quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

No balanço de final de ano

Todo final de ano é a mesma coisa: bate aquela depressão sazonal, que resolve ficar de papo com o ‘grilo falante’(consciência) da gente. Tem coisas que, não adianta, você precisa, tanto quanto possível, esquecer, ou, pelo menos, não lembrar. No desesperado balanço de final de ano, você pode até cortar os pulsos, mas isso só causaria dívidas (médica, ambulatorial, hospitalar), além do sentimento de culpa, pelos transtornos à família, justamente quando todo mundo prepara festas e festas.
De soslaio, você dá uma olhada no extrato (vermelho de vergonha) do seu cartão de crédito, e logo vê que vai demorar muito para zerar de vez aqueles números cada vez mais aterrorizantes. Você até tentou fazer aquela dieta de abobrinhas, mas não foi longe, por que esqueceu tudo, no rodízio de pizza, regado a chopp.
Você prometeu ao seu ‘grilo falante’ que, este ano, sim, pediria demissão do seu trabalho medíocre, e venderia suco na praia, tempo em que pensaria o que fazer da vida, depois do verão acabar. Você queria tanto, no início do ano, fazer “pé de meia”, e hoje culpa a crise econômica mundial, por ter ficado até sem a meia.
Em vez de ficar no pedido de perdão, mostre, pra você mesmo, que sabe crescer, e não repita a causa das dores, nos outros. São tantos os erros humanos – pra que repeti-los?… Mas nada de armas letais, por favor. O mundo, que está cheio de psicopatas, fascistas e terroristas, agradece, por continuar existindo – antes e depois de você.
Às vésperas de ano novo, não dá pra encarar análise da própria vida, muito menos discussão de relação, né?… É demais, pra cabeça de qualquer um – até de quem não está habituado a pensar, por não querer. Mas o mais importante é que você chegou até aqui – e tem um novo ano pela frente. O que passou, passou (mesmo!), já foi – ficou você, e tudo o que você pode fazer e ser (de melhor). Sem segredos. Sem mistérios. Sem revelações. Simples assim.
Outros anos virão e virarão, como este – com, ou sem, o seu balanço, independente das suas escolhas. Enquanto tantos morrem – e nascem -, você continua vivo, colocando, sempre fora do seu alcance, o que chama projeto de vida. A princípio, pode até ser projeto de vida mesmo, por que você projeta em vida – nada além disso, por que continua balançando entre as suas escolhas, como se o projeto de vida fosse independente, agisse por conta própria (quem dera!). Faça novos projetos (entusiastas), aqueles que você sabe, de antemão, que, além da capacidade, você tem o forte desejo de.
Se você resistir ao final de mais esse ano, e não cortar os pulsos, nem se jogar de cima da mesa, você sobrevive. Vai ficar tudo bem. Um novo ano chega, com sabor e cheiro de ano novo – faça sua parte (poxa!), renove os sonhos, limpe as gavetas da alma. Se puder, faça mais: tome um porre, ou dois, dance “na rua, na chuva, na fazenda”, faça declaração de amor ao poste sem luz, durma no gramado – na praça mais próxima. E nunca esqueça que nem tudo é como a gente quer que seja – nem fatos, nem pessoas, nem nós mesmos. A vida flui – colorida (até preto e branco são cores) -, em todos os matizes, idiomas, olhares e gestos, por todos os cantos. Compreenda que essa realidade, com tantas semelhanças e diferenças, é o jeito de a própria vida se sonhar. E sonha, também, você – sonha com sonhos que você jamais sonhou que pudesse sonhar. Pense: serão mais 8.784 horas, até você pensar em voltar a pensar no que fez, deixou de fazer. Ano novo é pra isso: Carpe diem!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Faíscas de liberdade

Definitivamente, liberdade não é para todos, desde os tempos da escravatura, no Brasil. Naquela época, os escravos, na ânsia natural pela sobrevivência, criaram pratos culinários, valorizados, até hoje: feijoada, farofa, angu, etc. Quando foram libertados, além de não terem emprego, nem auxílio-desemprego, os pobres negros africanos tiveram de enfrentar a fome e a falta de comida, sem teto que os abrigasse. Isso não foi dar-lhes liberdade – foi o preço que os escravos pagaram, para sentirem o gosto do que poderia ser liberdade. Quem sabe até, tenham se sentido, por algum tempo, livres, distantes do trabalho escravo, das chibatadas, das humilhações. Mas, logo depois, devem ter percebido que ficaram longe da senzala e da comida que preparavam, com os restos da cozinha dos senhores.
Por todos os lados, falam em liberdade – liberdade de expressão, liberdade nas relações em família, na escola, no trabalho, nas vias públicas, etc e tal. Por todos os lugares, há liberdade – tão, ou até mais, cerceada do que a exercida nas prisões. Quando os outros não nos cerceiam, nos limitam, nos aprisionam em estereótipos, somos nós mesmos que fazemos isso. E ainda tem gente que infla o peito, para dizer que “não obedeço, por que sou livre”. Outros, em nome da 'liberdade', desrespeitam, violam, invadem, até violentam. Definitivamente, liberdade sequer passeia por esses caminhos.
Hoje em dia, prevalecem tantas faíscas de liberdade, em completo desuso: liberdade de pensar, liberdade de vestir, liberdade de se alimentar, liberdade de fazer moda, liberdade de viajar, liberdade de aprender, liberdade de navegar na internet e no controle remoto, liberdade de viver, etc etc etc. (Ainda) podemos nos libertar, mas a poltrona da zona de conforto nos protege – tão aconchegante.
Numa completa demonstração de imaturidade, tem gente que implora o que considera liberdade, feito adolescente (“Eu quero! Eu quero!”), enquanto espera a mesada. Liberdade paradoxal de existir. O que a maioria usa e abusa mesmo é o que enxerga como liberdade, quando deseja ter o que o outro tem, fazer o que o outro faz, comer o que o outro come, ir aonde o outro vai, vestir-se como o outro se veste, viver a vida do outro. Quantas vezes (sempre), o outro segue essa mesma linha de desejo, doido para trocar de vida com outro. Definitivamente, desejo não é caminho à liberdade. Desejo (realizado, ou não) pode causar mal à saúde: frustração, decepção, corte de pulsos, e até assassinato. Desejo é escolha. Liberdade é outra coisa – vai além. 
Até hoje, liberdade é sempre tema de longos e inócuos discursos – sempre políticos, nem sempre partidários, nem sempre em palanques. Enquanto isso, eu fico pensando que a liberdade não é para todos. Definitivamente.
Viver a liberdade pressupõe romper laços e nós com o que está colocado, socialmente – explícita ou implicitamente imposto. Nem todos resistem aos apelos sociais – vida em grupo (família, escola, trabalho, amigos, etc). Contrário a isso, a maioria quer mesmo participar. Para ser participante, necessário se faz, de antemão, que a liberdade seja afastada, para dar lugar ao comum, ponto de convergência nos convívios sociais. Somente os que se assemelham é que se aproximam – eis o “óbvio ululante”. Para sermos aceitos, abandonamos a liberdade de manifestar quem somos. Deixamos de lado o que consideramos nossa personalidade, nossos princípios, nosso caráter até. Quantas vezes, nos distanciamos, ainda mais, do caminho da própria liberdade, para seguirmos a boiada, que também não é livre – sem saber. E a boiada se contenta com (tão) pouco, sempre.
Enquanto tudo isso acontece, o que seria a nossa liberdade cambaleia pelas redes sociais, na superficialidade de todas as relações que mantemos, diariamente, até ser desenganada, por falência múltipla de sonhos e pelas nossas escolhas, numa vida que não é nossa, nem de ninguém. Assim, penso eu, nos aproximamos dos outros, e nos afastamos de nós mesmos, esquecendo a liberdade que nunca ousamos sonhar.
Liberdade é, essencialmente, solidão. E quem deseja solidão?… A maioria confunde tanto, que, no máximo, pensa que liberdade é fazer o que quer, no momento que bem entender, com quem quiser – caprichos, caprichos. Longe disso, a liberdade (mesmo!) caminha, solitária, sem qualquer tristeza, ou desânimo, ou frustração. Melancolia? Talvez. A liberdade é – simplesmente. Não necessita de traduções, explicações, ou justificativas – sem legenda. A liberdade (em si mesma) não se permite fazer companhia a medos atávicos, ou servir de muleta emocional. Até por que a liberdade voa (alto, muito alto) – tem asas (enormes) invisíveis, para que não sejam cortadas.
Ao contrário da vida social, que nos torna objetos de espelhos desconhecidos, a liberdade nos faz sujeitos de uma vida única, história escrita de maneira solitária e consciente. Não há perda, ou ganho, nisso – se existe, o resultado é sempre empate. Fazemos escolhas – vivemos as consequências das nossas escolhas, temos de assinar embaixo. E isso é (quase) tudo.
… E, no meio do caminho, por onde segue a boiada, ainda escolhemos ficar presos ao passado – enquanto o presente e o futuro nos acenam liberdade… liberdade!...

terça-feira, 17 de novembro de 2015

“O rei está nu!”

“A roupa nova do rei”, de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen, nunca foi tão contemporâneo como nos dias atuais. Saindo da classificação de conto de fadas, a obra, escrita para crianças, encaixa em atitudes que deveriam ser consideradas adultas, principalmente, aquela cena reveladora(inesquecível): “Um menino, que estava na multidão, achou aquilo tudo muito estranho, e gritou: - O rei está nu!”
Recentemente, o jornalista Sidney Rezende foi demitido pela direção da rede globo, que afirmou, em nota, que só tem “elogios à conduta profissional de Sidney, um jornalista completo''. Foi justamente isso que fez com que alguns colegas de Sidney Rezende, que também pensam, questionassem o fato: Se é tão bom, por que demitir?... Admitir e demitir até rimam, mas são verbos contraditórios.
O jornalista demitido mantém blog e página em rede social, onde se acha no direito de escrever e publicar o que pensa – direito real, obviamente. Mas, entre as aparições de Sidney, na televisão, e a liberdade expressa nos textos que assina, houve um distanciamento imensurável(abismal) e insustentável(como tinha de ser). Desde janeiro, o jornalista, nos intervalos das apresentações na tevê, escrevia(demais) sobre o que pensava, para qualquer um ler. Até que, no dia 12 de novembro, Sidney Rezende resolveu “pegar pesado”, e publicou, no blog dele e em rede social, (quase)tudo o que pensava sobre o que já sabemos: “Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo. (...) É hora de mudar. O povo já percebeu que esta ‘nossa vibe’ é só nossa e das forças que ganham dinheiro e querem mais poder no Brasil”. Foi a última gota, para romper a barragem globista, que mandou ver o clássico “pé na bunda”, mais uma vez, como tem feito com todos os ‘globais’ que resolvem manifestar o que pensam(“o rei está nu!”).
O fato, que podia ser mais um, na areia movediça televisiva, me fez pensar(mais). Como nunca trabalhei na globo(nem pretendo, esconjuro!), meu direito de manifestar o que penso não foi amordaçado, nem entorpecido. Caro Sidney Rezende, lembro que, quando foquei meus sonhos e ideais na profissão, o jornalismo me recebeu com alguns profissionais exemplares e inesquecíveis, hoje, cada vez mais raros. O meu primeiro estranhamento foi justamente a importância que esses jornalistas especiais davam aos processos judiciais em que eram os protagonistas. Quando levei meu primeiro processo judicial, compreendi o valor do meu trabalho, e a recompensa que vinha, por eu não me omitir, não aceitar o passaporte de viajar na primeira classe, com o conforto e a proteção da boiada, que segue obedecendo o que nem sabe. A partir dali, sempre que nos reuníamos, em algum momento, surgia a pergunta inevitável: Quantos?... Cada um sabia que se tratava do número de processos ajuizados, a partir do trabalho sério e compromissado com a realidade, já que a verdade se dobra e se desdobra, a cada depoimento sobre o mesmo fato.
Por conhecer alguns porões abarrotados de ratazanas, Sidney, reconheço a dimensão da sua atitude, ao manifestar que pensa, e o que pensa. A escolha é dolorida(e solitária) – o adversário se acha um globo(‘não é pouca bosta’). Mas o salto – você já deve saber – não é impossível. Impossível mesmo é acreditar que todos os funcionários globais não pensam. Oxalá, em algum momento, como tem sido, mais um profissional, aparentemente inofensivo, servil(e mudo), escolhe gritar: “O rei está nu!”

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O seu melhor. O meu melhor.

“Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.” (Hermann Hesse)

Se existe em mim, alguma obstinação, é justamente buscar, cada vez mais, coerência entre o que penso e as minhas atitudes, que inclui o que Hermann Hesse deixou registrada em “O Lobo da Estepe”. Posso até não conquistar esse meu objetivo, mas continuarei exercitando. Esse é o meu alvo: o seu melhor, seja você quem for – o meu melhor, seja eu quem for. Pode ser até que nem cheguemos a nos conhecer, mas, certamente, continuarei desejando que você seja o seu melhor, e seguirei tentando ser o meu melhor.
Sei que tem um monte de psicopatas, sem a menor empatia, por todo lugar, querendo só o melhor dos outros, para usufruir-lhes prazer, status e poder. Mas existe algo melhor – acredito nisso -, em cada um de nós, que vai muito além do que alguém possa querer ‘vampirizar’. Penso mesmo que o melhor de cada criatura pode, num momento da vida, apresentar-se visível e inquestionável, e ser tão surpreendente, que nem ela mesma acredita. Mas o melhor jamais se torna ‘moeda de troca’ – o melhor permanece dentro, tendo como vizinho, o pior, até que a gente faça a escolha que considera mais acertada.
Obstinadamente, também eu busco o meu melhor. Quanto me faz bem, quando encontro alguém que também quer que eu seja o meu melhor. O outro pode ser até psicopata. Mesmo que eu o identifique (são tantos), ainda assim, continuarei tentando fazer e ser o meu melhor. Afinal, não posso tornar-me líquida, de repente, diluir-me à forma do recipiente mais próximo, para satisfazer essa ou aquela exigência externa. Se continuo tentando ser o melhor que reconheço em mim, não é por causa de alguém, ou de alguma circunstância. É por mim mesma, e pelo que acredito, neste mundinho que me fascina tanto.
Mas nem todo mundo quer o melhor da gente – a maioria nem quer saber dessas coisas. Independente do que as criaturas desejam (o melhor ou o pior de mim), minhas expectativas em relação aos outros têm sido reduzidas – menos frustrações, mais surpresas boas (simples equação). Honestamente, já me sinto satisfeita, quando o outro, seja quem for, me sinaliza respeito – com gentileza, melhor ainda. Pode ser que o outro não me compreenda, às vezes sempre, nem queira me compreender. Mas, havendo respeito e um pingo de gentileza, já demonstra que está sendo o melhor que pode, ou se acha capaz de ser.
Eu costumo dizer que pouco adianta eu me preocupar somente com as luzes da minha casa, se a rua precisa de mais luz, da luminosidade das outras casas. A gente pode observar isso, em época natalina, quando quilômetros de fios com pisca-pisca enfeitam as ruas, as praças, as cidades. Volta e meia, a revolta dos pisca-pisca (sempre existem os revoltados mesmo, em qualquer situação) causa apagão, até apagões, pelo trajeto, o que acaba chamando mais a atenção dos transeuntes. Talvez, por isso, tem tanta gente manifestando o pior de si mesma, como se tivesse lido “O Lobo da Estepe” pelo avesso. Pode até chamar a atenção, mas causa muito mal, fermento instantâneo para o pior do mundo.
Podemos comprovar, no cotidiano, que a violência tem se exacerbado, por falta de coisa melhor. As relações têm ficado cada vez piores – as melhores estão nas redes sociais, onde cada qual desfila com a máscara e a fantasia que escolhe, sem envelhecer, diante dos outros. Na realidade, o que chamamos relações amorosas estão carregadas de desrespeito, desconfiança, más interpretações, indiferenças, e tudo mais que é reclamado, nas sessões de divórcio. Afinal, não é todo mundo que se acha capaz de administrar cenas como essa, sempre tão comum:
- Você atrasou dezenove minutos, hoje. Onde você estava, com quem, fazendo o quê?
Tem alguém que até responde:
- Eu sei que tem gente que vende muita coisa, no sinal, mas eu dei, enquanto o semáforo estava fechado, e desobstruíam a área de mais um acidente.
- Deu pra quem? Eu conheço? Nem responda. Vou ver os detalhes do acidente, na televisão...
... E já não escuta:
- Dei toda a minha paciência, no meio do congestionamento...
Todo mundo quer só o melhor da vida, e, quase sempre, exige isso, da pior maneira. Se existe mesmo algo que me faz mal indescritível é justamente quando eu contribuo para que o pior de alguém ocupe tempo/espaço. Isso me causa mais dor, se comparado ao fato de alguém provocar o meu pior, para que escape da jaula vigiada pelo meu desnutrido equilíbrio. Enquanto há provocação, eu posso defender o que acredito ser meu amadurecimento, minha consciência. Mas, se o meu pior contra-ataca, o meu pobre equilíbrio, minguado de vergonha de si mesmo, sai de cena, e retorna à lição que já pensava ter aprendido.
O pior e o melhor – sempre fazem parte do que denominamos caráter, personalidade. E tudo isso descamba, mais uma vez e sempre, nas escolhas que fazemos, a cada instante da vida inteira. A maior ironia, nisso tudo, está justamente nas consequências das nossas escolhas, nem sempre imaginadas: “Eu não sabia”.
Viver também pode ser transbordar, ir além – de si mesmo. Num dia qualquer, todos morreremos (a fila é longa) – sem sabermos se a vida teria sido melhor, se tivéssemos feito outras escolhas.

P.S.: Só não diga que o que você leu aqui ajudou em alguma coisa, na sua vida. Autoajuda - só aos autores dos livros de autoajuda (livros cada vez mais caros, autores cada vez mais ricos). O que escrevo não é para ajudar. Ao contrário. O que escrevo é para atrapalhar, incomodar mesmo, desarrumar, tirar o sono, inquietar, e (quem sabe até) fazer pensar. A intenção é só essa – realmente. Aí, do outro lado, a escolha é só sua – você lê o que quer ler. E escolhe viver como quer viver. Eu também.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A morte não anunciada

Hoje é dia de chorar a morte – a morte dos nossos entes queridos, e a nossa própria morte. No próximo velório que chamarem você, observe que as pessoas choram, diante do caixão, se entreolham, e choram mais ainda – ninguém sabe quem será o próximo. O que se sabe mesmo é que nem sempre o terminal vai na frente do fulminante, enquanto o inesperado continua sendo o primeiro da fila.
Durante todo o tempo em que estamos nessa condição que chamamos vida, sofremos diversas mortes. Penso que a morte não anunciada vai além da morte por acidente, homicídio, ou suicídio (anunciado sempre, por sinais). Talvez, essa morte que me refiro seja a mais profunda, e menos dolorida, de todas as mortes. Está tão incrustada no fundo mais fundo do ser humano, que nem chega doer, coberta que fica por tudo o que ‘parece’ vida, em total abandono, na vala do desperdício esquecido.
Na minha insignificante opinião, tantas vezes, morremos para os outros (nem todos), mas permanecemos aconchegados (vivos) nos braços de quem nos quer bem, a troco de nada mesmo. No contraponto, quantos permanecem (tão) vivos, por tantas vidas inteiras que seguem, ignorando qualquer lógica do tempo, que (quase) tudo faz esquecer. Mas morrer para os outros não é a pior morte (ainda).
A pior morte, na minha visão estrábica, não é a anunciada. É aquela que causamos em nós mesmos – um só alguém, ou ninguém, fica sabendo. A criatura vai morrendo aos poucos – longe da lógica do tempo das rugas e senilidade. Tem gente que vai abandonando sonhos e projetos, pelo caminho. No início, até percebe o que está fazendo com a própria vida, escolhendo. Não demora muito, essa rendição - em vida, à morte - é transformada em hábito, vício até. E não há morte mais vazia e triste. Morte anestesiada pela ausência de sonhos (vida).
Penso que especialmente hoje não deveria ser dia de refletirmos sobre a morte. A morte já nos chega com tudo pensado – sem direito (mesmo!) de qualquer escolha. Hoje – e sempre – é dia de refletirmos sobre a vida, a nossa vida, de ninguém mais. Até por que temos a vida que temos, por que fazemos escolhas, mesmo quando justificamos que não temos outra escolha (existe, sim). Mais justo seria reconhecermos que não conseguimos enxergar mais escolhas, por que escolhemos – sempre -, independente de.
De repente, a morte (implacável!), quase nunca esperada, nos chega – que haja muita vida, dentro de nós, quando o inevitável acontecer. Que a nossa vida seja tanta, que transborde à vida que fica, e segue...
...E continuemos orando pelos nossos mortos, e pelos sonhos e projetos que morrem, em completo desamparo íntimo, a cada instante...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Notas de rodapé (para Márcia Tiburi)

* Filosofia, você pode exercitar, quando não está linchando alguém na rua, ou ateando fogo em ônibus, ou matando civis e forjando legítima defesa, ou divertindo-se nas práticas de bullying, ou “enchendo a cara” (e todo o resto) e atropelando pessoas, ou deixando de prestar socorro, para fotografar e postar nas redes sociais, ou maltratando animais, crianças e velhinhos caquéticos. Filosofia já foi exercício mais constante, mas hoje acaba, diariamente, sendo substituído por cruéis comentários de apresentadores de programas policialescos de televisão, dividindo tempo com gente que arremessa veredictos, pelas redes sociais, todos a favor da pena de morte. Penso até que filosofar, atualmente, é questionar o inquestionável, refletir sobre qualquer coisa, quando a maioria já nem quer saber de pensar.
** Pensar tem preço - valor muito alto, cada vez mais impagável. Não há dinheiro que pague, realmente, o ato de pensar, por que pensar é ação. Toda atitude demanda esforço, dedicação. De brinde, recebemos a liberdade de pensar certo, ou errado - na mesma proporção. E ainda dói. Mas continuamos com o direito de pensar – às vezes, nem certo, nem errado. Paga-se caro, por pensar, refletir, não imaginar. Por isso, tem tanta gente que não quer saber de pensar. A imaginação é quase gratuita, está sempre em liquidação, a nosso bel prazer. Pensar é que custa caro, muito caro mesmo. Pensar é refletir. Refletir é transbordar. Por isso, o trampolim permanece ao alcance – nem todos desejam ousar.
*** Para conviver bem, na sociedade do espetáculo atual, você precisa conhecer e reconhecer a cartilha: Os outros são os vilões, racistas, homofóbicos, fascistas, egocêntricos, reacionários, machistas, transfóbicos, corruptos, sexistas, psicopatas, xenofóbicos, imperfeitos. Somente os outros, por que você é o máximo da perfeição do centro da pirâmide humana. Ainda há tempo: Você ainda pode ser a (grande) vítima de tudo isso – por enquanto.
**** Friedrich Wilhelm Nietsche está indo além da imaginação (dele mesmo, que não pensava pouca coisa). O ‘caldo’ começou a ‘engrossar’, quando o que chamam livro “Nietzsche Para Estressados - 99 Doses de Filosofia Para Despertar a Mente e Combater As Preocupações” foi lançado. O aproveitador chama-se Allan Percy, um cara que deve usar, na maquiagem, muito, mas muito mesmo, óleo de peroba. Como se não bastasse a dita “obra prima”, tem agora “Funk do Nietzsche”, gravação de Mc Bertas e DJ Leozito. Esses exemplos comprovam que a falta de imaginação e criatividade pode render bom dinheiro, mais, muito mais, do que Nietzsche recebeu.
***** Aviso aos intolerantes impetuosos (kit completo) de plantão: Andem sempre com arma de fogo – até durmam, com um revólver debaixo do travesseiro. Vocês realmente precisam acabar com os motivos que irritam tanto os intolerantes (‘intolerantes unidos jamais serão vencidos’). Vão treinando: quando encontrarem uma manifestação, ou até uma minguada junção de gentes, libertem a impetuosa intolerância, e, literalmente, “mandem bala”. Não esqueçam: Arma ao alcance da mão, sempre, no trânsito (prato cheio – de motivos e justificativas para uma “boa peleia”). Logo, logo, a lei do desarmamento será derrubada pela força dos senhores “representantes da sociedade”, no Congresso. Por enquanto, vão treinando “tiro ao Álvaro”.
****** A campanha que estou lançando é justamente para que os filósofos (mortos e vivos) não se tornem finados. Ainda que a maioria contemporânea prefira ler apenas postagens compartilhadas em redes sociais, os livros (nada silenciosos) continuam a batalha contra o google. Às vezes, até parece que vamos perder – só impressão. De repente, no meio de tantos “fogos cruzados”, alguém larga mão do google, e resolve pesquisar mesmo, e até pensar, refletir. E a filosofia, antes alquebrada, ressuscita, com potência absoluta.
******* Para emagrecer, a receita é seguir todas as receitas, e tomar todos os medicamentos – comece pelos mais caros, até chegar nos baratos. Continue comendo, comendo tudo e mais um pouco de todas as dietas aconselhadas. Acredite em todos os comerciais e receitas emagrecedores. Aproveite, e acredite em papai noel, também. Se, algum dia, você olhar o espelho, e enxergar obesidade mórbida, troque o espelho (para um bem maior) – não é você.
******** Dia desses, assisti à uma entrevista, na televisão. Não tenho certeza se era entrevista. Não lembro. Mas sei que tratava sobre um assunto bastante interessante. Quem falava não era alguém famoso, celebridade. Não. Mas parecia ser alguém com conhecimento de causa – pelo menos, da causa que defendia. Vez ou outra, exasperava-se, falava mais alto, e manifestava discordar de outras opiniões, contrárias àquela que defendia. Eu sempre paro para ouvir, quando alguém não cai na vala comum, ao falar. Gosto de ouvir o que os outros ainda ousam falar, num mundo onde a ordem é “compartilhar” opiniões superficiais e/ou sem sentido, e imagens entorpecentes. Assim é que se preenche páginas e páginas, livros inteiros, sem dizer coisa alguma. Quem imagina que o oco está oco mesmo, esquece de lembrar que o oco não é oco. O oco é e está sempre cheio de ecos – silenciosos. Na maioria desses casos, se traduzidos, os ecos repetem apenas o nada que o escritor tem a dizer, enquanto tantos outros livros continuam transbordando, nas prateleiras. Por isso, também, livros ocos me cansam – eu, que sempre renasço, a cada transbordamento.
A cada dia, só tenho a agradecer a filósofa Márcia Tiburi, e todos que ela traz à minha companhia.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Declaração de amor

Enquanto há tantas separações - por causa de tudo, por causa de nada -, quero deixar, aqui, um manifesto, a minha declaração de amor a um só alguém - único, insubstituível.
Ficamos horas distantes, mas, quando nos encontramos, nem parece que houve algum afastamento.
Você me enche de carinho e agrados, sem interesse algum.
Não importa o que eu fale, você está sempre com esse olhar atento e concentrado em mim.
Pra me fazer graça, você até improvisa alguns passos desengonçados de dança.
Nossos passeios causam inveja nas pessoas, que insistem em manter relacionamentos que nunca existiram, ou acabaram.
Às vezes, você me dá mais trabalho do que jogar uma toalha molhada na cama.
Esqueço o trabalho que você me dá, quando te encontro me esperando, no sofá, para assistirmos juntos, mais uma vez, aquele filme ‘água com açúcar’ que tanto gosto.
Ninguém me emociona, como você, meu querido.
Diante das suas brincadeiras, meu anjo, não resisto, e nos divertimos a valer.
Você, em vez de cobrar de mim, me dá atenção e compreensão silenciosas.
Sei que você não fica imaginando coisas sobre mim, nem me interpreta mal.
Por você, meu amor, que sempre me surpreende, não me importo em manter suas redes sociais atualizadas.
Como não corresponder à sua lealdade canina, meu querido?
Por não haver pessoa alguma que se assemelhe a você, invisto muito em plano de saúde, psicólogo, dentista, trainer, conforto, salão de beleza, roupas, seguro, resorts, terapias, acupuntura, festas, viagens ao exterior, gps, joias, microchip e a melhor alimentação – tudo, tudo, só pra você.
Obrigado, meu fiel mastiff tibetano, que faz minha vida – que, há muito, deixou de ser humana - ter algum sentido. Se todo humano fosse animal...