenas, todas
lacradas, formatos variados, as quais recebo, sem eu ter feito pedido
- às vezes, até desconheço o remetente. Todo mundo quer parecer
feliz, e acaba repassando pra gente essas imagens, sempre novinhas em
folha, tinindo, com tanto brilho.
E ainda tem gente que alimenta -
se engasga - com a doce ilusão de que “todo mundo parece feliz, no
universo virtual, na internet”. Que nada! Todo mundo quer parecer
feliz, o tempo todo, no universo mais real, físico, humano mesmo.
Dizem que os que ostentam felicidade, dia e noite, noite e dia, estão
sempre nas rodas sociais, animando casamentos, batizados, e até
velórios. Por isso, muita gente se preocupa tanto - não em querer
ser, mas - em parecer feliz.
Devido ao grande estoque que
tenho dessa felicidade artificial, que me chega, em bombardeios
constantes, de todos os lados, resolvi fazer o maior negócio da
minha vida: uma feira, para atender à maior demanda atual do mercado
consumidor. Não aceito troca, nem devolução, sem direito a “test
drive”. O estoque que tenho é diversificadíssimo - para todos os
gostos e desgostos. Os produtos dessa feira não têm qualquer
garantia, ou bula, manual de instrução, ou de destruição, pois
depende do modo de usar de cada consumidor. Sabendo dosar a
felicidade artificial, o tempo de validade pode ser bem maior do que
se imagina - às vezes, pode funcionar por uma vida inteira.
Sem viajar na carona da
imaginação, penso que a feira que estou lançando será o maior
sucesso, em tempo mínimo, recorde absoluto. E, ainda, penso mais: as
vendas dos 'produtos' que entorpecem o pensamento serão as maiores.
Logo depois, outro sucesso previsto é a venda de caras e bocas,
sorrisos e gargalhadas gratuitos e descontrolados, para serem usados
nos hospitais e velórios.
Hoje, a ciência e a religião
vendem a cura de todos os males. Mas só a felicidade artificial
vende a imagem sem dor, sem sofrimento. Não são necessários
tratamentos intermináveis - médicos e/ou religiosos. A felicidade
artificial oferece efeito imediato, indolor, a qualquer olhar
desinteressado (afinal, quem quer saber realmente do outro?). Em
pouco tempo, a criatura se torna (aparentemente) feliz - às vezes, o
efeito é tamanho, que ela mesma acaba se convencendo que a dor é
pura invenção de gente melancólica.
Não posso esquecer do amontoado
de futilidades, para escamotear qualquer sofrimento, angústia, dor,
tristeza. A feira da felicidade artificial é tão variada, e
cuidadosamente completa, que nem consigo lembrar do estoque todo, que
continuo recebendo, a todo momento, em qualquer lugar - tudo
encaixotado, no aguardo de uso desesperado. Se todo mundo quer
parecer feliz, o tempo inteiro, não há melhor presente: comprar o
produto dessa feira inédita, longe da televisão brasileira.
Aos chorões de plantão,
àqueles que resistem bravamente, e continuam demonstrando tristeza,
sofrimento, aviso: não adianta chorar, sem direito a descontos. Se
ainda existem os que manifestam essas emoções (“bobagens!”) em
público, acho que já estão tão isolados, pela boiada eternamente
feliz, que vão querer pagar qualquer preço por uma caixinha de
felicidade artificial. Comprem, na feira, e se esforcem para aprender
o uso mais adequado - tem gente Phd nisso, numa vida cheia de fogos
de artifício.
De brinde, um livro de
autoajuda acompanha cada caixa de felicidade artificial. Afinal, nem
todo dia, mesmo para quem está habituado a usar sempre, o artificial
encaixa, não incomoda. Para continuar usando essa felicidade sem
sentido, quando o que não é artificial desaba, nada melhor que um
livrinho de autoajuda.
Observando os índices de
mercado, percebo que tem um monte de gente investindo em produtos de
imagem - botox, lipoaspiração, maquiagem definitiva, cremes
milagrosos, etc e tal. Disso, o mercado consumidor está cheio. O
fato é que a maioria não quer pensar, muito menos falar o que
realmente pensa (se pensasse), não quer viver a própria vida. Se
aparentar estar bem, o tempo inteiro, já é desgastante, imagine,
então, parecer, ou, melhor ainda, convencer os outros que tem outra
vida, que é feliz o tempo todo, plenamente - é o sonho de consumo
da maioria. Nem estou pensando, neste instante, nas vitrines das
redes sociais.
Se a maioria não quer parecer
que sente dor - a dor que sente, sem querer -, só mesmo recorrendo à
artificialidade. Ser humano é sofrer - prazer e dor.
Ninguém quer saber de gente que
pensa, gente que sofre, gente que se entristece, gente melancólica.
Por isso, tanta gente não quer saber nem de si mesma. Está cada vez
mais difícil competir com tantas felicidades aparentes e constantes.
Daí, o melhor mesmo é apelar, aprender a investir, vestir e trocar
máscaras efusivas. Viva a felicidade artificial!...
terça-feira, 10 de junho de 2014
Clarice Lispector: Une Pensée en Écriture Pour Notre Temps
Recentemente, fui presenteada
com um exemplar da obra “Clarice Lispector: Une Pensée en Écriture
Pour Notre Temps”, sob a direção de Maria Graciete Besse e Nadia
Setti, da Université Paris-Sorbonne. A obra é resultado do
“Colloque Clarice Lispector: Gênero não me pega mais”,
realizado em Paris.
O Colóquio sobre Clarice
Lispector reuniu palestrantes de diversos países: Maria Graciete
Besse (França), Nadia Setti (França), Claire Varin (Canadá), Lúcia
Cherem (Brasil), Benjamin Moser (Estados Unidos), Rosi Braidotti
(Holanda), Evando Nascimento (Brasil), Joana Masó (Espanha), Arnaldo
Franco Jr. (Brasil), Gabriela Garcia Hubard (México), Carlos Mendes
Sousa (Portugal), Nadia Battella Gotlib (Brasil), Mara Negrón
(Puerto Rico), João Camillo Penna (Brasil), Elena Losada (Espanha),
Silvia Ostuzzi (França), Luisa Muraro (Itália), Michéle Ramond
(França), Fernanda Coutinho e Vera Moraes (Brasil).
Para quem quer conhecer os
estudos sobre Clarice Lispector, pelo mundo, vale a pena adquirir
“Clarice Lispector: Une Pensée en Écriture Pour Notre Temps”,
através do link:
http://www.editions-harmattan.fr/index.asp?navig=catalogue&obj=livre&no=43114
terça-feira, 13 de maio de 2014
Falência múltipla dos sonhos
Quando a gente menos espera, tem
outra gente promovendo a falência múltipla dos nossos sonhos, pelo
mundo. Querem decidir por nós, humanidade, quando vão às ruas,
quebram tudo, ou realizam linchamento, execução mesmo, maquiando
isso como “justiça pelas próprias mãos”. Estamos sendo
assaltados, com nossos sonhos mais secretos usurpados, na maioria do
tempo, sem nos apercebermos disso, ou nem queremos mesmo saber,
pensar a respeito.
O patrão nos paga pouco,
retirando, de nós, o direito de sonharmos, organizarmos projetos. A
cada final de mês, recebemos o pagamento, em forma de pesadelo, que
nos trará insônia, nos impedirá de sonharmos, até dormindo. Sem o
patrão, temos o sonho desempregado, quando sonhos e projetos são
levados pela enxurrada de desesperos e desesperanças.
Os (ir)responsáveis pelos
canais de televisão querem nos roubar os sonhos, quando jorram
sangue, pela nossa sala, diante do nosso olhar cansado e passivo,
para, no final da carnificina, nos desejarem “boa noite”. Mas
sempre tem mais - é quando chega o horário das novelas, com
protagonistas jovens, sarados, marombados, sem cravos e espinhas, com
muito botox e maquiagem, a grande maioria branca, no máximo,
bronzeada. Neste assalto diário, consentido silenciosamente, as
novelas nos fazem abandonar nossos próprios sonhos, para embarcarmos
numa viagem que oscila sempre entre o surrealismo e o terrorismo,
durante meses de catatonia dos telespectadores. Definitivamente, não
há espaço para sonhar, diante da televisão. E ainda falam que as
novelas estão próximas da realidade - pode até ser alguma
realidade causada por elementos estranhos à vida humana, que luta
para sobreviver, muito mais que por um pedaço de pão dormido, ou
por uma fantasia de carnaval.
O tempo inteiro, estão querendo
roubar nossos sonhos, sem que eu ouse tratar, aqui, dos problemas e
traumas particulares de cada um. Somos bombardeados, em massa, por
comerciais que querem nos impor o que comermos, bebermos, vestirmos,
calçarmos, chegando ao cúmulo de nos disputarem, nas inimagináveis
ofertas de medicamentos, livros de autoajuda, revistas de fofocas, e
até produtos milagrosos de emagrecimento. Distraídos que vivemos
(?), ou reprimindo o que sonhamos, acabamos nos rendendo: sonhos e
projetos ao lixo, lixo na mesa, lixo nas ruas e praças, lixo na
cama, lixo nas escolas e universidades, lixo nos relacionamentos,
lixo no trabalho, lixo na vida, lixo por todo lugar onde passamos,
ficamos, fingimos viver.
Diante de tudo isso, ainda fico
imaginando que, logo, logo, antes mesmo de percebermos, fazermos
pesquisas, estudos e relatórios, haverá novo diagnóstico, nos
atestados médicos ininteligíveis - causa mortis: falência múltipla
dos sonhos. Oxalá, hajam lápides: Aqui jazem sonhos que não foram
domados, nem controlados. Voem em paz.
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