domingo, 27 de setembro de 2015

Os seus problemas acabaram!

Aqui, você não encontrará “produtos tabajara”, mas, com certeza, os seus problemas acabaram!
Cansado de ser humilhado, mal visto, mal falado, mal tudo?
Agora, você tem um mundo espetacular, onde pode receber só flores e aplausos.
Ninguém, com quem você convive, reconhece seus valores, esforço e dedicação?
No mundo espetacular, você pode receber reconhecimento e atenção, o tempo todo, todos os dias, anos, semanas, meses.
Você não aguenta mais aqueles familiares chatos e amigos fora de moda?
No mundo espetacular, você pode simplesmente mantê-los presentes, em fotos, até o dia que o silêncio deles, nas imagens, causará tédio, e você simplesmente poderá deletar as fotos.
O sexo com o/a parceiro/a anda borocoxô?
No mundo espetacular, você pode encontrar inimagináveis estímulos sexuais, sem o perigo de DSTs, sem até saber com quem você está se relacionando.
Você não gosta de ler, e, por isso, não escreve bem?
No mundo espetacular, você pode dizer que ama ler (todo mundo acredita), e pode copiar e disseminar citações que fazem sucesso – se não souber a autoria, basta colocar ‘Chico Xavier”, que sempre funciona.
Você sempre foi omisso, nunca manifestou opinião?
Agora, no mundo espetacular, você pode seguir e apoiar a opinião da maioria, sem pensar.
Você sempre gostou de fofocas, mas sentia vergonha em compartilhá-las?
No mundo espetacular, o que mais tem é fofoca – sinta-se em casa.
Você gosta de aventuras – sexuais, psicológicas, políticas, etc?
Só mesmo no mundo espetacular, para você aventurar-se sem parar.
Você tem medo da vida, e, por isso, não vive?
O mundo espetacular está cheio de gente semelhante a você – lá, todos vivem a vida que bem desejam, e, melhor ainda, nunca envelhecem.
Você é psicopata (frio, calculista, mentiroso contumaz, egocêntrico, megalômano), em estado leve, moderado, ou grave, mas não admite, nem para si mesmo?
Dizem que o mundo espetacular é terreno fértil da psicopatia, que pode tudo, sem limites, na busca de prazer, status e poder – fique à vontade.
Está sentindo falta de amigos, familiares, pessoas próximas que não conversam mais com você?
Provavelmente, estão todos no mundo espetacular, esperando você, que já é conhecido deles, sem novidades, ou surpresas. O mundo espetacular oferece muito mais, sempre mais.
Você pensa pouco, nem sabe que pensa o pouco que pensa?
No mundo espetacular, você não precisa pensar – nem um pouco. Basta ‘curtir’ o que os outros dizem pensar, e fica tudo bem.
Você está desempregado, não tem o que fazer?
O mundo espetacular sempre tem uma vaguinha para funcionário permanente. Você trabalha de graça, contribui com o grande espetáculo, que lhe dá a doce ilusão de fazer parte de alguma coisa, que, na realidade, ninguém sabe o que é.
Você tem dificuldade de fazer e manter amizades, por não ser empático?
No mundo espetacular, você pode ter milhões de amigos, todos interessados em você, preocupados com você, torcendo por você, admirando você, o tempo todo – seja você quem fingir ser.
Está sem perspectiva de ganhar uma grana fácil e rápida?
O mundo espetacular oferece oportunidade de você criar campanhas de ajuda financeira (para ajudar bichinhos emociona), que sempre arrecadam bom dinheiro. Mas tenha cuidado, pois tem gente que vai atrás do endereço indicado, nessas campanhas “salve o cãozinho”, não encontra sequer a casinha do cachorro, no terreno baldio, e denuncia ao público.
Depois de você conhecer, e passar a viver só no mundo espetacular, não vai mais querer saber de vida humana, com dores e pequenas alegrias. Os seus problemas acabaram mesmo! As redes sociais são as sócias proprietárias do grande espetáculo! Você não quer ficar pra trás, né?... Nem precisa enviar psicografia, do lado de lá...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Psicopatia sem dó

Pensar só em si mesmo. Querer fazer e participar somente do que lhe dá prazer, status e poder. Criar imagens de si mesmo, sem falhas e características de maldade, ou ignorância, para ser amado e idolatrado. Tudo isso parece ser caraterístico do individualismo, que predomina nos tempos atuais. Pode até ser – nem sempre.
Às vezes, a psicopatia se esconde tanto, nessas pessoas egocêntricas, que ninguém identifica – nem elas mesmas. Nascem, são estimuladas pela sociedade, e até morrem assim: sem diagnóstico. Por que psicopatia não é doença – consequentemente, não tem tratamento, nem cura. Psicopatia, dá pra dizer isso, seria um desvio de caráter, de personalidade. Simplesmente, no caso, a criatura não enxerga o outro, não há qualquer empatia nela.
Não havendo patologia, a psicopatia apresenta sintomas sérios, e consequências maiores ainda. Tenho me dedicado, há algum tempo, a estudar a respeito. O que percebi, sem conclusão, até aqui, é que o caso é mais sério do que se possa imaginar. Por isso mesmo, duvido muito que algum ser humano vivente não tenha conhecido, ou convivido, com um psicopata.
Quantas vezes, passamos noites em claro, lembrando e julgando nossos próprios atos, assumindo a responsabilidade que, parece, nos cabe, no que diz respeito a relacionamentos. Nem sempre, a responsabilidade pelos ‘acidentes de percurso’, numa relação, é nossa. O outro, seja quem for, pode até nos imputar o título de causadores da tragédia, o que nos toca, profundamente, quando somos exageradamente autocríticos. Mas não podemos concluir que somos os piores dos piores, só por que alguém resolve acabar com a nossa ‘raça’. Às vezes, nem existe culpa, ou culpado(s). O que sempre existe é escolha – e consequência, claro.
Certamente, nem toda atitude egoísta pressupõe (mais) um caso de psicopatia. Fique tranquilo, se, na maior parte de sua vida, você prioriza você mesmo, por motivos de medo, insegurança, autoproteção, ou seja lá qual for a justificativa que você usa para si mesmo. O psicopata, pelo que já li, não quer nem saber o que pode existir além do próprio umbigo, e, por isso mesmo, não pensa no outro. Sempre repito que não há como colocar-se no lugar do outro, que está completamente ocupado (pelo outro, obviamente). Mas sempre há um jeito de, através de nossas semelhanças humanas, sabermos o que faz bem, o que faz mal, perto de nós, ou na Ilha de Java, ou no Azerbaijão – desde a mais tenra idade, começamos a compreender isso.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva é, a meu ver, quem mais esclarece sobre psicopatia. Ela é autora de diversos livros, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores sobre manifestações humanas distorcidas e doentias. Um desses livros chama-se “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado”. Lembrando que o indivíduo carrega, na própria genética, as características de psicopatia, Ana Beatriz esclarece que “a índole da pessoa já vem, geneticamente, com essa tendência à perversidade”. No livro, ela cita casos, onde crianças não manifestam compaixão, quando maltratam animais, fazem brincadeiras perversas com coleguinhas, e sentem prazer de ver o outro cair, se machucar, etc. A psiquiatra alerta que, somente na infância, há condições de minimizar os efeitos da psicopatia, impondo limites.
Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva explica, ainda, que, quando se torna adulto, “todo psicopata é megalomaníaco, gosta de exibir a sua esperteza, e está sempre se vitimizando, contando histórias tristes, e se dizendo vítima da sociedade”. Outra característica dos psicopatas, conforme a psiquiatra, é que “são sempre pessoas simpáticas, gentis, educadas, até você estar fazendo tudo o que elas querem. No momento em que você começa a deixar claro que está percebendo o jogo dele, o psicopata pode até se tornar violento. Então, psicopatas são pessoas que mudam o comportamento, conforme são revelados. Uma outra característica fundamental é a ausência de culpa. Essas pessoas nunca se arrependem do que fazem”. Nem todos os psicopatas são violentos; nem todos os violentos são psicopatas. A psicopatia perpassa pelos níveis leve, moderado e grave.
A psiquiatra destaca, ainda, que “a internet abriu um grande campo, para que a psicopatia pudesse se proliferar. Eu costumo dizer que existe um porão de psicopatas atuando na internet, hoje, existe mesmo, existem comunidades que você não acredita, na internet. E isso se fez muito, por que eles se valiam do anonimato. Um psicopata, no anonimato, pode ser quem ele quer, quem o outro quer que ele seja, e ele – o psicopata – sabe fazer isso, melhor do que ninguém, por que é o verdadeiro grande artista da vida, por que ele se transforma naquilo que as pessoas querem. Você ser camaleão (termo dado ao psicopata, na Espanha), num universo sem leis, sem regras, onde o que vale é o que você diz, onde você pode forjar e fingir, a internet é um prato cheio”.
Ana Beatriz aconselha a gente a não dar tempo de detectar o grau de psicopatia, e manter distância: “Nunca ache que você vai mudar um psicopata. Nunca menospreze o poder de sedução de um psicopata: ele vai te seduzir. A melhor coisa é se afastar”. Explica a psiquiatra: “Os psicopatas nascem com um cérebro diferente. Os seres humanos têm o chamado sistema límbico, a estrutura cerebral responsável por nossas emoções. É uma espécie de central emocional, o coração da mente. Nos psicopatas, o sistema límbico não funciona”. Ana Beatriz chama a nossa atenção: “Há algumas características básicas, entre os psicopatas: falam muito de si mesmos, mentem, e não se constrangem quando descobertos, têm postura arrogante e intimidadora, por um lado, mas são charmosos e sedutores, por outro. Costumam contar histórias tristes, em que são heróis e generosos”.
Essa psicopatia sem dó deve nos fazer pensar, e repensar, não só sobre os relacionamentos que mantemos, mas as nossas próprias atitudes. Afinal, somos todos humanos. Por isso, já que (ainda) não nascemos com dispositivo detector de psicopatia, fiquemos atentos às lábias sedutoras, egoísticas e egóicas. Depois da disparada fuga emergencial, podemos até pensar em participar da Corrida Internacional de São Silvestre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sua história de vida daria um livro

Não conheço você (não conheço nem a mim mesma), mas sei, antes de tudo e de mais nada, que a sua história de vida daria um livro. Ou mais que um livro – uma biblioteca, talvez. Por que sei isso? Por que toda vida humana é única, e - por isso e apesar de - especial. Milhões de pessoas podem ser atingidas pelo mesmo tsunami, mas nem duas terão e guardarão a mesma visão da catástrofe. Cada qual lembrará um tsunami único, que modificará, ou não, a vida que será vivida, a partir de.
Não me refiro, aqui, a genoma. Vou além, ou aquém, disso. Existem peculiaridades, em cada personalidade, que surpreendem até a genética. Como escreveu Sartre, eu sou o resultado do que escolhi fazer com o que sabia ser de mim. Por isso, o tataravô do meu bisavô, e os demais familiares, pouco têm a ver com o que me torno, a cada dia, por escolha minha.
Também, discordo de quem diz que cada dia de vida é uma página em branco, à espera do que desejamos escrever. Na minha visão estrábica, não há como você apagar quem já foi, o que fez, vida bem, ou mal, escrita, simplesmente virando a página. A gente é quem é, sempre a partir do que foi, e escolheu ser. Mesmo que houvesse essa virada (radical) de página, a história de vida jamais seria mesmo um recomeço, pois que somos resultado do que fizemos com o que já fomos. Tem gente que escolhe ser melhor do que já foi, e outros, piores. É escolha de vida, independe de condição social, ou de qualquer outra imagem que se queira manter.
À revelia das postagens nas redes sociais, existe uma história de vida (única) que daria um livro, sem plágio. Depois (quem sabe?), algum cineasta, tomando conhecimento do livro, ousasse fazer um filme, que levaria milhões às salas de cinema, e, aí, sim, causasse comentários nas redes sociais. Não há novidade nisso, pois muitos fizeram, fazem e farão o mesmo, com sucesso garantido. Às vezes, o livro e o filme são tão realistas, que poucos acreditam tratar-se de biografia mesmo. Talvez, a vida real seja insuportavelmente nua, enquanto a imagem dela exiba as cores e flores da moda. E ainda há a singularidade de cada olhar. Por isso, o melhor mesmo é a autobiografia – como o próprio protagonista se vê, já que a mãe dele enxerga-o diferente.
Por mais que alguém tente igualar-se àqueles que considera semelhantes, ainda assim, prevalecerão singularidades. O olhar de cada um é sempre diferente do outro, que processa o que enxerga, a partir das vivências (íntimas) que já teve. Não há como igualar, ou igualar-se. No máximo, nos assemelhamos, por gostos, ou desgostos, características de caráter, personalidade, etc. Nada além disso. Mas, mesmo assim, continuamos sendo diferentes dos demais.
Se não somos iguais, podemos até seguir a moda, vestir o uniforme da maioria, seguir a boiada que nada questiona, mas a nossa história de vida continuará sendo única. Por outro lado, podemos economizar energias, já que não precisamos nos esforçar para sermos diferentes. Como também não poderia ser diferente, teremos, cada um, a morte única, especial. Jamais existiu, ou existirá, alguém igualzinho a cada um de nós. E cada livro, dessa biblioteca infindável chamada vida, será único. A história que cada um conta, de um jeito, ou de outro, e deixa (bem ou mal) registrada, depende de cada escolha que faz, por toda a vida, que ninguém sabe quando acaba, se acaba mesmo.
Em tempo: São essas histórias de vida que eu tento traduzir à minha compreensão, a cada instante em que escrevo a história da minha própria vida – também única, especial. Sem qualquer ironia.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A grande lição

Ela insistia em dizer a ele:
- Tenta. Continue tentando. Abandone as muletas. Não olhe para trás. Sei o quanto é difícil. Mas você consegue. Não, não é por aí. Você tem muito mais que isso. Continue tentando. Você já fez tantas coisas. Impossível você não conseguir isso. Sei que é uma grande lição – talvez, a maior da sua vida. Mas, se eu consegui, outros conseguiram e tantos outros conseguirão, você também consegue. Não desista. Tenha e mantenha foco. Não se distraia. Não permita mais que façam isso por você. Faça você mesmo. Tenha ousadia. Você consegue. Você pode transferir decisões e escolhas da sua vida, aos outros, mas essa escolha – seguir adiante – é intransferível (o resultado disso, também). Tenta um pouco mais. Ainda não é por aí. Prossiga. Continue firme. Não esmoreça. Não se deixe levar por desvios iluminados. Vá em frente. Derrube a resistência dos seus costumes e vícios. Você consegue. Não pare no meio do caminho. Não se acomode. Você ainda vai saber o quanto valeu todo o esforço. Saiba que, quanto mais você seguir, mais sozinho ficará. Vai até encontrar gente voltando do meio do caminho, mas você continuará obstinado. Acredite que você é maior que todas as tentações. Descubra você mesmo. Siga em frente. Você consegue. Transpire, mas não desista. Multiplique seus esforços. Força. Fé em você mesmo. Coragem. Encare essa grande lição. Continue. Continue. Vá em frente. É bem por aí, mas ainda está longe, muito longe. Não ouça o que as pessoas estão gritando – elas nem imaginam o que você está fazendo. Você consegue. Quando necessário, seja até inflexível, dentro do seu equilíbrio. Tente por outro lado. Mas continue tentando. Prossiga. Não tenha medo da escuridão. Seja o melhor de você mesmo, para continuar. Não desista de você. Se esforce, tanto quanto seja necessário. Levante. Chão é para os caídos, e também para os que desejam caminhar. Se falta pouco, ou falta muito – o importante é seguir caminhando. Continue atento para o foco. Mantenha o equilíbrio. Não se deixe tropeçar, por causa dos pedregulhos. Deixe, à beira do caminho, os livros de autoajuda – é muito peso, para pouca bagagem. Não se detenha na paisagem tentadora. Você tem um só alvo. Siga-o. Você consegue. Ignore as setas, que só apontam caminhos, aos que não sabem aonde ir. Você é o seu próprio caminho. Quebre as rochas que entravam a sua passagem. Persevera no objetivo. Não desista. Você alcançará. Vai doer, sim, mas, semelhante a tudo, também vai passar. Não tema o silêncio. Não desperdice cada aprendizado, na sua caminhada solitária. O seu maior desafio é você mesmo. Não desista. Você consegue. Você não faz mais parte da boiada – deixe-a passar, na contramão. Mantenha o foco. Seu objetivo existe – é um só. Prossiga. Sempre em frente. Acostume-se à companhia da solidão – ela é o seu caminho, a sua caminhada. Não desista. Coragem. Seguir adiante – seu foco único. Vai doer, sim, mas bem menos que as pisoteadas da boiada que você abandonou. Siga. Prossiga. Muitos tiveram esse seu objetivo, mas nem um percorreu o seu caminho – que é (e será sempre) só seu. Você consegue. Não questione – não sei onde vai dar esse caminho. Só você saberá – confie. Não se desequilibre... e salto no escuro.

Depois de tanto tempo, ele solta um urro – de dor, de alívio, e, finalmente, êxtase: Conseguiu vencer todos os obstáculos. Pela primeira vez na vida, ele pensou. E aprendeu. Ela? Ela já está bem longe, pensando.

(Etimologicamente, estudante provém do latim studiosus – “aquele que dedica-se ao estudo e deseja aprender sempre”. A todos nós, estudantes da vida, em mais esse dia que pode ser especial: 11 de agosto – Dia do Estudante.)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Assim caminha a desumanidade (in terra brasilis)

Honduras? El Salvador? Costa do Marfim? Afeganistão? Que nada! Esses, até que são países com altos índices de violência, mas falta estímulo, motivação mesmo. Nesse ranking, o Brasil fica em 19º colocação. Mas a desumanidade brasileira, ao que parece, até aceita o 3º lugar, nos Jogos Pan-americanos (ninguém bateu panelas, nas vias públicas), mas não se conforma com o 19º, na violência, e quer maior destaque mundial, neste quesito. Nada de esperar prisão, julgamento. A desumanidade nacional – a mesma que quer, de qualquer jeito, redução da idade penal e pena de morte – faz “justiça com as próprias mãos”, à espera de um minuto e meio de fama, na mídia, nas redes sociais. E acaba recebendo aplausos dos fãs, cada vez mais fervorosos.
Os noticiários já nem mais divulgam, nas manchetes, que a violência se multiplica, por todo o Brasil. Banal demais. Para animar os estádios, volta e meia, a desumanidade apronta a maior quebradeira, só para dar uma treinadinha nos músculos, exercitando socos, chutes e pontapés, ou até assassinato de algum torcedor incauto. E ainda tem linchamento e aprisionamento em postes, que se assemelham aos tempos de escravatura, onde, amarrado no tronco, o escravo levava chibatadas, como exemplo para outros que tivessem a mesma intenção de burlar as leis dos “senhores”. Mas, daí, veio a Princesa Isabel, e estragou a festa branca do ‘pode tudo’.
Depois de tanto tempo sem Princesa Isabel, o passatempo, agora, é sair espancando mulheres, ladrões, assaltantes, afrodescendentes, pessoas em condição de rua e homossexuais. A moda é queimar ônibus, quebrar vitrines, saquear estabelecimentos comerciais e cargas de caminhões, nada diferente das explosões de caixas eletrônicos, nas agências bancárias. Alguns policiais militares são chamados, para atendimento dessas ocorrências, mas não podem ir, pois estão muito ocupados em alvejar, com ‘balas perdidas’, crianças e adolescentes negros favelados, e recolhendo propinas, ou, então, espancando professores, e brincando com ‘bombas de efeito (i)moral’, em praça pública. Enquanto tudo isso acontece, a desumanidade segue, pelas ruas, com faixas e cartazes exigindo a volta da ditadura (como exigir a volta do que nunca deixou de existir?).
Com cada vez mais força (bruta), a desumanidade é exemplo para os estudantes, que se engalfinham, se arrebentam, dentro e fora das escolas. E a desumanidade toma conta das redes sociais, onde escracha racismo, homofobia e tantos outros inimagináveis preconceitos. Às vezes, quase sempre, a mesma desumanidade violenta, que espanca, tortura e mata, em vias públicas, é aquela que também falsifica gasolina e/ou leite, compra produtos pirateados, ou de receptação. Às vezes, também, sem questionar, a desumanidade julga ser verdade absoluta, qualquer boato criado e compartilhado em rede social. E isso basta para a desumanidade ir à forra, e matar, a pontapés e pauladas, o/a protagonista do dito boato. Nesse caso, não há tempo para sequer pensar em processo judicial – a desumanidade parte logo à aplicação da pena de morte.
Ironicamente, grande parte dessa desumanidade toda sai em defesa dos animais, pela mídia, e até em denúncias formais, em delegacias policiais. Parece que a desumanidade enxerga esses locais (no caso em questão, as delegacias policiais), para atender só denúncias de violência contra animais mesmo. E ainda tem desumanidade que vende e desumanidade que compra atestados médicos e documentos falsos, até animais roubados. Tudo acontece nas vias públicas – nada de fazer escondido (e isso, dizem, é liberdade, democracia).
Diante de tanta carnificina, causada pela desumanidade, o que não pode faltar?... A presença de urubus, claro. Aí, entram os “apresentadores” de programas de televisão. Todo final de tarde é a mesma coisa: sangue, de todos os tipos, contaminados por ódio e vingança, escorre pelas salas da desumanidade, que reclama da violência, e tem orgasmos múltiplos, seduzida pela ‘lábia’ dos apresentadores desses ditos programas policialescos. Quanto a isso, fiquei sabendo de uma pesquisa da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), por todo o País, que registra a empolgação desses ‘senhores da mídia’, que incitam os telespectadores à violência, e apoio à pena de morte. O objetivo será denunciar ao Poder Judiciário, para posteriores julgamentos e condenações – sem linchamento.
...E assim caminha a desumanidade – talvez, para trás, ou em voo livre ao abismo. Mas isso não é problema, nem chega ser motivo de preocupação. Qualquer coisa, o presidente (mimado) da Câmara dos Deputados ressuscita a Lei Áurea, e a coloca em votação, “a toque de caixa”, para que seja extinta, de uma vez por todas – se perder, na primeira votação, continua reenviando a proposta, até conseguir vitória. De “lambuja”, o dito extingue logo a Lei do Ventre Livre, também, para garantir o branco mais branco de ‘coxinhas’, que fazem parte da decoração mais requintada do fascismo contemporâneo. Depois disso, só falta a redução da maioridade penal, com mais manobras na votação da Câmara, em agosto. Não demora muito, e a pena de morte também chega à votação, no Congresso – a galope, obviamente, para muito bem representar, nos cascos, seus defensores.
A realidade é que, apesar de muitos linchadores e simpatizantes desejarem mais e mais violência, definitivamente, a lei da força não vai sobrepor à força da lei. Que só pareça repetição do óbvio – é nisso que acredito.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

“Ora pro nobis”

Não. Não estou no corredor da morte. Eu escolhi não viver outros sonhos, nem pesadelos, senão os meus. Não estou nos Estados Unidos, nem no Irã, no Iraque, na Indonésia, ou na Etiópia, no Paquistão, na Coréia do Sul, ou do Norte, onde pena de morte é 'ordem do dia', prática comum. Não. Estou no mais interior do Brasil, onde sonho os meus sonhos. De mais ninguém. Mas continuo na sala de espera. Enquanto espero a morte chegar, enxergo a vida que faz arder a minha visão estrábica.
Ao meu lado, senta uma senhora com uns oitenta e tantos anos - os cabelos prateados revelam o tempo que ela não esconde. “A senhora é cristã?” - me pergunta a velhinha. Nunca havia pensado nisso, mas, para consolar, de imediato, a simpática idosa, respondo que sim. Enquanto, ansiosa, ela remexe o interior da bolsa, fico pensando o que pode ser cristão, neste mundo onde a maioria quer mesmo parecer quem não é. Tem tanta gente, pelo mundo, matando, em nome de Cristo, Alá, ou sei lá mais quem - às vezes, 'autor desconhecido'. Enquanto isso, eu, na minha pequenez de ser humano, continuo tentando não ser.
Retirando um papel da bolsa, a velhinha me fala: “Com esse jornal, a senhora pode falar com Jesus Cristo”. Eu pego o jornal, em gesto incerto, agradeço, abro o papel, e, para alegria da velhinha, começo a ler, silenciosamente, a “palavra de Jesus Cristo”. Não consigo ir além da segunda linha, mas, em respeito à idosa, mantenho o olhar atento no papel. “Converse com Jesus Cristo, que tem todas as respostas”, ainda diz a velhinha, menos formal, mais animada.
Preocupada em manter o olhar focado no papel, mesmo sem lê-lo, fico pensando que respostas seriam essas que a carismática senhora teria encontrado, naquele papel. Eu, que vivo à procura de cada vez mais perguntas. Que conversa eu poderia ter, hoje, depois desse tempo nascida, com Jesus Cristo?... Não, nem quero pensar sobre religiões e fé. A fé de cada um sempre foi inquestionável - merece todo respeito. Quanto às religiões, pra mim, pelo menos, são cada vez mais questionáveis, por que, na história do tempo, são construídas e mantidas por seres humanos - imperfeitos, falíveis, medrosos, oportunistas, também. Não consigo enxergar “caminho, verdade e vida”, por onde desfilam vaidades, orgulhos, egoísmos, e trapaças. Tem lugar pra tudo. Religião, na minha visão estrábica, não deveria servir de palco de encenações e logros. Se realmente tem lugar pra todos os gostos e desgostos, os mal intencionados poderiam evacuar os ambientes de fé - dinheiro fácil pode haver em outro lugar (os canais de televisão ensinam o passo-a-passo, diariamente, nos noticiários sensacionalistas). Há tanta gente dizendo que salvou-se de um acidente, “graças a Deus” – enquanto eu questiono: Será que é, também, por “graça de Deus”, que tantos morrem em acidentes?...
... E ainda ouço a velhinha repetir: “A verdade de Jesus Cristo, vizinha (me torno vizinha dela, por parecer ler o papel que me deu), é que vivemos o final dos tempos, por que o inferno se aproxima”... Lamento dizer-lhe, bondosa senhora, o inferno tem sido escolha diária de cada um, da maioria, e, por isso mesmo, está sendo construído, com requinte, por todo lugar - nas vidas pública e privada. O fim dos tempos se arrasta, senhora, de mãos dadas com o inferno, pelas ruas, linchando a realidade, devorando nossos sonhos e o que ainda sabemos sobre o mundo humano. Ore bastante, “ora pro nobis”, fiel cristã, e mantenha os olhos bem fechados, para, ao contrário de mim, continuar sem perguntas.