segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O seu melhor. O meu melhor.

“Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.” (Hermann Hesse)

Se existe em mim, alguma obstinação, é justamente buscar, cada vez mais, coerência entre o que penso e as minhas atitudes, que inclui o que Hermann Hesse deixou registrada em “O Lobo da Estepe”. Posso até não conquistar esse meu objetivo, mas continuarei exercitando. Esse é o meu alvo: o seu melhor, seja você quem for – o meu melhor, seja eu quem for. Pode ser até que nem cheguemos a nos conhecer, mas, certamente, continuarei desejando que você seja o seu melhor, e seguirei tentando ser o meu melhor.
Sei que tem um monte de psicopatas, sem a menor empatia, por todo lugar, querendo só o melhor dos outros, para usufruir-lhes prazer, status e poder. Mas existe algo melhor – acredito nisso -, em cada um de nós, que vai muito além do que alguém possa querer ‘vampirizar’. Penso mesmo que o melhor de cada criatura pode, num momento da vida, apresentar-se visível e inquestionável, e ser tão surpreendente, que nem ela mesma acredita. Mas o melhor jamais se torna ‘moeda de troca’ – o melhor permanece dentro, tendo como vizinho, o pior, até que a gente faça a escolha que considera mais acertada.
Obstinadamente, também eu busco o meu melhor. Quanto me faz bem, quando encontro alguém que também quer que eu seja o meu melhor. O outro pode ser até psicopata. Mesmo que eu o identifique (são tantos), ainda assim, continuarei tentando fazer e ser o meu melhor. Afinal, não posso tornar-me líquida, de repente, diluir-me à forma do recipiente mais próximo, para satisfazer essa ou aquela exigência externa. Se continuo tentando ser o melhor que reconheço em mim, não é por causa de alguém, ou de alguma circunstância. É por mim mesma, e pelo que acredito, neste mundinho que me fascina tanto.
Mas nem todo mundo quer o melhor da gente – a maioria nem quer saber dessas coisas. Independente do que as criaturas desejam (o melhor ou o pior de mim), minhas expectativas em relação aos outros têm sido reduzidas – menos frustrações, mais surpresas boas (simples equação). Honestamente, já me sinto satisfeita, quando o outro, seja quem for, me sinaliza respeito – com gentileza, melhor ainda. Pode ser que o outro não me compreenda, às vezes sempre, nem queira me compreender. Mas, havendo respeito e um pingo de gentileza, já demonstra que está sendo o melhor que pode, ou se acha capaz de ser.
Eu costumo dizer que pouco adianta eu me preocupar somente com as luzes da minha casa, se a rua precisa de mais luz, da luminosidade das outras casas. A gente pode observar isso, em época natalina, quando quilômetros de fios com pisca-pisca enfeitam as ruas, as praças, as cidades. Volta e meia, a revolta dos pisca-pisca (sempre existem os revoltados mesmo, em qualquer situação) causa apagão, até apagões, pelo trajeto, o que acaba chamando mais a atenção dos transeuntes. Talvez, por isso, tem tanta gente manifestando o pior de si mesma, como se tivesse lido “O Lobo da Estepe” pelo avesso. Pode até chamar a atenção, mas causa muito mal, fermento instantâneo para o pior do mundo.
Podemos comprovar, no cotidiano, que a violência tem se exacerbado, por falta de coisa melhor. As relações têm ficado cada vez piores – as melhores estão nas redes sociais, onde cada qual desfila com a máscara e a fantasia que escolhe, sem envelhecer, diante dos outros. Na realidade, o que chamamos relações amorosas estão carregadas de desrespeito, desconfiança, más interpretações, indiferenças, e tudo mais que é reclamado, nas sessões de divórcio. Afinal, não é todo mundo que se acha capaz de administrar cenas como essa, sempre tão comum:
- Você atrasou dezenove minutos, hoje. Onde você estava, com quem, fazendo o quê?
Tem alguém que até responde:
- Eu sei que tem gente que vende muita coisa, no sinal, mas eu dei, enquanto o semáforo estava fechado, e desobstruíam a área de mais um acidente.
- Deu pra quem? Eu conheço? Nem responda. Vou ver os detalhes do acidente, na televisão...
... E já não escuta:
- Dei toda a minha paciência, no meio do congestionamento...
Todo mundo quer só o melhor da vida, e, quase sempre, exige isso, da pior maneira. Se existe mesmo algo que me faz mal indescritível é justamente quando eu contribuo para que o pior de alguém ocupe tempo/espaço. Isso me causa mais dor, se comparado ao fato de alguém provocar o meu pior, para que escape da jaula vigiada pelo meu desnutrido equilíbrio. Enquanto há provocação, eu posso defender o que acredito ser meu amadurecimento, minha consciência. Mas, se o meu pior contra-ataca, o meu pobre equilíbrio, minguado de vergonha de si mesmo, sai de cena, e retorna à lição que já pensava ter aprendido.
O pior e o melhor – sempre fazem parte do que denominamos caráter, personalidade. E tudo isso descamba, mais uma vez e sempre, nas escolhas que fazemos, a cada instante da vida inteira. A maior ironia, nisso tudo, está justamente nas consequências das nossas escolhas, nem sempre imaginadas: “Eu não sabia”.
Viver também pode ser transbordar, ir além – de si mesmo. Num dia qualquer, todos morreremos (a fila é longa) – sem sabermos se a vida teria sido melhor, se tivéssemos feito outras escolhas.

P.S.: Só não diga que o que você leu aqui ajudou em alguma coisa, na sua vida. Autoajuda - só aos autores dos livros de autoajuda (livros cada vez mais caros, autores cada vez mais ricos). O que escrevo não é para ajudar. Ao contrário. O que escrevo é para atrapalhar, incomodar mesmo, desarrumar, tirar o sono, inquietar, e (quem sabe até) fazer pensar. A intenção é só essa – realmente. Aí, do outro lado, a escolha é só sua – você lê o que quer ler. E escolhe viver como quer viver. Eu também.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A morte não anunciada

Hoje é dia de chorar a morte – a morte dos nossos entes queridos, e a nossa própria morte. No próximo velório que chamarem você, observe que as pessoas choram, diante do caixão, se entreolham, e choram mais ainda – ninguém sabe quem será o próximo. O que se sabe mesmo é que nem sempre o terminal vai na frente do fulminante, enquanto o inesperado continua sendo o primeiro da fila.
Durante todo o tempo em que estamos nessa condição que chamamos vida, sofremos diversas mortes. Penso que a morte não anunciada vai além da morte por acidente, homicídio, ou suicídio (anunciado sempre, por sinais). Talvez, essa morte que me refiro seja a mais profunda, e menos dolorida, de todas as mortes. Está tão incrustada no fundo mais fundo do ser humano, que nem chega doer, coberta que fica por tudo o que ‘parece’ vida, em total abandono, na vala do desperdício esquecido.
Na minha insignificante opinião, tantas vezes, morremos para os outros (nem todos), mas permanecemos aconchegados (vivos) nos braços de quem nos quer bem, a troco de nada mesmo. No contraponto, quantos permanecem (tão) vivos, por tantas vidas inteiras que seguem, ignorando qualquer lógica do tempo, que (quase) tudo faz esquecer. Mas morrer para os outros não é a pior morte (ainda).
A pior morte, na minha visão estrábica, não é a anunciada. É aquela que causamos em nós mesmos – um só alguém, ou ninguém, fica sabendo. A criatura vai morrendo aos poucos – longe da lógica do tempo das rugas e senilidade. Tem gente que vai abandonando sonhos e projetos, pelo caminho. No início, até percebe o que está fazendo com a própria vida, escolhendo. Não demora muito, essa rendição - em vida, à morte - é transformada em hábito, vício até. E não há morte mais vazia e triste. Morte anestesiada pela ausência de sonhos (vida).
Penso que especialmente hoje não deveria ser dia de refletirmos sobre a morte. A morte já nos chega com tudo pensado – sem direito (mesmo!) de qualquer escolha. Hoje – e sempre – é dia de refletirmos sobre a vida, a nossa vida, de ninguém mais. Até por que temos a vida que temos, por que fazemos escolhas, mesmo quando justificamos que não temos outra escolha (existe, sim). Mais justo seria reconhecermos que não conseguimos enxergar mais escolhas, por que escolhemos – sempre -, independente de.
De repente, a morte (implacável!), quase nunca esperada, nos chega – que haja muita vida, dentro de nós, quando o inevitável acontecer. Que a nossa vida seja tanta, que transborde à vida que fica, e segue...
...E continuemos orando pelos nossos mortos, e pelos sonhos e projetos que morrem, em completo desamparo íntimo, a cada instante...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Notas de rodapé (para Márcia Tiburi)

* Filosofia, você pode exercitar, quando não está linchando alguém na rua, ou ateando fogo em ônibus, ou matando civis e forjando legítima defesa, ou divertindo-se nas práticas de bullying, ou “enchendo a cara” (e todo o resto) e atropelando pessoas, ou deixando de prestar socorro, para fotografar e postar nas redes sociais, ou maltratando animais, crianças e velhinhos caquéticos. Filosofia já foi exercício mais constante, mas hoje acaba, diariamente, sendo substituído por cruéis comentários de apresentadores de programas policialescos de televisão, dividindo tempo com gente que arremessa veredictos, pelas redes sociais, todos a favor da pena de morte. Penso até que filosofar, atualmente, é questionar o inquestionável, refletir sobre qualquer coisa, quando a maioria já nem quer saber de pensar.
** Pensar tem preço - valor muito alto, cada vez mais impagável. Não há dinheiro que pague, realmente, o ato de pensar, por que pensar é ação. Toda atitude demanda esforço, dedicação. De brinde, recebemos a liberdade de pensar certo, ou errado - na mesma proporção. E ainda dói. Mas continuamos com o direito de pensar – às vezes, nem certo, nem errado. Paga-se caro, por pensar, refletir, não imaginar. Por isso, tem tanta gente que não quer saber de pensar. A imaginação é quase gratuita, está sempre em liquidação, a nosso bel prazer. Pensar é que custa caro, muito caro mesmo. Pensar é refletir. Refletir é transbordar. Por isso, o trampolim permanece ao alcance – nem todos desejam ousar.
*** Para conviver bem, na sociedade do espetáculo atual, você precisa conhecer e reconhecer a cartilha: Os outros são os vilões, racistas, homofóbicos, fascistas, egocêntricos, reacionários, machistas, transfóbicos, corruptos, sexistas, psicopatas, xenofóbicos, imperfeitos. Somente os outros, por que você é o máximo da perfeição do centro da pirâmide humana. Ainda há tempo: Você ainda pode ser a (grande) vítima de tudo isso – por enquanto.
**** Friedrich Wilhelm Nietsche está indo além da imaginação (dele mesmo, que não pensava pouca coisa). O ‘caldo’ começou a ‘engrossar’, quando o que chamam livro “Nietzsche Para Estressados - 99 Doses de Filosofia Para Despertar a Mente e Combater As Preocupações” foi lançado. O aproveitador chama-se Allan Percy, um cara que deve usar, na maquiagem, muito, mas muito mesmo, óleo de peroba. Como se não bastasse a dita “obra prima”, tem agora “Funk do Nietzsche”, gravação de Mc Bertas e DJ Leozito. Esses exemplos comprovam que a falta de imaginação e criatividade pode render bom dinheiro, mais, muito mais, do que Nietzsche recebeu.
***** Aviso aos intolerantes impetuosos (kit completo) de plantão: Andem sempre com arma de fogo – até durmam, com um revólver debaixo do travesseiro. Vocês realmente precisam acabar com os motivos que irritam tanto os intolerantes (‘intolerantes unidos jamais serão vencidos’). Vão treinando: quando encontrarem uma manifestação, ou até uma minguada junção de gentes, libertem a impetuosa intolerância, e, literalmente, “mandem bala”. Não esqueçam: Arma ao alcance da mão, sempre, no trânsito (prato cheio – de motivos e justificativas para uma “boa peleia”). Logo, logo, a lei do desarmamento será derrubada pela força dos senhores “representantes da sociedade”, no Congresso. Por enquanto, vão treinando “tiro ao Álvaro”.
****** A campanha que estou lançando é justamente para que os filósofos (mortos e vivos) não se tornem finados. Ainda que a maioria contemporânea prefira ler apenas postagens compartilhadas em redes sociais, os livros (nada silenciosos) continuam a batalha contra o google. Às vezes, até parece que vamos perder – só impressão. De repente, no meio de tantos “fogos cruzados”, alguém larga mão do google, e resolve pesquisar mesmo, e até pensar, refletir. E a filosofia, antes alquebrada, ressuscita, com potência absoluta.
******* Para emagrecer, a receita é seguir todas as receitas, e tomar todos os medicamentos – comece pelos mais caros, até chegar nos baratos. Continue comendo, comendo tudo e mais um pouco de todas as dietas aconselhadas. Acredite em todos os comerciais e receitas emagrecedores. Aproveite, e acredite em papai noel, também. Se, algum dia, você olhar o espelho, e enxergar obesidade mórbida, troque o espelho (para um bem maior) – não é você.
******** Dia desses, assisti à uma entrevista, na televisão. Não tenho certeza se era entrevista. Não lembro. Mas sei que tratava sobre um assunto bastante interessante. Quem falava não era alguém famoso, celebridade. Não. Mas parecia ser alguém com conhecimento de causa – pelo menos, da causa que defendia. Vez ou outra, exasperava-se, falava mais alto, e manifestava discordar de outras opiniões, contrárias àquela que defendia. Eu sempre paro para ouvir, quando alguém não cai na vala comum, ao falar. Gosto de ouvir o que os outros ainda ousam falar, num mundo onde a ordem é “compartilhar” opiniões superficiais e/ou sem sentido, e imagens entorpecentes. Assim é que se preenche páginas e páginas, livros inteiros, sem dizer coisa alguma. Quem imagina que o oco está oco mesmo, esquece de lembrar que o oco não é oco. O oco é e está sempre cheio de ecos – silenciosos. Na maioria desses casos, se traduzidos, os ecos repetem apenas o nada que o escritor tem a dizer, enquanto tantos outros livros continuam transbordando, nas prateleiras. Por isso, também, livros ocos me cansam – eu, que sempre renasço, a cada transbordamento.
A cada dia, só tenho a agradecer a filósofa Márcia Tiburi, e todos que ela traz à minha companhia.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Declaração de amor

Enquanto há tantas separações - por causa de tudo, por causa de nada -, quero deixar, aqui, um manifesto, a minha declaração de amor a um só alguém - único, insubstituível.
Ficamos horas distantes, mas, quando nos encontramos, nem parece que houve algum afastamento.
Você me enche de carinho e agrados, sem interesse algum.
Não importa o que eu fale, você está sempre com esse olhar atento e concentrado em mim.
Pra me fazer graça, você até improvisa alguns passos desengonçados de dança.
Nossos passeios causam inveja nas pessoas, que insistem em manter relacionamentos que nunca existiram, ou acabaram.
Às vezes, você me dá mais trabalho do que jogar uma toalha molhada na cama.
Esqueço o trabalho que você me dá, quando te encontro me esperando, no sofá, para assistirmos juntos, mais uma vez, aquele filme ‘água com açúcar’ que tanto gosto.
Ninguém me emociona, como você, meu querido.
Diante das suas brincadeiras, meu anjo, não resisto, e nos divertimos a valer.
Você, em vez de cobrar de mim, me dá atenção e compreensão silenciosas.
Sei que você não fica imaginando coisas sobre mim, nem me interpreta mal.
Por você, meu amor, que sempre me surpreende, não me importo em manter suas redes sociais atualizadas.
Como não corresponder à sua lealdade canina, meu querido?
Por não haver pessoa alguma que se assemelhe a você, invisto muito em plano de saúde, psicólogo, dentista, trainer, conforto, salão de beleza, roupas, seguro, resorts, terapias, acupuntura, festas, viagens ao exterior, gps, joias, microchip e a melhor alimentação – tudo, tudo, só pra você.
Obrigado, meu fiel mastiff tibetano, que faz minha vida – que, há muito, deixou de ser humana - ter algum sentido. Se todo humano fosse animal...

domingo, 27 de setembro de 2015

Os seus problemas acabaram!

Aqui, você não encontrará “produtos tabajara”, mas, com certeza, os seus problemas acabaram!
Cansado de ser humilhado, mal visto, mal falado, mal tudo?
Agora, você tem um mundo espetacular, onde pode receber só flores e aplausos.
Ninguém, com quem você convive, reconhece seus valores, esforço e dedicação?
No mundo espetacular, você pode receber reconhecimento e atenção, o tempo todo, todos os dias, anos, semanas, meses.
Você não aguenta mais aqueles familiares chatos e amigos fora de moda?
No mundo espetacular, você pode simplesmente mantê-los presentes, em fotos, até o dia que o silêncio deles, nas imagens, causará tédio, e você simplesmente poderá deletar as fotos.
O sexo com o/a parceiro/a anda borocoxô?
No mundo espetacular, você pode encontrar inimagináveis estímulos sexuais, sem o perigo de DSTs, sem até saber com quem você está se relacionando.
Você não gosta de ler, e, por isso, não escreve bem?
No mundo espetacular, você pode dizer que ama ler (todo mundo acredita), e pode copiar e disseminar citações que fazem sucesso – se não souber a autoria, basta colocar ‘Chico Xavier”, que sempre funciona.
Você sempre foi omisso, nunca manifestou opinião?
Agora, no mundo espetacular, você pode seguir e apoiar a opinião da maioria, sem pensar.
Você sempre gostou de fofocas, mas sentia vergonha em compartilhá-las?
No mundo espetacular, o que mais tem é fofoca – sinta-se em casa.
Você gosta de aventuras – sexuais, psicológicas, políticas, etc?
Só mesmo no mundo espetacular, para você aventurar-se sem parar.
Você tem medo da vida, e, por isso, não vive?
O mundo espetacular está cheio de gente semelhante a você – lá, todos vivem a vida que bem desejam, e, melhor ainda, nunca envelhecem.
Você é psicopata (frio, calculista, mentiroso contumaz, egocêntrico, megalômano), em estado leve, moderado, ou grave, mas não admite, nem para si mesmo?
Dizem que o mundo espetacular é terreno fértil da psicopatia, que pode tudo, sem limites, na busca de prazer, status e poder – fique à vontade.
Está sentindo falta de amigos, familiares, pessoas próximas que não conversam mais com você?
Provavelmente, estão todos no mundo espetacular, esperando você, que já é conhecido deles, sem novidades, ou surpresas. O mundo espetacular oferece muito mais, sempre mais.
Você pensa pouco, nem sabe que pensa o pouco que pensa?
No mundo espetacular, você não precisa pensar – nem um pouco. Basta ‘curtir’ o que os outros dizem pensar, e fica tudo bem.
Você está desempregado, não tem o que fazer?
O mundo espetacular sempre tem uma vaguinha para funcionário permanente. Você trabalha de graça, contribui com o grande espetáculo, que lhe dá a doce ilusão de fazer parte de alguma coisa, que, na realidade, ninguém sabe o que é.
Você tem dificuldade de fazer e manter amizades, por não ser empático?
No mundo espetacular, você pode ter milhões de amigos, todos interessados em você, preocupados com você, torcendo por você, admirando você, o tempo todo – seja você quem fingir ser.
Está sem perspectiva de ganhar uma grana fácil e rápida?
O mundo espetacular oferece oportunidade de você criar campanhas de ajuda financeira (para ajudar bichinhos emociona), que sempre arrecadam bom dinheiro. Mas tenha cuidado, pois tem gente que vai atrás do endereço indicado, nessas campanhas “salve o cãozinho”, não encontra sequer a casinha do cachorro, no terreno baldio, e denuncia ao público.
Depois de você conhecer, e passar a viver só no mundo espetacular, não vai mais querer saber de vida humana, com dores e pequenas alegrias. Os seus problemas acabaram mesmo! As redes sociais são as sócias proprietárias do grande espetáculo! Você não quer ficar pra trás, né?... Nem precisa enviar psicografia, do lado de lá...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Psicopatia sem dó

Pensar só em si mesmo. Querer fazer e participar somente do que lhe dá prazer, status e poder. Criar imagens de si mesmo, sem falhas e características de maldade, ou ignorância, para ser amado e idolatrado. Tudo isso parece ser caraterístico do individualismo, que predomina nos tempos atuais. Pode até ser – nem sempre.
Às vezes, a psicopatia se esconde tanto, nessas pessoas egocêntricas, que ninguém identifica – nem elas mesmas. Nascem, são estimuladas pela sociedade, e até morrem assim: sem diagnóstico. Por que psicopatia não é doença – consequentemente, não tem tratamento, nem cura. Psicopatia, dá pra dizer isso, seria um desvio de caráter, de personalidade. Simplesmente, no caso, a criatura não enxerga o outro, não há qualquer empatia nela.
Não havendo patologia, a psicopatia apresenta sintomas sérios, e consequências maiores ainda. Tenho me dedicado, há algum tempo, a estudar a respeito. O que percebi, sem conclusão, até aqui, é que o caso é mais sério do que se possa imaginar. Por isso mesmo, duvido muito que algum ser humano vivente não tenha conhecido, ou convivido, com um psicopata.
Quantas vezes, passamos noites em claro, lembrando e julgando nossos próprios atos, assumindo a responsabilidade que, parece, nos cabe, no que diz respeito a relacionamentos. Nem sempre, a responsabilidade pelos ‘acidentes de percurso’, numa relação, é nossa. O outro, seja quem for, pode até nos imputar o título de causadores da tragédia, o que nos toca, profundamente, quando somos exageradamente autocríticos. Mas não podemos concluir que somos os piores dos piores, só por que alguém resolve acabar com a nossa ‘raça’. Às vezes, nem existe culpa, ou culpado(s). O que sempre existe é escolha – e consequência, claro.
Certamente, nem toda atitude egoísta pressupõe (mais) um caso de psicopatia. Fique tranquilo, se, na maior parte de sua vida, você prioriza você mesmo, por motivos de medo, insegurança, autoproteção, ou seja lá qual for a justificativa que você usa para si mesmo. O psicopata, pelo que já li, não quer nem saber o que pode existir além do próprio umbigo, e, por isso mesmo, não pensa no outro. Sempre repito que não há como colocar-se no lugar do outro, que está completamente ocupado (pelo outro, obviamente). Mas sempre há um jeito de, através de nossas semelhanças humanas, sabermos o que faz bem, o que faz mal, perto de nós, ou na Ilha de Java, ou no Azerbaijão – desde a mais tenra idade, começamos a compreender isso.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva é, a meu ver, quem mais esclarece sobre psicopatia. Ela é autora de diversos livros, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores sobre manifestações humanas distorcidas e doentias. Um desses livros chama-se “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado”. Lembrando que o indivíduo carrega, na própria genética, as características de psicopatia, Ana Beatriz esclarece que “a índole da pessoa já vem, geneticamente, com essa tendência à perversidade”. No livro, ela cita casos, onde crianças não manifestam compaixão, quando maltratam animais, fazem brincadeiras perversas com coleguinhas, e sentem prazer de ver o outro cair, se machucar, etc. A psiquiatra alerta que, somente na infância, há condições de minimizar os efeitos da psicopatia, impondo limites.
Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva explica, ainda, que, quando se torna adulto, “todo psicopata é megalomaníaco, gosta de exibir a sua esperteza, e está sempre se vitimizando, contando histórias tristes, e se dizendo vítima da sociedade”. Outra característica dos psicopatas, conforme a psiquiatra, é que “são sempre pessoas simpáticas, gentis, educadas, até você estar fazendo tudo o que elas querem. No momento em que você começa a deixar claro que está percebendo o jogo dele, o psicopata pode até se tornar violento. Então, psicopatas são pessoas que mudam o comportamento, conforme são revelados. Uma outra característica fundamental é a ausência de culpa. Essas pessoas nunca se arrependem do que fazem”. Nem todos os psicopatas são violentos; nem todos os violentos são psicopatas. A psicopatia perpassa pelos níveis leve, moderado e grave.
A psiquiatra destaca, ainda, que “a internet abriu um grande campo, para que a psicopatia pudesse se proliferar. Eu costumo dizer que existe um porão de psicopatas atuando na internet, hoje, existe mesmo, existem comunidades que você não acredita, na internet. E isso se fez muito, por que eles se valiam do anonimato. Um psicopata, no anonimato, pode ser quem ele quer, quem o outro quer que ele seja, e ele – o psicopata – sabe fazer isso, melhor do que ninguém, por que é o verdadeiro grande artista da vida, por que ele se transforma naquilo que as pessoas querem. Você ser camaleão (termo dado ao psicopata, na Espanha), num universo sem leis, sem regras, onde o que vale é o que você diz, onde você pode forjar e fingir, a internet é um prato cheio”.
Ana Beatriz aconselha a gente a não dar tempo de detectar o grau de psicopatia, e manter distância: “Nunca ache que você vai mudar um psicopata. Nunca menospreze o poder de sedução de um psicopata: ele vai te seduzir. A melhor coisa é se afastar”. Explica a psiquiatra: “Os psicopatas nascem com um cérebro diferente. Os seres humanos têm o chamado sistema límbico, a estrutura cerebral responsável por nossas emoções. É uma espécie de central emocional, o coração da mente. Nos psicopatas, o sistema límbico não funciona”. Ana Beatriz chama a nossa atenção: “Há algumas características básicas, entre os psicopatas: falam muito de si mesmos, mentem, e não se constrangem quando descobertos, têm postura arrogante e intimidadora, por um lado, mas são charmosos e sedutores, por outro. Costumam contar histórias tristes, em que são heróis e generosos”.
Essa psicopatia sem dó deve nos fazer pensar, e repensar, não só sobre os relacionamentos que mantemos, mas as nossas próprias atitudes. Afinal, somos todos humanos. Por isso, já que (ainda) não nascemos com dispositivo detector de psicopatia, fiquemos atentos às lábias sedutoras, egoísticas e egóicas. Depois da disparada fuga emergencial, podemos até pensar em participar da Corrida Internacional de São Silvestre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sua história de vida daria um livro

Não conheço você (não conheço nem a mim mesma), mas sei, antes de tudo e de mais nada, que a sua história de vida daria um livro. Ou mais que um livro – uma biblioteca, talvez. Por que sei isso? Por que toda vida humana é única, e - por isso e apesar de - especial. Milhões de pessoas podem ser atingidas pelo mesmo tsunami, mas nem duas terão e guardarão a mesma visão da catástrofe. Cada qual lembrará um tsunami único, que modificará, ou não, a vida que será vivida, a partir de.
Não me refiro, aqui, a genoma. Vou além, ou aquém, disso. Existem peculiaridades, em cada personalidade, que surpreendem até a genética. Como escreveu Sartre, eu sou o resultado do que escolhi fazer com o que sabia ser de mim. Por isso, o tataravô do meu bisavô, e os demais familiares, pouco têm a ver com o que me torno, a cada dia, por escolha minha.
Também, discordo de quem diz que cada dia de vida é uma página em branco, à espera do que desejamos escrever. Na minha visão estrábica, não há como você apagar quem já foi, o que fez, vida bem, ou mal, escrita, simplesmente virando a página. A gente é quem é, sempre a partir do que foi, e escolheu ser. Mesmo que houvesse essa virada (radical) de página, a história de vida jamais seria mesmo um recomeço, pois que somos resultado do que fizemos com o que já fomos. Tem gente que escolhe ser melhor do que já foi, e outros, piores. É escolha de vida, independe de condição social, ou de qualquer outra imagem que se queira manter.
À revelia das postagens nas redes sociais, existe uma história de vida (única) que daria um livro, sem plágio. Depois (quem sabe?), algum cineasta, tomando conhecimento do livro, ousasse fazer um filme, que levaria milhões às salas de cinema, e, aí, sim, causasse comentários nas redes sociais. Não há novidade nisso, pois muitos fizeram, fazem e farão o mesmo, com sucesso garantido. Às vezes, o livro e o filme são tão realistas, que poucos acreditam tratar-se de biografia mesmo. Talvez, a vida real seja insuportavelmente nua, enquanto a imagem dela exiba as cores e flores da moda. E ainda há a singularidade de cada olhar. Por isso, o melhor mesmo é a autobiografia – como o próprio protagonista se vê, já que a mãe dele enxerga-o diferente.
Por mais que alguém tente igualar-se àqueles que considera semelhantes, ainda assim, prevalecerão singularidades. O olhar de cada um é sempre diferente do outro, que processa o que enxerga, a partir das vivências (íntimas) que já teve. Não há como igualar, ou igualar-se. No máximo, nos assemelhamos, por gostos, ou desgostos, características de caráter, personalidade, etc. Nada além disso. Mas, mesmo assim, continuamos sendo diferentes dos demais.
Se não somos iguais, podemos até seguir a moda, vestir o uniforme da maioria, seguir a boiada que nada questiona, mas a nossa história de vida continuará sendo única. Por outro lado, podemos economizar energias, já que não precisamos nos esforçar para sermos diferentes. Como também não poderia ser diferente, teremos, cada um, a morte única, especial. Jamais existiu, ou existirá, alguém igualzinho a cada um de nós. E cada livro, dessa biblioteca infindável chamada vida, será único. A história que cada um conta, de um jeito, ou de outro, e deixa (bem ou mal) registrada, depende de cada escolha que faz, por toda a vida, que ninguém sabe quando acaba, se acaba mesmo.
Em tempo: São essas histórias de vida que eu tento traduzir à minha compreensão, a cada instante em que escrevo a história da minha própria vida – também única, especial. Sem qualquer ironia.