sábado, 30 de maio de 2009

Em nome do Zé*


(Desde que me conheço por gente, me chamam Zé Banguela – nasci desdentado, e depois perdi os dentes pro nunca mais. Sou analfabeto de pai e mãe, como milhões de brasileiros trabalhadores. Por isso, essa jornalista maluca vai escrever por mim.)
Sinceramente, fiquei emocionado, quando soube que o meu salário passará de 415 para 465 reais. Falei pra ‘patroa’, lá em casa, que vamos precisar pensar direitinho sobre o que fazer com o dinheiro que vai chegar. Falta tanta coisa, que vai ser difícil investir esses ‘cinquentões’, na família.
A situação está difícil pra todo mundo. Lá em casa, se tem almoço, não tem jantar, e se a gente janta, não almoça no outro dia. Se um dos barrigudinhos adoece, a coisa piora, por que não tem remédio no SUS, e os preços estão pela hora da morte. Eu trabalho, mais de doze horas por dia (domingos e feriados também), como auxiliar de pedreiro, e a ‘patroa’ lava e passa roupa pra gente rica, que tem máquina de lavar, mas parece que não sabe apertar os botões. Falam numa tal de hora extra, mas eu não sei o que é isso, e também não entendo nada de uma tal de “carteira profissional” – não sou profissional, sou peão.
Todo patrão que me contrata diz a mesma coisa: se a gente assina carteira, recebe menos, no final do mês. O salário é sempre mínimo, e o esforço no trabalho é máximo. Se a gente não mostra serviço, eles contratam a fila que fica lá fora, disposta a trabalhar por menos que a gente. Não tem jeito.
Fiquei sabendo do aumento do salário, lá na construção. O “Zé Tijolo” é que disse que a gente vai ganhar cinqüenta reais a mais. Ele falou outras coisas que eu não entendi. Falou de uns tais “economistas”, que fazem os “cálculos” pro bolso do trabalhador brasileiro. De cálculo, só conheço renal – tive duas vezes, e como dói!...
Eu nem sabia que um tal “governo”, que fica longe, numa “Brasília” que nunca vi, é que manda o patrão dar mais dinheiro pra gente. O “Zé Tijolo” quem falou. Parece que tem um grupo que estuda o jeito que a gente vive, conta tudinho pra esse tal “governo”, que manda o patrão da gente pagar mais. Lá em casa, ninguém foi saber como a gente vive, a ‘patroa’ confirma.
Fico imaginando se esse tal “governo” fosse visitar o nosso barraco. A gente não teria o que oferecer, mas, lá em casa, tudo é limpinho, limpo até demais, por que não tem nem comida nas panelas de latão. Sem luz, nem água, a gente saberia agradecer a visita. A ‘patroa’ ficaria preocupada se o tal “governo” iria querer ficar por alguns dias. Claro que não, por que a “Brasília” que eles conhecem deve ser mais interessante, deve servir almoço e jantar, e, se vacilar, deve ter café da manhã, e até lanche fresquinho.
O “Zé Tijolo” disse que o tal “governo” não sabe como a gente vive, nunca passou um dia inteirinho na favela. Se não sabe, como é que vai ‘chutar’ o valor do nosso salário? Andaram dizendo por aí que tem outra gente inteligente (de um tal “Dieese”) fazendo pesquisas e estudos, pra mostrar a nossa realidade, a vida da maioria dos brasileiros. Essa gente é que diz que “o salário mínimo necessário para o trabalhador brasileiro suprir as despesas com moradia, educação, saúde, vestuário, transporte, higiene, previdência e lazer (casal e dois filhos) deveria ser de R$ 2.005,57”. Mas não são eles que “comandam” o Brasil e o meu patrão. Ah, mas aí seria muito dinheiro! A gente nem saberia o que fazer com tanto!
Dizem que o pessoal dessa tal “Brasília” ganha muito mais que isso, e ainda rouba do povo brasileiro. Já fui assaltado, tinha só duas moedas no bolso, e um passe de ônibus. Nunca recuperei os vinte centavos e o passe (será que foram pra “Brasília”?), nem vi mais o moleque que me roubou. Acho maldade dizerem que os “comandantes” do Brasil roubam do povo, por que o povo é igual a mim – não tem aonde cair morto.
Não quero enrolar a conversa. Estou aqui para agradecer os cinqüenta reais que eu, a ‘patroa’ e os barriguinhos vamos receber a mais. O patrão fez cara feia, quando eu agradeci a ele. Já falei lá em casa: não vamos gastar esse dinheirão que vem com besteiras. Vamos continuar trabalhando, e fazendo tudo pra não morrermos antes do tempo, por que, um dia, todo mundo vai morrer, de um jeito, ou de outro...

*Essa é minha homenagem aos trabalhadores que já entrevistei, nas favelas da minha vida.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O humano ‘deus’ e a desumana humanidade


Que fique bem claro que não tenciono escrever, aqui, sobre religiões. Até por que não sou teóloga, nem pretendo ser. Também, não quero questionar a fé, por que precisamos acreditar – sempre -, senão no Papai Noel, pelo menos em alguma coisa semelhante à vida. Pra mim, religião é a necessidade de o ser humano transcender o que lhe parece ‘vida’, criar, sem comprovação racional, a eternidade, para que vida/morte tenham algum (mesmo vago) sentido.
Interessante observar que todas as religiões – das mais ‘humanas’ (que idolatram os prazeres da vida física) às mais ‘transcendentais’ (que negam a vida corpórea) – mantêm alguns parâmetros de fé. E também se referem às conseqüências dos atos humanos, com tal coerência, que não nos deixa outra saída, senão assumirmos o que fazemos e/ou deixamos de fazer.
Milênios antes da existência de Jesus Cristo, as religiões já eram criadas e alimentadas, para manter uma certa ordem, na desorganizada humanidade. No que li de história daquela época (zilhões A.C.), o sacro e o profano eram cultuados com tamanho fervor, que todo mundo acabava sendo seguidor de algum dos ‘deuses’. Hoje, a situação até não mudou muito.
Temos religiões muito rígidas, inflexíveis, como a própria igreja católica, que tem um Papa tão conservador, que foi dizer para o povo africano que o preservativo (“camisinha”) não é “coisa de Deus” – a velha historinha de “toda semente não deve ser jogada fora”, etc e tal. Também, acabou comprometendo o trabalho de conscientização da Organização Mundial da Saúde, que previne DST/AIDS, em todo o continente africano. Depois da visita do Papa, muitos africanos (do ‘rebanho católico’) deixaram de adotar e defender o uso de preservativos. E não adianta ninguém ir lá, para contestar as palavras do Papa. E ainda tem a prática comum da pedofilia, com a participação dos “emissários divinos”, por todo o mundo. Um absurdo!
Na lista das religiões inflexíveis, está o islamismo, que já faz parte da cultura de diversos países orientais. As mulheres, naquelas “bandas”, só servem mesmo pra reprodução e prestação de serviços domésticos. Nesse caso, a religião tomou conta, extrapolou os muros das ‘mesquitas’, entranhou-se na cultura local. Mulher não tem vez mesmo, nem voz. No Afeganistão, o radicalismo impera fortemente. Por lá, as mulheres usam um ‘vestido’ (por que vestem, mas mais parece um lençol GG de casal), que cobre todo o corpo, o rosto, até os olhos. Imagine.
Pra nós, mulheres ocidentais, à primeira vista, pode parecer “excêntrico” andar de ‘hijab’ (o véu negro). Mas o veuzinho, que parece tão inofensivo, feito com tecido pretinho básico, representa castração, cerceamento, a morte de qualquer direito feminino. Como se não bastasse aquela ‘merda’ toda, fiquei sabendo que assinaram decreto saudita que ordena as mulheres a taparem um olho. Acho que o número de mulheres que estão enxergando a própria condição, e, por isso, se rebelando, tem aumentado. Os sauditas (homens, claro) não deixaram por menos, resolveram reduzir a visão ocular das suas mulheres, na ingênua idéia de que, com um olho só, elas enxergarão menos. Nós, mulheres sem ‘hijab’, sabemos que cerceamento só nos causa uma ação: a revolta. Que “Allāh” não seja machista, como os seus seguidores.
Aqui no ocidente, temos religiões flexíveis, adaptadas, e cada vez mais adaptáveis ao ‘modus vivendi’ dos “fiéis”. No Brasil, especificamente, algumas religiões e seitas atendem à “necessidade do freguês”. Claro, não vou “dar nomes aos bois”, por ser até desnecessário (todo mundo já ouviu falar, ou até mesmo freqüenta, um templo desses). Pecou (todo mundo peca), basta pagar um “dízimo” extra, e tudo bem. Quanta discriminação! Se o cara é pobre pecador, não tem direito à isenção dos pecados. Talvez, por isso mesmo, muita gente comete pecados inimagináveis, pra ganhar dinheiro, garantindo uns trocados, após o pagamento do dízimo. No final da história, todo mundo fica bem, obrigado, e não se fala mais nisso.
Independente do nome na fachada, toda igreja, ou seita, tem o grande objetivo de apoderar-se do “rebanho de fiéis”, que eu costumo chamar ‘manada’. Quanto mais ignorantes os pobres coitados, maior a prosperidade dos religiosos, que impõem, goela abaixo, um ‘deus’, às vezes, bonzinho, benevolente, outras, nem tanto, mas sempre um ‘deus’ poderoso, “que tudo vê, tudo sabe” (o ‘deus-medo’).
Penso – jamais concluo – que cada ser humano não é “imagem e semelhança” de ninguém mais, senão dele próprio. ‘Deus’, sim, é “imagem e semelhança” da desumana humanidade, que, a cada passo, vai lá, na pintura do ‘deus ideal’, e dá mais uma pincelada de ‘perfeição’.
Fé, pra mim, é acreditar, e agir de acordo com a crença que tem (um pouco de coerência ajuda a manter o rumo). Mas, antes de tudo, é preciso consciência dessa fé. Eu não posso pegar emprestada uma fé que nunca foi minha, nem comprá-la. Acreditar, seja no que for, pressupõe saber intimamente, e isso é intransferível. Se tenho fé em seguir uma religião é por que (ainda) não estou preparada para descobrir, por mim mesma, a minha própria fé, o meu ‘deus’.
Falando em ‘deus’, que fique aqui o registro: Admiro os ‘deuses’ interpretados por Antônio Fagundes (“Deus é Brasileiro”), Alanis Morrissette (“Dogma”) e Maurício Gonçalves (“O Auto da Compadecida”). “Deuses” tão humanos, que, se quisermos, nos ensinam um pouco de humanidade...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Zé Rodrix imortal


Poderia continuar sendo uma sexta-feira qualquer. Não. Repentinamente, de passagem pela televisão da sala, ouço: “O maior sucesso, na carreira de compositor, de Zé Rodrix foi Casa no Campo”. Falei, sozinha, sem pensar: pra Globo abrir espaço, no Jornal Hoje, ao Zé Rodrix, só pode ter morrido. E morreu mesmo. Zé Rodrix, agora, é imortal.
Pouca gente sabia, mas Zé Rodrix tinha formação musical, tendo estudado no Conservatório Brasileiro de Música e na Escola Nacional de Música, tocava piano, flauta, acordeão, bateria, trompete e saxofone. Carioca, 61 anos, seis filhos, vivia em Belo Horizonte, junto com a família. Sentiu-se mal em casa, e, em menos de meia hora, estava morto. Velório e enterro, em São Paulo.
Sagitariano de 25 de novembro, Zé Rodrix só sabia fazer arte. E como fazia tudo bem feito! Não digo isso, por que morreu, mas o admirei sempre vivo. Durante mais de vinte anos, foi publicitário, dono do estúdio A Voz do Brasil, produzindo jingles e músicas comerciais de sucesso.
A música embriagava a alma de Zé Rodrix. De 1968 até o início deste ano, gravou quinze discos (entre vinil e cd), e mais um compacto. Tenho certeza que não gravou mais, por falta de espaço no mercado. Mas agora deve começar a vender como nunca (quanta ironia!). No início do novo milênio, revelou-se maçom, lançando a "trilogia do templo" sobre a Maçonaria, com os títulos: Johaben: Diário de um Construtor do Templo; Zorobabel: Reconstruindo o Templo; e Esquin de Floyrac: O fim do Templo. O cara viveu intensamente.
De jeito simples, bem-humorado, Zé Rodrix compôs músicas belíssimas, inesquecíveis. A maioria dos fãs destaca sempre “Casa no Campo”, parceria com Tavito. Mas eu sou mais "Soy Latino Americano" – música, pra mim, que diz tudo, no tom perfeito do bom humor.
Mais uma vez, morre o artista, e fica a arte. A arte que o imortaliza. A arte que nos embriaga a alma. A arte que faz de conta que a vida tem algum sentido. A arte que sensibiliza, emociona, nos torna humanos. A arte – pura e simples – que faz a gente alimentar sonhos. A arte sem sinônimo, com tantas palavras, tantas melodias, tantas memórias, tantas vidas, tantos cantos – claros, obscuros, silenciosos, gritantes...

Olha, gente, tem Zé Rodrix no horário nobre: imortal!! (Talvez, se ele visse a “manchete” do dia, até risse, ou chorasse...)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A ‘merda’ da indiferença


Francês: indifférence;

Alemão: Gleichgültigkeit;

Espanhol: indiferencia;

Russo: равнодушие;

Japonês: 無関心;

Italiano: indifferenza;

Inglês: indifference;

Chinês: 冷漠;

Grego: αδιαφορία;

Português: indiferença.

Não importa o idioma, indiferença é sempre a mesma ‘merda’, por que distancia, mais ainda, as pessoas. O ‘status quo’ do nosso tempo perpassa pela indiferença. E não há quem não cometa um ato de indiferença, e/ou não seja vítima da mesma ‘merda’.
Indiferença é você não ouvir, não responder, seja lá quem for. É não dar atenção. É não se importar com o outro. É passar pelo cotidiano, como quem flutua num jardim de nuvens, e desconhece o chão firme. É não querer envolver-se. É negar-se a compartilhar sentimentos, sejam quais forem – vitória, dor, alegria, luto, revolta, etc.
Querem um exemplo mais recente de indiferença? É o que ficou evidente no amontoado de repórteres em torno da ministra Dilma Roussef, quando ela saía do hospital, após tratamento de quimioterapia. Os ‘ávidos repórteres’ não pareciam estar diante de um ser humano, mas sim, uma mera imagem política de destaque. A ministra aparentava desgaste físico, esforçando-se em atender até as perguntas mais idiotas: “Quando a senhora retorna a Brasília?” “Quando será a próxima sessão de quimioterapia?” “Vai mudar alguma coisa, na sua rotina de trabalho?” Será que é isso que importa aos leitores/espectadores/radiouvintes? Sei lá, mas eu, que também sou leitora, espectadora e pouco radiouvinte, sem ser indiferente à doença da ministra, não vejo necessidade, nesse caso, de os meus ‘colegas’ ficarem “enchendo linguiça” (ocupando tempo/espaço), como costumamos dizer, invadindo a privacidade de uma personalidade em tratamento.
Mas a maior indiferença não é cometida, a meu ver, através das janelas da televisão, do rádio, do jornal. Não. Ainda tem coisa pior, gente, e todo mundo sabe disso, por que sofre cotidianamente, de um jeito, ou de outro.
Uma cena comum, em via pública. Alguém tropeça, cai. Pode observar, nem sempre todas as pessoas próximas socorrem a vítima da queda. Alguns saem de ‘fininho’, outros atravessam a rua, para ‘admirar’ a cena de longe, e quase sempre há aqueles que nem tomam conhecimento do que aconteceu, diante do próprio nariz. Por sorte (da vítima), sempre existe algum “bom coração”, que, num ímpeto de abandono da indiferença, ajuda a criatura levantar-se, se coloca à disposição para encaminhá-la ao P.S., quando necessário, enfim, torna-se humano, correspondendo ao que todos nós imaginamos “ser humano”.
Lembro agora que, há muito tempo atrás, uma amiga terapeuta começou a atender uma criança vítima de maus tratos causados pela mãe. Sensibilizada, minha amiga buscou saber quem era a mãe, onde morava, para atenuar aquela situação terrível. “A mãe da criança espancada era a babá dos meus filhos”, contou-me aos prantos. Até então, minha amiga era indiferente à criatura que cuidava dos filhos dela. Ela mesma reconheceu, depois, que “nunca quis me meter na vida dela, saber como vivia”. Aliás, “respeito à privacidade” é a justificativa mais cabível à indiferença, o ‘cartão vip’. Sempre funciona.
A indiferença tem ditado mais leis que qualquer governante. O que é pior: não há “jeitinho brasileiro” que nos tire dessa bola de ‘merda’. Entre pensar em mim e pensar no outro, claro que eu penso em mim, só em mim. Ah, sempre justifico que minha atitude não é de indiferença; a indiferença existe, sim – sempre no outro em relação a mim. É comportamento comum. Por isso, aceitável na “sociedade”.
Outro exemplo? Duvido que você nunca tenha assistido (ou protagonizado) esta cena:
- Meu amigo, preciso da tua ajuda...
- Quanto?...
(E se não for dinheiro? E se for pra desabafar, chorar no ombro, ou simplesmente jogar conversa fora? Será que a indiferença do “amigo” vai se render a um abraço?)

Acredite se puder, levei tempo (da minha vida) concatenando essa ‘merda’ toda na cabeça, pra livrar-me dela aqui. Se possível, não seja indiferente ao que você acabou de ler, que pode até não ser o que escrevi. Mas você leu alguma coisa.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Hora marcada com sangue


Se existe uma hora que é marcada com sangue é justamente na televisão, um dos produtos mais consumidos, em todo o Brasil. Afora o gasto com energia elétrica, tudo mais é ‘digrátis’. Cá entre nós, com exceção das novelas (brasileiras, mexicanas, venezuelanas, todas com “mocinhos”, “bandidos” e “pobres garotas indefesas”), o que mais prende o brasileiro, na frente de um aparelho de televisão? O futebol - está certo, mas só nas quartas-feiras e nos finais de semana, com algumas restrições ainda, pois o “time do coração” precisa estar em campo.
Diariamente, o que ‘pega’ a atenção dos telespectadores brasileiros é o sangue que jorra das tragédias mundiais (que planeta pra causar e sofrer violência, meu Deus!). Os ‘profissionais de televisão’, obviamente, servem o que chamam “filé”, em apresentações especiais. De um lado, é o Datena que grita, esbraveja, enquanto, de outro, o Ratinho (ele voltou!) chuta mesas e cadeiras, no palco. Sem falar nos “seguidores” deles, que não são poucos.
Dificilmente, eu fico diante da televisão, nesta hora marcada pelo sangue. Quando posso, observo os comentários a respeito, no dia seguinte. O que percebo é que a tragédia maior é o efeito que ‘programas de desgraça’ surtem em todos nós, cidadãos comuns. Principalmente, as mulheres relatam, emocionadas, as “notícias do dia”. Algumas se emocionam tanto, que chegam a chorar (chorar mesmo), enquanto outras roem as unhas. (O ‘sr. Ibope se agiganta.)
Fico imaginando uma família comum, brasileira – poucos recursos financeiros, culturais, nem um sonho. Início de noite, o ‘pai de família’ retorna, cansado, do trabalho. A mulher já encaminhou os filhos para o banho, depois da escola, e as duas crianças estudam, no chão da sala. No centro da estante, está a ‘poderosa’, a ‘imbatível’, a ‘sempre surpreendente’ televisão ligada – claro.
O homem chega à sala, e a mulher já avisa: “Você perdeu dois estupros e um acidente de carro com três mortes”. Ele lamenta, e silencia diante de mais tragédias. Os olhos do casal brilham, com tanto sangue. Quando o apresentador grita, as crianças correm para assistir. Pai e mãe estão ‘concentrados’ na desgraça alheia. A opinião emitida pelo apresentador é completamente absorvida pela família telespectadora, tanto, que os quatro chegam a repetir, sem se aperceberem disso.
Quando o programa acaba (finalmente!), a morte paira na família. Os quatro ficam, no primeiro momento, sem saber o que fazer. A mãe é que toma a iniciativa: troca de canal, obviamente, na tentativa de encontrar mais e mais desgraça. Às vezes, o pai é que tenta um ‘outro canal com noticiário’, sabendo que o que quer mesmo é mais sangue na ‘tela’. Os filhos permanecem na ‘torcida’, e sabem que, depois, podem guardar o material escolar, até o dia seguinte. Todos os dias é a mesma coisa.
Após algum tempo de insistência na troca dos (poucos) canais, num muxoxo, a mulher diz que “daqui a pouco, tem aquela novela da bonitona, que está grávida do bonitão casado, e depois tem um filme policial”. Os quatro saem da sala, mas retornam, pouco tempo depois, com seus pratos de comida. Agora, quatro bocas abertas, cheias de comida, se extasiam com a tragédia “inventada, que poderia ser real” – uma realidade que não é a deles, nem nossa.
O que cada telespectador vai pensar (ou não) a respeito do que assiste, as consequências disso tudo são inimagináveis. Nem quero me meter nisso, pois resultaria numa quilometragem filosófica, sem faixa de chegada.
O que teimo em pensar é que ‘profissionais sérios’ cuidam de tudo o que é exibido, em cada canal de televisão, no mundo inteiro. Parece que eles têm um alvo, que é justamente a família personagem da minha ‘estória’ ali de cima - a maioria das famílias brasileiras, infelizmente. Até os programas que não são sérios – também esses – são produzidos por ‘caras sérios’. Acredite. Sei que, às vezes, fica difícil crer, mas é sério.
O destino de cada “telespectador padrão” é mapeado, às vezes até com dias, semanas de antecedência. Os ‘caras sérios’ sabem quando o trabalhador assalariado volta para casa, a que horas a mulher chama as vizinhas para uma (ou várias) fofoca (s), na frente da televisão ligada, e o que mais atrai as crianças, os adolescentes. Os ‘caras sérios’ sabem tudo. Sabe por quê? Por que somos previsíveis e limitados, dentro de uma vidinha medíocre, e mais repetitiva do que imaginamos. Nem pensamos sobre isso.
A partir daí, qualquer lance é gol na certa. Os ‘caras sérios’ enchem a televisão de imagens que chocam profundamente (talvez, no intuito de mostrar que a vida dele (telespectador) é uma beleza, diante da desgraça alheia). E tem gente que até se detém, na frente da TV, em pesar e medir essas informações com a própria vida, senão consciente, inconscientemente. Ora bolas, não há miséria, ou desgraça, ou até felicidade que possa ser comparada. Cada um de nós sente e age diferentemente, diante de quaisquer circunstâncias.
E ainda tem apresentador, ao vivo (ainda vivo), que pergunta à pobre vítima: “Como você está se sentindo?” Se fosse eu a responder, diria: “Estou me sentindo uma fraude, como se estivesse mentindo sobre a minha própria desgraça, e vocês nem vão me pagar pelos pontos com o Sr. Ibope”.
Provavelmente, os ‘caras sérios da televisão’ apelariam ao “comercial, por favor”.

domingo, 17 de maio de 2009

“Encarar de frente”?!!


Sendo profissional de jornalismo (ótima justificativa!), sou extremamente crítica com a forma com que escrevo as matérias. Por conta disso, chego a me apavorar com o que vejo ‘colegas’ fazendo com a nossa desnutrida língua portuguesa, seja nos jornais, nos canais de TV, ou nas rádios. “Encarar de frente” é um termo bastante usado, principalmente por comentaristas esportivos. Pior ainda eu vi, dia desses, num informe publicitário da Petrobras, que também usava, com ‘altivez’, o termo "encarar de frente".
Sei lá se tem gente que já aprendeu a encarar de costas, ou de ladinho (quem sabe?). O que sei mesmo é que os meus intestinos ardem, cada vez que ouço/leio o ‘tradicional’ termo (parece passar de pai pra filho). Isso eu não encaro mesmo – em nenhuma posição.
Até admito ouvir professores falando ‘erado’, ‘enganjar’, etc. Também, placas semelhantes a “concerto de relógios” hoje até me fazem rir. Nesse caso, fico imaginando Beethoven, ou Liszt, ou Chopin, ou Mozart manipulando partituras a serem apresentadas num “concerto de relógios”, com tique-taque e tudo o que tem direito. (Que nem um deles saiba disso, se houver a possibilidade de)
Ainda não adotei a reforma ortográfica, depois que arrisquei tentar, e ouvi sérias chamadas de atenção de ‘colegas’: “você esqueceu de colocar o acento, mas eu corrigi”. Por achar que não levo o menor jeito para ensinar (nem a mim mesma), prefiro eximir-me da árdua tarefa. Se já estava difícil antes, imagina com a reforma agora. “Deixa quieto” – como dizem meus filhos.
O que sei é que tenho uma grande preocupação com os destinos da nossa língua portuguesa, que, há muito tempo, foi ‘abrasileirada’ deliberadamente. O Brasil é tão grande, e cada região adotou uma linguagem própria de comunicação, que deveria ter base na língua portuguesa. Com o avanço da internet, que, sem pedir licença, ocupa hoje o pedestal da televisão, num número crescente de residências brasileiras, ‘língua portuguesa’ já está fazendo parte (ou à beira) de um museu.
Num bate-papo informal, pela internet, não vejo nada demais: “vc tc d ond?”, ou “vlw blz bj ae”. Até eu escrevo isso, às vezes, nem sempre, enquanto teclo. Por manter algumas ‘amizades’ pela internet, já recebi cartas escritas do mesmo jeito (com direito a “vlw blz bj ae” e muito mais). Confesso que me choquei, e não foi por emoção da surpresa. Fiquei estarrecida com a dificuldade de alguns brasileiros se expressarem, por carta mesmo, fazendo uso da nossa (única) língua, que é a portuguesa. Talvez, economize papel de carta (senão uma árvore, pelo menos, um galho foi salvo).
Claro, não exijo de ninguém (nem de mim) que utilize a palavra ‘peremptoriamente’, ou ‘inextrincavelmente’, no cotidiano. (Como não levo jeito para o ensino, sugiro que o leitor busque socorro – socorro mesmo – no dicionário mais próximo, ou mais simples de ser aberto na internet.) Não é só chatice minha, gente, tenha certeza disso. É preocupação. Em que idioma o Brasil estará se expressando, no tempo de vida dos netos dos nossos tataranetos?...
Se seguirmos o ‘idioma’ que tenho ouvido em CDs gravados por “artistas da favela” (orgulhosos, querem ser conhecidos assim), nós, brasileiros, chegaremos ao ponto de somente falarmos e/ou escrevermos monossilabicamente. E, olha, conheço muita gente de favela que ainda adota a sempre ‘saudosa’ língua portuguesa, falando ‘problema’, por exemplo, e não ‘pobrema’, ou ‘poblema’.
Agora, diga-me se você consegue ‘traduzir’ este diálogo que presenciei, há algum tempo:
Um: - E aê?
Outro: - Sóóóóó!
Um: - Pá daqui, pá dali?
Outro? E pá, mano...
Um: - Sóóóóó!
Outro: E pow!
Um: Aê!
(Depois de um ‘soco’ leve no ombro de cada um, despedem-se, e vão embora.)
Você consegue ‘traduzir’ isso pra mim? Porque não há dicionário (nem para surdos/cegos) que me conte o que ambos conversaram.
“Pá daqui, pá dali”, fui – não por ali.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sábado de folga (ou Desafio à Polyanna)


Sabe aquele sábado tão esperado – finalmente, folga? Mas você não previu (nem podia adivinhar) que fosse chover tanto. Chuva e frio causam mau humor nas pessoas, principalmente em vias públicas. Onde li isso? Provavelmente, em uma dessas pesquisas absurdas, tanto quanto eu, que (ainda) as leio. Pois bem, o caos resolveu se soltar nas ruas. Por todo o trânsito, a luz não se fez.
Então, finalmente, você chega ao centro da cidade. Você, que planejou tanto (chegou até a rezar) que passearia no shopping, sem preocupações a tiracolo. A entrada do prédio está cheia de gente de cara amarrada, guarda-chuva encharcado, soltando palavrões, com a passagem próxima dos veículos nas poças d’água. Mas nada disso te irrita, por que você sonhou tanto com esse sábado de folga. Pelo contrário, por um momento, você até esboça uma carranca, e solta um ‘merda’, meio murcho, é verdade, fazendo-se solidária aos demais.
Quando, aos trancos e barrancos, você, finalmente, se sente arremessada para dentro do shopping, percebe que muitas pessoas – centenas – tiveram a mesma idéia “sabadal”. A única diferença é que elas – as pessoas – ainda carregam seus guarda-chuvas, enquanto você teve o teu pisoteado, logo na entrada, ao salvar a alça da bolsa, agora mais amassada que pão adormecido.
Meio tonta, no corredor, você já não sabe mais por onde seguir. A tua indecisão te joga pra lá e pra cá. Aos empurrões, você se vê, novamente, na escadaria principal do shopping. Mas não perde a pose: reergue o pescoço altivo, desentorta o aro dos óculos (mais uma vez, amassado), alisa a bolsa (literalmente) surrada, e sai em passos decididos.
A imagem se desfaz, minutos depois, logo ali, no meio da rua, quando você sente os pés afundarem numa poça de lama. Corre dali, sem olhar para os lados, tentando se convencer de que ninguém viu. Só a chuva parece rir, em trovejadas.
Mas tudo isso não abala teu humor, que ainda tenta curtir o sábado de folga. Claro, por que não pensou nisso antes? A praça, lógico. Mesmo com chuva, ficam aquelas barracas de bugigangas. Até por que praça é aberta, mais ampla. Quem vai querer passear na praça, numa chuvarada dessas? Pouca gente, certamente.
O que você esqueceu foi dos (incontáveis) pombos que moram na praça. Esclarecendo: você esqueceu que os pombos, como as demais aves, por viverem no alto, não se importam muito (nem pouco) com os seres aqui embaixo. Resumindo, quando querem fazer suas necessidades fisiológicas (‘merda’ mesmo), desabafam lá de cima das árvores, despreocupadamente.
Ah, mas este é um sábado especial, teu sábado de folga, apesar da chuva, da lama. Ignorando isso, e qualquer outra coisa, os pombinhos da praça resolveram te homenagear, e organizaram um verdadeiro coral, numa árvore enorme, antes que você passasse por ali. Coral?!... Mas pombo não canta!... É isso: te presenteiam com a homenagem mais espontânea da natureza - um autêntico ‘banho de merda’ (uníssono, inesquecível), nos teus cabelos, roupas, bolsa. Nem a ponta do sapato foi poupada. Se tivessem treinado a mira, os pombos não seriam tão certeiros. Sabe-se lá o que comem, nessa praça, onde você nunca viu um só alguém “dando milho aos pombos”...
Mas a tua saga continua, minha amiga (já sou tua cúmplice), seguindo o exemplo da chuva, agora fina, que pinga na ‘merda’ toda que você carrega. Você se sente agora Joanna D’Arc, empunhando sua lança (bolsa amassada com lama e ‘merda’?). Nariz empinado, atravessa a rua, sem, por um instante só, pensar naquela palavrinha mágica: desistência. Afinal, é teu sábado de folga... E dizer que você leu até horóscopo, antes de sair de casa hoje...
Um tanto (e que tanto!) exausta, pára na calçada, tentando recapitular o que havia planejado para esse dia de folga tão sonhado. Isso. Você precisa dar uma passadinha rápida no caixa eletrônico, sacar dinheiro, para almoçar naquele restaurante vegetariano, inaugurado semana passada. Nada – chuva, lama, ou ‘merda’ (ou tudo isso junto) – te fará desistir, candidata à Polyanna.
Chegando ao prédio do Banco, o vigia faz sinal negativo, lá de dentro. Você insiste, até que ele abre a porta de vidro, e diz que, por causa do mau tempo, deu pane nas máquinas. Não há previsão de retorno do atendimento pelo sistema. Sem agradecer, você se retira, percebendo um “peso” (morno) a mais no pé esquerdo, onde um cachorro acaba de fazer xixi, se afastando todo pomposo e satisfeito. Você ainda vê “lulu” (parece um) continuar andando com o dono. Ambos seguem a caminhada, num rebolado cadenciado, pela calçada. Em outra circunstância, você estaria rindo, mas, agora, o que procura é uma poça d’água, para pelo menos aliviar o cheiro de urina do pé.
Determinada, você segue o que havia planejado tanto. O restaurante vegetariano fica a menos de dois quarteirões. Ora, eles devem aceitar pagamento pelo cartão. O teu dia de folga não pode ser só ‘merda’ de pombo distraído, ‘mijo’ de cachorro esnobe. Enquanto caminha, você até agradece à chuva, que lava um pouco a sujeira toda.
Na frente do restaurante, você ainda ajeita os cabelos, minha amiga (já sou tua admiradora), respira fundo (nem tanto, por causa do mau cheiro em volta), e entra. Um dos garçons, ao atendê-la, pede o número da mesa reservada, e qualquer documento de identificação. Mas você não sabia que tinha de ligar reservando mesa. Antes de sequer pensar em argumentar, você desiste, percebendo que o garçom, discretamente, tapa o nariz, enquanto se desculpa, encaminhando-a à saída.
Ah, mas quem disse que isso é o fim do teu sábado de folga? Absolutamente. Você é obstinada (faria inveja à Polyanna). Não vai ser uma ‘merdinha’ de nada, seguida por uma ‘mijadinha’ qualquer, que vai detonar a tua folga, neste sábado frio e chuvoso, cinzento, chafurdado. Não, e não mesmo.
Foi Drummond quem previu: “Tinha uma pedra no meio do caminho”. E foi justamente nessa pedra que você acabou de tropeçar. Caiu sentada na lama da calçada. É Drummond que volta: “E agora, José?”... Você não levanta. A alma heróica parece perder as forças. Quando tenta concatenar alguma – mísera – idéia, é chamada pelo nome, por uma voz que lhe é bastante conhecida. É teu chefe (lá do escritório), indignado, que, acompanhado pela esposa, te indaga se foi para isso que você insistiu tanto tempo por um sábado de folga.
Lentamente, sem olhar para o (limpo) casal, você levanta, silenciosa, retira os sapatos, desenterra a bolsa da lama, e caminha, sem virar para trás. Decide deixar o carro estacionado aonde ficou, na avenida mesmo. Afinal, é teu sábado de folga, e você havia se preparado (lembra?) até para uma caminhada, no fim do dia.